29 de dezembro de 2016

Capítulo 24

O dia começou normal o suficiente. Os três viajantes acordaram cedo. Ia ser um dia de longa viagem, então comeram um substancial café da manhã, arrumaram o campo e cavalgaram para o oeste pela grama ao redor da margem da floresta. Depois de muitos quilômetros, Halt descobriu uma apertada passagem entre as árvores, puxou Abelard para o sul e liderou o caminho adentro da floresta.
Will e Halt estavam acostumados com a sensação sepulcral do cinza e das formas sem vida ao seu redor. Horace, por outro lado, estava um pouco temeroso pela redondeza. Seus olhos iam de lado a lado tentando perfurar a paisagem de troncos mortos.
― Como vocês conseguiram ver alguém nessa confusão? — ele perguntou.
Os dois arqueiros sorriram para ele.
― Isso não foi fácil — Will disse.
A cor monótona das árvores tende a destruir qualquer senso de perspectiva, como ele notou um dia antes.
― Gilan fez muito bem em acertar a primeira — Halt disse distraidamente
Will olhou para ele com uma pequena careta.
― Gilan?
Halt olhou para ele curioso.
― O que tem ele? — ele perguntou, com a cara limpa.
― Você disse “Gilan fez muito bem em acertar a primeira” — Horace explicou.
Agora foi vez de Halt fazer careta.
― Não, eu não disse — ele falou. Então adicionou ― Eu disse?
A expressão nos rostos dos seus dois companheiros disse que sim. Ele balançou a cabeça e deu uma pequena risada.
― Eu queria dizer você, Will — ele disse ― Desculpe. Você sabe que estou sempre confundindo vocês dois.
― Não importa — disse Will.
Mas enquanto eles continuaram, ele sentiu uma pintada de preocupação na sua mente. Ele nunca viu Halt confundir ele com Gilan. Ele olhou de leve para Horace, mas o grande guerreiro estava satisfeito com a explicação.
Então ele deixou passar.
Houve poucas oportunidades para discutir isso enquanto eles atravessavam a floresta. Halt liderava uma fila única de 5 metros de intervalos entre eles, só para prevenir caso de o genovês vivo tenha descoberto o caminho que eles estavam pegando e tenha colocado outras armadilhas. Dessa vez, sentindo simpatia por Horace, Will assumiu a retaguarda, regulamente checando a trilha por trás deles por qualquer sinal de perseguição.
Todos os três deram sinais de satisfação quando finalmente saíram da floresta afogada. À frente deles estava um gramado, e assim que eles chegaram ao topo de uma pequena cordilheira no final da floresta, os troncos mortos de árvores estavam ao redor do rio atrás deles.
― Estou feliz em estar fora dessa floresta — disse Horace.
Halt sorriu para ele.
― Sim, não podia parar de pensar que aqueles malditos genoveses teriam algo pronto para nós.
De novo Will fez uma careta.
― Aqueles genoveses? Quantos você acha que eles são?
Halt olhou para ele em um momento de pequena confusão.
― Dois — ele respondeu. Então balançou a cabeça. ― Não, apenas um é claro. Você pegou o outro, não pegou?
― Nós dois o pegamos — Will relembrou e Halt olhou vazio por um momento, então assentiu, como se tivesse lembrado.
― Claro — ele parou, fez uma careta. ― Eu disse dois?
― Sim — disse Will.
Halt deu uma pequena risada e balançou a cabeça, como quem quer limpar a mente.
― Devo estar ficando muito distraído — disse alegremente.
Agora era vez de Will fazer careta, ele começou a sentir que alguma coisa estava muito errada. Halt normalmente não era tão afável. E ele definitivamente não estava distraído. Ele falou tentativamente agora, sem querer ofender seu professor.
― Halt? Tem certeza de que você está bem?
― Claro que estou — disse Halt com um traço de aspereza ― agora vamos achar aquela passagem.
Ele tocou Abelard com os calcanhares e saiu à frente, cortando a conversa. Enquanto ele cavalgava, Will notou que ele estava coçando seu braço ferido.
― Seu braço está bem? — Ele chamou.
Halt imediatamente parou de coçar.
― Está — ele respondeu rapidamente, num tom que quebrou qualquer chance de conversar sobre aquilo.
Atrás dele, cavalgando lado a lado, Will e Horace olharam confusos um para o outro. Então Horace deixou para lá. Não era a primeira vez que a maneira de Halt agir o deixava confuso. Ele estava acostumado com o imprevisível jeito do velho arqueiro. Will estava menos inclinado a esquecer a questão, mas hesitou em dizer algo para Horace sobre sua crescente preocupação – em parte porque não estava muito certo sobre o que estava preocupado.
Eles acharam a passagem, um lugar onde o rio alargava então a rápida água corrente desacelerava um pouco e se separava formando alguns pequenos bancos. Halt cavalgou a frente até Abelard estar com os cascos embaixo d‘água. Ele se inclinou para o lado e olhou para a água limpa atrás e a frente dele.
― Areia limpa no fundo pelo jeito — ele disse ― Parece estar firme o bastante.
Ele tocou Abelard para frente andando no centro do rio. A água crescia devagar até os joelhos do cavalo enquanto eles moviam a frente, então chegou à sua profundidade máxima.
― Venham — ele chamou Will e Horace e eles andaram pela água depois dele.
Quando chegaram ao mesmo nível que ele, eles diminuíram a velocidade e prosseguiram, checando o fundo com cuidado enquanto iam. Deixavam ir alguns metros à frente então seguiam, mantendo uma distância atrás dele em caso de um buraco inesperado. Mas não havia nenhum e o nível da água começou a cair de novo depois que passaram pelo meio. Alguns minutos depois eles passaram por um banco de areia grande.
― Ora, ora o que temos aqui? — Halt perguntou.
Ele estava apontando para o banco que emergia gentilmente acima da água. A terra estava lamacenta e foi pesadamente atravessada recentemente. Havia múltiplos sinais saindo do banco de areia.
Will desmontou e ajoelhou-se para estudar as pistas, e achou vários sinais similares entre eles, assim notando que a maioria do bando ainda estava a pé.
― São eles — disse Will, olhando para Halt.
O arqueiro de barba cinzenta assentiu e olhou para o horizonte.
― Ainda estão indo para o sul? — perguntou.
― Ainda estão indo para o sul — confirmou Will.
Halt trabalhou a informação por alguns segundos então afagou sua barba.
― Talvez devêssemos acampar aqui à noite.
Will olhou afiadamente para ele, não tendo certeza se escutara corretamente.
― Acampar? — ele disse, sua voz subindo de tom. ― Halt, é quase meio dia. Ainda temos horas de luz!
O arqueiro pareceu absorver a informação e assentiu.
― Certo. Vamos continuar então. Lidere o caminho.
Halt parecia vago, Will pensou enquanto subia na sela de Puxão. Ele assentia de tempos em tempos como se houvesse muita informação na mente. E enquanto assentia, ele sussurrava para si mesmo, num tom tão baixo que Will não compreendia as palavras. A pequena preocupação que Will sentia mais cedo era agora uma ampla faixa de preocupação. Com certeza havia algo de errado com seu mestre. Em todos esses anos que eles estiveram juntos, Will nunca havia visto ele tão... ele procurou a palavra certa e achou – desconectado do mundo a sua volta.
Eles atravessaram as árvores que percorriam o rio e agora estavam atravessando um terreno aberto – um amplo gramado com poucas árvores e arbustos. Eles saíram do clima grosseiro e áspero do país atrás deles e a terra agora era mais macia e gentil. À distância, Will podia ver uma linha escura que marcava o começo de um vale. Ele estimou que estivessem a pelo menos um dia de distância ou talvez mais.
O ar puro fazia distâncias parecerem enganosas.
― Parece que eles estão indo para as colinas — ele disse.
― Isso faz sentido — Halt respondeu ― o mapa diz que há cavernas para lá. E os forasteiros adoram se esconder em lugares escuros. Acho que iremos em formação de combate — ele adicionou.
Will olhou de leve para ele, mas a sugestão fazia sentido. O terreno aqui era aberto e o andar era fácil. Não havia motivos para andarem juntos numa trilha. Formação de combate significava que eles iriam cavalgar numa larga linha de frente, separados por trinta metros. Isso os tornava alvos difíceis e possibilitava que cada um pudesse cobrir e ajudar o outro companheiro se necessário.
Will foi com Puxão para esquerda enquanto Horace ia para direita. Halt ficou no meio e cavalgaram calmamente, numa estendida e longa linha por mais ou menos uma hora. Então Halt assobiou e pôs os punhos cerrados acima de sua cabeça, era o sinal para de campo para “juntem-se a mim”.
Curioso, porque ele não havia visto nada que indicasse uma razão para eles andarem juntos novamente, Will trotou Puxão através do longo gramado até onde Halt estava sentado em Abelard. Horace chegou alguns momentos depois e Will esperou Horace chegar antes de perguntar a Halt.
― O que foi?
Halt olhou para ele confuso.
― O que foi o quê?
Os sinais de alarme estavam ainda mais altos no cérebro de Will. Ele falou com paciência e calma.
― Halt, você nos colocou em formação de combate há uma hora ou mais e agora você nos chama. O que aconteceu para você mudar de ideia?
― Ah, isso! — Um olhar compreensão apareceu no rosto de Halt quando ele percebeu o porquê da pergunta de Will. ― Eu só achei que nós poderíamos cavalgar juntos por um tempo. Eu estava me sentindo um pouco... solitário, eu acho.
― Solitário? — Foi Horace que disse, sua voz em claro tom de descrença ― Halt, do que você está...?
Will fez um rápido gesto com a mão para Horace e o jovem guerreiro desistiu da pergunta. Will moveu Puxão para mais perto de Abelard e inclinou se para perto de Halt, olhando com cuidado sua face e seus olhos. Ele estava um pouco pálido, pensou. Ele não conseguia ver os olhos direito. A sombra do capuz da capa de Halt os cobria.
Abelard se movia nervosamente, dando pequenos passos. Ele soltou um ronco profundo do peito. Não era pela proximidade de Will e Puxão, o jovem arqueiro sabia. Abelard estava completamente acostumado com ambos. Então ele percebeu que o cavalo sentiu algo de errado com Halt e estava nervoso com isso.
― Halt olhe para mim, por favor. Deixe- me ver seus olhos — ele disse.
Halt olhou para ele e moveu Abelard alguns passos para longe.
― Meus olhos? Não há nada de errado com meus olhos! E não fique tão perto assim, você está incomodando Abelard!
Inconscientemente ele coçou seu braço ferido.
― Como está o braço? — Will perguntou, mantendo sua voz calma e despreocupada.
― Está bem — Halt gritou raivosamente para ele e de novo Abelard movia-se nervosamente.
― É que você está cutucando ele — Will disse num tom pacificador.
Mas Halt já estava muito nervoso.
― Sim. Eu estava. Porque dói. Deixe-se levar um tiro de arco algum dia desses e você vai descobrir! Agora vamos jogar papo furado o dia inteiro sobre meus olhos e meu braço e preocupar meu cavalo? Fique parado, Abelard! — ele gritou.
A boca de Will despencou. Ele nunca, nunca em todo tempo que passou com Halt havia ouvido o arqueiro levantar voz com Abelard. Arqueiros simplesmente não faziam isso.
― Halt... — começou, mas Halt interrompeu.
― Enquanto nos estamos desperdiçando tempo aqui, Farrell e seus capangas estão indo cada vez mais longe!
― Farrell? — Dessa vez era vez de Horace estar totalmente preocupado ― Halt, estamos seguindo Tennyson, não Farrell. Farrell era o líder dos forasteiros em Selsey!
Ele estava certo. Farrell liderava um grupo de forasteiros e tentava atacar uma pequena isolada vila de pescadores na costa Oeste de Araluen. Foi esse evento que primeiro alertou Halt para os planos dos forasteiros em Hibernia. Halt olhou para Horace.
― Eu sei disso! — gritou. ― Você acha que eu não sei? Acha que estou ficando louco?
Houve uma pausa. Nem Will nem Horace sabiam o que dizer a seguir. Halt balançou sua cabeça com um olhar furioso para um e para outro, os desafiando.
― E então? Você acha? — ele repetiu, quando ninguém disse nada, ele bateu com força os calcanhares em Abelard e partiu em um trotar lento.
Para o oeste.
― Will, o que está acontecendo? — Horace perguntou enquanto Halt cavalgava para a direção errada.
― Eu não sei, mas posso dizer que é ruim — Will respondeu.
Moveu Puxão perseguindo Abelard, chamando seu antigo mestre.
― Halt! Volte!
Horace seguiu incerto. O arqueiro barbudo não se incomodou de virar para responder Will. Mas eles o ouviram chamando.
― Venham logo, se vocês estão vindo! Nós estamos perdendo tempo e esses temujai não podem está muito longe de nós agora!
― Temujai? — Horace disse a Will ― os temujai estão a mil quilômetros de distância!
Will balançou sua cabeça com tristeza, fazendo Puxão trotar mais rápido.
― Não na mente dele — ele disse asperamente.
Ele entendeu agora. Alguma coisa fez Halt perder todos os sentidos da situação e do tempo. Ele estava vendo inimigos e eventos passados dos meses ou anos antes.
― Halt! Me espere! — ele chamou.
Então, de repente, ele colocou Puxão a um galope completo enquanto seu mestre levantava os braços e deixou sair um grito enquanto caía no chão ao lado de um alarmado e preocupado Abelard.
E ficou lá sem se mover.

8 comentários:

  1. Sabia que tinha veneno naquela flecha.

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  2. Mas o que foi isso?!?! Morri aqui...n, espera, se eu morrer n vou saber o q acontecerá! Fui.

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  3. Pelo Anjo! Não acredito, sabia que tinha alguma coisa errada com aquela flecha!
    Ass: Bina.

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  4. Pelas barbas de Gorlog! Halt está envenedado! 'o'

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Boa leitura :)