29 de dezembro de 2016

Capítulo 21

Os olhos de Halt eram fendas em consequência da concentração conforme ele se movia para frente entre as árvores, seguindo o caminho estreito e indistinto, analisando constantemente seu caminho, no chão, para os lados e em frente. Ele notou com um sorriso sarcástico, as pistas ocasionais deixadas pelos homens que seguia – um pedaço de pano jogado ocasionalmente em um galho, uma muito óbvia pegada no chão. Ele manteve-se pretensamente olhando estes sinais e seguindo as trilhas que tinham deixado. Não deixaria que sua presa soubesse que ele estava a par de seu pequeno jogo, pensou.
O chão estava recheado de galhos e mais galhos mortos que o vento tinha arrancado das árvores e jogado no chão da floresta. Eles formavam um quase contínuo tapete debaixo de seus pés, hábil como era em se mover em silêncio, porém, mesmo Halt não podia evitar algum ruído de estalo dos galhos rachando entre seus pés e o chão macio. Ele podia fazê-lo, se movendo muito lentamente, testando o chão pé a pé antes de colocar seu peso sobre ele. Mas se mover lentamente era uma opção perigosa. Ele precisava de velocidade. Movendo-se rapidamente, se tornava indistinto, um borrão cinza deslizando entre os troncos nus – o que faria dele um alvo mais difícil. Além disso, não havia muito sentido se mover em silêncio. Ele queria que os genoveses soubessem que estava aqui.
Ele escorregou para a cobertura de um tronco grosso e cinzento. Havia muitos anos que as árvores tinham se afogado, algum mato já tomava conta do chão da floresta e alguns pequenos arbustos haviam se estabelecido sobre a base das árvores mortas. As folhas verdes e os troncos cinzentos se misturavam com as cores da sua capa e colaboravam para escondê-lo.
Ele se agachou observando a floresta à sua frente. Longos anos de treinamento garantiam que sua cabeça mal se movesse enquanto seus olhos iam de um lado a outro, buscando, testando, consciente de mudar o foco de sua análise de perto para as profundezas da floresta. Seu rosto permanecia na sombra do fundo de seu capuz. Se os genoveses estivessem olhando, veriam um rápido movimento atrás da árvore. Mas agora eles o teriam perdido de vista enquanto se misturava com a paisagem e se ele não se movesse ficariam incertos se ainda estava lá ou não.
Isso significava que eles estariam procurando por ele, e não por Will. Ele sentiu uma cruel sensação de satisfação, sabendo que Will estaria chegando por trás. Halt imaginava agora que Will teria começado a se mover, serpenteando para longe dos três troncos de árvore que os haviam abrigado a pouco, arrastando-se de bruços ao longo da vala rasa para o abrigo do tronco caído.
Ele não conseguia pensar em qualquer outra pessoa melhor para estar com ele. Gilan, talvez. Suas habilidades de se mover em silêncio eram incomparáveis entre os arqueiros. Claro, talvez Crowley, seu velho camarada.
Mas, por mais hábil que ambos fossem, ele sabia que Will seria sua primeira escolha. Crowley era experiente e calmo sob pressão. Mas ele não poderia se comparar a se mover tão invisível quanto Will. Gilan poderia ser mais silencioso que Will, não muito mais é claro. E Will tem uma vantagem sobre Gilan. Sua mente trabalha mais rápido e ele podia ver alternativas não-convencionais antes do que Gilan. Se acontecesse algo inesperado, ele sabia que Will poderia agir por iniciativa própria e dar a melhor solução para o assunto. De maneira nenhuma isso denegria Gilan, pois ele era um dos arqueiros mais qualificados e habilidosos. Só que Will tinha uma ligeira vantagem em tomar uma decisão rápida e acertada. Gilan pensaria um pouco sobre a situação e provavelmente chegaria à mesma conclusão. Em Will, essa habilidade era instintiva.
Havia outro ponto que era muito importante para a presente situação. Halt sabia, embora Will provavelmente não, que seu tiro com o arco era melhor do que o de Crowley ou Gilan. Na verdade, ele pensou com um sorriso, isso poderia se revelar o ponto mais importante nesse momento.
Ele esperou mais alguns segundos, deixou sua respiração e sua frequência cardíaca se acalmarem. Apesar de ele ter falado para Will que já havia feito este tipo de coisa antes, ele não gostava da ideia de ficar intencionalmente se mostrando para o inimigo.
Mover-se assim, como estava fazendo por entre as árvores, ficando na expectativa de receber uma flecha nas costas a qualquer segundo. A ideia de ficar se mostrando para seu inimigo era profundamente contra tudo que havia aprendido em sua formação. Halt preferia se mover sem ninguém vê-lo, ou de nunca ficarem ciente de que ele havia estado ali.
Ele sabia que mesmo nessas condições, somado a proteção de sua capa, seria um alvo ruim. Mas os genoveses eram atiradores qualificados. Seriam mais do que capazes de acertar em um alvo pequeno. É para isso que eles eram tão bem pagos pelas pessoas que os contratavam.
— Você está perdendo tempo — ele murmurou. — Não quer voltar lá de novo, não é?
E a resposta era óbvia. Não. Ele não queria. Mas não havia alternativa. Ele examinou o caminho mais uma vez, calculando sua rota para os próximos cinco ou dez metros, em seguida deslizou rapidamente de seu esconderijo e foi em frente para o labirinto cinza de árvores mortas.


De barriga no chão, usando os cotovelos, tornozelos e joelhos, deslizando para frente e não levantando a cabeça para não denunciar sua posição, Will havia deixado para trás seu esconderijo nas múltiplas árvores mortas. Era uma técnica chamada rastejar de cobra, que ele havia treinado por horas a fio quando aprendiz, deslizando por baixo dos esconderijos, tentando manter-se despercebido do olhar afiado de seu professor. Vez por outra ele sentia que estava começando a dominar a técnica, só para ter o seu ego frustrado por uma voz sarcástica: Será que eu estou vendo um traseiro ossudo aparecendo por entre a grama atrás desta rocha negra? Eu acho que sim. Talvez eu deva colocar uma flecha nele, se o seu dono não ABAIXAR AGORA!
Hoje, é claro, não havia mais o risco da zombaria sarcástica do seu professor. Na situação atual, a vida de Halt e a sua, dependiam de Will manter-se bem abaixado, perto do chão. Ele rastejava lentamente, afastando os ramos e os galhos secos do seu caminho. Ao contrário de Halt, não podia se dar ao luxo de fazer o menor ruído.
Verdade, a floresta era repleta de sons de arranhões, gemidos e rangidos. Mas o som agudo de um galho sendo partido, diria a um ouvinte interessado que alguém estava em movimento por ali.
Perto da terra como estava, sua visão se mantinha focada nas curtas folhas de grama que estavam a apenas alguns centímetros de seu nariz. Seu mundo se tornou um pequeno espaço de pó, grama e galhos cinzas. Assistiu a um pequeno besouro marrom passando apressado a alguns centímetros do seu rosto, o ignorando completamente. Um grupo de formigas marchava firmemente sobre a sua mão esquerda, recusando-se a serem desviadas de seu destino. Deixou-as ir, em seguida moveu-se à frente devagar, afastando um ramo delicadamente para o lado. Fazendo um pequeno ruído, aumentado pelos seus nervos à flor da pele, ele parou por um momento. Então disse a si mesmo que ninguém poderia ter ouvido esse leve barulho, ainda por cima misturado com todos os sons da floresta, então continuou.
Will estava agora a poucos metros de distância da cobertura que a árvore caída fornecia. Uma vez que estivesse por detrás do tronco, poderia se dar ao luxo de mover-se mais rapidamente – e com mais conforto. Não haveria necessidade de manter esta postura de bruços, depois de estar oculto atrás do tronco de um metro de espessura.
Mas por enquanto, ele resistia ao impulso de ir mais depressa até o tronco. Se fizesse isso, poderia colocar todo seu trabalho em risco. Um movimento brusco poderia denunciá-lo. Em vez disso, ele se concentrou nas velhas técnicas que aprendeu sozinho quando aprendiz, buscando a sensação de que seu corpo estava realmente colado no chão, tornando-se consciente de seu peso pressionando a grama áspera, a terra e os gravetos.
Sentia-se completamente vulnerável, porque pela primeira vez ele estava efetivamente desarmado. A fim de rastejar de bruços, ele tirou a corda de seu arco, empurrando-o através de duas pregas em sua capa, feitas exatamente para este propósito. Se tentasse rastejar com o arco montado, o ângulo formado entre a corda e a madeira poderia enroscar em um ramo ou um galho ou até mesmo numa moita. O arco montado também era muito grande, tornando-o susceptível a movimentos bruscos. Agora estava preso firmemente em linha reta ao longo de suas costas, um simples pedaço de madeira de teixo, que agora o acompanhava suavemente sem causar obstruções.
Pela mesma razão, ele inverteu seu cinto, fazendo com que o estojo duplo das facas ficasse nas costas, abaixo da capa. Novamente, isso permitia um progresso suave e silencioso. Porém também significava que se ele fosse descoberto, perderia preciosos segundos tentando pegar suas facas.
Era um contra censo se mover na presença de inimigos desarmado dessa maneira. Em particular, pelo seu arco estar sem corda. Como dizia o velho provérbio arqueiro, um arco sem corda é uma vara de pau. Pareceu uma piada na primeira vez que ouvira, cinco anos atrás. Nesse momento não tinha graça nenhuma.
Finalmente, ele estava entrando no abrigo fornecido pelo tronco caído em posição horizontal à trilha. Permitiu-se um pequeno suspiro de alívio. Não houve gritos de alarme, nem a agonia repentina de um dardo de besta cravado em suas costas. Sentiu a tensão aliviar ao longo de seu corpo. Sem perceber, seus músculos haviam se contraído instintivamente na vã tentativa de aliviar a dor de uma ferida imaginária em suas costas.
Levantando-se vagarosamente – embora não demais – começou a fazer progresso mais rápido. Quando se afastou um pouco, levantou-se com cuidado na posição ereta, deslizou para trás da maior árvore que ele pôde encontrar e colocou a corda em seu arco. Sentiu outro alívio da tensão. Agora, ele não era o único que estava em risco. Os genoveses também.


Halt abaixou-se sobre um joelho, fingindo estudar outra pista deixada intencionalmente pelos genoveses. Na verdade, apesar de sua cabeça abaixada, seus olhos estavam levantados, analisando o emaranhado de troncos cinzentos e sombras na sua frente.
Em resumo, entre as árvores à sua esquerda, ele viu um ligeiro movimento e talvez uma pitada de um maçante roxo entre as sombras. Permaneceu imóvel. Agachado como estava, oferecia um alvo ruim para os besteiros, se de fato estavam lá. A probabilidade era que os assassinos iriam esperar ele se levantar para ter um alvo maior.
Olhou para a esquerda. As árvores que ele havia passado a poucos metros atrás eram estreitas – deveria ser um bosque novo quando foi atingido pelo alagamento. Alguns eram pouco mais do que mudas e nenhum fornecia um esconderijo muito bom.
Ele sorriu sombriamente. Então foi por isso que os genoveses tinham escolhido este lugar para deixar outra pista. Eles saberiam que a pessoa que os estava seguindo iria se ajoelhar aqui para estudar a pista deixada por eles, então teria que se levantar em algum momento.
E nesse momento totalmente vulnerável, ele seria um alvo perfeito para eles. Halt olhou procurando a fonte de movimento e cor roxa novamente, mas não viu nada. Agora fazia sentido. Quando ele parou, o besteiro teria levantado sua arma mirando para o ponto de tiro. Esse foi o pequeno flash de movimento que havia notado. Agora, ele teria que se mover novamente e os besteiros bem treinados estariam esperando que ficasse de pé. Os músculos de Halt estavam tensos se preparando para se mover.
Ele olhou à sua esquerda e viu uma árvore que era minimamente mais espessa do que suas vizinhas, embora não espessa o suficiente para escondê-lo totalmente. No entanto, ele pensou, teria que arriscar. Esperava que Will estivesse agora em posição. Ele olhou para a esquerda algumas vezes – não o suficiente para alertar os genoveses – e não viu nenhum sinal dele.
O que podia significar que ele estava lá. Por outro lado, ele poderia estar atrasado por causa de algum imprevisto. Afinal de contas, também poderiam não estar em nenhum lugar por aqui. Então Halt pensou em Will. Tinha a certeza e segurança de que ele estaria em sua posição. Sem aviso, lançou-se para o lado do joelho dobrado, rolando suavemente para o abrigo parcial da árvore que tinha escolhido. E esperou. Os nervos estavam tensos.
Nada.
Nenhum sombrio som de bestas sendo disparadas. Nenhum zumbido seguido de batidas atrás da árvore. Nada. Só o gemido assustador das árvores mortas que se torciam e se esfregavam umas contra as outras. Isso lhe disse algo. Os genoveses não iam ser enganados a arriscar um tiro apressado apenas por causa de um movimento súbito. Sua disciplina era muito boa e não permitiria isso.
Em contrapartida, pensou, o movimento que havia visto entre as árvores, poderia ser apenas sua imaginação. Afinal de contas, poderia não haver ninguém lá.
No entanto, de alguma forma, ele sabia que os genoveses estavam lá, esperando. Algum sexto sentido lhe dizia que este era o lugar e o momento certo. A combinação de fatores – os indícios evidentes deixados na trilha, as árvores baixas e finas – mostrava que eles estavam a poucos metros dali, esperando para fazer sua próxima jogada. Halt estava deitado atrás da árvore. No momento estava seguro. Mas logo que ficasse de pé, seria visível. Ele olhou ao seu redor. Poderia rastejar até outra árvore, mas a maior estava a uma boa distância. Com todas estas árvores finas, ele estaria exposto se tentasse se mover.
O que era, disse a si mesmo pela segunda vez, o motivo pela qual os genoveses haviam escolhido este local. Não havia mais dúvidas, havia visto mesmo o movimento por entre as árvores. Era um local perfeito para emboscadas. E ele estava em uma situação de desvantagem. Estava relativamente seguro no momento e permaneceria desta maneira enquanto estivesse de barriga no chão. Mas também não podia ver nada.
Ele sabia que se levantasse a cabeça para estudar a situação, estaria se expondo a levar uma flechada bem entre os olhos. Ele estava preso aqui e definitivamente cego. Todas as vantagens estavam com os genoveses. Eles tinham visto aonde tinha ido. Seu movimento brusco rolando para o lado deveria tê-los alertado que a presença deles já era conhecida. Tudo que precisavam fazer era esperar que ele se movesse e depois matá-lo.
Não importa o quanto pensava nisso, a situação não ficava melhor. Se ele permanecesse aqui, mais cedo ou mais tarde, um dos assassinos se deslocaria para o flanco, enquanto o outro mantinha a besta apontada para o local onde ele estava escondido. Lembrou com um humor sombrio da discussão que tivera com Will, apenas uma hora atrás.
Depois do primeiro tiro, todas as vantagens estariam conosco.
Exceto por um pequeno detalhe. Depois do primeiro tiro, ele provavelmente estaria morto.
Halt fechou os olhos e concentrou-se ferozmente. Tinha uma chance, e ela dependia de que Will estivesse em posição atrás dos genoveses. Então, sentiu uma inundação de segurança passando por ele. Will estaria lá porque Halt precisava que estivesse. Estaria lá porque era Will – e ele nunca o havia deixado na mão.
Halt abriu os olhos. Ainda deitado, ele tirou uma flecha de sua aljava e na sequência, colocou-a no seu arco. Em seguida, contraiu seus pés e pernas para baixo do corpo e se agachou. Considerou seu próximo movimento. Todos os seus instintos gritavam para subir lentamente sob seus pés e adiar o momento em que os genoveses iriam puxar o gatilho. Mas ele descartou o pensamento. Um movimento lento simplesmente daria aos genoveses mais tempo para alinhar sua mira.
Um movimento brusco pode assustá-los e levá-los a apressar seu tiro. Não era provável, admitiu para si mesmo. Mas era possível. E esta seria a melhor escolha.
— Espero que você esteja aí, Will — ele murmurou para si mesmo.
Então, arremessou-se sobre os seus pés, arco na mão e corda puxada, buscando desesperadamente por algum sinal, algum lampejo de movimento por entre as árvores.

5 comentários:

  1. Esse últimos capítulos tem sido tenso.

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    1. Verdade, David, mas eu to amando kkkkkk

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    2. É muito suspense pra metade do livro

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  2. To morrendo aqui! Imagina como seria a vida do Will se ele errasse o tiro, ou n estivesse preparado, e alguma coisa acontecesse com o Halt? Acabava a vida.

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Boa leitura :)