29 de dezembro de 2016

Capítulo 23

Por um segundo, não houve resposta e uma terrível escuridão se apoderou do coração de Will. Ela foi dissipada assim que o arqueiro barbudo virou-se para encará-lo, sua mão direita apertava seu antebraço esquerdo, detendo parcialmente o fluxo do sangramento.
Halt deixou escapar uma careta de dor.
― Eu estou bem ― ele disse através de seus dentes meio cerrados. ― Aquela maldita flecha apenas raspou no meu braço, mas dói como um demônio.
Will abaixou-se ao lado de seu mestre apoiando-se em um de seus joelhos e facilmente afastou a mão de Halt do ferimento.
― Deixe-me dar uma olhada ― ele disse.
Primeiro afastou a mão de Halt, com certo medo de que pudesse sair um jato de sangue pulsante que lhe indicasse que uma artéria principal houvesse sido cortada. Ele ficou aliviado a constatar que havia apenas um fluxo pequeno e constante de sangue. Tranquilamente, ele pegou sua faca de caça e cortou a manga da camisa do arqueiro a certa distância em volta do ferimento. Olhando por certo tempo, Will colocou a mão no kit de primeiro socorros que cada arqueiro leva em seu cinto e puxou um pedaço de tecido limpo, para assim limpar e ver a extensão dos danos causados pelo ferimento.
― Ele quase acertou ― Will disse. ― Um centímetro para a esquerda e ele teria realmente acertado.
Houve um corte superficial na pele do antebraço – tinha quatro centímetros de comprimento, mas não era profundo o suficiente para cortar músculos ou tendões. Will destampou o cantil de Halt e lavou a ferida com água, limpando o ferimento com a ajuda do tecido limpo. O sangue foi limpado momentaneamente, mas logo depois começou a jorrar novamente.
Will deu os ombros. Ao menos a ferida estava limpa. Ele passou um pouco de pomada, pegou uma roupa de campo da mochila e colocou sobre o ferimento de Halt.
― Você arruinou minha blusa ― disse Halt em tom acusador olhando os rasgos na manga que caiam por qualquer um dos lados de seu braço.
Will soltou um sorriso, aquela voz mal-humorada com aquele tom queixoso o tranquilizara mais que qualquer outra coisa era um sinal de que o arqueiro só estava ligeiramente ferido.
― Você poderá costurá-la hoje à noite ― falou a Halt.
Halt bufou indignado.
― Eu estou ferido. Você pode costurar isso para mim depois.
Em seguida adicionou em um tom mais sério:
― Bem, isto fica para outra hora. Ouço um cavalo.
Will puxou seu braço direito ajudando-o com os pés, embora isso não fosse realmente necessário. Halt havia sido ferido levemente, mas o arqueiro mais velho reconheceu a preocupação de mãe que Will teve após ver seu professor ser atingido e aceitou a ajuda sem resistir. Pela mesma razão, ele deixou Will pegar seu arco longo e entregá-lo a ele.
― Sim ― Will disse, já respondendo uma pergunta. ― Parece que eles amarraram seus cavalos nas árvores mais atrás. Eu atirei em um deles, mas errei. Sinto muito Halt.
Ele estava abatido, sentindo que deixaria seu mentor desanimado. Halt afagou-o no ombro.
― Não poderia ter ajudado ― ele disse. ― A precisão nesta floresta é impossível, muitas árvores e galhos no caminho.
― Nós cometemos um erro ― falou Will, e quando Halt levantou a sobrancelha em uma pergunta silenciosa, ele continuou. ― Nós dois atiramos no mesmo homem, o que permitiu que o outro homem atirasse em você.
Halt encolheu os ombros.
― Isso não poderia ser previsto. Eu sempre te digo que alguma coisa sempre pode dar errado em uma luta. Sempre há algo que você não pode planejar.
― Suponho que sim. É justo... ― Will parou, incapaz de articular seus pensamentos.
Ele sentia que de alguma forma que poderia ter feito melhor, que poderia ter livrado Halt da dor desta ferida – e do fato dele ter chegado tão perto da morte. Halt colocou uma mão em seu ombro e o sacudiu levemente.
― Não se preocupe com isso, olhe o resultado. Um deles está morto e tudo que temos para mostrar é um arranhão no meu braço. Acho muito razoável se considerar que eles começaram com todas as vantagens. Você não acha?
Will não disse nada. Ele estava imaginando Halt deitado no chão da floresta com uma flecha de besta enterrada no peito, os olhos olhando vazios por entre os ramos austeros acima da sua cabeça. Halt o sacudiu novamente com um pouco mais de vigor.
― Não é? ― Perguntou Halt permitindo que um sorriso cansado aparecesse em seu rosto.
― Suponho que sim ― ele concordou.
Halt balançou a cabeça satisfeito, embora secretamente, ele desejasse ter matado ou capturado o segundo genovês também. Sua tarefa seria certamente mais fácil se esse fosse o caso.
― Vamos voltar e encontrar Horace, provavelmente ele está enlouquecendo pensando o que aconteceu a nós.


Horace estava enlouquecendo de fato. Ele havia montado um pequeno acampamento, mas tinha acabado de sentar para relaxar nele. Ele passeou tanto para cima e para baixo, esperando um sinal de seus amigos que formou um sulco na grama alta. Os três cavalos estavam menos interessados, comendo a grama em volta do local.
Naturalmente, os arqueiros avistaram Horace antes de ele os perceber. Mesmo se aproximando de um acampamento amigo, os arqueiros se movimentavam discretamente, se camuflando com o fundo da paisagem. Will deu um assovio. Puxão levantou sua cabeça, eriçou as orelhas e relinchou em resposta. Horace os viu e correu através da grama para encontrá-los. Parou a alguns metros, vendo a manga rasgada e o curativo no antebraço de Halt.
― Está tudo...
Halt levantou a mão para tranquilizá-lo.
― Eu estou bem. Nada além de um arranhão.
― Literalmente ― disse Will que, após o choque e medo de ver seu mestre ferido, se deu ao luxo de brincar com a situação.
Halt olhou de soslaio para ele.
― Isso foi um pouco rude ― disse ele ― É realmente muito doloroso.
― O que aconteceu? ― interrompeu Horace, sentindo que poderia ocorrer uma longa troca de brincadeiras nas quais os arqueiros mostram afeição. ― Vocês os pegaram?
― Um deles ― respondeu Will com seu sorriso desaparecendo ― o outro fugiu.
― Só um? ― Disse Horace antes que pudesse se controlar.
Ele não estava acostumado com sucesso parcial vindo dos arqueiros, então ele observou a expressão dos dois e percebeu que sua indagação poderia ter soado indelicada.
― Quero dizer ― emendou rapidamente ― excelente, muito bom.
Ele fez uma pausa constrangedora, esperando por uma resposta sarcástica, mas surpreendeu-se quando ela não veio.
A verdade era que tanto Halt quanto Will concordavam evidentemente com o sentimento que Horace expressou. Ambos desejavam ter tido um resultado melhor, e mesmo o pensamento não sendo tão forte, o sentimento deles era de um trabalho feito pela metade.
Horace fitou-os por um segundo ou dois, perplexo com a falta de reação deles, então decidiu chamá-los para perto do acampamento, onde havia um pequeno fogo queimando.
― Sentem-se ― disse ele ― vou fazer um café e vocês me contam o que aconteceu.
Eles contaram brevemente os acontecimentos dentro da floresta fechada. Nenhum deles mencionou o medo causado por um inimigo invisível, sabendo que o primeiro sinal dele poderia ser um clarão de setas de bestas vindo em sua direção. Will também omitiu os momentos de agonia que passou se livrando dos espinhos de um arbusto. E percebeu que um atraso de mais alguns segundos fazendo isso, e ele não teria chegado a tempo de salvar Halt da primeira seta. Ele afastou esses pensamentos, era o tipo de detalhes que não merecia ponderação.
― Então o que faremos agora? ― indagou Horace, sentado em volta do fogo pequeno com suas pernas cruzadas e bebendo café. ― Vocês acham que o sobrevivente poderá criar outras emboscadas?
Horace e Will olhavam para Halt enquanto o mesmo analisava a questão.
― Eu duvido ― disse ele após certo tempo ― genoveses são mercenários, lutam apenas por dinheiro e não por qualquer razão ou motivo que esteja à parte do compromisso, e o nosso amigo sabe que agora as vantagens são nossas. Se ele nos espera para pegar um de nós, as chances são de que outro de nós vai pegá-lo, e isso é um mau negócio. Ele poderia servir aos propósitos de Tennyson, mas duvido que conseguiria convencer nosso amigo roxo a servir uma “causa forasteira”.
Ele olhou para o oeste, o sol já estava abaixo das copas das árvores mortas, a noite não demoraria a cair sobre eles.
― Vamos acampar aqui esta noite ― declarou.
― E amanhã? ― Perguntou Will.
Halt virou-se e alcançou seu alforje. Ele sentiu um extremo desconforto ao esticar o seu braço esquerdo para pegá-lo. A ferida estava seca e endurecida e o sangue agora marcava o novo curativo. Horace se levantou rápido e pegou o alforje para ele.
― Obrigado, Horace.
Ele tirou seu mapa de dentro do alforje e o estendeu.
― Pena que o mapa não indica esta floresta morta ― disse Will.
Halt concordou.
― Será depois daqui. O mapa indica que estamos na floresta de Ethelsten, não menciona todas as árvores mortas, mas deve mostrar algo de importante para nós.
Will virou o mapa para ver mais claramente e Horace se ajoelhou atrás de Halt olhando por cima do ombro do mesmo.
― Eu não acho que nosso amigo esteja a nossa espera novamente, mas posso estar errado. E “eu estava errado” são as últimas palavras de muitos viajantes descuidados, então não pretendo segui-lo cegamente nesta floresta novamente. Nós iremos mais adiante até aqui, um quilômetro a oeste ou mais, e seguiremos de lá o nosso caminho.
― Como vamos pegar a trilha deles novamente? ― Will perguntou. ― Eles podem ter pegado qualquer direção já que estão dentro da floresta.
― Poderiam ter pegado ― disse Halt ― Mas qualquer que seja a direção que tomem estarão cercados pelo mesmo rio que causou todo este problema.
Ele indicava as ramificações cinza, fantasmagóricas nas sombras da noite.
― Não importa a direção que tomem, eles terão de atravessá-lo, e só existe uma ponte num raio de 15 quilômetros. É para lá que estão indo.
― É verdade ― Horace concordou. ― Não imagino Tennyson estando tão ansioso a ponto de atravessar a nado um rio tão profundo que deixe suas roupas molhadas.
― Ele é realmente um homem que adora o seu próprio conforto, não é? ― disse Halt secamente. ― Mas há outras razões para irmos um pouco pelo oeste antes de entrar na floresta novamente. Além de nos livrarmos de quaisquer armadilhas preparadas por aquele assassino roxo, iremos contornar por fora para chegar até a ponte.
― Onde devemos pegar seus rastros novamente ― disse Will com satisfação.
― Com alguma sorte ― concordou Halt, enrolando o mapa e guardando-o em seu alforje. ― Eu acho que houve uma mudança de sorte para o nosso lado, e o outro lado foi jogado aos leões.
― Exceto para aquele que está na floresta ― falou Will.
Halt assentiu.
― Sim, exceto para ele. Acho que estou sendo mal-agradecido. Nós já tivemos nossa cota de boa sorte por hoje.
A ironia se mostrou sob a luz da manhã seguinte.

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