9 de dezembro de 2016

Capítulo 24

Nas horas que se seguiram ao nascer do sol, a população da pequena ilha duplicou sete vezes.
Jatos particulares e helicópteros circulavam a pista, aguardando autorização para pousar. Hidroaviões desciam na água brilhante que circundava Pierce Landing. Seus pilotos tiveram que ter cuidado, porque o oceano fervilhava com barcos que iam desde pequenos dorys a iates de luxo superluxuosos. Uma enorme balsa alugada no estado de Massachusetts levava mais de mil e quinhentos apoiadores de Pierce determinados a estar lá pessoalmente para ver o primeiro candidato patriota fazer o seu grande anúncio.
Um enxame de antenas parabólicas brotaram como cogumelos no gramado bem cuidado. A disputa para o melhor ponto para filmar os acontecimentos do dia foi intensa. Uma âncora de uma grande rede teve que ser levada para a tenda de primeiros socorros com o nariz sangrando. A BBC acotovelava-se com os alemães, e ninguém queria estar perto dos blogueiros, que eram considerados opinativo demais. Um satélite de comunicações em órbita fora alugado exclusivamente para fazer o upload de vídeos de Pierce Landing.
Os repórteres de jornal e os camerasmen se juntaram ao redor da tenda VIP, onde a quantidade de políticos, celebridades, titãs de negócios, realeza, atletas de elite e artistas aumentava a cada hora.
Para um repórter, era mais do que apenas uma chance de coroar a próxima estrela política, que quase certamente se tornaria o líder do mundo livre. Nunca antes tantos ricos, poderosos e famosos do planeta estiveram reunidos no mesmo lugar e ao mesmo tempo. Era uma oportunidade única na vida para entrevistas.
O dia de trabalho de um repórter começou antes de todos os outros. Sua tomada de notícias foi pequena – uma revista online especializada em artes e ofícios. Mas Debi Ann Pierce estivera ansiosa para conceder-lhe uma entrevista para discutir seus ursos de pelúcia caseiros.
— Um urso de pelúcia é muito mais do que um brinquedo, um objeto inanimado — a futuro primeira-dama estava em sua glória, falando sobre seu assunto favorito. — Ele nos dá companheirismo e carinho. Nos dá amor.
O repórter estava gravando com seu celular quando o dispositivo foi arrancado de sua mão. Ele olhou para cima e viu um dos homens corpulentos da segurança da ilha encarando-o.
— Ninguém deveria estar na casa principal.
— Eu o convidei — Debi Ann falou. — Não é uma entrevista de política; ele está interessado em mim e em meu trabalho.
O homem de terno foi educado, mas inflexível.
— A senhora deve ter esquecido. Nenhum repórter na mansão. As ordens vieram de cima.
— Tenho certeza de que meu marido não me incluiu nisso — ela insistiu.
Mas seus protestos caíram em ouvidos surdos. A revista on-line teria que viver com metade de uma entrevista sobre ursos de pelúcia. Enquanto o homem era escoltado para fora da casa, Debi Ann foi à procura de seu marido.
Ela o encontrou sozinho no escritório, ensaiando seu discurso na frente de um espelho.
— Rutherford, por que você parou a minha entrevista?
Os olhos de Pierce nunca se desviaram do próprio reflexo.
— Regras são regras, Debi Ann.
— Pensei que você tivesse dito que é quem faz as regras. Essa entrevista me fez sentir bem comigo mesma e meus ursos de pelúcia.
Ele se virou para ela, reprimindo um tremor em seu braço.
— Alguma vez lhe ocorreu que eu não quero que o povo americano descubra que sua próxima primeira-dama é uma mulher que costura ursos numa oficina?
— Todas as primeiras-damas têm seus projetos especiais — ela argumentou.
— Claro — ele respondeu sarcasticamente. — Nutrição. Alfabetização. Não costurar um batalhão de bolas de algodão vesgos. Se Martha Washington tivesse tentado algo parecido com isto, George a teria mordido com seus dentes de madeira! Por que eu não podia ter uma esposa que fosse mais como...
Ela olhou para ele.
— Como Martha Washington? — o olhar de culpa em seus olhos manteve-o longe. — Você ainda está pensando em Hope Cahill!
Ele não negou. Mentiras vinham facilmente para J. Rutherford Pierce, mas não hoje, o dia mais importante de sua vida.
— Talvez eu estivesse pensando — ele falou rigidamente, sua mandíbula apertada — em Letitia Tyler.
Ele passou por ela e desapareceu no corredor.
Debi Ann estava confusa. Letitia Tyler?
De repente, ela se lembrou da história da ex-primeira dama. Letitia Christian Tyler morreu em 1842, enquanto seu marido, John Tyler, ainda estava no escritório.
Um frio gelado começou nas extremidades de Debi Ann e fez seu caminho para dentro dela. Ela poderia entrar na Casa Branca nos braços de seu marido triunfante, mas deixaria a casa em uma procissão funeral.
Seu marido estava planejando matá-la.

* * *

Os quatro rapazes podiam ouvir a atividade ao redor deles – conversa abafada, barulhos de motor, instruções berradas, barcos ao longe, anúncios em alto-falantes.
Isso estava deixando Dan louco.
— Eu não posso lidar com isso — ele murmurou. — Pelo o que sabemos, Galt e metade do exército de gorilas cercaram o galpão e estão prestes a chutar a porta e nos matar. Mas não podemos sequer espreitar por medo de nos entregar.
Os outros compartilhavam de sua frustração.
— Onde está a sua namorada, Kabra? — Hamilton exigiu em um sussurro irritado. — Ela disse que viria nos buscar.
— Ela disse que viria, mas não quando — Ian defendeu Cara. — Temos de assumir que ela está esperando o momento certo para nos tirar daqui.
— E se alguém reclamar sobre ervas daninhas e Pierce mandar algum capanga buscar um cortador de grama? — Jonah desafiou.
Ian revirou os olhos.
— Nós não podemos espiar o que está acontecendo lá fora. Cara sim. Ela é a única em condições de avaliar a situação. Honestamente, discutir estratégia com os não-Lucian pode ser desgastante.
Os quatro estavam vestidos com os macacões azuis e botas de trabalho do pessoal de manutenção da ilha. Jonah acrescentou um pequeno bigode falso para ajudar a ocultar suas feições famosas. Todos entendiam que a operação que estava por vir seria extremamente delicada. Qualquer coisa que desviasse do esquema resultaria em uma falha pontual. O perigo era tão intenso que eles quase podiam arrancar pedaços dele do ar e segurá-lo em suas mãos – perigo não só para eles, mas para todo o mundo. Se eles não pudessem parar Pierce aqui e agora, nunca teriam outra chance.
Ele seria um candidato a presidência oficial, com proteção do serviço secreto e um enxame de repórteres seguindo com um olho eletrônico tudo o que acontecesse num raio de cinquenta metros dele. Salvo um milagre, ele ganharia a eleição com facilidade e, em seguida, teria todo o exército norte-americano ao seu comando. Seu sonho de dominação global estaria ao alcance.
Os quatro trocaram olhares nervosos.
Eles eram Cahill – à altura do desafio, dispostos a assumir os riscos. Mas a espera os estava matando.
— Tenho que começar a fazer turnês novamente, yo — Jonah resmungou. — Os fãs te mastigam e vomitam, mas isso de salvar o mundo é brutal.
— Poderia ser pior — Dan lembrou-lhe em tom severo. — Minha irmã está prestes a pilotar um avião usando braços e pernas que nem sempre funcionam e um cérebro que pode desligar a qualquer momento.
O grupo ficou em silêncio enquanto as palavras calavam fundo.
Houve uma leve batida do lado de fora do galpão. Um feixe de luz do solar os atingiu quando uma fresta se abriu na porta.
Eles ouviram a voz baixa de Cara:
— Está na hora.
Os meninos emergiram do galpão para encontrar-se em um lugar bastante diferente da ilha pacífica em que desembarcaram naquela madrugada. Multidões se erguiam em torno deles. Era como um grande carnaval, só que em vez de cabines e brincadeiras, havia unidades móveis de redes de TV – centenas delas – uma selva de cabos, antenas parabólicas e câmeras. Repórteres falavam com urgência em microfones.
Cara escolhera bem o momento. Em todas as idas e vindas, ninguém prestava atenção nos quatro recém-chegados. Eles desapareceram imediatamente em uma força de trabalho que cobriu Pierce Landing – pendurando faixas, levantando bandeiras e se preparando para a soltura de balões que acompanharia o grande anúncio.
Pessoas vinham de todas as direções, mas o movimento geral era em direção à praia. Em buracos recém-cavados na areia, lenha era empilhada para as fogueiras, e panelas gigantes aguardavam o prato principal. Na cozinha da mansão, mais de cem mil moluscos estavam sendo preparados para cozinhar – o maior número na história, de acordo com o Guinness Book of World Records.
O palco era um megalito de estrelas, listras e cores patrióticas. Hamilton cutucou Jonah.
— Acha que há vermelho, branco e azul suficiente por aqui?
Plataforma do orador era enquadrada por um magnífico arco de iluminação, coberto com flores, bandeirinhas e com o símbolo do Partido Patriota, uma águia bradando.
— Rostos para baixo! — Cara chiou de repente.
Todos eles encararam suas botas. Antes que Dan desviasse os olhos, ele avistou Galt fazendo seu caminho através de uma multidão de repórteres.
— Bem-vindos à nossa ilha — disse a um. — Que bom que pôde estar aqui para nos ajudar a fazer história — falou para outro.
— Como se ele fosse o vice-presidente — Dan murmurou quando a barra estava limpa.
— Ele não pode se impedir — Cara, relutantemente, defendeu seu irmão. — Eu sei o que é gostar de ser o favorito do meu pai, com as chaves do reino balançou na sua frente. É difícil resistir a esse tipo de tentação.
Você resistiu — Ian observou com admiração.
— Eu tive um modelo — ela disse a ele. — Um garoto que se ergueu contra sua mãe pelo bem da humanidade. Cara impressionante.
Ian corou, um ligeiro sorriso repuxando o canto de sua boca.
Um plano foi idealizado. Jonah e Ian misturaram-se à equipe do centro de tecnologia atrás do palco. Dan e Hamilton subiram no palco do enorme arco de iluminação, juntando-se a uma dúzia de outros trabalhadores de manutenção.
Dan encontrou um parafuso que podia apertar e desapertar, e aperte novamente, a fim de parecer ocupado. Ele olhou para cima por sobre a multidão. Deveria ter um zilhão de pessoas aqui. Os assentos na frente do palco eram estritamente para VIPs. O resto teria que encontrar locais na praia ou na grama. Ninguém perderia nada. Telões e alto-falantes gigantes pairavam por toda a ilha.
De onde estava, ele não teve problemas para localizar os muitos capangas reforçados pelo soro de Pierce. Era difícil não notá-los, mesmo em uma enorme multidão. Além de serem grandes e musculosos, eles pareciam brilhar com uma luz interior – uma espécie de presença que não podia ser ignorada. E Cara estava certa – havia um monte deles. Facilmente uma centena, provavelmente mais.
O rosto de Dan escureceu quando pensou em sua irmã. Ela tinha o brilho – e também os tremores e desmaios que vinham com ele.
Amy tinha os meios para se salvar. No entanto, ela se recusou a usá-los até que entregasse o antídoto para Pierce Landing. A questão permanecia: Será que ela teria tempo para trazê-lo aqui antes de seu destino iminente alcançá-la?

2 comentários:

  1. LUAMARA Cahill Madrigal infiltrada Ekhaterina28 de fevereiro de 2017 13:59

    Debi Ann estava confus. Letitia Tyler?
    De repente, ela se lembrou da história da ex-primeira dama. Letitia Christian Tyler morreu em 1842, enquanto seu marido, John Tyler, ainda estava no escritório.
    Um frio gelado começou nas extremidades de Debi Ann e fez seu caminho para dentro dela. Ela poderia entrar na Casa Branca nos braços de seu marido triunfante, mas deixaria a casa em uma procissão funeral.
    Seu marido estava planejando matá-la.

    E com essa,oficialmente reconhecemos uma ekat de verdade.

    ResponderExcluir
  2. "Debi Ann estava confus."
    teve um erro de digitação na palavra "confusa", concerta por favor Karina
    "pessoal de manutenção ilha"
    Não seria "manutenção da ilha"?

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)