18 de dezembro de 2016

Capítulo 24

Como Will tinha notado, Selethen manteve seu grupo avançando na madrugada de cada dia.
Eles iriam acordar antes do amanhecer, quando a escolta arridi iria preparar comida quente, fazer café e brindar o pão achatado sobre as brasas. Selethen percebeu a mudança que tinha chegado ao grupo de araluenses desde que o jovem arqueiro havia os deixado, dois dias antes. Eles já não faziam piada e riam ao redor da fogueira enquanto bebiam o seu café da manhã. Estavam subjugados, preocupados com seu companheiro perdido.
Era fácil perceber nos três membros mais jovens: Horace, a princesa e o arqueiro jovem, Gilan. Halt, é claro, sempre manteve uma fachada sem emoção. Ele estava de cara amarrada e de poucas palavras a maior parte do tempo. Mas Selethen acreditava que ao passar dos dias, a severidade foi um pouco acentuada. Era óbvio que o arqueiro Will provia o coração e a vida do grupo e os outros sentiam sua ausência dolorosamente.
Não que os dois arqueiros mais velhos estivessem menos diligentes na observação de seu entorno e tomando notas dissimuladas conforme passavam por marcos. O wakir tinha certeza de que eles estavam observando e memorizando características importantes para que pudessem reproduzir um mapa do percurso de Al Shabah para Mararoc. Will poderia ter dado o seu juramento de que nunca reproduziria o mapa que Selethen lhe tinha dado, mas os outros não estavam obrigados a tal promessa. Ele estava preocupado com isso, mas decidiu que havia pouco que pudesse fazer para detê-los.
Para as primeiras horas, na penumbra da madrugada, eles montaram em sua formação usual unida. Então, quando o sol realizou sua chegada espetacular, a rede de cavalaria em torno da parte central moveu-se para assumir a suas posições de viagem a luz.
No segundo dia, algumas horas após o sol levantar, eles chegaram a trilhas do grupo anterior a eles – o grupo que levou Erak como refém para Mararoc. Antes desse ponto, é claro, todos os sinais deixados pelos cavaleiros de antes deles haviam sido destruídos pela tempestade maciça que tinha varrido sobre o deserto. Agora, eles perceberam, estavam há dois dias deles.
— Eles vão estar se movendo mais lentamente do que nós — disse Halt.
Ele sabia que Selethen tinha enviado Erak com uma das caravanas que viajavam regularmente entre Al Shabah e Mararoc, transportando mercadorias de comércio do litoral para a cidade do interior. Essas caravanas já tinham uma escolta armada e fazia sentido para matar dois coelhos com uma cajadada. Mas, evidentemente, as mulas e camelos pesados carregados de mercadorias retardariam o grupo.
Gilan girou para baixo de sua sela, e se ajoelhou ao lado da marca no chão duro. Ele viu as impressões dos cascos fracas, aqui e lá – praticamente invisíveis para um olho destreinado. De vez em quando havia indícios mais evidentes da passagem do grupo, sob a forma de pilhas de estrume. Gilan cutucou um com um pedaço de pau, quebrando-o para estudar o teor de umidade no interior. Os arqueiros utilizavam tais pistas para determinar quão frescas as trilhas poderiam estar – a umidade no esterco de cavalo ou de seiva no tronco de um galho quebrado agarrado por um animal que passara. Mas eles não estavam habituados ao calor e à aridez do deserto arridi e o efeito que ele tinha sobre o conteúdo de umidade.
— É difícil dizer quanto tempo ela tem — disse ele finalmente.
Halt encolheu os ombros.
— Isso iria secar muito mais rápido aqui do que mais ao norte. Sabemos que não pode ser superior a dois dias. Foi deixada ali depois que a tempestade passou.
Gilan assentiu.
— Você está certo. Mas se eu estivesse vendo isso na nossa terra, eu diria que estava de três ou quatro dias. Isso vale a pena saber para uma referência futura, eu suponho.
Ele se ajeitou, retirando poeira dos joelhos, e virou-se para a sela de Blaze mais uma vez. Ele olhou para Selethen e viu que o wakir parou seu cavalo também e estava pressionando os laços que mantinham seu saco de dormir no local por trás da sela. O cavalo arridi estava virado a quarenta e cinco graus para a direção da viagem e Gilan não tinha dúvidas de que os olhos do líder do arridi sob a sombra de seu kheffiyeh estavam cravados em sim mesmo e Halt.
— Ele está nos observando — disse ele calmamente e Halt assentiu, sem olhar na direção de Selethen.
— Ele sempre está. Acho que nós o deixamos nervoso.
— Você acha que ele sabe que estamos mantendo um mapa da rota?
— Eu apostaria minha vida nisso — disse Halt. — Não fique muito perto dele. E aposto que ele está quebrando os miolos para encontrar uma maneira de nos parar.
À medida que eles se afastavam, Selethen parecia terminar de reamarrar as correias. Ele tocou seu cavalo com o joelho, voltou ao curso que os batedores haviam estabelecido e trotou para frente.
— O que você acha dele? — Gilan perguntou.
Desta vez Halt olhou para o alto guerreiro arridi antes de responder. Ele estava pensando sobre sua opinião, Gilan sabia, pesando o que sabia sobre o wakir com o que sentia sobre ele. Finalmente, Halt respondeu.
— Eu gosto do olhar dele — disse ele. — Muitos desses funcionários locais estão sempre à procura de subornos. A corrupção é quase um modo de vida neste país. Mas ele não é assim.
— Ele é um soldado, não um político — disse Gilan.
Ele tinha a desconfiança costumeira que um guerreiro tem por políticos e funcionários, preferindo lidar com homens que sabiam o que significava lutar por suas vidas. Esses homens muitas vezes tinham uma honestidade que lhes são inerentes, pensou ele.
Halt assentiu.
— E um bom soldado. Olhe para essa formação que ele tem em volta de nós. À primeira vista, parece que estamos espalhados através do deserto como um bando de animais qualquer. Mas não podemos ser abordados a partir de qualquer direção sem os batedores virem alguma coisa.
— Seus homens parecem respeitá-lo — disse Gilan. — Ele não tem que gritar e fazer muito barulho para ser obedecido.
— Sim. Eu mal o ouvi levantar a voz desde que nós estivemos em marcha. Isso é geralmente um sinal de que os homens acreditam que ele sabe o que faz.
Eles se calaram por alguns minutos, ambos estudando a figura de manto branco, cavalgando de modo reto por conta própria, vinte metros à frente deles.
— Não é muito amigável, porém — Gilan, disse, sorrindo.
Ele estava tentando manter Halt falando, em uma tentativa de fazer seu antigo professor parar de se preocupar demais com Will, desaparecido em algum lugar desconhecido nos resíduos do deserto.
Halt percebeu sua intenção e agradeceu. Conversar com Gilan deu-lhe alguns momentos de descanso da preocupação constante que ele sentia sobre o menino que tinha vindo a significar muito para ele. Sem querer, ele soltou um suspiro profundo.
Gilan olhou rapidamente para ele.
— Ele está bem, Halt — disse ele.
— Eu espero que sim. Eu só acho que...
O que fosse o que Halt pensava se perdeu quando algo chamou sua atenção. Havia uma nuvem de pó se movendo em direção a eles de frente – um dos batedores, ele percebeu, quando conseguiu enxergar mais claramente através da refração e viu a figura escura na cabeça da nuvem de poeira, e podia ver os sopros individuais de poeira levantando com cada passo das pernas de seu cavalo.
— O que temos aqui? — ele disse calmamente.
Ele tocou Abelard com o joelho e passou a andar ao lado Selethen, Gilan seguindo um metro ou mais para trás.
— Mensageiro? — ele perguntou.
Selethen sacudiu a cabeça.
— É um dos nossos. Eles devem ter visto alguma coisa pela frente — disse a eles.
O cavaleiro estava mais perto e agora eles poderiam ver os detalhes. Ele desviou o cavalo ligeiramente quando chegou à figura alta do wakir e montava diretamente para ele.
— Abutres — disse Gilan de repente.
Enquanto os outros tinham como objetivo o cavaleiro se aproximava, seus olhos afiados tinham procurado pela frente. Halt olhou para cima, mas agora os olhos de Gilan eram mais jovens do que os dele. Ele pensou que talvez pudesse ver pontos pretos circulando no alto do céu à frente deles. Ou poderia ser apenas sua mente dizendo que ele podia vê-los agora que Gilan que tinha dito que estavam lá.
Qualquer dúvida, foi removida quando o cavaleiro se aproximou, controlando seu cavalo em uma nuvem de poeira de deslizamento.
— Vossa Excelência, vimos abutres em frente — relatou ele.
Selethen esperou. Seus homens eram bem treinados e ele sabia que teria mais para reportar.
— Eu enviei Iqbal e dois homens na frente para reconhecer — continuou o homem. — Nesse meio tempo, fiz nossos batedores da frente pararem.
Selethen assentiu em reconhecimento.
— Bom. Nós vamos continuar até que cheguemos no seu grupo. Até então, Iqbal talvez poderá ter algo a comunicar. Volte para o seu posto — ele adicionou.
O mensageiro girou seu cavalo, tocando a boca, testa e boca em uma saudação apressada e então bateu em retirada de volta de onde ele veio, levantando mais poeira fina. Selethen olhou os dois arqueiros.
— Melhor prevenir do que remediar. Esses abutres significam que há algo morto na frente. Não há como saber se o que o matou ainda está por aí.
Halt assentiu de acordo. Fazia sentido. O deserto era um lugar perigoso para viajar, ele percebeu. Selethen era um soldado muito bom para ir continuando despreparado para ver o que atraiu os abutres.
— Há um monte deles — salientou Gilan. — Isso poderia significar que houve uma série de assassinatos.
— Isso é o que eu estou com medo que seja — Selethen respondeu.


Seus temores eram bem fundados. Eles chegaram até a cena da batalha uma hora depois. Não que tivesse sido uma batalha – era mais um massacre. Cavalos, burros, camelos e os homens estavam espalhados pelo deserto, sem vida, rodeados de formas escurecidas manchadas de sangue seco que havia na areia molhada.
Era o grupo comercial de Al Shabah, e eles tinham sido aniquilados.
Conforme os recém-chegados estavam entre eles, os abutres pretos pesados deixaram sua festa e subiram preguiçosamente no ar. Halt apontou para Evanlyn e Horace esperarem atrás. Ele e Gilan desmontaram e andaram entre os corpos com Selethen.
Os homens e os animais foram mortos, e em seguida, cortados em uma agitação sem sentido. Havia apenas um corpo morto com apenas uma única ferida. As embalagens de mercadorias tinham sido rasgadas e seu conteúdo espalhado no chão. Qualquer coisa de valor foi levada. Em seguida, os predadores tivessem feito seu trabalho horrível.
— Quando, você acha? — Halt perguntou.
Selethen olhou ao redor, seu rosto escuro normalmente impassível estava com raiva e frustração.
— Mais cedo esta manhã, eu diria — ele respondeu e Gilan, ajoelhado ao lado de um dos corpos, confirmou assentindo com a cabeça para Halt.
— Os grandes predadores, os gatos e os chacais, não chegaram ainda — Selethen explicou. — Eles tendem a espreitar na noite, portanto deve ter sido depois do amanhecer de hoje. E os abutres continuavam recolhendo.
Halt tinha andado para longe conforme Selethen estava falando, estudando a cena mais de perto. Selethen olhou para as aves pretas lentamente girando preto por cima deles, andando sem esforço sobre as correntes de ar quente que subia do chão do deserto.
— Qualquer ideia de quem poderia ter feito isso? — Gilan perguntou e Selethen o estudou por um momento, recuperando o controle de suas emoções.
— Os tualaghi — disse ele brevemente, quase cuspindo fora a palavra. — Tudo isso... — ele indicou os corpos cortados — ...é típico de sua obra.
Ele balançou a cabeça, perplexo.
— Mas por quê? Por que eles atacariam um grupo bem armado? Havia mais de vinte soldados na escolta. Geralmente os tualaghi pegam pequenos grupos. Por que isso?
— Talvez alguém tenha lhes pagado — disse Halt quando ele voltou de sua pesquisa sobre o cenário desolado.
O wakir olhou para ele agora, franzindo a testa.
— Quem? Quem iria pagá-los? — ele desafiou.
— Aquele que traiu Erak em primeiro lugar — Halt disse a ele. — Dê uma olhada. Não há sinal dele. Quem matou seus homens o levou com eles.

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