18 de dezembro de 2016

Capítulo 21

A tempestade passou por cima deles. Will não tinha ideia de quanto tempo ela os agrediu, gritou para eles, os torturou. Devem ter sido horas. Mas, eventualmente, ela passou.
Enquanto se enfurecia ao redor deles, era como se seus sentidos desligassem então ele estava consciente apenas dos gritos atormentadores da voz do vento. No silêncio repentino que saudou sua passagem, ele tomou conhecimento de outras sensações.
Havia algo pesado atravessando suas pernas e corpo, e na parte superior do manto que Selethen tinha puxado sobre suas cabeças. Ele sentiu Selethen movendo e se contorceu, lutando contra o comprimido peso também, percebendo que era de areia empilhada sobre eles, jogada lá pelo vento furioso.
Selethen tossiu ao lado dele e conseguiu jogar um canto da capa clara. Areia suja amarelo-marrom em cascata sobre os dois. Will rolou e empurrou o manto longe de seu próprio rosto, conseguindo olhar para si mesmo.
Não havia nenhum sinal de seu corpo ou nas pernas. Não era nada mais que um monte de areia. Ele se esforçou para sentar-se, jogando areia longe de sua parte inferior do corpo com as mãos. Ao lado dele, ele estava consciente de Selethen fazendo a mesma coisa.
A terra parecia mover-se atrás dele e ele girou ao redor assustado, a tempo de ver o cavalo de Selethen rolando e levantando-se. O garanhão ficou em duas patas fazendo um peso enorme de areia cair perto dos dois homens que tinham se protegido nele. Em seguida, de pé, o cavalo sacudiu-se vigorosamente e mais areia voou.
Will levantou-se para trás no espaço livre deixado pelo corpo do cavalo e sentiu as pernas ficando livres. Com um último esforço, ele quebrou a aderência da areia e cambaleou aos seus pés.
Abaixo deles, no leito do barranco, os outros estavam fazendo o mesmo. Ele podia ver o movimento nas linhas de areia empilhadas que marcavam onde os outros tinham se abrigado. Então, a superfície da areia soltou em uma contagem de pontos, como se em resposta a algum terremoto de menor importância, e os corpos começaram ficar claros.
Protegidos pelo banco, os outros tinham se saído melhor do que ele e Selethen. A cobertura de areia que se estendia entre eles não era tão profunda ou pesada. Mas ainda foi preciso algum esforço para ficarem limpos. Os cavalos, capazes de ficar de costas ao vento e protegidos pelo barranco, estavam em melhor condição. Pelo menos eles não estavam metade enterrados.
Ele olhou em volta para o rosto de Selethen. Estava revestido e incrustado com muita areia amarela. Os olhos, ressecados e doridos, pareciam como buracos em uma máscara grotesca. Will percebeu que ele não deveria estar melhor. O wakir sacudiu a cabeça cansada. Pegou a garrafa de água na sela do cavalo, molhou a ponta de seu kheffiyeh, e começou a limpar a areia amontoada para longe dos olhos do animal, cantando baixinho para ele. A visão do cavalo respondendo com confiança as instruções de seu cavaleiro trouxe uma realização horrível de volta à Will e ele olhou em volta freneticamente, esperando contra toda a esperança que ele iria ver um outro surto na areia – uma corcova que iria transformar-se na forma peluda de Puxão enquanto ele lutava para se levantar.
Mas não havia nada. Puxão tinha ido embora.
Ido a algum lugar na terra inculta do deserto. Will andou poucos passos de distância da extremidade do vale, e tentou chamar o seu nome. Mas a garganta seca e com areia derrotou o esforço e nenhum som saiu. Uma mão tocou seu ombro e ele se virou quando Selethen deu a garrafa de água para ele. Ele tomou um gole, lavou e cuspiu. Em seguida, outro, sentindo a umidade quente embeber os tecidos moles da garganta.
Ele percebeu que Selethen não tinha bebido ainda e entregou a garrafa de água de volta para ele, viu quando ele gargarejou, cuspiu, em seguida, tomou um gole ou dois si mesmo. Finalmente, ele abaixou a garrafa.
— Você...está...bem? — perguntou ele hesitante.
Will balançou a cabeça, apontando vagamente para o deserto para trás.
— Puxão — disse miseravelmente.
Então ele não pôde dizer mais nada. Ele ouviu botas escorregando e deslizando na areia e se virou para ver Halt escalar cansadamente até o barranco. Seu rosto estava coberto por crostas amarelas também. Seus olhos estavam avermelhados e doloridos.
— Você está bem? — ele repetiu a pergunta de Selethen.
Então, seus olhos correram de um lado para outro e um olhar horrorizado veio sobre o rosto.
— Onde está Puxão? — perguntou ele com medo.
Will inclinou a cabeça a ele, sentindo as lágrimas tentando se formar. Mas, como antes, seu corpo não tinha umidade para lhes permitir.
— Sumiu — disse ele amargamente.
Ele conseguiu apenas uma palavra. Ele acenou com a mão para o deserto.
— Sumiu? — Halt o ecoou. — Sumiu onde? Como?
— O cavalo entrou em pânico e se soltou no vento — Selethen lhe disse.
Will olhou para Halt, os olhos assombrados, sacudindo a cabeça.
— Eu o perdi! — ele deixou escapar. — Eu larguei as rédeas! A culpa é minha... minha culpa!
Ele sentiu os braços Halt irem ao redor dele, sentiu-se puxado para o abraço do homem mais velho. Mas não havia nenhum sentimento de conforto para Will. Não havia nenhuma maneira que qualquer um pudesse diminuir a dor que ele sentia. Seu cavalo, seu amado Puxão, tinha ido embora. E ele tinha sido aquele que largou as rédeas do pequeno cavalo. Ele tinha falhado com Puxão quando seu amigo estava em pânico e com medo e quando mais necessitava de ajuda e apoio de seu mestre.
E, finalmente, as lágrimas vieram, estrias correndo através da poeira amarela, que cobria seu rosto quando ele colocou a cabeça no ombro de Halt e chorou copiosamente. Vagamente, ouviu as vozes dos seus amigos quando eles se reuniram em torno, as questões que estavam perguntando e terrivelmente, a resposta final, horrível que Halt lhes deu.
— Puxão se foi.
Três palavras. Três palavras que os silenciaram imediatamente. Gilan, Horace e Evanlyn sabiam o quanto o pequeno cavalo significava para Will. Eles sabiam da relação especial que se formava entre um arqueiro e seu cavalo. E enquanto Svengal realmente não poderia apreciá-la, ele equiparou ao sentido do sofrimento que um escandinavo sentiria a perda de seu navio e ele entristeceu por seu amigo.
Vagamente, Will ouviu as expressões de descrença com a notícia terrível. Um arqueiro e seu cavalo eram mais do que apenas cavaleiro e montaria. Todos sabiam disso. Um arqueiro era ligado com o seu cavalo desde os primeiros dias de sua aprendizagem e eles aprenderam suas habilidades especiais em conjunto.
Selethen observava, sem compreender. Como todos os arridi, ele adorava cavalos. Mas sabia que em uma terra dura como esta, as perdas eram inevitáveis. Membros quebrados, a sede, o sol, os leões do deserto e as cobras de areia que se escondiam em qualquer canto úmido ou sombreado, todos poderiam matar um cavalo em um instante. Essas perdas eram lamentáveis. Mas tinham de ser suportadas. Ele olhou para o sol, agora já havia passado do meio-dia.
— Vamos descansar por algumas horas — disse ele. — Vamos continuar esta tarde quando esfriar.
Ele ordenou a seus homens para acender um fogo e fazer café. Ele duvidou que alguém teria apetite para uma refeição após a provação eles viveram. Mas o café iria restaurá-los, ele sabia. Ele observou que o arqueiro mais velho levou seu aprendiz para longe, encontrou um pedaço da pouca sombra debaixo do barranco e o abaixou para sentar-se.
A Princesa e o jovem guerreiro foram para abordá-los, oferecendo conforto, mas o velho os acenou para que não viessem. Agora não era o momento.
O menino estaria esgotado, Selethen sabia. Todos eles estavam. Uma tempestade como a que tinha passado por eles não permitia descanso para ninguém. Os músculos, os nervos, a mente estavam tensas ao ponto de ruptura. O medo era esmagador, principalmente para alguém que nunca havia passado por uma tempestade de areia antes. O esgotamento físico e emocional foram devastadores.
O outro arqueiro, a quem chamavam Gilan, moveu-se para onde as tropas estavam acendendo o fogo. Ele esperou até que o café estivesse pronto e, em seguida, pegou um copo para a forma encolhida sob o barranco. Agachou-se junto ao jovem e segurou o copo para ele.
— Aqui, Will — ele disse suavemente. — Beba isto.
Will acenou debilmente o copo para longe. Ele estava mergulhado na miséria. Gilan empurrou para frente novamente, com mais força, empurrando-o para ele.
— Você vai precisar disso — disse ele. — Você vai precisar de sua força, se nós estamos indo encontrar Puxão.
Halt olhou para ele, espantado com as palavras.
— O que você disse? — ele exigiu, mas Gilan estava imperturbável pela pergunta.
— Eu vou com ele — respondeu ele. — Nós vamos encontrar Puxão.
Pela primeira vez, Will levantou a cabeça, tomando o copo e olhou para Gilan. Havia uma faísca muito tênue de esperança em seus olhos. Muito fraca, Gilan viu, mas presente.
Halt levantou abruptamente, pegando o braço de Gilan e levantando-o. Ele levou o jovem arqueiro a poucos metros de distância.
— O que você está falando? — ele disse em um tom baixo. — Puxão está desaparecido. Ele está morto.
Gilan sacudiu a cabeça.
— Nós não sabemos disso. Ele pode estar perdido, mas como você pode dizer que ele está morto?
Halt levantou as mãos num gesto perplexo, apontando para os montes de areia arrastados pelo vento ao seu redor.
— Você acabou de passar por essa tempestade com a gente? — ele perguntou.
Gilan assentiu com calma.
— Sim. E eu sobrevivi. Assim como Blaze. Parece-me que você está sendo um pouco precipitado ao assumir que Puxão está morto. Os cavalos de arqueiro são uma raça forte.
Halt admitiu o ponto.
— Tudo bem. Vamos supor que você está correto. Ele está vivo. Mas, ainda assim, ele está perdido em algum lugar lá fora. Só Deus sabe onde.
— Perdido — Gilan repetiu. — E o que está perdido pode ser encontrado. Temos que aproveitar a oportunidade. Você faria isso se Abelard estivesse perdido — ele acrescentou e Halt, que estava a responder que a tarefa era sem esperança, deteve-se. — Eu irei com ele. Dê-nos dois dias. Ou nós encontramos Puxão nesse tempo ou iremos encontrar você em Mararoc.
— Não, Gil. Você não irá. Eu vou sozinho.
Ambos os homens se viraram, surpresos com o som da voz de Will. Tanto a convicção em suas palavras quanto as próprias palavras que os surpreendeu. Will, devastado com o sofrimento de alguns minutos atrás, já tinha um raio de esperança entregue a ele. E ele agarrou-a avidamente.
— Não podemos enfraquecer a escolta Evanlyn de qualquer forma. Todos fizeram um juramento ao rei para protegê-la — disse ele. — De todos nós, eu sou o único que poderia ser dispensável, então eu vou sozinho. Além disso — ele adicionou — eu o perdi e cabe a mim encontrá-lo.
— Não seja ridículo! — Halt disse bruscamente. — Você é um menino!
O rosto de Will, com poeira e lágrima manchada, definiu em linhas teimosas quando ele enfrentou seu mestre, o homem que ele respeitava e venerava acima de todos os outros.
Ele respirou fundo para falar, mas Gilan colocou a mão para detê-lo.
— Will, antes de dizer qualquer coisa, nos dê um momento aqui, por favor — ele pediu.
Will hesitou, vendo que a obstinação no rosto de Halt que combinava com seu próprio. Mas Gilan acenou uma vez e ele concordou, voltando a sua posição no barranco.
— Halt — disse Gilan em um tom razoável — deixe-me colocar um caso hipotético para você. Se Blaze estivesse perdido e eu decidisse ir encontrá-lo, iria tentar me parar?
— É clar... — Halt começou automaticamente. Então seu senso de razão se afirmou. — Claro que não — emendou. — Mas você é um arqueiro. Will é um menino.
Gilan sorriu para ele.
— Você não percebeu, Halt? Ele está crescendo. Ele não é mais o magrelo de quinze anos de idade que você tomou em seus braços. Ele já é um arqueiro em tudo, menos no nome.
— Ele é um aprendiz — Halt insistiu.
Gilan sacudiu a cabeça novamente, sorrindo para Halt.
— Você pensa seriamente que ele não vai passar em sua avaliação final? — ele perguntou. — É uma formalidade, e você sabe disso. Ele já é mais capaz, hábil e inteligente do que meia dúzia de arqueiros que eu poderia citar.
— Mas ele é jovem demais para... — Halt não pôde terminar a frase.
Ele sabia que o que Gilan estava dizendo era a verdade. A parte lógica do seu cérebro sabia disso. Mas a parte emocional queria proteger seu jovem aprendiz e mantê-lo seguro. Se Will saísse sozinho no deserto, quem sabia que perigos ele estaria enfrentando?
Gilan colocou a mão no ombro de Halt. Era uma sensação estranha, pensou ele, aconselhar o homem que ele respeitava mais do que qualquer outro.
— Você sabia que viria o tempo em que teria que deixá-lo ir, Halt. Você pode não estar por perto para protegê-lo pelo resto de sua vida. Isso não é o porquê de você ter treinado ele para ser um arqueiro. Você tentou fazer isso comigo, lembra?
Halt olhou agudamente depois disso. Gilan ainda estava sorrindo quando ele respondeu à pergunta não-perguntada de Halt.
— Nos últimos meses do meu aprendizado, você começou dar uma de mãezona — disse ele. — Lembra-se do urso assassino de homens que tínhamos de perseguir? Você tentou me deixar para trás em Redmont sob qualquer pretexto.
Halt franziu a testa, pensando duramente. Ele realmente tinha feito isso? E teve que admitir que talvez possa ter feito. Ele pensou agora sobre Will e ele concordou com Gilan.
O menino – o jovem, ele se corrigiu – certamente seria aceito como um arqueiro de pleno direito dentro de alguns meses. Não havia mais nada para ele aprender. A avaliação era apenas uma formalidade.
— Você confia nele com sua vida, Halt? — Gilan interrompeu e Halt olhou para ele.
— Sim — ele disse calmamente.
Gilan acariciou seu ombro mais uma vez.
— Então, confie nele com a própria vida dele — ele disse simplesmente.

3 comentários:

  1. Mano, as vezes eu tenho vontade de mata esse garoto. Sei que ele quem devia ir atras do cavalo, mas eu nao quero ver ele sozinho de novo. Primeiro, ele da a cachorra, depois ele perde o cavalo. Serio, se ele se desfase de mais alguma coisa, cabeças vao rolar!
    -Sinead

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    1. Ai meus deuses, aquela vontade monstro de dar spoiler...mas não. Me recuso a estragar a leitura de alguém.

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Boa leitura :)