9 de dezembro de 2016

Capítulo 2

O jipe bateu em uma raiz exposta, saltando meio metro e quase lançando os quatro ocupantes nos arbustos da selva.
Em vez de desacelerar, Amy Cahill pisou no acelerador, dando ainda mais velocidade para as quatro rodas raquíticas.
— Todo mundo bem? — gritou Jake Rosenbloom do banco do passageiro, agarrando-se à barra estabilizadora.
— Quase — gemeu Ian Kabra. — Eu quase perdi meu computador, para não mencionar o meu almoço.
— Ponyrific — Jake respondeu sombriamente, usando o apelido de Pony para seu laptop personalizado. — É tudo o temos deixado... por ele.
O brilhante Pony tinha construído uma própria máquina, usando componentes de alguns dos melhores computadores por aí. Era uma máquina magnifica, mas nunca poderia substituir o amigo magnífico que fora tirado deles.
Outra colisão fez os passageiros pularem no jipe.
— Achei que a agente de locação tivesse dito que esta era uma estrada boa — Ian reclamou em seu sotaque britânico cortante.
— Na verdade — interviu Atticus Rosenbloom, irmão mais novo de Jake — ela nunca disse que era boa. Só que era melhor do que as outras estradas em Honduras.
— Você me pediu para pesquisar a serpente d’água de Tonle Sap — Ian persistiu. — Com todas essas sacudidas, eu não consigo encontrar a tecla T. Nem Pony conseguiria trabalhar nessas condições. Diminua, Amy!
Amy tirou um pouco de pressão no acelerador.
Graças a sua visão perspicácia reforçada com o soro, ela tinha na verdade assistido a mão de Pony no trem de pouso se soltar, fazendo-o mergulhar para sua morte. O leal Pony – que nem era um Cahill – oferecera suas habilidades de cowboy digital para a busca deles. E o custo tinha sido sua vida.
A mão de Amy se apertou no volante. Aquele era o helicóptero que tinha levado Dan para longe. Pelo o que ela poderia saber, nesse exato momento seu irmão mais novo estava sendo torturado.
Pelo tudo que sabia, ele estava tão morto quanto Pony.
Para evitar gritar, ela pisou mais forte no acelerador, e o jipe saltou para frente, se sacudindo e balançando ao longo da estrada de terra.
— Por mais que eu odeie concordar com Ian — Jake atreveu-se — isso é dirigir como uma maluca. Nós não seremos capazes de ajudar ninguém se batermos em uma árvore.
— Nós não vamos bater em uma árvore — Amy retrucou com os dentes cerrados. — Estou no total controle deste carro.
— Bom saber — Ian disse suavemente — porque deixei meu baço há uns doze quilômetros atrás.
— Mas, Amy — Jake persistiu — nós precisamos conversar por que você está no total controle desse carro, por que você pode dirigir como uma campeã da NASCAR em uma estrada feita para carroças de boi.
— Não há nada para falar — Amy retrucou. — Eu bebi o soro. Pare de se preocupar. Eu estou bem!
Ela estava bem. Melhor do que bem, e não só porque o soro estava tornando-a mais rápida e mais forte a cada hora que passava. Seu pensamento estava claro. Ela podia planejar movimentos estratégicos e contra-ataques quase até o infinito. Sua visão era incrível, sua audição aguda, seu tempo de reação quase instantâneo. Ela não tinha superpoderes – ela não conseguia erguer trens ou voar pelo ar. No entanto, suas capacidades naturais foram reforçadas à enésima potência.
Assim que esse pensamento lhe passou pela cabeça, seu dedo mindinho da mão esquerda começou a tremer ligeiramente contra o volante.
Em circunstâncias normais, ela não teria sequer notado. Mas em seu estado elevado de perspicácia, ela entendia que este pequeno espasmo representava o começo do fim.
Era o futuro de Amy – a perda do controle; a falha dos órgãos; a terrível, dolorosa conclusão.
O soro era glorioso – até que não era mais. E isso, aparentemente, acontecia muito rápido. A substância poderia queimar um ser humano dentro de uma semana. Amy sofreria o mesmo destino se não conseguisse o antídoto.
Quão louco era isso? Ela nunca tinha se sentido melhor em sua vida – e ela estava morrendo.
De repente, um enorme caminhão carregado rugiu para fora das árvores, assomando acima, quase em cima deles, sua ampla cabine bloqueando a maior parte da estrada. Antes que qualquer um deles pudesse gritar “Amy, cuidado!” ela já tinha resolvido. Sua reação era muito rápida – no instante em que seus olhos identificaram o perigo, suas mãos estavam se movendo no volante. Ela encontrou um caminho que não estava lá milissegundos antes, se espremendo em uma lacuna impossível com meros centímetros de sobra. Em seguida, eles estavam de volta na estrada, a toda velocidade, como se nada tivesse acontecido.
Por alguns segundos sem fôlego, ninguém falou. Antes não havia tido tempo suficiente para gritar; agora já não era mais necessário.
— Não tome isso da maneira errada, Amy — Ian disse por fim. — Mas, no momento, estou realmente feliz por você ter engolido aquele soro.
Nenhum motorista normal poderia ter evitado aquele caminhão. A fórmula de Gideon poderia ter sido uma sentença de morte, mas ela tinha acabado de salvar as vidas de todos deles. 
Naquele momento, o jipe sofreu uma tremenda sacudida antes do percurso se estabilizar, não só se tornando mais regular, mas também mais tranquilo.
Jake estava instantaneamente alerta.
— O que aconteceu? Nós batemos em quê?
— Pavimento — forneceu Atticus, ousando olhar para o lado. — Nós devemos estar ficando perto da Cidade da Guatemala.
Com as condições melhores da estrada, Ian foi capaz de voltar para sua pesquisa no laptop de Pony.
— A serpente d’água de Tonle Sap —  ele informou. — Nome científico: Enhydris longicauda. Uma serpente colubrídea um pouco venenosa nativa do Tonle Sap, O Grande Lago de Camboja. É um parente próximo da serpente-leopardo do mar, da serpente almofada de arroz e da serpente Kapuas da lama.
— “Pouco venenosa”? — Atticus repetiu. — O que isso significa, quando ela te morde, você só fica um pouco morto?
— Se você pensar sobre isso — devaneou Amy — o veneno não pode ser mortal, ou não funcionaria como parte do antídoto. Não é exatamente uma cura se ele matar qualquer um que o tomar.
— Todos os colubrídeos são um pouco venenosos — Ian continuou com as informações. — Há quase duas mil espécies diferentes delas. E... Uh-oh.
— O que foi? — perguntou Jake.
— A Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas a lista como vulnerável. Esse é o passo anterior das vias de extinção. Aparentemente, essa parte do Camboja é grande na criação de crocodilos, e a serpente d’água de Tonle Sap era amplamente utilizada na alimentação deles. O único problema é que os crocodilos as comem mais rápido do que as serpentes podem se reproduzir.
Amy franziu a testa.
— Quinhentos anos atrás, quando o antídoto foi criado, elas provavelmente estavam em todo lugar.
— Isso não vai nos ajudar agora — Jake interveio nervosamente. — Nós precisamos desse veneno!
— Relaxa. — A resposta de Amy soou mais como uma ordem. — Nós temos os bigodes de um leopardo extinto; podemos achar veneno de uma serpente ameaçada. — Ela olhou no espelho retrovisor para ver uma expressão interrogativa nos traços bonitos de Ian. — Qual é o problema?
— Acho que o computador de Pony está tentando me dizer alguma coisa — Ian respondeu. Ele girou a tela em direção de Atticus. — Vê isso? “Código A”? O que você acha que significa?
Atticus deu de ombros. Ele era um gênio de onze anos, mas sua área de especialização era línguas mortas e civilizações antigas. Tecnologia informática era vários séculos recente demais para ele.
De uma vez, Amy pisou no freio com cada grama de força nos seus músculos reforçados com o soro. Os outros três quase voaram para fora do veículo quando o jipe guinou para uma parada atrás de um ônibus. Amy olhou com espanto. Menos de uma hora atrás, eles estavam viajando através do terreno de uma floresta tropical isolada. Agora os edifícios da Cidade da Guatemala estavam claramente visíveis à distância, e o time Cahill estava parado no maior engarrafamento que qualquer um deles já tinham visto.

* * *

Milhares de fãs estéricas lotaram a ampla Avenida Simón Bolívar. O prefeito estava presente, junto com um bando de VIPs locais, a maioria deles com suas filhas mais novas a tiracolo. Os celulares se erguiam com flashes pipocando. Tão grande era a demanda para fazer upload das fotos que os servidores da Guatemala para o Facebook e o Twitter pararam de funcionar. A fila para autógrafos media quilômetros. O ruído da multidão era um rugido ininterrupto, pontuado por aplausos. Era absolutamente uma multidão única.
Ou, na vida do pop star Jonah Wizard, apenas mais um dia.
— E aí, beleza? — Jonah cumprimentou a próxima garota na fila, uma pré-adolescente adoradora que parecia não saber falar uma palavra em inglês. Empunhando uma caneta grande, ele rabiscou uma assinatura rápida em seu CD, e outra no braço dela quando ela o estendeu para ele. — Obrigado por terem vindo. Aprecio o apoio.
De pé atrás da mesa de autógrafos, Brodrick Wizard, pai de Jonah, fazia uma carranca enquanto mandava mensagens em seu BlackBerry.
— Tenho que te dizer, Jonah, eu não entendo. Quando você disse que tinha que sumir do olho público, fiquei bem com isso. Então, seis meses depois, quando você me disse para arrumar um evento, não perguntei por quê. Só fiz acontecer. Mas tenho que perguntar agora: por que tinha que ser aqui?
Jonah acenou para as legiões de fãs, o que só as fez gritarem mais alto.
— Olha envolta, Paps. Você não consegue sentir o amor?
Seu pai não estava convencido.
— Você consegue amor em Nova York. Em Londres também, Paris, Tóquio, em qualquer lugar. Mas você disse que tinha que ser na Guatemala e tinha ser hoje. Por quê?
Jonah tinha uma excelente resposta para esta questão – embora nenhuma que pudesse dar para seu pai. Os Cahill precisavam pegar o jato privado de Jonah, mas Pierce tinha recursos substanciais caçando-os. Um grupo de crianças podia ficar escondido, mas não um Gulfstream G6 estacionado em uma pista de decolagem. Os capangas ficariam no aeroporto e abririam fogo em qualquer um que se aproximasse do avião.
Só havia uma solução. Pierce não ousaria atacar quando houvesse pessoas ao redor. E atrair uma multidão era a especialidade de Jonah.
Ele examinou a rua de um lado ao outro, seus olhos famosos se concentrando em um jipe aberto parado no emaranhado do tráfego. Ele podia ter falhado em notar os três jovens passageiros, mas a motorista era outra coisa. Ela brilhava com bastante força e vitalidade. Era natural vê-la em uma multidão de milhares. Ele sentiu uma pontada de medo ao se lembrar do que fazia sua prima Amy se destacar.
Ele se levantou da cadeira e deu um salto, pulando de costas para fora do palco.
— Jonah!  seu pai gritou de espanto.
Nunca houve qualquer perigo. Jonah sabia que seu mar de admiradoras o pegariam antes de ele acertar o pavimento.
Broderick Wizard estava na beira da plataforma, a boca aberta para seu filho.
— O que você está fazendo?
— Está tudo bem, Paps! — Jonah gritou de volta para ele. — Mas você terá que voltar para casa em um voo comercial! Preciso do jatinho!
Naquela hora, a polícia da Cidade da Guatemala já o havia alcançado e abriam caminho através da multidão. Tocando e cumprimentando o caminho todo, Jonah se dirigiu para o jipe e pulou a bordo.
— Em uma boa hora — ele aprovou. — O Wiz estava ficando com câimbras por escrever.
— Muito inteligente, Jonah — Jake ralhou.
— Quem sabe por quanto tempo vamos ficar presos aqui. Pierce terá tempo para nos ver na TMZ e mandar metade do seu exército atrás de nós... — Jonah se dirigiu a sua escolta policial. — Preciso de vocês maninhos para nos levar para o aeroporto. Você sabe, el aeroportito...
— Aeropuerto — forneceu Atticus.
Assentindo em compreensão, os policiais organizaram-se em duas filas, abrindo caminho para o jipe. Assim que a multidão abrandou um pouco, um bando de policiais em motos cercou os Cahill para protegê-los.
— Aqueles capangas terão um ataque cardíaco quando nós dirigirmos até ao avião acompanhados por metade da força policial da Guatemala! — Atticus comemorou.
— É assim que eu faço — Jonah reconheceu modestamente.
Seus fãs aplaudiram, acenaram e jogaram flores enquanto passava entre eles, empoleirado na parte traseira.
— Até mais, Cidade da Guatemala! — berrou a voz famosa. — Tenho que me mandar! Adiós, yo!
Ele sorriu para seus companheiros de jipe intimidados.
— Alguém precisa de uma carona para o Camboja?

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Boa leitura :)