18 de dezembro de 2016

Capítulo 22

O chão do mercado era um grande gramado no extremo leste da aldeia. Para o norte e o sul eram terras abertas – campos arados e com culturas. Várias fazendas pequenas eram visíveis de perto. No lado leste do pasto havia uma faixa espessa de árvores onde a floresta começava novamente.
— Olha quem está aqui  Halt disse calmamente.
Horace seguiu seu olhar. No canto sudoeste do pasto estava um grande pavilhão branco. Várias figuras de vestes brancas estavam se movendo ao redor do pavilhão, tendendo o fogo e preparando a comida.
— São eles?  Horace perguntou e Halt acenou com a cabeça uma vez.
— São eles.
Eles armaram suas duas pequenas tendas em um anel enegrecido de pedras de fogo a alguma distância do pavilhão.
— E agora? — Horace perguntou.
Halt olhou para o sol. Ele estimou que já havia passado do meio-dia.
— Vamos ter um tempinho para comer. Então, mais tarde, vamos ouvir o que Tennyson tem a dizer.
O rosto de Horace se iluminou com a menção de comida.
— Soa como um plano para mim.


No final da tarde, as pessoas começavam a fazer o seu caminho para o acampamento dos forasteiros. Halt e Horace se juntaram à multidão que crescia rapidamente. Halt levantou uma sobrancelha quando viu que os seguidores de Tennyson tinham colocado vários barris de cerveja e vinho sob uma marquise grande de lados abertos e estavam servindo generosas canecas de ambos para todos os cantos.
— Essa é bela maneira de juntar uma congregação  ele murmurou para Horace.
Eles se moveram através da multidão que se empurrava para a posição nas mesas de refeições.
— Tente olhar desconfiado  ele acrescentou a Horace.
O guerreiro alto franziu a testa.
— Como faço isso?
— Olhe como se você não estivesse certo de que devia estar aqui  disse Halt. — Como se estivesse incerto.
— Bem, eu não estou certo que eu deveria estar aqui  disse Horace.
Halt suspirou.
— Então pare caminhar com tanta confiança. Olhe como se achasse que eu vou bater-lhe sobre a cabeça a qualquer momento. Isso vai fazer o truque.
— Você irá?  Horace perguntou, sorrindo para si mesmo. — Você vai me bater na cabeça?
Halt lançou um olhar sinistro sobre o jovem. Mas antes que pudesse falar, outra voz os interrompeu.
— Saudações, amigos! Saudações!
A voz era profunda e ressonante, a voz poderosa e bem modulada de um orador treinado. Halt e Horace se viraram para ver o orador, que estava andando na direção deles. Ele era um homem alto, forte e em uma longa túnica branca. Em sua mão direita segurava um bastão.
Ao seu lado, mas alguns passos atrás dele, estavam duas figuras surpreendentemente idênticas. Eles eram fortes, com bem mais de dois metros de altura. Alto como o líder podia ser, ele era diminuído por estes dois homens. Ambos eram totalmente carecas.
Horace os estudou por alguns segundos, depois voltou sua atenção para o orador. Seu rosto era largo, com traços fortes e um nariz proeminente. Os olhos eram de um azul surpreendente. Davam a impressão de que seu proprietário estava longe e vendo coisas que pessoas normais não podiam ver. Horace estava disposto a apostar que este era um olhar que o homem havia cultivado cuidadosamente. Em uma inspeção mais minuciosa, Horace percebeu que o homem era forte, mas um pouco acima do peso. Obviamente, ele não era um guerreiro.
Estava com a cabeça descoberta e seu cabelo estava na altura dos ombros, penteados para trás da testa e grisalho por toda parte. Não era o cinza pimenta e sal como Halt, mas um tom grisalho uniforme por toda parte.
O homem avaliou Halt e Horace rapidamente, em seguida, dirigiu-se a Halt como o líder óbvio.
— Você é novo na cidade.  Seu tom era amigável, e ele sorriu em saudação. — Eu vi você chegar mais cedo hoje.
Halt assentiu. Ele não fez nenhuma tentativa para retornar o sorriso do outro homem.
— E você está querendo um pagamento pela estrada, é?
Horace permaneceu em silêncio, contente em deixar Halt assumir a liderança. Ele percebeu que o arqueiro estava desempenhando o papel de uma pessoa típica do país – protegido e desconfiado de estranhos. Sua maneira não parecia incomodar o recém-chegado, no entanto. Ele parecia genuinamente divertido pela tréplica curta de Halt.
— Nem um pouco. Estou sempre feliz para cumprimentar um amigo.
— Eu não sabia que éramos amigos  Halt respondeu.
O sorriso do homem corpulento aumentou.
— Eu sou um servo do Deus Dourado Alseiass. E ele diz que todos os homens são meus amigos, e devo ser um amigo para todos os homens.
Halt encolheu os ombros, ainda não se impressionando.
— Não posso dizer que ouvi falar de Alseiass tampouco  ele disse. — Ele é novo, não é? Recém chegado de outra parte do céu, talvez?
O homem riu. Era um som rico e profundo. Horace encontrou-se pensando que, se não soubesse quem era esse homem, iria achá-lo fácil de gostar.
— Eu admito que Alseiass não é bem conhecido nesta parte do país  disse o homem. — Mas isso vai mudar. Meu nome é Tennyson, a propósito. Eu sou o representante do Deus do Ouro e estes são os meus assistentes Gerard e Killeen, que também são discípulos de Alseiass.
Ele indicou os dois gigantes silenciosos por trás dele.
— Nós oferecemos uma recepção calorosa no nosso acampamento.
Nem Gerard nem Killeen pareciam particularmente quentes ou acolhedores, Halt pensou. Ele podia ler a mensagem subjacente nas palavras de Tennyson: “Bem vindo ao meu acampamento e aqui estão meus dois lutadores inofensivos no caso de você sair da linha.”
— Por favor, desfrute da nossa hospitalidade  Tennyson prosseguiu sem problemas. — Alseiass nos diz que todos nós devemos partilhar a nossa generosidade com os nossos amigos.
Ele sorriu novamente.
— Particularmente os novos amigos.
Desta vez, seu sorriso caloroso abraçou Halt e Horace. Então ele se virou para olhar para a multidão reunida em torno de um palanque na extremidade da marquise.
— As pessoas estão esperando  disse ele. — Eu devo ir.
Ele levantou a mão, descrevendo uma curva no ar que era obviamente uma forma de bênção. Então ele se virou e caminhou para longe. Ladeado pelos seus dois discípulos, fez o seu caminho através da multidão, parando aqui e ali por uma palavra ou um sorriso rápido, ou entregando uma bênção.
— Então esse é Tennyson  Halt disse suavemente. — O que você achou dele?
Horace hesitou, então, um pouco relutante, respondeu.
— Na verdade, eu o achei bastante impressionante.
Halt assentiu.
— Assim como eu.
Houve um zumbido de interesse a partir da multidão quando Tennyson subiu no palco, sorrindo para aqueles ao redor dele e levantando as mãos pedindo silêncio. Um silêncio com expectativa surgiu e ele começou a falar, sua voz profunda ressoando facilmente a todos os cantos da marquise para que ninguém tivesse que se inclinar para frente para ouvir suas palavras.
Ele era um apresentador polido, não havia nenhuma dúvida sobre isso. Começou com uma brincadeira própria – uma história sobre uma tentativa desastrosa de ordenhar uma vaca. Essa tarefa era da natureza para um público rural como este e os risos incharam quando ele descreveu sua completa inabilidade. Então ele seguiu ordenadamente para o fato de que todas as pessoas tinham habilidades diferentes, o segredo da vida era encontrar maneiras para que as pessoas trabalhassem em conjunto e fizessem uso mais eficaz de suas habilidades. A partir daí era um pequeno passo para a necessidade de as pessoas se juntarem em tempos conturbados como os que estavam passando.
— Eles são maus, homens sem lei estrangeiros no mundo. São os servos do espírito negro Balsennis. Eu vejo a mão dele onde quer que eu vá, trazendo tristeza e desespero e morte ao povo deste país maravilhoso  disse ele. — Onde vamos encontrar a ajuda que precisamos para derrotá-los, expulsá-los? Para colocar este país de volta ao que era antes? Quem vai nos ajudar a fazer isso?
— O rei?  falou uma voz hesitante da multidão.
Halt estava disposto a apostar que era um dos próprios seguidores de Tennyson que tinha dito isso.
O orador corpulento se permitiu um sorriso pequeno e triste.
— O rei, você diz? Bem, eu concordo com você que ele deveria ser o único a manter a ordem em seu próprio país. Mas você pode vê-lo fazendo isso?
Um resmungo irritado varreu a multidão. Tennyson tinha atingido um ponto dorido com a pressão. Mas o descontentamento do povo não era forte o suficiente para eles saíssem no aberto e concordassem com ele. Particularmente, e em pequenos grupos, eles concordaram. Publicamente, não estavam dispostos a comprometer-se. Criticar abertamente um rei era um caminho perigoso para trilhar.
Tennyson deixou crescer a insatisfação alguns segundos, então recomeçou.
— Eu não posso vê-lo fazendo qualquer coisa. Não vejo as suas tropas a caminho para expulsar esses bandidos e ladrões que estão destruindo o país. Afinal, ele é o homem com o poder, não é? Ele permite outra pessoa manter um corpo de soldados treinados para proteção?
A palavra “Não!” tocou para fora de diversos pontos no meio da multidão. “Pessoal de Tennyson novamente”, Halt pensou. Então o murmúrio ganhou força e dinâmica enquanto mais e mais pessoas começavam a gritar a negação. Aos poucos punhos levantaram e agitaram no ar. Tennyson levantou as mãos para o silêncio e os gritos morreram gradualmente.
— Agora, um rei merece a lealdade dos seus assuntos. Nós todos sabemos isso... — ele começou.
Um irritado resmungo atravessou a multidão novamente enquanto eles discordavam dele, pensando que ele estava prestes a pedir desculpas em nome do rei Ferris. Novamente, Tennyson ergueu as mãos para o silêncio e, relutantemente, desta vez, a multidão estava tranquila.
— Mas...  disse ele, em seguida, repetindo com maior ênfase — mas! Essa lealdade deve passar nos dois sentidos. Se os indivíduos devem ser leais ao seu rei, então o rei deve aplicar a mesma lealdade a seus súditos. Caso contrário...
Ele fez uma pausa e a multidão parecia se inclinar para a frente, tentando ver para onde a conversa estava indo antes do o homem falar.
— O rei abandona qualquer pretensão de lealdade do seu povo.
Houve um rugido de um acordo dos aldeões. Halt inclinou-se para Horace e disse em seu ouvido:
— Essa é uma área perigosa. Quando se cede. Ele deve estar muito seguro de si.
Horace assentiu e virou a sua cabeça para responder no mesmo tom suave.
— Pelo que você nos contou, ele tinha muita prática.
Enquanto a multidão se estabeleceu uma vez mais, Tennyson continuou.
— O rei Ferris nada tem feito para salvar o povo de Clonmel das depredações dos bandidos e ladrões e assassinos que vagam a terra, fazendo o trabalho mau de Balsennis. O que ele fez pelo povo de Ford Duffy?
Fez uma pausa e olhou com expectativa para os rostos diante dele.
Um coro irregular passou de uma dúzia de gargantas.
— Nada.
Tennyson fez uma mão em concha atrás de uma orelha e virou a cabeça um pouco, um olhar confuso em sua cara.
— O que foi isso?  ele perguntou, e desta vez a resposta foi um grito a plenos pulmões de toda a assembleia.
— NADA!
— Será que ele ajudou essa menina inocente de doze anos que foi assassinada em Ford? O que ele fez por ela?
Outra vez:
— NADA!
— Não é que Ferris não pode ajudar. O fato é que ele se recusa a fazê-lo! — Tennyson trovejou. — Ele tem o poder, se optasse por utilizá-lo em seu nome. Mas ele está contente em esconder-se atrás das paredes de seu castelo em Dun Kilty, em almofadas macias, com muita comida e bebida, e não fazer nada. Ele não vai levantar um dedo para ajudar o seu povo. Ele não tem lealdade!
Sua voz levantou-se a uma crescente sobre as últimas palavras. Ele fez uma pausa, olhando para a multidão. Em dois e três, pessoas concordaram de acordo. Hesitante no início, depois com crescente convicção. Tennyson nada disse. E desta vez, ele não fez nenhum sinal de silêncio. Ele deixou o ressentimento ferver, deixou as pessoas construírem um campo de raiva. Então, quando perceberam que ele estava esperando que eles se calassem, eles o fizeram. Desta vez, quando o orador falou, deixou o trovão dramático de lado e falou com uma voz tranquila e direta:
— E se ele não mostra lealdade a vocês, então vocês nada lhe devem.
Novamente, a voz da multidão levantou-se e, desta vez, Tennyson subiu acima deles.
— Ferris não fará nada para ajudá-los. Vocês devem olhar para quem irá protegê-los!
Agora, as pessoas começaram a chamar o mesmo fundamento em diferentes pontos em torno da multidão. Engraçado, Halt pensou, como todos eles utilizavam as mesmas palavras e frases.
— Tennyson!  gritaram, e o grito se espalhou para todas as partes da multidão. — Tennyson! Proteja-nos!
Mas agora Tennyson estava segurando as mãos para acalmá-los e balançando a cabeça em seus gritos. Quando eles se calaram, ele falou-lhes de novo, naquela voz clara e conselheira.
— Não! Não! Não! Acreditem, eu não sou esse, meus amigos. Eu não posso protegê-los. Sua segurança encontra-se com o poder de Alseiass.
Houve um gemido de decepção do lado esquerdo da multidão.
Então uma voz chamou:
— Nós não precisamos de contos de fadas e superstição! Eles não vão parar os bandidos!
Outras vozes se levantaram em acordo. Mas Halt notou que eles não pareciam ser a maioria. A maior parte da multidão estava incerta, olhando em volta de cada interjeição, estudando os oradores e avaliando o valor daquilo que diziam. Eles não estavam dispostos a discutir de um lado ou de outro, ele viu.
— Nós queremos espadas e soldados! Não um força do céu, Tennyson!
— Você nos lidere!  uma terceira voz falou. — Você lidera e nós vamos seguir! Nós vamos ensinar a esses bandidos uma lição sem a ajuda de algum deus estranho.
Essa, Horace e Halt observaram, era uma posição popular. A maioria da multidão, incerta de que caminho ir atrás, seguiu este exemplo ansiosamente. Eles começaram a gritar para Tennyson liderar o caminho. Para levá-los contra os bandidos que estavam atacando o interior. Eles sentiram a força do homem e a autoridade. O canto cresceu, tornando-se mais forte e mais insistente quanto mais pessoas se juntaram.
— Nenhum deus! Nenhum rei! Tennyson! Nenhum deus! Nenhum rei! Tennyson!
Tennyson sorriu ao redor da massa de rostos, muitos deles agora vermelhos da excitação e da paixão do momento.
— Povo, vocês me honram. Mas eu vos digo, eu não sou ele!
— Sim, você é!  gritou uma voz solitária e vários outros levantaram um coro irregular de acordo. Mas a maioria sentou-se, quieta agora, olhando para ele.
— Não. Por favor, acreditem em mim. Eu não sou líder de guerra. Qualquer força em mim vem de Alseiass, o Deus do Ouro. Aquele que tudo vê. Acreditem em mim.
Halt inclinou-se para Horace novamente e sussurrou:
— Meu Deus, ele é bom. Ele poderia ter tomado as rédeas e se oferecido para levá-los.
— Então por que ele não o fez?  Horace perguntou.
Halt mordeu o lábio, pensativo.
— Ele precisa de um maior prestígio do que ele vai ter de algumas centenas de aldeões excitantes. Ele está assumindo o papel de um rei. Precisa de algo grande, algo sobrenatural. Ele precisa deles para acreditar nesse seu Deus.
Mas agora Tennyson tinha descido do palanque que ele estava falando e se aproximado da primeira fila da multidão. Ele falou-lhes com cordialidade e simpatia conforme andou entre eles.
— Eu prometi-lhe quando cheguei aqui que eu não iria tentar forçar meu Deus sobre vós  disse ele em um tom razoável. — Já tentei fazer isso?
Ele estendeu as mãos em questão e olhou para os lados. Halt e Horace podiam ver cabeças balançando as pessoas concordando com ele.
— Não. Eu não fiz. Porque essa não é maneira de Alseiass. Ele não se força em cima de você. Se você tiver outros deuses que prefere, com Deus ou não, ele não te condena. Ele respeita o direito de decidir, sem ser perseguido ou intimidado.
— Método interessante  Halt disse suavemente. — A maioria dos evangelistas ameaçam a fogo e enxofre se você não aceitar os seus ensinamentos.
— Mas eu conheço o poder de Alseiass  Tennyson continuou. — E lhe digo isto: se você é ou não seu seguidor, ele pode protegê-lo. E ele irá protegê-lo. Eu sou simplesmente o canal para ele. Lembre-se, Alseiass ama. E porque ele o faz, respeita o seu direito de discordar de mim. Mas se você precisa dele e eu convidá-lo, ele chegará com o poder como você nunca viu.
O campo ficou em silêncio agora, enquanto ele caminhava entre a multidão. Aqueles na frente se viraram para observá-lo enquanto ele passava.
— E então, se você vê o seu poder e compaixão, e deseja voltar para ele e se juntar à nosso grupo, então Alseiass o fará duplamente bem-vindo.
— Bem dito, Tennyson!  uma mulher gritou e ele sorriu para ela.
— Mas vamos esperar que ele não venha para isso  disse. — Vamos todos esperar que esta bonita vila de vocês continue a ser um refúgio de paz e Alseiass não precise ser chamado para protegê-la.
Houve um murmúrio na multidão. Horace sentiu uma sensação de contentamento naqueles ao seu redor. Era uma proposta interessante que Tennyson tinha colocado: “Você não tem que acreditar em meu deus. Mas se o perigo chegar, ele vai protegê-lo apesar de tudo”. Foi o que ele tinha ouvido descrito como uma situação de total vitória.
Aos poucos, a multidão começou a se romper, quando Tennyson, mais uma vez parou para conversar com indivíduos e pequenos grupos.
Horace chamou a atenção de Halt.
— Você acha que Alseiass será chamado para manter a paz desta bonita aldeia?
Halt deixou um canto da boca se transformar em um sorriso cínico.
— Eu apostaria minha vida nisso.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)