18 de dezembro de 2016

Capítulo 20

Havia uma nova urgência em Selethen na forma como os batedores chegaram perto, em resposta ao seu sinal. Ele olhou em volta dos estrangeiros, assegurando que eles estavam todos vestindo os kheffiyehs que ele tinha dado a eles quando partiram de Al Shabah. Estas eram as roupas de deserto – essencialmente um quadrado simples de algodão, dobrado em triângulo, então envolto na cabeça de modo que as pontas alongadas pendiam para os dois lados e nas costas, proporcionando proteção contra o sol. Eles eram mantidos no lugar por uma corda trançada de pelo de camelo.
Agora, ele rapidamente mostrou-lhes como as caudas alongadas poderiam ser puxadas por todo o rosto, em seguida, rapidamente torcidas umas sobre as outras para cobrir o nariz e a boca do usuário. Era uma forma simples, mas eficaz de proteção da cabeça no deserto.
— Vocês vão precisar deles — disse ele. — Uma vez que a parede de areia nos atingir, vocês serão incapazes de respirar sem eles.
Will olhou para o sul. A fina linha escura que ele havia notado alguns minutos atrás era agora uma espessa faixa que se espalhava de um lado do horizonte para o outro. Na verdade, ele percebeu, o horizonte parecia ter se aproximado. Ele olhou para o norte para confirmar o fato. A tempestade estava borrando o horizonte para o sul. Era uma cor castanha suja na base, quase preta. E agora ele podia vê-la como torres de milhares de metros no ar, bloqueando o céu. A tempestade estava rapidamente tomando o limite do seu mundo.
Selethen levantou nos estribos, procurando qualquer abrigo disponível.
— Ali — ele falou. — Há um barranco raso. O aterro vai nos dar um pouco de proteção.
Ele puxou o seu cavalo em direção ao barranco, uma ravina seca que avançava através do chão duro de pedra. As paredes eram apenas de três metros de altura, mas elas oferecem alguma proteção pelo menos. Eles correram para segui-lo. Ele parou a poucos metros da borda curta para que pudessem passar.
— Meu Deus — disse Horace — olhe o quão rápido isso se move!
Eles olharam para cima. O turbilhão marrom de areia agora obstruía completamente a visão para o sul. Não havia nada além da tempestade, e agora podiam ver a rapidez com ela estava avançando sobre eles. Ela estava se movendo como o vento, Will pensou. Então percebeu, que aquilo era o vento.
Ele olhou para cima e pegou os olhos Evanlyn sobre ele. Eles trocaram um olhar preocupado e ele sabia que ambos estavam pensando a mesma coisa – a tempestade maciça que os tinha varrido para baixo quando eles estavam presos no Wolfwind anos atrás. Ele tentou seu sorriso tranquilizador para ela, mas naquele momento o primeiro sopro da tempestade os atingiu – inacreditavelmente quente e fétida e carregada de invisíveis grãos de areia.
Puxão mergulhou nervosamente quando a areia bateu em seu rosto e nos flancos. Will manteve uma mão firme nas rédeas. Normalmente, Puxão só precisava dele para prendê-las suavemente, mas nessas condições, ele sabia, seu cavalo iria responder melhor ao senso de controle que uma pressão firme daria a ele.
— Relaxe, garoto — disse ele. — É só areia.
O vento era agora uma presença viva em torno deles, lamentando terrivelmente. E a luz estava morrendo. Will ficou surpreso ao descobrir que Evanlyn, a menos de cinco metros de distância, era agora uma sombra, sombria indistinta na escuridão. Os outros não eram claros.
Selethen andava no meio deles e eles se aproximaram mais perto dele para ouvi-lo, os cavalos tossindo e relinchando nervosamente. Ele puxou o protetor de boca do kheffiyeh e gritou suas instruções.
— Cavalguem para baixo no barranco. Desmontem e virem a cauda do cavalo para o vento. Tentem cobrir suas cabeças com seus mantos puderem. Então nós iremos...
Tudo o que ele estava indo adicionar se perdeu em um acesso de tosse gigante quando ele inspirou um bocado de areia fina voando. Ele dobrou, puxando seu kheffiyeh em seu rosto novamente e acenando-os para o barranco.
Halt mostrou o caminho. O senso de pânico de Will aumentou quando ele percebeu que seu mentor estaria fora da vista em poucos metros se ele não tivesse pressa para segui-lo.
Ele estava consciente das outras figuras desfocadas perto dele como Gilan, Horace, Evanlyn, Svengal e todos seguiram o exemplo. Mais longe havia formas vagas que se deslocavam na tempestade e ele percebeu estas eram as tropas arridi movendo para o abrigo.
A sombra escura que era Halt e Abelard parecia afundar-se no chão e ele percebeu que eles deveriam ter atingido a borda do barranco. Puxão os vendo desaparecer, tornou-se nervoso, sentindo que o chão antes dele era inseguro. Ele relinchou estridente e parou, resistindo aos esforços de Will para ir para frente. O vento estava gritando ao seu redor, aterrorizante em sua intensidade e poder, desorientando o pequeno cavalo. Nunca antes Puxão tinha recusado o comando de Will, mas agora ele se manteve firme. O vento impediu a audição dos tons de voz tranquilizadores de confiança de seu mestre e ele sentiu algum perigo à frente. Ele tinha visto Halt e Abelard desaparecerem e foi treinado para proteger o seu mestre em situações como esta. Ele preparava suas pernas e pôs-se rapidamente de cabeça para baixo com os gritos do vento.
Will viu a figura de sombra do movimento Horace passando ele, reconhecível apenas pelo fato de que as mãos no Kicker estavam mais altas do que em Puxão. Alguém passou por ele também. Ele não tinha ideia de quem era. As condições estavam piorando, tão inacreditável quanto possa parecer. O vento era como a explosão de um forno, o ar superaquecido, e os milhões de partículas de areia picadas rasgando em qualquer pedaço de pele exposta. Os grãos abriram caminho para a roupa, embaixo das máscaras de rosto kheffiyehs, em botas, dentro de colares e em qualquer fenda na pele – as pálpebras, orelhas, nariz estava cheias dela e Will tossiu violentamente.
Ele descobriu que a ação de tosse lhe fez inalar mais areia do que ele expulsou, mas era inevitável.
Ele não podia ficar aqui assim, percebeu. E também não podia deixar Puxão. Ele teria que desmontar e levar o pequeno cavalo, esperando que a visão de seu mestre na frente dele fosse acalmar seus medos o suficiente para ele se mover. Ele levou um aperto firme nas rédeas e foi para o chão. Normalmente, teria confiado que Puxão ficaria parado quando ele desmontasse. Mas ele sabia que o cavalo estava pouco perto do pânico neste gritante e infernal vento carregado de areia.
Ele deslizou o braço direito com força do pescoço de Puxão, acariciando-o e falando com ele, todo o tempo mantendo uma as rédeas firmes com a outra mão. Isso parecia estar funcionando. Os pés apoiados de Puxão relaxaram e ele se permitiu ter poucos passos vacilantes em resposta à insistência de Will.
— Venha garoto, está tudo certo. É só areia
Ele tentou cantarolar as palavras tranquilizadoras, mas estava assustado com o som da sua própria voz, que saiu como um seco e vacilante “croak”. Ele duvidou que o cavalo pudesse ouvi-lo, mas sentiu que o contato de seu braço direito e a proximidade do seu corpo estava mantendo o pequeno cavalo sob controle.
Ele abaixou conforme conduzia Puxão para frente, tentando ver o ponto onde o terreno descia para o barranco. Era tudo o que ele podia fazer no solo entre os restos da tempestade. Ele olhou para o rosto de Puxão uma vez. Os olhos do pequeno cavalo estavam fechados apertados contra o vento. Tinha areia fina e crosta de poeira sobre a umidade em torno das órbitas dos olhos e pálpebras.
Onde diabo estava aquele barranco? Ele tropeçou frente, inábil com o peso do corpo resistente relutante de Puxão. Ele puxou as rédeas firmemente e o cavalo cedeu um pouco, indo mais três hesitantes passos em frente. Ele percebeu que o instinto de Puxão era virar a cauda ao vento, protegendo os olhos e as narinas das chicotadas de areia. Mas ele tinha que continuar forçando o pequeno cavalo pouco para frente para o abrigo exíguo oferecido pelo barranco do wadi. Ele tinha um sentido que a tempestade ainda não tinha atingido o seu pico.
Areia entrou em seus olhos, cegando-o, e ele tirou a mão do pescoço de Puxão por um momento para tentar limpá-los. Foi um esforço inútil. Ele suspirou e balbuciou, cego e sufocado pela tempestade. Ele puxou as rédeas mais uma vez e deu um passo à frente, a cabeça curvada contra as trevas gritando ao seu redor.
E sentiu seu pé cair no espaço vazio.
Fora de equilíbrio, estava à beira da margem do barranco, balançando seu braço livre no ar para tentar recuperar sua posição. Seu braço girando atingiu Puxão no nariz e o pequeno cavalo recuou surpreso e em alarme, sem sentido pela areia ao redor dos olhos e não viu que o golpe tinha vindo.
Will começou a cair e se jogou desesperadamente para trás da borda do barranco. As rédeas perderam aderência quando Puxão tentou ir para trás, apavorado com o barulho estrondoso do vento, assustado com o golpe, súbito e inesperado em seu focinho e em pânico com a perda de contato com seu mestre. Cego pela areia, ele instintivamente cavalgou para longe do vento, em busca de algum sentido de Will na tempestade próxima a ele. Mas os seus sentidos, normalmente tão fortes e muito bem afinados, estavam amortecidos pelo penetrante grito da tempestade, o calor e a areia voando chicoteando. Ainda tentando fazer algum contato com Will, ele tomou um passo, depois outro, relinchando estridentemente em alarme. Mas ele já estava indo na direção errada.
Will se debateu a seus pés. Ele tentou chamar seu cavalo, mas sua voz era quase um sussurro agora. Ele pensou que podia sentir uma presença na tempestade a poucos metros de distância. Ele tropeçou em sua direção, sabendo que era Puxão. Mas a forma vaga, nada mais do que uma meio-percebida massa mais densa nas trevas que o cercava, afastou-se e se perdeu de vista. Ele tropeçou para frente, o vento atrás dele agora.
— Puxão! — ele tentou gritar. Mas o som estava inaudível até para seus próprios ouvidos, abafados pelo grito triunfante do maciço vento.
Ele estendeu a mão, mas, tocou nada além de areia voando.
Então, milagrosamente, ele viu uma sombra ameaçadora na massa escura de vento e areia e detritos.
— Puxão! — ele engasgou.
Mas uma mão agarrou a gola do casaco e puxou-o para frente. Vagamente, percebeu que ele estava cara a cara com Selethen.
— Abaixe! — o wakir gritou para ele, arrastando-o para o chão áspero.
Will lutou contra o punho de ferro.
— Cavalo... — Ele conseguiu forçar a palavra para fora. — Meu cavalo...
— Deixe... o! — Selethen falou devagar e deliberadamente para que ele pudesse ser ouvido acima da tempestade.
Agora ele estava exortando seu próprio cavalo, treinado e habituado a estas condições, de joelhos, todo o tempo retendo Will com a mão livre. O cavalo arridi abaixou de lado, a cabeça enrolada em volta do abrigo de seu próprio corpo. Will sentiu um pé escorregar entre seus pés e ele e Selethen caíram ao chão em conjunto, o arridi arrastando-o para o abrigo escasso fornecido pelo corpo do cavalo.
— Puxão! — Will gritou, o esforço queimando a garganta seca de agonia.
Selethen estava atrapalhado com seu manto, tentando arrastá-lo sobre suas cabeças para protegê-los da areia. Ele se inclinou para falar diretamente no ouvido de Will.
— Você vai morrer lá fora! — gritou ele. — Nunca vai encontrá-lo agora. Tente fazer isso e você vai morrer! Ele se foi! Entendeu?
Entorpecido, Will percebeu que ele estava certo. Ele não teria nenhuma chance de encontrar seu cavalo no cegante redemoinho de areia que os rodeava. Ele sentiu uma grande facada doer no coração ao pensar em seu cavalo, sozinho e aterrorizado em todo aquele horror e ele chorou copiosamente, grandes soluços que soltavam e estremeceram todo o corpo inteiro.
Mas não havia lágrimas. O calor e a asfixia, areia e poeira negaram-lhe mesmo esse pequeno conforto.

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Boa leitura :)