29 de dezembro de 2016

Capítulo 22

A floresta parecia uma extensa área morta, mas, como Halt havia previsto, havia um matagal recentemente estabelecido nos troncos cinza. Enquanto Will se afastava silenciosamente do sólido abrigo fornecido pela árvore caída, ele encontrou uma nova variedade.
Uma trilha de gavinhas da videira encontrou o seu caminho até uma das árvores antigas da floresta, em espiral ao longo de um galho morto, em seguida, permitiu que sua ponta caísse em direção ao caminho. Ele roçou-a quando passou a árvore que foi o seu abrigo. Imediatamente, quatro dos espinhos em forma de gancho se prenderam no material da sua capa, segurando a capa e Will firmemente no lugar. Will soltou um xingamento em voz baixa. Ele não tinha tempo para lidar com essa demora, mas não tinha escolha.
Estendeu sua mão para trás e pegou pedaço da capa. Delicadamente, no começo, e em seguida, com mais força, ele tentou puxar a roupa livre da furiosa videira. No começo, Will achou que teria sucesso, pois sentiu a videira ceder um pouco, mas era apenas a elasticidade natural da videira sendo testada. Então ela ficou totalmente esticada e ele ainda estava preso. Na verdade, Will percebera que agora estavam mais presos ainda, seus movimentos fizeram os espinhos irem mais fundo ainda na roupa.
Pior ainda era o fato de que a videira espinhenta o mantinha em uma posição meio agachada.
Não tinha saída. Ele teria que tirar a capa e cortar a videira. Preso por trás como estava, não conseguia alcançar a irritante trepadeira. Isso significava que ele teria que tirar sua aljava, que vestia sobre a capa e depois tirar a capa em si.
Tudo isso significava mais movimentos, que poderiam entregar sua posição para os assassinos que o aguardavam em uma armadilha mais adiante. Will xingou em voz baixa novamente. Vagarosamente, com extremo cuidado, ele passou a alça da sua aljava sobre sua cabeça e colocou-a de lado. Soltando o fecho que prendia a capa ao seu pescoço, ele soltou-se da capa.
“Depressa!”, ele pensou “Halt está dependendo de você estar em posição!”
Mas ele resistiu ao pânico e moveu-se com uma paciência interminável, sabendo que um movimento apressado poderia traí-lo. Estava sem a capa agora, e sacou sua faca de caça. Will cortou a vinha facilmente com a lâmina afiada e vagarosamente, a capa amontoada em suas mãos, caiu ao chão.
Ainda mantendo os movimentos dolorosamente lentos, ele recolocou a capa. Por um momento considerou deixá-la para trás, mas a camuflagem extra que ela proporcionava decidiu por ele. Passou a alça da aljava sobre sua cabeça e ajeitou-a com as flechas nos seus ombros, ajustando a aba da capa que cobria as penas de suas flechas. Colocou o fio no seu arco e estava pronto para continuar.
Ele deu uma olhada para trás, pelo caminho que veio. Nenhum sinal de movimento, de que havia sido visto. Afinal, ele pensou, o primeiro sinal disso seria possivelmente uma seta de uma besta.
Ele teve que assumir que não havia sido detectado e seguiu adiante, andando agachado agora, sempre perto do chão, andando de uma cobertura para a outra. Diversas vezes desviou-se do caminho mais rápido para evitar mais das “inocentes” videiras. “Aprendi essa lição do jeito difícil”, ele pensou.
Quando achou que tinha ido uns 70 metros à esquerda, virou-se um pouco para a direita para ficar paralelo ao caminho que Halt estava seguindo. Se fosse mais longe, não conseguiria fazer nada caso algo acontecesse. A densidade das árvores o impediria de ver qualquer coisa. E conforme andava, Will foi angulando em direção ao caminho que seu mentor pegou.
Caminhava ereto agora, trocando a camuflagem pela velocidade, torcendo para que conseguisse compensar o tempo perdido com a videira. A essa distância, ele podia arriscar isso. A não ser que ele e Halt estivessem completamente errados, os assassinos estavam agora a sua direita, no mesmo lado do caminho e olhando para o outro lado.
Seu maior inimigo era o barulho e ele andava sobre o manto de galhos, cuidando para não quebrar nenhum e chamar a atenção para si. Cinquenta metros à direita ele percebeu uma mudança na floresta, as árvores eram mais espaçadas umas das outras e seus troncos consideravelmente mais finos. Moveu-se para um novo ponto de vantagem e estudava o terreno detrás de uma árvore.
Nenhum movimento. Mas seus instintos lhe diziam que este era o local certo. Andou uns 5 metros para frente e se escondeu atrás de outra árvore, nunca tirando os olhos da área onde as árvores ficaram mais finas.
Will tinha até levantado seu pé direito quando percebeu uma movimentação rápida e parou completamente. Esperando, o pé ainda levantado, olhos examinando as árvores cinzentas, esperando para ver se haveria outra movimentação.
Então ele os viu. E depois que os viu, ficou imaginando como não havia os visto antes. Tinha que admitir, no entanto, que o fraco púrpura das capas misturava-se bem ao ambiente sombrio da floresta.
Ele sorriu sombriamente. Foi o movimento que os traiu. Mova-se e certamente será visto. Halt o disse certa vez quando treinavam.
“Você tinha razão, Halt”, pensou silenciosamente.
Como esperava, os dois assassinos estavam agachados atrás de um tronco de árvore morto. Aumentaram a altura do tronco adicionando uma pilha de galhos mortos, criando uma barreira maior, mas que ainda passaria despercebida. Ambos os homens tinham suas bestas apoiadas no topo da barreira. Eles estavam de lado para Will, olhando fixamente num ponto a uns 30 metros de onde estavam.
Will seguiu a linha de visão deles, mas não conseguiu enxergar nada. Possivelmente foi onde eles avistaram Halt, e onde ele se escondeu, pensou ele.
Ouviu um som – um corpo movendo-se rapidamente, seguido do barulho de galhos se quebrando. Parecia vir do lugar que eles estavam olhando e um deles chegou a se levantar um pouco sobre a barreira, sua besta pronta e procurando um alvo.
As árvores serviam como um escudo entre ele e os genoveses. Estava mais longe deles do que gostaria de estar. Se tivesse que atirar uma flecha, provavelmente a flecha acertaria uma de dúzias de galhos que estavam no caminho. Estimou que estivesse 60 metros distante do caminho principal, e que precisava chegar mais perto para ter um tiro certeiro.
O que quer que tenha se movido momentos antes agora tinha capturado toda a atenção dos assassinos e, a não ser que Will pisasse em um galho, era praticamente impossível que eles o vissem. Will tirou uma flecha da sua aljava e a preparou no arco e começou seu caminho, silencioso como uma raposa, saindo da árvore que o protegia e em direção aos genoveses.
Cinco metros. Dez metros. Mais cinco metros. Ainda assim eles mantiveram toda sua atenção nas árvores do caminho principal. Se não estivessem prestando tanta atenção, provavelmente o teriam visto na visão periférica. Will se aproximava em ângulo, não diretamente às costas deles, mas sabia que pela linguagem dos seus corpos eles tinham toda a atenção focada em outro lugar. Eram como dois cães de caça, seus corpos tremendo de excitação como quando sentem o cheiro de sua presa pela primeira vez.
Mais um passo. Sinta o galho embaixo do pé, use os dedos para mover o galho sem quebrá-lo, verifique se seu pé está em piso firme agora e somente depois, mova seu peso para o pé em questão. Comece o processo novamente. As árvores não eram tão densas agora e não serviam tanto como obstáculo entre Will e os assassinos, em mais alguns passos ele estaria...
Halt se levantou.
Não houve aviso nenhum, em um momento, a floresta parecia vazia, e no momento seguinte, o arqueiro de barba acinzentada apareceu do chão com seu arco pronto e uma flecha já preparada.
Will escutou um grito de surpresa de um dos dois homens, viu Halt mudar sua posição levemente conforme o som revelou a posição do assassino. Ambas as bestas ergueram-se um pouco e Will atirou sua flecha no homem que estava mais perto. Enquanto fazia isso, escutou o barulho da corda do arco de Halt, seguido de perto pelo barulho da corda batendo no parador do arco.
A primeira seta errou completamente o alvo. Tinha sido disparada pelo genovês que Will tinha escolhido como alvo e no segundo antes dele apertar o gatilho, a flecha de Will o acertou, atirando-o de lado, em direção ao seu companheiro e fazendo-o perder a mira. Aí a flecha de Halt o acertou no peito e ele apertou o gatilho já morto, enquanto caía para trás. Um galho saindo de um tronco o segurou meio em pé, estirado.
Will xingou ao perceber que haviam cometido um erro perigosamente amador. Ambos haviam escolhido o mesmo alvo, deixando um dos genoveses ileso e parcialmente camuflado pelo seu companheiro morto. Viu a besta virar em sua direção agora. Atirou uma flecha a esmo, percebeu que errou e voltou a se esconder atrás da árvore. Ouviu Halt atirar novamente, sua flecha rebatendo em uma das árvores ao redor. Então uma seta arrancou um pedaço da árvore que Will usava pra se proteger, indo parar entre os galhos mortos no chão sem causar dano nenhum.
“Duas bestas, dois tiros” Will pensou exultante. “Agora nós pegamos ele”.
Saindo de seu esconderijo pelo outro lado, Will ficou com a boca seca ao perceber o genovês apontar outra besta na direção de Halt, ouviu o barulho da corda soltando. Halt o havia alertado que os assassinos poderiam ter mais de uma besta pronta para atirar e estava certo.
Então o coração de Will parou ao escutar o barulho mais aterrorizante que jamais havia escutado em sua curta vida: o grito de dor de Halt, seguido pelo barulho de seu arco caindo ao chão.
― Halt! ― gritou.
Os assassinos completamente fora de seus pensamentos no momento. Procurou em vão, olhando na direção onde Halt havia aparecido, mas não havia sinal dele agora. Halt havia caído, havia sido atingido e caído.
Ouviu um movimento súbito, virou-se e viu o genovês desaparecer sob a proteção das árvores. Não era mais visível a não ser por um breve movimento púrpura no meio dos troncos das árvores. Will atirou três flechas na direção do movimento, ouvindo-as acertar três árvores. Ouviu então o barulho de cascos de cavalo. Os assassinos logicamente haviam preparado uma rota de fuga, não havendo chance de alcançá-lo agora.
Não havia necessidade de silêncio ou camuflagem agora. Will correu para o local onde vira Halt pela última vez, quebrando galhos e folhas ao longo do caminho, passando pelas malditas videiras quando elas apareciam na sua frente e tentavam impedir de seguir adiante.
Seu coração bateu mais forte ao ver o arqueiro no chão, sua capa manchada de sangue fresco, parecendo estar muito molhada.
― Halt! ― Ele gritou sua voz falhando de medo. ― Está tudo bem?

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Boa leitura :)