9 de dezembro de 2016

Capítulo 21

Enquanto o táxi do Aeroporto de LaGuardia levava Nellie pelas ruas de Nova York, ela passou por sua padaria francesa preferida e teve um momento de saudade e pesar. Ainda estava longe do nascer do sol, e as pessoas já estavam na fila de espera da Au Delice, lar dos mais requintados croissants fora da França.
Levou toda a sua força de vontade evitar saltar do táxi e entrar na fila. Infelizmente, este era o mundo Cahill. As delícias da vida estavam ao seu redor – logo debaixo de seu nariz. Mas não, você tinha que cuidar dos negócios, porque o negócio era geralmente vida e morte.
Seu destino não estava muito longe, no Upper East Side de Manhattan – o Instituto Callender. Ela observou que a bandeira estava a meio mastro, sem dúvida para marcar a morte de seu fundador, o Dr. Jeffrey Callender. Nellie ficou surpresa com a onda de arrependimento que se abateu sobre ela. Se alguém merecia seu destino, era Callender – um fiel aliado de Pierce que usou Fiske Cahill como cobaia humana. Ainda que Nellie quisesse destruir o laboratório de Delaware e tudo dentro dele, ela e Sammy tinham trabalhado duro para proteger as pessoas – para se certificar de que a equipe saísse antes que as explosões de nitroglicerina começassem sua marcha pela Avenida Kabum. Eles tinham conseguido, exceto por uma pessoa. Ela ainda achou em seu coração pesar pela morte de Jeffrey Callender.
Por outro lado, era igualmente bom que o médico não estivesse lá para tentar impedir que ela visse Fiske.
A recepcionista sorriu para Nellie sem suspeitar.
— Bem-vinda novamente, mas temo que esteja um pouco cedo. O horário de visitas não começa até o meio-dia.
Imperturbável, Nellie pronunciou um longo discurso sobre o fato de ter acabado de sair do avião vindo da Europa e, oh, como ela desejava ver seu querido tio. Ela foi tão emocionante, tão barulhenta e tão persistente que a jovem deixou-a passar “por esta vez”.
Nellie pegou o elevador para o andar de Fiske e começou a descer o corredor, afastando-se de qualquer pessoa com um jaleco de laboratório. A maioria era de médicos regulares, mas alguns dos “enfermeiros” homens eram excepcionalmente fortes e musculosos e tinham uma semelhança preocupante com os capangas de Pierce. Ela procedeu com cautela, maravilhando-se com o luxo do tapete de pelúcia, painéis de carvalho e iluminação embutida de halogênio. Era bastante elegante para uma instalação médica – o instituto era conhecido por atender os ricos.
Nellie sentiu uma pontada de raiva. Não só o pobre Fiske estava sendo usado como cobaia, mas estava pagando pelo privilégio. E então ela estava espiando em sua porta. Ele estava sentado na cama, lendo o jornal – pelo menos, que parecia ser o seu plano. Na verdade, ele encarava a parede com indiferença enquanto o New York Times caía em suas mãos. Ele parecia horrível – muito pior do que a última vez que ela o vira. Na verdade, ele mostrava alguns vestígios do aprimoramento que podia ser encontrado em Amy ou J. Rutherford Pierce. Seu rosto tinha aquele brilho saudável, mas seus olhos e bochechas estavam ocos. Sua carne pendia dos ossos, como se ele fosse um atleta excepcional que não se exercitara em décadas.
Horrivelmente, ele lembrou a Nellie do esqueleto no tarô que representava a Morte. Com uma pontada, notou que as mãos que seguravam o jornal tremiam.
— É bom vê-lo, Fiske. — Era uma mentira. Sim, era bom vê-lo, mas terrível vê-lo assim.
— Nellie! — ele estava absurdamente feliz em recebê-la, o que mostrava quão solitário e infeliz estava.
Ela o abraçou e não conseguiu superar a sensação de que abraçava um saco de aniagem cheio de Lego.
— Lamento que ninguém tenha sido capaz de visitá-lo. Estamos todos ocupados.
Ele deu-lhe um sorriso caloroso.
— Eu sei o que é isso. Lembre-se, meu nome é Cahill — o sorriso vacilou. — E ainda, desde a última vez que você veio aqui, eu pareço ter-me tornado... velho.
— De jeito nenhum — ela disse com firmeza.
— Eu não sou criança, Nellie. Mais cedo ou mais tarde, todos chegam ao fim da estrada — sua voz se quebrou um pouco. — Eu confesso, no entanto, que meu fim parece ter chegado bastante inesperadamente. E agora, quando preciso dele, meu médico sucumbiu a um trágico acidente.
Nellie inclinou-se para mais perto.
— Ouça-me, Fiske. Você não está morrendo.
— É muito gentil da sua parte, querida, mas...
— Eu não estou sendo gentil — ela insistiu. — Estou dizendo a verdade. Não há nada de errado com você, exceto que seu doce, santo médico estava trabalhando para Pierce. Ele estava fazendo experimentos em você com o soro de Gideon.
— Interessante — disse o velho homem, de olhos arregalados. — É por isso que sinto que posso pular no alto de edifícios, quando na realidade mal posso atravessar este quarto?
Ela assentiu com a cabeça.
— Todos sabemos o que faz com as pessoas.
— Obrigado, Nellie, por me dizer exatamente o que está acontecendo comigo. Isso deixa minha mente descansar, embora não possa fazer nada para mudar o resultado de tudo. Pois para o que Gideon criou não há cura. Péssimo para mim, infelizmente.
Nellie tirou um pequeno estojo do bolso e retirou uma seringa cuidadosamente embrulhada.
— Este é o antídoto. Não foi testado, mas vem direto do livro de Olivia Cahill.
Fiske ficou espantado.
— Como você conseguiu isso?
— Foi um caso de família. Os Cahill buscaram os ingredientes no mundo todo – principalmente Amy e Dan. Eles são incríveis. Eu vou te contar a história toda mais tarde. Mas agora tenho que pedir-lhe para ser uma cobaia novamente – por uma boa causa, desta vez. Podemos testar o antídoto em você?
O senhor já estava enrolando a manga.
— Mesmo que seja veneno mortal, eu não estaria pior do que já estou. Vamos lá!
Nellie teve que apertar os dentes para impedir-se de tagarelar enquanto injetava a substância. Uma pessoa já estava morta como resultado de suas ações. Se acontecesse com Fiske...
— Como você se sente? — ela perguntou ansiosamente.
— Eu me sinto... sinto... — de repente, Fiske se retorceu em agonia, um som estrangulado saindo de sua garganta. Um instante depois, seus olhos rolaram para trás em sua cabeça e ele desabou contra seus travesseiros.
Em pânico, Nellie agarrou seus ombros e sacudiu-o.
— Fiske, acorde! Não faça isso comigo!
Ela pegou o botão para chamar os enfermeiros, perguntando-se o que diabos ela poderia dizer a eles – que ele estava tendo uma reação alérgica a bigodes de leopardo da Anatólia e à peçonha ligeiramente venenosa da serpente d’água de Tonle Sap?
Uma mão estendeu a mão e agarrou seu braço – uma mão surpreendentemente forte.
— Não precisa, minha querida. Vou ficar bem.

Um comentário:

  1. Eu morri aqui querido. Não faça isso com os pobres mortais como eu.

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Boa leitura :)