18 de dezembro de 2016

Capítulo 23

No futuro, Halt iria se censurar ferozmente pelo problema que Will estava prestes a enfrentar, pelo perigo que isso colocaria o seu jovem amigo. Ele devia ter sabido, disse a si mesmo. Deveria ter percebido.
Quando pensava sobre isso com a clareza cristalina que vem com uma percepção tardia, percebeu que havia passado anos vivendo em um castelo chamado Redmont – ou Montanha Vermelha. Ele era chamado assim porque as pedras que compunham suas paredes maciças davam ao castelo um tom avermelhado na luz da tarde. A pedra possuía grande porcentagem de minério de ferro.
Halt sabia que Will iria viajar através de uma área chamada de Montanhas Vermelhas. Em sua própria mente, disse a si mesmo que deveria ter feito a conexão: Redmont, minério de ferro, Montanhas Vermelhas.
As colinas eram, na verdade, depósitos maciços de ferro – tão ricos que às vezes o próprio minério era visível nas grandes veias da superfície. A coloração vermelha era o resultado da formação de ferrugem. O problema para Will era que, enquanto ele cavalgava entre os enormes depósitos de ferro – e alguns dos morros eram quase totalmente compostos de minério de ferro – sua agulha magnetizada do buscador do Norte iria desviar do campo magnético da Terra, uma vez que seria mais atraída para o metal ao redor dele.
Selethen sabia do ferro, é claro. A maior parte do ferro e do aço que os arridis utilizavam era extraída a partir desta área – principalmente porque era de tão fácil acesso, sem necessidade de poços profundos ou equipamentos complicados. Mas o arridi nada sabia sobre o segredo dos buscadores do Norte e os três arqueiros tiveram o cuidado de mantê-los escondidos. Então Selethen não tinha nenhuma maneira de saber que a navegação seria severamente afetada pelo ferro quando sua agulha desviasse de um caminho, depois do outro.
Entre eles, os dois homens tinham o conhecimento de que poderiam ter mantido Will seguro. Mas nenhum deles percebeu, então nenhum deles disse nada.
Will poderia ter notado esse detalhe, se simplesmente andasse com os olhos colados ao buscador do Norte. Se fosse esse o caso, ele poderia muito bem ter percebido que de vez em quando a agulha balançava e afastava-se descontroladamente. Mas não foi assim que ele foi treinado para navegar através do país. Afinal, não se pode andar por um território potencialmente perigoso olhando para uma agulha magnética.
Em vez disso, Will iria se controlar e manter o buscador do Norte ao nível dos olhos até a agulha resolver a sua posição final. Então iria girar o anel graduado da borda do buscador do Norte até que a agulha coincidisse com a marca N. E olhando através da abertura de vista ao lado, ele teria sua linha visual com a marcação NE, ao mesmo tempo mantendo o buscador do Norte frente a marcação N. Olhando através do site de abertura, ele buscaria uma marca importante, talvez cinco ou dez quilômetros, em seguida, cavalgaria ao nordeste em direção dela. Quando chegasse a esse marco, iria repetir o processo, encontraria outra marca que se estendia para o norte-leste de sua posição e cavalgaria nesse sentido.
O fato de que cada vez ele passasse por esse processo, estaria, de fato, se afastando mais e mais a leste de seu curso desejado nunca ficaria claro para ele. Se ele tivesse em Araluen, poderia ter percebido que a posição do sol não estava muito certa e tornar-se consciente de que havia um problema. Mas ele estava embalado pelo conhecimento de que, neste extremo sul, o sol parece estar em uma posição diferente. Ele confiava no buscador do Norte, como tinha sido ensinado a fazer. E quanto mais cavalgava, a diferença dos trajetos se tornava cada vez maior.
Uma vez que ele tivesse passado das Montanhas Vermelhas, o problema estaria solucionado e a agulha retornaria a uma posição verdadeira do Norte. Mas até lá, o estrago já estaria feito e ele estaria a quilômetros de onde achava que estava.
Ele tinha descansado durante as horas do meio do dia, como Selethen lhe havia ensinado. Não havia nenhuma sombra a ser encontrada, com o sol quase em cima da cabeça dele e poucas árvores maiores do que um arbusto em qualquer lugar à vista. Ele armou sua pequena tenda de um homem para criar um paraíso de sombra e rastejou para ela, deixando as extremidades abertas para permitir a passagem do ar. Não que houvesse muito movimento no ar do deserto ao meio-dia.
Flecha, infelizmente, teve que aturar o calor direto do sol. Mas o cavalo foi criado para isso. Sentado de pernas cruzadas sob o abrigo apertado, Will abriu o mapa de Selethen e o estudou, talvez, pela décima vez naquele dia.
Ele marcou a sua posição inicial, em seguida, com o dedo indicador, traçou uma linha para o nordeste, através das Montanhas Vermelhas e na planície árida onde ele estava. Estimativa a distância que ele havia coberto, e escolheu um ponto no mapa.
— Eu deveria estar... aqui — disse ele.
Ele franziu a testa, olhando para trás ao longo da faixa norte-oriental. Se fosse esse o caso, ele deveria ter visto um ponto de referência importante no final da manhã – uma grande achatada a leste da sua pista.
Mas não havia sinal dela. Ele pensou que tinha avistado a tal colina uma hora antes, mas havia sido uma fraca visão cintilante superaquecida a distância. E ela tinha ficado bem a oeste de seu caminho. Ele poderia ter ido tão longe do curso? Ele balançou a cabeça. Tinha sido meticuloso no exame do buscador do Norte e ao selecionar as marcas que utilizava. Podia aceitar que estava algumas centenas de metros fora do curso. Mesmo meio quilômetro. Mas em todos os seus exercícios de treinamento de navegação, nunca tinha cometido erro tão grande.
O morro achatado que ele pensou que tinha visto devia estar a cinco ou seis quilômetros a oeste de onde ele estava agora. Ele bateu o mapa pensativo. Claro, ele disse a si mesmo, poderia ter mais do que uma colina achatada no deserto. Na verdade, certamente teria. Talvez a que Selethen tenha marcado tinha sido desgastada pelo vento e pelo tempo até que sua forma não fosse tão bem definida. Dobrou o mapa e o guardou.
Deve ser isso, ele disse a si mesmo. Ele deve simplesmente tê-la perdido. Havia outras marcas que ele veria no dia seguinte – uma rocha equilibrada e uma linha de penhascos íngremes, marcadas com cavernas. Ele só teria que manter um olho afiado para encontrá-los.
Ele se sentou pelas próximas horas de calor absurdo. Como o cavalo aguentava ficar sob o sol, ele não tinha ideia. Na verdade, Flecha, treinado para essas condições, tinha encontrado um pedaço de sombra ao lado de um pequeno arbusto. Deitou-se ao seu lado com um grunhido. Ele colocou a cabeça, a sua pele sensível ao redor dos olhos, focinho e boca na parte mais profunda da sombra magra oferecida pelos ramos.
O sol passou seu apogeu e começou a descer em direção à borda ocidental do deserto. Will rastejou cansado para fora da tenda. Ele não poderia dizer que repousou e sentiu-se completamente livre do calor. Tinha levado suas duas garrafas de água para a tenda com ele. Se tivesse deixado-as para fora no sol direto, a água teria aquecido até que estivesse quente demais para tocar. E poderia até ter evaporado através da garrafa, que jamais poderia ser completada novamente.
Havia um balde de couro amarrado dobrado em sua sela e ele o desatou agora, abrindo-o no chão. Flecha ouviu o barulho e se esforçou para levantar, balançando-se para limpar a areia saturada do pelo. Ele caminhou pacientemente até onde Will estava cuidadosamente colocando água de uma das garrafas no balde. Will ficou impressionado ao ver que o cavalo não fez nenhuma tentativa de beber antes que ele levasse a água para a boca do cavalo.
Conforme Flecha começou a beber ruidosamente na água, Will encontrou-se lambendo os lábios em antecipação. Sua boca e língua estavam grossas e grudentas e ele estava com saudades de beber ele mesmo. Mas tinha sido treinado a cuidar de seu cavalo primeiro e esperou até Flecha acabar de beber antes de levar a garrafa de água para sua própria boca. Ele tomou um longo gole, segurou-o na boca, moveu a água dentro dela e então a deixou gotejar lentamente em sua garganta. A água estava quente e tinha um gosto amargo, de couro da garrafa na água. Mas era como néctar, ele pensou. Ele permitiu um último gole gotejar para baixo de sua garganta e pensou em tomar outro, mas resistiu ao pensamento e fechou a tampa.
Ele ficou impressionado com o fato de que Flecha tinha bebido o que estava no balde e se movido a poucos passos de distância. Qualquer outro cavalo, mesmo Puxão, teria cheirado em torno de mais. Treinamento arridi novamente, pensou ele. Conforme pegou um saco de grãos de seu alforje e derramou um pouco no balde, se perguntou o que Puxão estava fazendo, onde ele estava e se estava seguro. Ele colocou o recipiente para baixo e ouviu as mandíbulas do cavalo enquanto ele comia.
Will tinha algumas tâmaras e um pedaço de pão achatado. Estava velho e bastante duro, mas ele comeu mesmo assim. Não estava nem um pouco com fome, pelo fato de que estava no calor do forno do dia. Mas sabia que tinha que comer alguma coisa.
Ele tomou outro gole rápido na água. A cabeça de Flecha levantou ao som da rolha sendo removida. Will pensou que ele sentiu um sentimento de reprovação naqueles grandes olhos.
— Você está acostumado a isso. Eu não — ele disse ao cavalo.
Flecha não parecia impressionado com sua desculpa. Ele colocou seu nariz de volta para baixo dentro do balde, a língua grande procurando os grãos que sobravam no fundo.
Will olhou para o sol e estimava que ele teria mais ou menos uma hora antes que tivesse que começar a montar acampamento. Já agora, sua sombra era uma forma ridícula alongada que se estendia para trás dele, ondulante ao longo do terreno acidentado. Ele sabia que Selethen iria começar e terminar sua marcha do dia na escuridão. O arridi não dependia das marcas à distância através da abertura de vista de um buscador do Norte, por isso não precisava de luz para viajar. Mas Will precisava ser capaz de ver – tanto os pontos de referência que marcou quanto as características marcadas no mapa. Ele voltou a pensar na colina achatada e sentiu a pontada da dúvida preocupante dentro dele. Ele não poderia ter perdido isso, poderia?
Ele selou Flecha, empacotou sua tenda, cobertores e o resto do seu equipamento e amarrou-o por trás da sela.
— Nós vamos cavalgar por uma hora — ele disse a Flecha.
O cavalo não estava nem satisfeito ou insatisfeito com a notícia e ficou pacientemente enquanto Will virava-se para a sela. Uma vez lá, ele pegou o buscador do Norte, alinhando-o e olhando através da visão. Um pilar de areia e sal, com cerca de três metros de altura e com cristais brilhando ao sol deu-lhe um ponto de referência conveniente. Ele estalou a língua e incitou Flecha a uma caminhada.
Conforme o sol abaixava, a terra a seu oeste tornava-se mais iluminada e indistinta. Ele pensou ter visto a linha de falésias – embora elas parecessem um pouco baixo para descrevê-las como tal. Eram mais de um barranco elevado, ele pensou. E era impossível ver se elas estavam marcadas por cavernas, como o mapa indicava. O outro barranco estava iluminado pelo sol baixo. Estava bem escuro agora e ele não conseguia ver os detalhes desse. Ainda assim, pensou ele, poderiam ser as falésias marcadas no mapa. E elas poderiam estar marcadas por cavernas. Ele disse a si mesmo que eram. Elas tinham que ser.
Mas novamente ele sentiu a pontada de dúvida preocupante dentro dele.
A bola gigante vermelha do sol estava perto do horizonte quando ele decidiu que era hora de parar. Ele tinha que recolher lenha e precisava de luz para isso. Prendeu Flecha e caminhou até uma floresta baixa com arbustos secos, puxando a faca de caça com a mão direita. Seu arco estava na esquerda e ele usou para agitar violentamente o mato, como tinha visto os homens de Selethen fazendo. Cobras de areia espreitavam na sombra de tais arbustos, ele sabia, e tinha a intenção de assustar qualquer uma antes de colocar a mão em uma armadilha de morte em potencial.
Mas não havia nenhuma e ele reuniu um número suficiente de lenha. Os ramos dos arbustos estavam cheios de óleo que iriam queimar com um calor brilhante por um tempo considerável antes de serem consumidos.
Ele construiu a fogueira, mas não a acendeu. Então, com a tarefa imediata resolvida, ele tirou a sela de Flecha e empilhou seus equipamentos em um lado. Olhou para o céu e para a barraca, para o saco de dormir e a sela.
— Não há necessidade para isso — disse ele finalmente.
Ele estendeu o seu saco de dormir e o cobertor e sentou-se sobre eles, estremecendo quando sentiu varias pedras em seu traseiro. Sua boca salivava por uma xícara de café, mas ele não tinha água sobrando. Ele contentou-se com outro gole de água do cantil e um punhado de tâmaras. Vendo o olhar reprovador de Flecha, ele levantou-se, gemendo quando os joelhos sofreram a tensão, e moveu-se para alimentar e dar água ao cavalo.
O sol finalmente desapareceu e calor o dia começou a sair do deserto. À meia-noite, estaria quase congelando, pensou. Ele checou onde Flecha estava preso, então voltou para o seu saco de dormir. Estava exausto. O calor do dia tinha sido uma força palpável e parecia ter batido contra o seu corpo, deixando-o se sentindo golpeado e desgastado.
A escuridão cresceu e as estrelas começaram a surgir acima dele. À medida que mais e mais delas piscavam, ele deitou-se com um braço atrás da cabeça, para estudá-las. Normalmente, encontrava nas estrelas uma visão acolhedora. Mas não hoje. Hoje à noite seus pensamentos estavam em Puxão perdido em algum lugar neste deserto impiedoso. E com Halt e os outros, longe ao sudoeste. Ele pensou, infelizmente, sobre a conversa animada que estariam tendo ao redor da fogueira do acampamento, e das xícaras de café sendo consumidas.
Ele lambeu os lábios.
Mesmo as estrelas não eram conforto para ele. Elas eram estranhas. Frias, impiedosas e desinteressadas por ele e sua situação. As constelações familiares do norte não estavam ali. Quando olhou ao redor, podia ver uma ou duas delas, baixo no horizonte norte. Mas essas estrelas do deserto estrangeiro não lhe davam conforto.
Flecha se agitou e, ao longe, Will ouviu um baixo grunhido. Ele sabia que era o som de um leão. Ele teria esperado um rugido majestoso, de tremer a terra. Mas este ronco asmático de tosse era a realidade. Ele olhou para o cavalo. Flecha estava reto, orelhas em pé, os olhos mostrando medo.
— Melhor acender uma fogueira — Will disse com relutância.
Ele levantou dolorosamente, moveu-se para o fogo e passou a trabalhar com pedra e aço. Dentro de alguns minutos, tinha uma pequena fogueira queimando brilhante. Ele levou Flecha um pouco mais perto dela. O cavalo moveu-se desajeitadamente com sua trava, mas Will não correu o risco de removê-las e perdê-lo.
— Calma — disse ele.
Depois de alguns minutos, Flecha ficou calmo. Sua cabeça pendia novamente, seus ouvidos relaxaram.
Will esticou e puxou o cobertor em torno de seu queixo. Acostumado a dormir quando surgia a oportunidade, ele dormiu de primeira.
A lua tinha subido quando o relincho assustado de Flecha o acordou. Por um segundo ou dois, houve um terrível sentimento de desorientação quando ele perguntou onde estava. Então se lembrou e levantou, seu arco em uma mão e uma flecha na outra, os olhos buscando as trevas espessas em torno deles.
Ele ouviu o grunhido de tosse novamente e parecia que ele poderia estar um pouco mais perto. Ele agitou o fogo, acrescentou alguns ramos a mais e sentou-se, de costas contra a sela, o arco entre os joelhos.
Levou o cobertor até os ombros e acomodou-se, resignado com o fato de que teria de manter guarda sentado e cochilando irregularmente, enquanto todos os músculos e ossos em seu corpo doíam lhe pedindo para esticar e relaxar.
— Não há descanso para os perversos — disse ele.
Sentiu que ia ser uma longa, fria e incômoda noite.

3 comentários:

  1. Respostas
    1. Para de reclamar do livro cara, se nao quer ta gostando nao le porra, agr fikar reclamando quase td capitulo? Pqp neh? Vê se cresce e amadurece

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    2. Concordo com você anônimo.
      Ass: Lua

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Boa leitura :)