29 de dezembro de 2016

Capítulo 20

Will e Halt estavam separados por cerca de cinco metros para que não oferecessem um alvo fácil para os genoveses, e deslizavam silenciosamente pela floresta morta. Seus olhos corriam de um lado para outro, esquadrinhando, buscando, olhando novamente pelo caminho por aonde vieram, os dois arqueiros pareciam fantasmas trabalhando como um único ser, procurando algum sinal de movimento ou um flash de cor entre as árvores que lhes indicasse a presença de alguém.
Will procurava da esquerda para o centro e repetia o movimento. Halt procurava da direita para o centro e também ficava constantemente repetindo o movimento. Os dois abrangiam cento e oitenta graus da esquerda, centro e direita. Faziam estes movimentos várias vezes sem criar qualquer padrão previsível, de vez em quando uma rápida olhada na retaguarda.
Eles tinham avançado cerca de quarenta metros para o interior da floresta quando Halt encontrou um lugar que provia uma cobertura melhor do que o normal. Uma árvore havia crescido com múltiplos troncos provendo suficiente proteção para os dois. Havia também duas outras características na topografia perto da árvore que tomou sua atenção.
O arqueiro verificou a trilha de onde tinha vindo e tendo certeza que estava livre, fez um gesto para Will se juntar a ele. Olhou com aprovação o seu ex-aprendiz deslizar por entre as árvores, tirando vantagem de cada cobertura existente. Ele parecia um borrão, nunca claramente visível, mesmo para olhos treinados como os de Halt.
Os dois agacharam juntos atrás dos grandes troncos. Agora que estavam dentro da floresta, Will percebeu que as árvores emitiam um som próprio. Normalmente em uma densa floresta, seria de se esperar ouvir o sussurro suave do vento através das folhas, o canto dos pássaros e o movimento de pequenos animais. Aqui não havia folhas, pássaros ou animais. Mas, apesar do que tinha achado anteriormente, os troncos e os galhos das árvores não eram tão parecidos. Gemiam e rangiam em protesto por causa da constante brisa passando por entre as suas articulações secas. Às vezes um galho roçava em seu vizinho, estalando e rangendo. Era como se a floresta gemesse em agonia.
― Que som horrível, não? — Halt perguntou.
― Me dá nos nervos — Will admitiu. ― O que fazemos agora?
Halt indicou um caminho estreito na frente deles que seguia para dentro da floresta por entre os troncos. Era uma trilha sinuosa e deformada, encontrando o seu caminho por entre a massa de troncos cinzentos, mas sempre retornando ao sentido original que era sentido sudeste.
― Ainda estão deixando um rastro bem claro para seguirmos — Halt afirmou.
Will olhou na direção que ele indicou. Podia ver um pequeno pedaço de tecido, preso na extremidade afiada de um ramo partido.
― E não estão sendo nada sutis — ele respondeu.
Ambos mantiveram a voz baixa, apenas ligeiramente acima de um sussurro. Não tinham ideia de quão perto o inimigo poderia estar.
― Realmente não — Halt concordou. ― Eu também tenho visto muitas pegadas ao longo do caminho. Dá para jurar que foram feitas por um gigante devido sua profundidade.
Will estendeu a mão e sentiu o solo com dois dedos. A grama era curta aqui entre as árvores mortas e o solo abaixo delas estava seco e duro.
― E esta terra não é nada macia — falou.
― Não, esta terra secou há muitos e muitos anos atrás. Eles estão fazendo isso novo de modo intencional. Deixando-nos saber exatamente qual caminho seguiram.
― E para que sigamos do jeitinho que eles querem — disse Will.
Um leve sorriso apareceu no rosto de Halt.
― Isso também.
― Mas nós não faremos isso, certo? — Will disse.
Parecia lógico para ele. Se o seu inimigo queria que você fizesse algo, fazia sentido fazer algo completamente diferente.
― Nós não faremos — Halt concordou. ― Eu sim.
Will abriu a boca para protestar, mas Halt levantou a mão para evitá-lo de fazer.
― Se parecer que estamos fazendo o que eles querem, podem ficar muito confiantes. E isso pode ser bom para nós.
Enquanto falava, seus olhos esquadrinhavam a floresta sem cessar, procurando qualquer rastro de movimento, qualquer sinal de que os genoveses estivessem por perto.
― Verdade — Will admitiu. ― Mas eu...
Mais uma vez, Halt erguera a mão e o parou no meio da frase.
― Will, nós poderíamos ficar aqui dias procurando por eles, temos que fazer alguma coisa para se mostrarem. E nesse meio tempo, Tennyson estaria cada vez mais distante de nós. Temos que correr o risco. Afinal de contas, apenas supomos que eles estão por aqui. E também podem estar nos enganando, deixando convenientemente todos esses sinais para nós os seguirmos e em seguida dão o fora daqui, deixando-nos rastejar por aí tentando encontrá-los e perdendo horas do dia para isso.
Will franziu a testa. Isso não ocorreu a ele. Mas era possível.
― Você acha que eles fariam isso? — ele perguntou.
Halt balançou a cabeça propositalmente devagar.
― Não. Eu acho que eles estão aqui. Eu posso senti-los. Mas é uma possibilidade.
Atrás deles, um ramo moveu-se com um ruído mais alto que o normal, gemendo como se a madeira estivesse sendo envergada. Will virou com seu arco surgindo rapidamente em suas mãos. Mais uma vez, ele sentiu um nó apertado na boca do estômago, enquanto se perguntava onde o inimigo estaria, quando eles iriam se mostrar. Halt inclinou-se para falar um pouco mais perto, sua voz ainda mais silenciosa do que antes.
― Vamos esperar uma hora ou coisa assim. Temos aqui uma boa posição e estamos muito bem cobertos de todos os lados. Vamos ver o que eles fazem agora que sabem que estamos aqui.
― Você acha que eles vão se mover? — Will perguntou.
― Não. Eles são muito bem treinados para isso. Mas vale a pena tentar. Em uma hora, o sol estará mais baixo e a sobras mais profundas e longas. Isso vai funcionar para nós.
― Para eles também — Will sugeriu, mas Halt sacudiu a cabeça.
― Eles são bons — disse ele. ― Mas não são treinados do jeito que nós fomos. Estão mais acostumados a trabalhar nas cidades, misturando-se no meio da multidão. E têm mais, nossas capas nos darão uma grande vantagem aqui. As nossas cores combinam com o ambiente muito melhor do que aquele púrpura maçante que estão vestindo. Então vamos esperar por uma hora e ver o que acontece.
― E o que fazemos depois?
― Então eu vou me mover novamente, seguindo essa trilha óbvia que deixaram.
Halt viu uma grande ingestão de ar de Will e sabia que o jovem arqueiro estava prestes a protestar. Mas não lhe deu oportunidade.
― Serei cuidadoso Will, não se preocupe. Eu já fiz este tipo de coisa antes, você sabe — acrescentou suavemente.
E ele foi recompensado por um relutante sorriso de seu aprendiz.
― Eu disse algo divertido? — perguntou.
Will balançou a cabeça, parecendo refletir sobre se deveria dizer alguma coisa, então decidiu ir em frente.
― Bem, nada de mais... antes de sairmos de Redmont, lady Pauline falou comigo. Sobre você.
A sobrancelha de Halt disparou para cima.
― E exatamente o que ela falou sobre mim?
― Pois bem... — Will deu de ombros desconfortavelmente.
Agora desejou que não houvesse trazido este assunto à tona.
― Ela me pediu para manter os olhos em você.
Halt balançou a cabeça assentindo várias vezes, digerindo a informação antes de começar a falar de novo.
― É tocante saber que ela tem tanta fé em você. — Ele fez uma pausa. ― E tão pouca em mim.
Will pensou que não deveria ter dito nada. Agora Halt não ia deixar este assunto de lado.
― Eu acredito que esta instrução não veio acompanhada por algum tipo de declaração como esta “Ele não está ficando mais tão jovem, sabe?”
Will hesitou por algum tempo.
― Não. Claro que não.
Halt bufou com desprezo.
― Essa mulher acha que eu sou senil.
Mas a despeito disso, ele pensou nela, alta e graciosa, então sorriu com carinho. Em seguida, recuperou-se e voltou aos negócios.
― Tudo bem. Vamos dar um crédito a ela então. A razão por que eu estou indo na frente é que eu preciso de suas habilidades de se movimentar em silêncio. Você é menor e mais ágil que eu, então terá uma chance melhor de passar despercebido. Eu vou quebrar o silencio e me moverei a frente deles. Você espera aqui por cinco minutos, em seguida mova-se contornando pela esquerda. Eles devem prestar atenção em mim, logo, se você é tão bom quanto diz, não vão notar você.
Ele indicou um declive raso no chão, seguindo pela a esquerda. Cerca de dez metros depois, uma árvore havia caído e seu maciço tronco cinzento estava em ângulo sobre o caminho. Estes foram os dois itens que havia percebido quando se abrigou atrás da grande árvore. Ele havia procurado algo desse tipo desde que eles entraram na floresta.
― Rasteje de barriga por esta pequena vala até o tronco caído. Então por trás dele continue indo em frente. Isso deve te levar a pelo menos trinta metros daqui sem que eles possam te ver. Com alguma sorte, eles deverão pensar que você ainda estará aqui, pronto para me dar apoio se eu precisar. Durante todo o tempo, você estará circulando por trás deles.
― Mesmo que não saibamos onde eles estão? — Will perguntou.
Mas ele estava começando a ver a inteligência do plano de Halt.
Halt estudou a floresta à sua frente mais uma vez, os cantos dos olhos cerrados em concentração.
― Eles não estão longe da trilha — disse. ― Veja estas árvores. É muito difícil disparar com alguma precisão através destes troncos a mais de cinquenta metros. Mas com trinta é possível. Se você for por esse caminho, de maneira que alcance uma centena de metros para a esquerda e em seguida, começar a se mover paralelamente a mim, você deve ficar fora da visão deles. E isso vai colocá-lo bem atrás deles.
Will concordava com os detalhes. Parecia um bom plano. Mas havia um obstáculo em potencial.
― Eu ainda não gosto do fato de você estar indo chamar a atenção deles — disse.
Halt encolheu os ombros.
― Não consigo pensar em outro jeito de fazer isso. Mas acredite em mim, eu não vou andar de qualquer jeito deixando meu peito exposto, como se eu estivesse dizendo “Coloque uma flecha aqui, por favor”. Eu vou me esquivar de uma árvore para outra. E as sombras irão me ajudar. Você deve se certificar de que se tentarem atirar, vai estar pronto para abatê-los. Se você não estiver lá para me ajudar, estarei condenado.
Will respirou profundamente várias vezes. Em sua mente, ele poderia visualizar a evolução da situação, com ele se aproximando pelo flanco dos genoveses e Halt se movendo por entre as árvores. Era um plano bastante simples, o que era bom. Planos simples funcionavam melhor do que aqueles complexos que se baseavam em uma cadeia de eventos que tinham que se encaixar. As coisas não deveriam correr mal, por experiência própria ele já havia aprendido que melhor assim. Ele imaginou um dos assassinos surgindo do esconderijo. A probabilidade, pensou, é que estariam atrás de algum tronco caído. Suas bestas seriam mais adequadas para disparar em nível mais baixo, perto do chão.
Ao contrário de um homem armado com um arco, eles não teriam que ficar de pé para atirar. E estariam menos expostos do que se tivessem se escondendo atrás de uma árvore em pé para dar seu tiro. Halt observou que mente do jovem amigo estava trabalhando e deixou que refletisse sobre o assunto. Ele não tinha pressa para se mover. As sombras ainda não estavam longas o suficiente para seu gosto e ainda poderia ver que Will estava assimilando o plano de ação, para ter certeza de não haver mal-entendido.
Depois de um ou dois minutos, ele falou de novo.
― Nós temos várias coisas a nosso favor, Will. Primeiro: esses assassinos não estão familiarizados com a formação de um arqueiro nem com nossa habilidade. Se eles não conseguirem ver você saindo detrás desta árvore, irão pensar que ainda está aqui, o que lhe dará uma vantagem. Segundo: eles estão usando bestas. Vai ser relativamente uma luta de curto alcance, assim não teremos nenhuma vantagem em particular na precisão. Mas, por outro lado, eles também não. As bestas mais poderosas poderiam ser superiores a um arco. Uma flecha curta é menos estável do que uma seta longa de acordo com a distância que teria que percorrer seria menos precisa. Neste curto espaço, dentro dessas árvores essa flechas curtas são melhores.
― Eles não estão usando bestas muito poderosas de qualquer maneira — Will afirmou.
Bestas realmente poderosas são grandes e as cordas seriam grossas. Para recarregá-las um homem precisaria das duas mãos e ainda teria que sentar no chão para apoiar os pés também. E isto pode levar vários minutos entre cada tiro. Os genoveses estão usando uma versão menos potente, com um estribo na parte da frente do arco. O arqueiro coloca o pé no estribo para manter a besta presa ao chão e em seguida usa as duas mãos e os músculos das costas para puxar a corda e engatilhar. O tempo entre o tiro e o recarregamento da besta, duraria cerca de vinte ou trinta segundos. E o arqueiro teria que ficar ereto durante este procedimento. Eles poderiam primeiro atirar de baixo, deitados sob um tronco, ele percebeu. Mas então eles teriam que se expor aos tiros dos arqueiros.
― Eles irão se mostrar depois do primeiro tiro — afirmou.
Halt apertou os lábios.
― Podem ter mais de uma balestra cada um — lembrou a Will. ― Portanto não arrisque. Mas de qualquer jeito, nossa esperança é que sejamos mais rápido que eles.
Levaria cerca de vinte segundos para os besteiros recarregarem. Então eles teriam que mirar e atirar novamente. Will poderia colocar uma flecha no arco, puxar a corda, apontar e disparar em menos de cinco segundos. Halt era um pouco mais rápido. No momento que os genoveses estivessem prontos para um segundo tiro, os dois arqueiros poderiam ter mais de uma dúzia de flechas no ar, todas indo diretamente para eles. Os genoveses tinham a vantagem do tiro em uma emboscada. Mas se errassem as primeiras flechas, as chances de repente se virariam a favor dos arqueiros.
Pela décima vez, Halt estudava a floresta ao seu redor. Movendo a cabeça ligeiramente, olhou para oeste, podendo ver o brilho do sol entre os troncos. Agora as sombras estavam alongadas e a visibilidade entre as árvores cada vez mais incerta. Se ele esperasse mais um pouco, ficariam presos no interior de uma floresta escura. Já era tempo de se mover.
― Tudo bem — disse ele. ― Lembre-se: cinco minutos, em seguida saia agachado por essa vala.
Will sorriu ironicamente. Era mais uma pequena depressão do que uma vala, ele pensou. Mas Halt não viu essa reação. Mais uma vez, estudava a floresta a sua frente e ao lado de sua posição. Levantou-se de joelhos para um agachamento.
― Vamos convidar nossos colegas para dançar — ele disse, e deslizou silenciosamente para fora do esconderijo, um borrão verde e cinza que rapidamente se fundiu com as sombras da floresta entre as árvores.

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