18 de dezembro de 2016

Capítulo 26

Selethen olhou rapidamente para cima com as palavras de Halt, uma carranca enrugando sua testa.
— Quem os pagaria para fazer uma coisa dessas? — ele perguntou. — E por que eles fariam isso?
Halt encontrou seu olhar uniformemente. Ele sabia que o arridi estava irritado e emocionado com a morte de tantos dos seus homens e sentiu que seus sentimentos estavam alimentados por um ódio de longa data da tribo tualaghi. A situação era perigosa e ele teria de escolher suas palavras cuidadosamente. Quanto mais ele soubesse sobre o que havia acontecido aqui, ele raciocinou, melhor poderia convencer Selethen do que estava prestes a dizer. Ele se virou e falou baixinho para Gilan.
— Dê uma olhada. Veja se você pode descobrir o que aconteceu.
O arqueiro jovem assentiu com a cabeça e afastou-se. Só então Halt se voltou a questão de Selethen.
— Eu diria que quem traiu Erak em primeiro lugar, está por trás disso — respondeu ele.
— Esse seria Toshak — Svengal tinha falado despercebido.
Ele estava procurando no cenário o corpo do oberjarl e chegou à mesma conclusão que Halt.
— Seria exatamente o tipo de coisa que ele faria.
Selethen olhou de Halt para Svengal, em seguida para Halt novamente. Agora havia outra emoção mostrando em seu rosto – suspeita.
— Quem é este Toshak? — ele desafiou. — Eu nunca ouvi o nome. E por que ele iria pagar para ter seu oberjarl raptado?
— Pela mesma razão por ele ter traído Erak com você em primeiro lugar. Ele o quer fora do caminho — disse Halt.
Ele viu que Selethen estava prestes a fazer outra pergunta, mas ele continuou, falando sobre o outro homem.
— É política — disse ele. — Política escandinava. Há um pequeno grupo de escandinavos que se ressentem de Erak e gostariam de vê-lo deposto.
Ele viu um primeiro vislumbre de compreensão na face do arridi. Arrida era repleto de intrigas políticas e Selethen aceitou isso como uma explicação plausível. Mas ele não estava totalmente convencido.
— Eu repito. Eu nunca ouvi falar dessa pessoa Toshak. Eu tomo que ele seja um escandinavo, como você? — Ele abordou a última questão a Svengal, cujo rosto estava escurecido em uma carranca.
— Ele é um escandinavo. Mas não é nada como eu.
Selethen assentiu, aceitando a distinção. A raiva de Svengal, correspondente a sua própria, era possivelmente o aspecto mais convincente do argumento de Halt. Mas Selethen tinha visto uma falha.
— Se este Toshak quer o seu líder para fora do caminho, por que se preocupar em tê-lo capturado e sequestrado? Por que não simplesmente matá-lo com o resto das pessoas?
Mas Halt já estava balançando a cabeça antes de Selethen terminasse a expressar a questão, como se tinha previsto.
— Ele precisa de tempo — respondeu imediatamente. — Eu disse que seu grupo é pequeno. A maioria dos escandinavos está satisfeita com Erak como oberjarl. Então Toshak e seus amigos precisam de tempo para construir o ressentimento e a incerteza. Um oberjarl morto não serviria aos seus propósitos. Os outros escandinavos simplesmente elegeriam logo um novo, provavelmente um dos amigos de Erak. Talvez até Svengal aqui.
— Que os deuses proíbam isso — Svengal disse fervorosamente.
Halt se permitiu um sorriso ao grande escandinavo.
— Mas se Erak está perdido, prisioneiro em algum lugar, e isso pode ser reivindicado a ser o resultado de sua própria incompetência, em seguida Toshak e seu grupo podem iniciar uma campanha sussurrando para levar as pessoas a duvidarem de sua capacidade e sua aptidão para ser líder. Sobretudo se, ao mesmo tempo, seus captores exigirem um grande resgate dos escandinavos. Escandinavos não gostam desse tipo de coisa.
— Na verdade não mesmo — Svengal concordou. — É por isso que o chefe me disse para ir para Araluen para buscar ajuda em primeiro lugar.
Selethen olhou ao redor do grupo e assentiu. Ele ainda não estava convencido. Mas tinha se perguntado por que Svengal havia retornado com um grupo de estrangeiros para pagar o resgate. Até agora, a única razão pela qual ele tinha sido dada era que Erak era um amigo do araluenses. Agora, podia ver uma explicação mais plausível para o seu envolvimento. Uma solução rápida para o problema seria agir em favor de Erak. Quanto mais a situação fosse arrastada, mais oportunidade haveria para os seus inimigos semearem a discórdia entre seus compatriotas.
— Dado o tempo suficiente, os dissidentes poderiam criar as condições adequadas para apresentar seu próprio candidato como oberjarl – provavelmente o próprio Toshak — Halt disse.
Desta vez, o único comentário de Svengal foi um rosnado baixo de raiva com a ideia.
Selethen andou frente e para trás, alisando a barba com uma mão, considerando os argumentos de Halt. De repente, ele parou e voltou a interromper novamente.
— É possível, eu suponho...
A palavra “mas” ficou pendurada, sem ser dita, no ar pelo tom de sua voz. Halt esperou, determinou que ele não seria quem levantaria a dúvida óbvia. Como Selethen, ele poderia ver outra possível explicação para a carnificina ao redor deles. Mas antes que ele levantasse, Selethen teve outra questão.
— Você diz que seu compatriota Toshak está por trás disso. Que ele traiu o seu líder, em primeiro lugar? — ele questionou Svengal.
O lobo do mar assentiu e continuou Selethen.
— Mas eu nunca ouvi falar dele. Nosso informante era um pescador de uma pequena aldeia da costa. Mais um contrabandista do que um pescador, como uma questão de fato — acrescentou. — Ele era acostumado a mover-se despercebido pelas águas em torno de nossa costa. Ele viu o seu navio e trouxe a palavra para nós.
Svengal não disse nada. Mas mais uma vez Halt tinha uma resposta pronta.
— Você quase não negocia com um escandinavo. Se Toshak havia tentado se aproximar de você, ele não teria uma palavra antes que a primeira saraivada de flechas estivesse a caminho. É claro que ele precisava de um intermediário. E teria sido relativamente fácil para ele fazer contato com um contrabandista. As possibilidades são de que seu informante era também a pessoa que vendeu o calendário falso a Erak para as transferências de dinheiro.
— Sim, isso é razoável, eu acho. — Apesar de suas palavras, todos podiam ouvir o tom de dúvida na voz do Selethen. — Mas eu continuo voltando para outra possível explicação para tudo isso.
Ele acenou com o braço desagrado ao redor da cena de morte e destruição. Halt esperou impassível. Faça-o dizer isso, pensou ele. Não diga para ele ou você vai dar-lhe credibilidade.
— Eu concordo com você, isso poderia ser o trabalho de escandinavos... ou tualaghi com pagamento de escandinavos. Mas existe outra possível razão pelo corpo de Erak não estar aqui. Este era um grupo de resgate. Aqueles que mataram os meus homens fizeram-no para deixar Erak livre. Mesmo agora, ele podia estar indo para o litoral em outro navio.
— Você acha que nós voluntariamente nos colocamos em suas mãos se tivéssemos planejado isso? — Halt perguntou.
— Eu acho que é exatamente o tipo de blefe duplo que você pode considerar — Selethen disse a ele. — Você negocia comigo enquanto organiza outro grupo de escandinavos para resgatar seu amigo. Se for bem sucedido, economiza sessenta e seis mil moedas de prata. Se não, pode continuar como antes, e negar todo o conhecimento da tentativa de resgate.
Halt não disse nada por alguns segundos. Como ele tinha realizado anteriormente, a política e a conspiração eram uma parte muito importante da vida em Arrida. E isso era exatamente o tipo de raciocínio complicado que parecia lógico a Selethen. Ele sabia que suas palavras iriam ser vitais para o sucesso da sua missão. Enquanto reunia seus pensamentos, tentando reunir o melhor argumento possível para restaurar a confiança Selethen, Halt andou para frente. Conforme Halt, Selethen e Svengal tinham conversado, Horace e Evanlyn tinham se aproximado para escutar. Agora, o jovem guerreiro, pensou que era hora dele falar.
— Uma pergunta — disse ele.
Todos os olhos se viraram para ele. Halt levantou a mão para impedi-lo de ir mais longe. As sutilezas da negociação, o corte fino e complexo de argumento confiável não era o forte do jovem. Horace era uma pessoa simples, com uma abordagem direta para qualquer problema que enfrentasse.
— Horace — Halt disse, num tom de advertência em sua voz — esse pode não ser o melhor momento...
Mas Horace estava segurando sua própria mão para silenciar Halt. Seu rosto estava determinado e fixado em um franzido apertado. Halt sabia que ele estava irritado com a sugestão de que eles tinham praticado o ato sujo que Selethen havia descrito. Ele não precisava do sentimento de dignidade ferido de Horace aqui. Mas o jovem estava arando a frente, independentemente.
— Uma pergunta para o wakir — disse ele.
Evanlyn, ao lado dele, espelhando a expressão preocupada de Halt. Horace poderia estar prestes a colocar mais lenha na fogueira, pensou. Mas Selethen fez um gesto para Horace continuar e já era tarde demais.
— A sua pergunta é...? — ele disse suavemente.
— Como saberíamos? — Horace perguntou.
Seu tom era brusco e desafiador. Selethen franziu a testa, sem entender de imediato.
— Como você saberia... o quê? — ele perguntou.
O rosto de Horace estava corado agora, em parte, com indignação, mas também porque percebeu que era o centro das atenções. Nunca gostou disso. Mas ele sentia que o seu ponto era válido e merecia ser dito.
— Como saberíamos que Erak estaria com este grupo.
Por um momento, ninguém entendeu. Selethen expressou um gesto pouco confuso com as duas mãos.
— Eu disse a você — ele começou
Parado atrás e observando, Halt sentiu uma imensa onda de afeição ao guerreiro. Às vezes, pensava ele, a abordagem direta poderia ser muito mais eficaz do que uma tese muito envolvida.
Horace assentiu.
— Você nos disse na noite anterior de sairmos de Al Shabah. Nos disse quando as negociações estavam completas. Não antes disso. Até então, acreditávamos que Erak estava aprisionado em Al Shabah. Assim, nas oito horas seguintes, como é que nós organizamos para esse outro grupo de escandinavos irem para o deserto, encontrarem os tualaghi, e suborná-los para interceptar uma caravana que tínhamos acabado de ouvir falar?
— Bem... você poderia ter... — Selethen hesitou e Horace pressionou em vantagem.
— E você sabe que nenhum de nós deixou a pousada na última noite. Então, como fizemos? Quer dizer, Halt é bom com essas coisas, mas isso está fora até mesmo suas habilidades.
Halt pensou que era hora de ele interceder. Horace tinha feito o seu ponto e foi um ponto revelador. Agora era o momento de interromper, antes que Horace se enrolasse.
— Ele está certo, Selethen e, no fundo, você sabe disso — disse Halt.
A atenção do Wakir mudou para Halt e ele soube que era hora de resolver isso, uma vez por todas. Ele sabia que era hora de forçar Selethen a comprometer-se com eles ou a tomar uma posição contra eles. Muito deliberadamente, falou:
— Diga-me, Selethen, deixando de lado o fato de que não poderíamos ter organizado isso no tempo que tínhamos, você honestamente acredita que somos capazes desse tipo de duplicidade?
Selethen ia falar, mas hesitou. Olhou para o pequeno grupo de estrangeiros. O guerreiro Horace e o invasor Svengal eram homens guerreiros. Não havia culpa ou engano, em nenhum deles. Eles seriam perigosos inimigos para enfrentar no campo de batalha, ele sabia. Mas iriam lutar de forma honesta e corajosamente.
Depois houve a princesa. Durante as negociações, ela mostrou sua coragem e franqueza também. Na verdade, pensou com tristeza, se tivesse havido qualquer negociação falsa em tudo, tinha vindo dele. Primeiro por ter seu servo a imitá-lo e em segundo lugar, o fato de Horace tinha acabado de apontar – dele não lhes dizer que Erak já havia deixado Al Shabah.
Isso deixava o que chamavam de Halt. Inequivocamente, ele era o líder do grupo, apesar da posição da moça. Sem dúvida, ele era um pensador e um planejador. No entanto, Selethen sentiu um núcleo de decência e honestidade no homem. Instintivamente, ele se viu atraído pelo pequeno arqueiro de cabelos grisalhos.
Era óbvio que os outros respeitavam e confiavam nele. E, talvez mais importante, gostavam dele. Horace e Svengal podem ser simples e descomplicados, mas não eram bobos. Horace tinha acabado de provar isso.
Selethen mordeu os lábios, pensativo, considerando a pergunta de Halt. Então, ele respondeu.
— Não. Eu não acho isso.
Halt foi tentado a deixar um enorme suspiro de alívio. Mas ele sabia que seria um erro. Em vez disso, simplesmente assentiu com a cabeça uma vez, como se tivesse nenhuma dúvida quanto à resposta que Selethen daria.
— Então vamos prosseguir — disse ele vivamente. — O que pretendemos fazer sobre tudo isso?
— Vou mandar um grupo atrás deles assim que chegarmos a Mararoc — Selethen esclareceu. — Por pior que seja o resultado.
A experiência lhe ensinara como os tualaghi operavam. Eles atacavam uma caravana, então simplesmente desapareciam no deserto. Os arridi eram essencialmente moradores da cidade, sem as habilidades de monitoramento e navegação de deserto para acompanhar os atacantes. Os tualaghi conheciam esses terrenos desérticos com a palma das suas mãos e sabiam como desaparecer. Ah, Selethen iria enviar um grupo em perseguição. Mas seria apenas um gesto. Depois de dois ou três dias, eles perderiam o controle do grupo de guerra tualaghi e voltariam exaustos, empoeirados e frustrados.
Tinha sido sempre isso, ele pensou. Se ele tivesse alguns dos bedullin com ele, teriam uma chance. Os bedullin eram caçadores e rastreadores e conheciam o deserto tão bem como os tualaghi, seus inimigos jurados. Foi assim que ele havia derrotado os tualaghi alguns anos antes, formando uma aliança temporária com os bedullin. Mas eles eram orgulhosos, independente das pessoas e não iriam ficar presos aos arridi uma vez que o tualaghi tivessem sido trazidos para a batalha e derrotados.
— Por que não ir atrás deles agora? — Halt disse.
Selethen sorriu com a ingenuidade do homem.
— Porque eles vão desaparecer no deserto. Isso é o que eles fazem.
— Então nós vamos segui-los. Isso é o que fazemos — disse outra voz.
Era Gilan. Ele havia retornado a partir de levantamento da cena da batalha de um lado a tempo de ouvir as últimas palavras de Selethen.
Halt virou-se para ele.
— Encontrou alguma coisa?
Gilan franziu os lábios, em seguida, apontou para cada local que ele mencionava.
— Eles estavam escondidos atrás das rochas ao leste — disse ele. — Talvez oitenta ou noventa deles. A maioria deles em cavalos, mas alguns montados em camelos. Eles tinham um grupo desviado para o norte... talvez dez cavaleiros. Eles surgiram, fingiram um ataque, em seguida, viraram-se e correram. Quando a escolta rompeu e saiu atrás deles, o grupo principal atacou por trás.
Selethen olhou para o jovem arqueiro com novo respeito.
— Você pode dizer isso tudo só de olhar para o chão?
Gilan sorriu para ele.
— Como eu disse, é o que fazemos — ele respondeu. — Então o que você diria? Vamos atrás deles ou voltaremos para Al Shabah?
Seu tom era intencionalmente provocativo. Ele percebeu que o wakir estava procurando um motivo para ir em busca dos tualaghi para ensiná-los de uma vez por todas quem governava este país.
E ele estava certo. A mente Selethen corria. Esta poderia ser apenas a chance que ele tinha procurado.
— Nós estaremos em menor número — disse ele, pensativo.
— Mas vamos ter o elemento surpresa do nosso lado — rebateu Halt. — Você normalmente não iria atrás deles, iria?
Selethen considerou. Oitenta tualaghi, o arqueiro jovem havia dito. E ele tinha cinquenta bem treinados, e bem armados veteranos sob o seu comando. Bem como os araluenses. Horace e Svengal dariam conta de si, ele sabia. Na verdade, quanto mais pensava sobre isso, quanto mais pensava que ele iria gostar de ver Svengal esculpir o seu caminho através de um grupo de guerra tualaghi com machado de batalha que ele carregava. E ambos os arqueiros tinham arcos longos enormes nos ombros. Ele estava disposto a apostar que eles não estavam lá apenas para decoração.
Ele tinha a nítida sensação de que aqueles dois homens de capa poderiam fazer muito dano. Mas havia um problema. Ele não podia se dar ao luxo de enfraquecer suas forças ainda mais. Tinha necessidade de cada homem que ele pudesse encontrar.
— E a menina? — disse ele.
Se ela fosse para voltar a Al Shabah, teria de pôr homens para acompanhá-la. Isso enfraqueceria ainda mais a sua força.
— Ela irá com você — Evanlyn disse em uma voz calma.
Selethen olhou para Halt, suas sobrancelhas levantadas em uma pergunta. Halt sorriu sombriamente. Ele tinha visto a coragem de Evanlyn na batalha antes. E sabia que ela era capaz de cuidar de si mesma com o sabre que ela tinha em seu cinto. Na viagem de Araluen, ela praticou com Horace e Gilan, ambos mestres da espada. Ela aguentaria. Ela não seria uma especialista, é claro, mas era capaz. Evanlyn não seria um fardo, ele sabia. Ela poderia muito bem provar ser uma vantagem.
— Ela virá com a gente — disse ele.

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