9 de dezembro de 2016

Capítulo 22

Amy mexeu nos controles com a confiança e facilidade de um piloto experiente.
Na cabine de monitoramento, a supervisora ​​assistia ao vídeo.
— De jeito nenhum essa moça não voou antes — disse ele a Jake, que se agitava desconfortavelmente na cadeira ao lado. — Ela é um ás!
O simulador de voo ficava localizado no campus do Massachusetts Institute of Tecnologia, e o instrutor era um antigo membro da Escola de Treinamento de Pilotos da Marinha. O homem nunca teria se incomodado com uma piloto novata, ainda mais uma civil. Mas o Almirante McAllister devia a Eisenhower Holt – o pai de Hamilton – um favor.
Os Cahill, refletiu Jake, pareciam ter uma infinidade de favores a cobrar em todo o mundo.
Através do vidro, o simulador inclinou-se para frente e endireitou-se enquanto Amy colocava o “avião” em um mergulho e, em seguida, estabilizou-o.
O instrutor assobiou de admiração.
— Excepcional! Conheço pilotos de teste que não puderam igualar as pontuações da sua namorada!
Jake estremeceu. Toda palavra de louvor caía sobre ele como um golpe de martelo. Ele esperara que Amy tomasse bomba, então ela poderia receber o antídoto imediatamente e deixar Nellie pilotar.
— Ela não é minha namorada — ele murmurou alto.
— Okay, certo. Eu vi a maneira como vocês dois se olham — o homem falou no microfone de comunicação: — Você está indo bem. Agora vire para a esquerda e vá para cinco mil pés. Excelente.
— Captei. — Amy executou a manobra sem falhas.
Jake olhou tristemente. Ela nunca concordaria com a injeção agora. O soro estava lhe fazendo muito bem.
O instrutor o olhou com espanto.
— Qual é o seu problema? Ela está acabando com tudo, e você tem uma expressão no rosto como seu cão tivesse acabado de morrer.
— Eu tenho que sair daqui — Jake gemeu. — Existe algum lugar onde eu possa arranjar uma xícara de café?
— A cafeteria fica no corredor à esquerda. Traga-me um chá gelado, sim?
Uma vez no corredor, Jake se encolheu contra a parede. Ele costumava pensar que nada poderia ser pior do que testemunhar a deterioração de Amy sem nenhum antídoto à vista.
Agora o antídoto estava mais do que à vista – estava em suas mãos! E ainda assim Amy o recusou.
Ele estava errado antes. Isto era pior.

* * *

O instrutor viu Jake saindo pela porta, depois se virou para o monitor. A menina estava tão focada e no controle que ele mal prestava atenção agora. Mas o que viu em seguida fez com que se pusesse de pé. Os olhos de Amy reviraram em sua cabeça. Seu corpo endureceu, as mãos ainda agarrando o controle, seus braços tremendo.
Ele não era um médico e não poderia explicar o que estava acontecendo com ela. Uma coisa, no entanto, era óbvia. Se Amy estivesse voando num avião de verdade e não num simulador, o resultado teria sido uma parada de motor, uma queda acentuada, uma explosão de fogo e uma busca pela caixa preta para descobrir o que dera errado.
Ele apertou o botão ABORTAR e correu até a rampa para o simulador. A porta tinha se aberto automaticamente, proporcionando uma visão de Amy caída sobre os controles. Ele puxou-a de volta contra o assento e deu batidinhas suaves em suas bochechas pálidas.
— Ok, menina. Volte. Você está bem.
Amy abriu as pálpebras.
— O que...?
— Diga-me você. Você desmaiou e caiu em cima dos controles.
Ela franziu o cenho.
— Jake... o rapaz que veio comigo... ele viu?
O homem sacudiu a cabeça.
— Ele saiu para tomar um café.
Ela trincou a mandíbula.
— Ele não pode descobrir. Nem uma palavra, ok?
— Não é da minha conta — concordou ele. — Mas você não deve voar, ou mesmo tomar lições. Não até que um médico a libere primeiro. Você não pode correr o risco de que o que aconteceu hoje aconteça quando realmente estiver lá em cima. Compreendeu?
Ela assentiu, entendendo perfeitamente.
O instrutor não era um Cahill. O que significava que ele nem sequer sabia o significado da palavra risco.

* * *

Dan sentiu os ouvidos estalarem quando o elevador de alta velocidade levou-o até o trigésimo sétimo andar, onde tia Beatrice morava em uma luxuosa cobertura.
Lindo, ele pensou em desgosto. Quando ela era nossa guardiã, nos manteve num alugado barato, despejando uma série de au pairs sobre nós. Ele sorriu. Ele não podia se arrepender dessa parte, já que isso trouxera Nellie para suas vidas.
A decoração de mármore do corredor lembrou Dan de Roma, apenas mais recente, e com flores frescas em todos os lugares. Os Cahill tinham muito dinheiro, mas Dan sentiu-se ressentido por sua tia-avó – que não dava a mínima para a família – compartilhar tão generosamente dessa parte.
Outro residente lhe lançou um olhar feio quando passaram pelo corredor, o nariz do homem enrugando-se. Provavelmente não gosta de crianças, Dan refletiu antes de se lembrar que o pacote que carregava muito provavelmente não tinha o melhor cheiro. Já estava meio arrependido de ter ido até ali, e ainda não tinha batido na porta.
E então ali estava ela, a tia Beatrice, em seus meados dos oitenta anos. Ela deu um passo para trás para permitir que ele entrasse, apresentando sua bochecha enrugada e rouca para ser beijada.
De certa forma, ela se parecia com sua irmã mais nova, a avó de Dan, Grace, tirando a inteligência, a animação e o bom humor. Os olhos de Grace eram como fogos de artifício gêmeos do quatro de julho, seu sorriso completamente cativante. Os olhos de tia Beatrice pareciam duas ameixas cozidas, e ela nunca sorria.
— Você não cresceu muito — observou a velha senhora, como se ele tivesse ficado baixo de propósito.
— É bom vê-la também — Dan respondeu, espiando pelo apartamento palaciano em busca daquele que ele realmente tinha vindo visitar.
Finalmente, ele recebeu a saudação que estava esperando. Um mau egípcio prateado vagueou para fora da cozinha, o rabo erguido.
— Mrrrp.
— Saladin! — Dan ficou muito feliz ao ver o gato de Grace – tecnicamente, o gato de Amy e Dan por herança. Saladin trotou e apresentou sua nobre cabeça para ser acariciada. Dan começou a desembrulhar seu pacote. — Eu lhe trouxe anchova fresca. Quincy Market – a coisa boa.
Ao sentir o cheiro de peixe, Saladin se esfregou os jeans de Dan, cutucando-o na direção da cozinha e da tigela de comida.
— Seu gato foi horrível, a propósito — Tia Beatrice falou da sala de estar. — O ronronar infernal me mantém acordada a noite toda, e não me faça falar daquela horrível caixa de areia.
— Você troca toda semana? — Dan perguntou.
— Claro que não. É por isso que escolho não manter animais no apartamento – assim não tenho que lidar com essas coisas mal-humoradas. Eu simplesmente não entendo por que você e sua irmã não podem levá-lo!
Dan teve uma visão do pobre Saladin lutando por sua vida contra um crocodilo cambojano perseguindo-o.
— Grace teria desejado isso desse jeito.
Ele estava colocando a anchova na tigela quando ouviu outra voz. Esta pertencia à última pessoa que ele esperava encontrar em uma casa Cahill.
— Todo o problema com as Nações Unidas é que há muitos estrangeiros!
A cabeça de Dan se ergueu.
— Pierce? — exclamou ele, perplexo.
Através da porta da cozinha, ele podia ver a TV sintonizada na CNN – Pierce, no palco, discursando para uma multidão adoradora.
— É seu último grande discurso antes do churrasco-de-amêijoas — tia Beatrice falou, entusiasmada. — Juro, se eu fosse uma mulher mais jovem, eu iria para Pierce Landing mostrar meu apoio em pessoa.
Não era irônico? Ela era uma devota de Pierce.
— Olhe para a querida Debi Ann — continuou a velha senhora, cheia de admiração. — Sempre ao seu lado, tão fiel. Que perfeita primeira dama ela será. Ela é sua prima, sabe.
— Conheci os filhos dela — comentou Dan. — Nossa, ela é uma para dois.
Tia Beatrice nem sequer o ouviu.
— Eles têm um casamento perfeito. Estou tão feliz que Rutherford tenha encontrado Debi Ann depois daquela paixão tola por Hope.
— Hope? — Dan se engasgou. A mera menção do nome de sua mãe apertava-lhe o coração. — Você quer dizer mamãe? Ela namorava Pierce?
Ele estremeceu, não querendo deixar sua visão de Pierce manchar os pequenos fragmentos de memória que ele carregava de sua mãe.
— Ele estava apaixonado por ela, pobre homem. Mas ela só tinha olhos para aquele terrível Arthur Trent.
Dan olhou para ela.
— Esse “terrível Arthur Trent” era meu pai.
— Hope era tão obstinada – como a mãe — comentou a velha senhora. — Ela era sonhadora para apreciar um caráter genuíno como o de Rutherford.
De repente, Dan decidiu que tivera tudo o que podia aguentar da companhia de sua tia-avó.
— Acho que é melhor eu ir. Prazer em te ver, tia Beatrice. Fique em paz, Saladin.
— Foi maravilhoso que tenha vindo — respondeu a velha senhora formalmente, como se falasse com um estranho. — No fundo você sempre foi um bom garoto. É uma pena que sua irmã não compartilhe do seu senso de responsabilidade.
Dan viu vermelho.
— Não diga isso! — como essa mulher que tinha tanto calor e humanidade quanto o peixe fresco de Saladin ousava desprezar Amy, que carregava os problemas do mundo inteiro sobre seus ombros? — Amy tem mais senso de responsabilidade do que qualquer um que eu conheço! Ela dedicou toda a sua vida a esta família, da mesma forma que Grace sempre fez, talvez até mais! Ela não veio comigo porque ela não podia! Ela está doente... — sua voz quebrou. — Realmente doente.
Pela primeira vez, sua tia-avó parecia genuinamente preocupada.
— O que há de errado com ela?
Dan estava à beira das lágrimas. Ele estava se segurando para lidar com a situação de Amy. Mas ter que falar sobre isso era quase mais do que ele podia aguentar.
— É... uma rara condição...
— Traga-a para mim — insistiu a velha. — Vou levá-la ao meu médico pessoal.
— Eu... eu tenho que ir! — ele fugiu, pegando as escadas para descer os trinta e sete andares, de modo que sua tia idosa não pudesse segui-lo.

* * *

Da mansão em Pierce Landing, a distante costa de Maine era nada mais que uma faixa de roxa que cobria o infinito Atlântico azul.
Cara saiu da casa de seus pais e estava no pátio de pedra observando o sol se pondo no horizonte. A torre do farol se acendeu.
— América — veio uma voz atrás dela. — A partir de amanhã, ela será nossa.
Seu pai saiu para se juntar a ela, colocando um braço ao redor de seus ombros.
Ela riu.
— Você não vai invadi-la, vai concorrer à presidência.
— Não tem diferença — disse ele. — Tudo o que se faz nesta vida, cada empreendimento, cada objetivo que você define é um tipo de batalha. E você pode ganhar ou perder. Nunca esqueça disso, Cara. Não importa quão grande seja sua posição, perder é sempre uma possibilidade.
— senhor nunca perde.
— Uma vez — ele admitiu, seus olhos enevoando-se à memória de Hope Cahill. — Mas isso foi muito tempo atrás. E eu quero que você saiba que a presidência é apenas o começo. Um dia, nós, Pierce, tomaremos nosso lugar como líderes de uma família de nações nunca antes vista neste planeta. Eu fiz o nosso destino.
— Uma coisa de cada vez. Certo, pai?
Ele sorriu para ela.
— Pratica como sempre. Eu preciso de alguém como você – alguém que entenda que todo grande projeto deve ser implementado em um passo de cada vez. Estive observando-a nas últimas semanas.
Ela ficou tensa por um momento. Observando-a? O que ele tinha visto? O que ele sabia?
— Sempre foi entendido que seu irmão me sucederia, mas ultimamente tenho me perguntado se ele tem o necessário. Há muito da mamãe nele. Não precisamos de mais ursinhos de pelúcia; precisamos de determinação! A maneira como ele lidou com as coisas no Camboja...
— Aqueles Cahill não devem ser subestimados — ela ofereceu em defesa de Galt. Cara sabia que seu irmão mal podia suportá-la, e o sentimento era bastante mútuo. Mas era difícil crescer à sombra de um homem implacável como ele – e ainda mais difícil para Galt, que era o menino com os cabelos claros de papai, e agora parecia ter perdido o status de mais favorecido.
— Eu sei — Pierce suspirou. — Eu lembro da mãe deles. Mas você – você é uma verdadeira Pierce. Não vá valsar com um belo jovem, porque tenho um grande futuro em mente para você — o sol escorregou atrás da faixa do continente, deixando-os no crepúsculo. — Isto pode parecer pacífico agora, mas apenas espere até amanhã. Barcos, helicópteros – as coisas estão se juntando. Todos que são alguém virão aqui. Esta pequena ilha será o centro do universo.
Ela experimentou um lampejo de arrependimento. Ele Ainda era seu pai. E, à sua maneira, ele a amava.
— O senhor realmente acha que pode ganhar? A presidência, quero dizer?
Ele lhe lançou um sorriso enigmático.
— Grandes coisas vêm em pequenos pacotes.
Algo sobre o modo como ele disse isso a preocupou. Foi malicioso, mas também ominoso – o tom de um brincalhão cuja brincadeira é algo realmente terrível.
Ela tentou esconder suas dúvidas para entendê-lo.
— Nosso futuro presidente conversa em enigmas, pai? — ela repreendeu.
— Grandes coisas vêm em pequenos pacotes — ele repetiu. — E eu tenho seis, escondidos por toda parte no globo. Não se preocupe, você saberá em breve. O mundo inteiro saberá em breve.
Seu pai não revelaria seu plano torto, fosse o que fosse.
Cara travou o maxilar. Ele estava certo num ponto, embora. Ela era uma verdadeira Pierce. E os Pierce não hesitavam em fazer o que devia ser feito.

Um comentário:

  1. " Já estava meio arrependido de ter ido até aço"
    Não seria "até ali"?

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Boa leitura :)