29 de dezembro de 2016

Capítulo 25

— Halt! — Will gritou angustiado enquanto ele forçava Puxão a um galope completo.
Chegando até a figura parada no longo gramado, se jogou da cela e ajoelhou-se ao lado dele. Abelard se movia nervosamente ao lado de seu mestre com cabeça baixa tentando empurrá-lo com seu focinho, procurando por sinal de vida. O pequeno cavalo relinchava constantemente, mais havia um tom de ansiedade no som – um tom que Will nunca escutou antes.
― Calma, Abelard — falou calmamente.
Ele sinalizou com as costas da mão para o cavalo se afastar.
― Afaste-se, garoto.
O cavalo não estava fazendo nenhum bem a Halt se movendo e empurrando, só iria atrapalhar. Relutante, Abelard afastou-se poucos passos. Normalmente ele só responderia a Halt, mas ele era inteligente o suficiente para reconhecer que seu mestre estava incapacitado e que Will era o próximo na linha de comando. Tranquilizado pelo tom calmo na voz de Will, ele parou de fazer os pequenos barulhos e ficou parado. Manteve levantado suas orelhas e os seus olhos em Halt.
Halt estava com a face para baixo e Will o virou gentilmente e retirou o capuz de sua rosto. Seus olhos estavam fechados e sua face estava mortalmente pálida. Ele não parecia estar respirando e Will sentiu uma repentina onda de terror passar por ele.
Halt estava morto? Não podia ser! Era impossível. Ele não poderia imaginar um mundo sem Halt.
Então a figura parada estremeceu e recomeçou a respirar e Will sentiu um grande alívio passar por ele. Horace chegou, descendo da sela e ajoelhando se no outro lado do arqueiro caído. A preocupação era óbvia em sua face.
― Ele está... — começou.
Will balançou a cabeça.
― Ele está vivo, porém inconsciente.
Halt deixou entrar outra respirada estremecida que parecia mexer seu corpo todo. Então sua respiração acalmou um pouco. Mas ele estava respirando forçadamente, e só algumas breves respiradas. Então é por isso, Will percebeu, ele estava respirando daquele jeito estranho que o estremecia, porque ele precisava de oxigênio extra nos seus pulmões. Will rapidamente retirou sua capa e a dobrou para formar uma pequena almofada.
― Levante a cabeça dele — falou para Horace.
O guerreiro gentilmente levantou a cabeça de Halt e Will colocou a capa dobrada embaixo. Horace abaixou a cabeça na capa. Ele estudou a figura parada do arqueiro, com seu senso de inutilidade a mostra em sua face.
― Will — ele disse ― o que faremos? O que aconteceu com ele?
Will balançou a cabeça, então inclinou se para frente e gentilmente levantou uma das pálpebras de Halt. Não houve nenhuma reação do inconsciente arqueiro. Mas Will notou que sua pupila estava dilatada mesmo o dia ainda estando relativamente claro. Ele sabia que era uma reação automática a pupila se retrair um pouco quando exposta a uma luz inesperada. Aparentemente, o sistema de Halt não estava reagindo aos estímulos comuns.
― E então? — Horace perguntou.
Ele esperava que Will já tivesse alguma ideia sobre qual seria o problema. De novo Will balançou a cabeça.
― Eu não sei.
Ele deixou o olho se fechar de novo. Colocou um dedo na garganta de Halt, sentindo o pulso na grande artéria. Estava oscilante e irregular, mas pelo menos ainda estava ali. Sentou-se e começou a pensar sobre a situação. Todos os arqueiros eram treinados para administrar um tratamento médico básico, no caso de um colega estar ferido. Mas isso estava além de bandagem e costura. Não era um ferimento que ele poderia isolar e...
Um ferimento! No momento que ele pensou ele se lembrou que Halt estava constantemente tocando e coçando seu ferimento no antebraço. Ele afastou a manga de Halt até a linha que ele havia costurado noite passada e rasgou a costura, deixando a manga cair do braço de Halt.
A atadura ainda estava no lugar. Uma pequena mancha mostrava onde o sangue saia antes do sangramento parar. Ele se inclinou para frente e cheirou o ferimento, recolhendo-se rapidamente com uma exclamação de nojo.
― O que foi? — Horace perguntou rapidamente.
― Seu braço. Está cheirando a podre. Acho que é aqui que o problema está.
Ele se repreendeu mentalmente. Devia ter pensado nisso antes. Então deixou o momento de crítica passar. A ferida parecia comum. Não teria motivos para suspeitar de uma ligação com o comportamento de Halt. Sacou sua faca e espetou a ponta afiada no final da atadura. Abelard gemeu um aviso.
― Está tudo bem, Abelard — ele disse, sem tirar os olhos da tarefa. ― Calma, garoto, calma.
Puxão moveu-se para perto do seu companheiro oferecendo conforto e suporte para Abelard. Ele relinchou gentilmente como se estivesse afirmando a Abelard que Will tinha a situação sobre controle.
Will queria ter a mesma confiança em si mesmo. Ele cortou o curativo e levantou-o para longe do braço de Halt. O curativo saiu facilmente, contudo parecia ter colado onde estava o corte. Isso o deixou curioso. Ele não achou que teria sangue o suficiente para o ferimento secar deixando o curativo preso assim. Estava relutante em simplesmente rasgar o curativo dali. Ele não saberia quanto mais dano aquilo poderia causar. Levantou uma mão para Horace.
― Pegue um cantil para mim — pediu e o alto jovem correu para pegar o cantil que estava amarrado à sela de Kicker.
Abelard estava mais próximo, mas em seu estado de nervosismo Horace não tinha certeza de como ele reagiria se ele chegasse perto. Ele deu o cantil para Will, que começou a derramar água cuidadosamente no curativo, fazendo-o ficar encharcado para descolar de qualquer que seja o que estava colando o curativo ali.
Depois de mais ou menos um minuto, ele começou a puxar gentilmente a ponta e sentiu que estava descolando. Halt se moveu, resmungando quieto. Abelard reclamou.
― Calma — Will disse gentilmente ― Calma aí.
Ele não tinha certeza se as palavras eram para Abelard ou Halt. Decidiu que estava falando com os dois. Horace ficou de joelhos de novo com os olhos abertos e fascinados enquanto assistia seu amigo trabalhar no curativo que estava preso.
Levou vários minutos encharcando e enxugando e gentilmente retirando o tecido, mas eventualmente eles descobriram a ferida e puderam ver o problema que estavam enfrentando.
― Oh meu deus! — Horace disse.
O terror em sua voz era óbvio. Will fez um som estranho sair de sua garganta e por um momento virou os olhos para longe da terrível visão do antebraço de Halt.
O corte em si, que ele esperava que já estivesse seco e fechado ainda estava sangrando. A carne em torno estava revestida com uma massa de pus sem cor. O cheiro de podre que Will notou antes agora estava evidente. Os dois jovens instintivamente recolheram-se.
Mas talvez o pior de tudo fosse a pele em volta do resto do braço. Estava inchada, com quase o dobro do tamanho normal. Isso explicava Halt coçando e tocando seu braço o dia inteiro, Will pensou. Todo o antebraço inchado estava sem cor. Um amarelo doentio estava ao redor do machucado que ia criando um tom azul-preto com partes de vermelho vivo. Ele tocou o antebraço de Halt gentilmente com um dedo. A pele estava quente ao toque.
― Como isso aconteceu? Você limpou e enfaixou a ferida quase imediatamente! — Horace disse chocado, em voz baixa.
Ele e Will já tinham visto várias batalhas e ferimentos nos últimos anos. Mas nunca algo parecido com isso. Nenhum deles nunca vira uma infecção nesse nível. Ainda mais em uma ferida limpa e tratada em tão pouco tempo.
A face de Will estava severa enquanto ele examinava o machucado. Halt se movia constantemente, gemendo e tentando tocar na ferida. Will o parou gentilmente, forçando seu braço livre para baixo.
― Devia ter alguma coisa na ponta daquela flecha — ele disse finalmente, então Horace olhou para ele não compreendendo.
― Alguma coisa?
― Veneno — Will disse brevemente.
Ele sentiu a falta de esperança e incerteza crescer dentro de si de novo. Ele não tinha menor ideia do que deveria fazer agora. Nenhuma ideia de como tratar esse terrível ferimento. Nenhuma ideia de como contra-atacar o veneno – ele tinha certeza de que era veneno.
Ele sentiu a falta de esperança sendo submersa pela onda de pânico. Halt poderia perder seu braço ou pior, poderia morrer aqui, a milhas de qualquer lugar. E tudo porque Will, seu confiante protegido, o famoso Will Tratado, renomado entre o reino de Araluen pelo seu pensamento rápido e decisivo, não tinha a menor ideia do que fazer. Ele tocou de novo o ferimento no braço e percebeu que sua mão estava tremendo. Tremendo de medo, pânico e o sentimento de ser inútil.
Ele tinha que fazer alguma coisa. Tentar alguma coisa. Mas o quê? De novo, ele se viu encurralado pela resposta inevitável. Ele não sabia o que fazer. Halt podia estar morrendo e ele não sabia como ajudá-lo.
― Você tem alguma ideia do que é isso? Quer dizer, o veneno? — perguntou Horace.
Seu olhar horrorizado fixo no braço de Halt. Horace era um guerreiro que enfrentava seu inimigo em um combate justo. Qualquer pensamento sobre veneno era um enigma para ele.
― Não! Eu não tenho a menor ideia do que é isso! — Will gritou com ele. ― O que eu sei sobre venenos? Eu sou um arqueiro, não um curandeiro!
O pânico estava ameaçando tomar conta dele agora e seus olhos estavam cheio de lágrimas. Ele foi à direção de Halt de novo, pausou incerto, então afastou sua mão. Qual era o sentido de tocar nele? Ou gritar e chorar nele? Ele precisava de cuidado e um tratamento profissional.
Talvez incomodado com o som da voz de Will, Halt tossiu e murmurou algo incompreensível.
― Talvez devêssemos limpar o ferimento? — Horace disse.
Parecia lógico que Halt poderia se sentir melhor sem todo aquele líquido nojento em seu braço. E água limpa poderia ajudar o inchaço na sua pele descolorida.
Com um gigantesco esforço, Will tomou controle dele mesmo. Horace como sempre, foi direto ao coração da questão. Quando o todo resto falhar, volte aos princípios básicos. O tratamento básico para um ferimento era limpá-lo. Para remover o máximo de sujeira e veneno possível. Isso ele poderia fazer por Halt.
Agora que tinha um caminho para seguir e agir, ele sentiu o pânico retrocedendo. Ele olhou para sua mão e viu que tinha parado de tremer.
― Obrigado Horace, boa ideia.
Ele olhou para cima e deu um sorriso triste para seu amigo.
― Você poderia começar uma fogueira? Eu vou precisar de água fervente para esterilizar os panos e limpar seu braço.
Horace assentiu e ficou de pé.
― Vou montar acampamento — ele disse. ― Acho que vamos ficar por aqui por um tempo.
― Acho que sim.
Enquanto Horace se movia e começava a juntar pedras para a fogueira, Will notou outro par de olhos observando-o. Ele olhou para cima e lá estava Abelard, sua cabeça se movendo de lado a lado. Ele deixou sair um gemido quando Will olhou para ele.
― Não chore — Will disse a ele. ― Halt vai ficar bem.
Ele tentou botar o máximo de convicção possível nas palavras. Ele desejou acreditar em si mesmo.
Uma vez que o fogo estava alto e a água fervendo, Will começou a tarefa de limpeza. Ele encharcou as ataduras na água fervente e então, esperando esfriar um pouco, a usou para retirar o pus ao redor da ferida. Enquanto trabalhava, limpando o mais gentilmente possível, foi recompensado pelo sinal de sangue limpo e fresco saindo da ferida. Ele pensou que isso seria uma coisa boa. Se lembrou de ter escutado em algum lugar que sangue fresco limpava o ferimento. Pelo menos não apareceu mais pus.
Ele esfregou gentilmente a ferida com as ataduras limpas até que o sangramento parasse. Então aplicou um pouco da pomada contra dor que todos os arqueiros carregavam no seu kit de primeiros socorros. Era altamente efetiva, ele sabia, mas sempre se sentia pouco desconfortável a usando. Era derivada de uma droga – a “erva do calor” e o aroma trazia más recordações para ele.
Pelo menos agora que limpara o ferimento, o cheiro de putrefação e podridão havia desaparecido. “Isso deve ser um bom sinal também” ele pensou.
Ele decidiu não enfaixar a ferida novamente. As ataduras poderiam conter restos do veneno, ele pensou, em vez disso ensopou um pano na água fervente e esperou esfriar um pouco, colocou em cima do ferimento, cobrindo-o, se necessário ele prenderia o pano com uma pequena atadura.
Ele molhou mais pano em água fria e então a colocou em cima do braço de Halt que antes parecia estar muito quente.
― Isso é tudo que podemos fazer por enquanto — ele disse
― Você parece ter feito muito — Halt respondeu.
Sua voz estava fraca, mas seus olhos estavam abertos e a cor estava voltando a sua face. Quer fosse o efeito da limpeza, da erva ou apenas coincidência, ele recuperou a consciência.
Desta vez Will não pode parar as lágrimas que caíram de seus olhos e correram livremente entre suas bochechas.
Halt estava vivo e parecia estar melhorando.

7 comentários:

  1. Pensei que Halt iria morrer ou perder o braço :'(

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  2. Reparem na frase"parecia estar melhorando", ainda não senti firmeza...

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  3. Não estraga as coisas! Halt não pode. Nem deve. E ai do autor se mata-lo!
    Ass: Bina.

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  4. Tive um pequeno surto ao pensar que ele iria morrer.
    Ass: Lua

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Boa leitura :)