29 de dezembro de 2016

Capítulo 1

Havia um vento soprando para fora do pequeno porto. Ele carregava o sal do mar juntamente com o cheiro da iminente chuva. O cavaleiro solitário encolheu os ombros. Mesmo que fosse o fim do verão, parecia ter chovido constantemente ao longo da semana passada. Talvez neste país chovesse o tempo todo, não importando qual a época.
— Verão e inverno, nada além de chuva — disse calmamente ao seu cavalo.
Ele não ficou surpreendido pelo fato de que o cavalo não respondeu.
— Exceto é claro, quando neva — continuou o cavaleiro. — Presumivelmente, isso serve para confirmar que é inverno.
Desta vez o cavalo sacudiu a cabeleira desgrenhada e balançou suas orelhas da forma como os cavalos fazem. O cavaleiro sorriu para ele. Eles eram velhos amigos.
— Você é um cavalo de poucas palavras, Puxão — Will disse.
Refletindo sobre isso, decidiu que a maioria dos cavalos provavelmente era. Houve um tempo, muito recentemente quando se perguntou sobre o hábito de falar com seu cavalo. Logo depois, mencionou isso a Halt ao redor de uma fogueira, quando estavam em um acampamento e descobriu que era um traço comum entre os arqueiros.
— É claro que falamos com eles — arqueiro grisalho lhe falou. — Nossos cavalos mostram muito mais bom-senso que a maioria das pessoas. E, além disso — ele enfatizou com uma nota de seriedade em sua voz — contamos com os nossos cavalos. Nós confiamos neles e eles confiam em nós. Falar com eles fortalece a ligação especial que há entre nós.
Will cheirou o ar novamente. Havia agora outros cheiros aparentes, subjacentes ao sal e à chuva. Havia o cheiro de alcatrão. De corda nova. De algas secas. Mas, estranhamente havia um cheiro faltando – um cheiro que teria esperado sentir em qualquer porto ao longo da costa oriental de Hibernia.
Não havia cheiro de peixe. Nenhum cheiro proveniente de redes secando.
— Então, o que eles fazem aqui se não pescam? — Ele meditou.
Além da lenta batida dos cascos no calçamento irregular, fazendo eco nos edifícios que ladeavam as ruas estreitas, o cavalo novamente não respondeu. Mas Will achava que já sabia. Depois de tudo, era por isso que ele estava aqui. Porto Cael era uma cidade de contrabandistas.
As ruas das docas eram estreitas e sinuosas, em contraste com as amplas e bem definidas ruas do resto da cidade. Havia apenas uma ocasional lanterna, fora de um edifício para iluminar o caminho. As construções eram principalmente de dois andares, com portas de carga definidas no segundo andar e rampas que abaixavam de modo que os fardos e barris poderiam ser transportados com carrinhos.
Armazéns, Will adivinhou. Com espaço para as mercadorias que os marinheiros contrabandeavam para dentro e fora do porto.
Ele estava quase nas docas agora e, na abertura que marcava o final da rua, ele podia ver os contornos de vários navios de pequeno porte, atracados ao cais e sacudindo nervosamente sobre os esforços das ondas agitadas, que conseguiam forçar seu caminho através da entrada do porto.
— Deve ser por aqui em algum lugar — ele disse e depois se localizou.
Um edifício de um único andar no final da rua, com um telhado baixo de palha, não muito mais alto que Will. As paredes alguma vez deviam ter sido pintadas de branco, mas agora estavam num tom cinza sujo. Uma luz amarela e intermitente brilhava através das pequenas janelas ao longo da parede lateral da rua e uma placa pendurada rangia no vento por cima da porta baixa. Desenhada grosseiramente na placa, havia uma ave marinha de algum tipo.
— Pode ser uma gaivota — disse ele.
Will olhou em volta curioso. Os outros edifícios eram todos escuros e anônimos. Seus negócios já estavam finalizados nesse dia, enquanto que, em uma taberna como a da gaivota, estava apenas começando.
Ele desmontou em frente ao prédio, batendo distraidamente no pescoço de Puxão para que ficasse ali. O pequeno cavalo considerou a taverna, em seguida virou para olhar seu mestre.
Você tem certeza de que quer ir lá?
Para um cavalo de poucas palavras, havia momentos em que Puxão poderia se expressar com clareza cristalina. Will sorriu feliz para ele.
— Eu vou ficar bem. Sou um garoto crescido agora, você sabe disso.
Puxão bufou com desprezo. Ele tinha visto o pequeno estábulo ao lado da pousada e sabia que ia ficar lá. Ele sempre ficava pouco à vontade quando não estava por perto para manter seu mestre longe de problemas.
Will o levou até o portão no estábulo. Preso lá havia outro cavalo e um velho burro cansado. Will não se preocupou em amarrar Puxão. Ele sabia que seu cavalo ficaria ali, até que retornasse.
— Espere aqui. Fique fora do vento — disse ele apontando para a parede distante.
Puxão o olhou novamente, abanou a cabeça e foi a passos lentos para o ponto que Will tinha indicado.
Grite se você precisar de mim. Eu irei correndo.
Por um momento, Will se perguntou se estava sendo muito fantasioso em atribuir esse pensamento ao seu cavalo. Então ele decidiu que não. Por um segundo ou dois, se divertiu com a imagem de Puxão irrompendo pela estreita porta da taverna, jogando os bêbados de lado para vir em auxílio de seu mestre. Ele sorriu com o pensamento, em seguida fechou o portão do estábulo, levantando-o para que não arrastasse sobre os paralelepípedos irregulares. Em seguida, moveu-se para a entrada da taberna.
Will não era de nenhuma maneira uma pessoa alta, mas mesmo ele sentiu-se obrigado a se inclinar um pouco sob o batente da porta. Quando abriu a porta, ele foi atingido por uma parede de sensações. Calor. Cheiro de suor. Fumaça. Cerveja estragada derrubada no chão.
Quando o vento entrou pela porta aberta, as lamparinas piscaram e o fogo de turfa na lareira que estava na parede do fundo de repente queimou com energia renovada. Ele hesitou e analisou a situação. A fumaça e a luz bruxuleante do fogo tornavam a visão difícil, principalmente para quem tinha estado fora na rua escura.
— Feche a porta, idiota! — Gritou uma voz áspera e ele adentrou no recinto, permitindo que a porta se fechasse atrás dele.
Logo acima no telhado de palha, havia um manto grosso de fumaça branca e dúzias de canos de escape. Will se perguntou se a fumaça alguma vez teve a chance de dispersar-se, ou simplesmente ficava lá, se acumulando de um dia para outro, crescendo cada vez mais a cada noite que se passava. A maioria dos fregueses da taverna o ignorou, mas alguns poucos rostos hostis viraram para ele avaliando o recém-chegado.
Eles viram uma figura esguia e franzina, envolto em uma grossa capa cinza e verde, com o rosto escondido sob um largo capuz. Enquanto eles observavam, a figura empurrou o capuz para trás e viram que o seu rosto era surpreendentemente jovem. Pouco mais de um menino. Então observaram a longa faca de caça em sua cintura, com uma pequena faca montada sobre ela e o enorme arco na mão esquerda. Por cima do ombro, eles viram pontas de penas de mais de uma dúzia de flechas saindo da aljava colocada em suas costas.
O desconhecido podia parecer um menino, mas ele carregava armas de um homem. E fazia isso inconscientemente e sem alarde, como se estivesse completamente familiarizado com elas.
Ele olhou ao redor da sala, acenando para os que tinham virado para estudá-lo. Mas seu olhar passou rapidamente sobre eles, e era evidente que ele não oferecia nenhuma ameaça – aqueles eram homens que estavam bem acostumados a medir as potenciais ameaças dos recém-chegados. A pequena tensão que havia no ar da taverna passou e as pessoas voltaram para suas bebidas.
Will, após uma rápida inspeção do ambiente, não viu nenhuma ameaça para si e cruzou o salão em direção ao grosseiro bar – três tábuas pesadas, serradas rudemente e colocadas sobre dois enormes barris.
O taverneiro era um homem magro com um nariz afilado, rosto redondo e orelhas proeminentes, e esta combinação dava a ele uma aparência de roedor. Ele ficou olhando distraidamente para Will enquanto enxugava uma caneca com um pano sujo. Will levantou uma sobrancelha quando notou isso. Ele poderia apostar que o pano estava sujando muito mais a caneca do que a limpando.
— Bebida? — Perguntou o taberneiro.
Ele colocou a caneca em cima do bar, como se estivesse preparando para enchê-la com qualquer coisa que o estranho pudesse pedir.
— Não aqui — Will disse calmamente empurrando a caneca com seu polegar.
O cara de rato encolheu os ombros, virou-se para pegar algo em uma estante acima do bar.
― Escolha você mesmo. Cerveja ou uísque?
Will sabia que uísque era uma bebida destilada muito forte que eles bebiam em Hibernia. Em um boteco como este, poderia ser mais apropriado para remover ferrugem do que beber.
— Eu gostaria de café — respondeu ao notar uma jarra desgastada junto ao fogo no final do bar.
— Eu tenho cerveja ou uísque, escolha.
O cara de rato estava se tornando mais imperativo. Will fez um gesto para o pote de café. O taberneiro sacudiu a cabeça.
— Nada feito — disse ele. — Eu não vou fazer uma jarra nova só porque você quer.
— Mas ele está bebendo café — Will disse, acenando para um lado.
Era inevitável que o taberneiro olhasse para o lado para ver de quem ele estava falando. No momento em que seus olhos desviaram de Will, ele sentiu uma mão de ferro segurar em seu colarinho da camisa, torcendo-o em um nó que o sufocava e ao mesmo tempo o puxava para frente, tirando seu equilíbrio por cima do bar. Os olhos do estranho de repente estavam muito perto. Ele não parecia um menino. Os olhos eram castanhos escuros, quase pretos naquela fraca luz e o taberneiro compreendeu que havia perigo ali. Um grande perigo. Ele ouviu um suave chiado de aço e, olhando para baixo, vislumbrou no punho do estranho a pesada lâmina da faca de caça que ele colocou entre os dois sobre o bar.
Engasgado, procurou ao redor por uma possível ajuda. Mas não havia ninguém no bar e nenhum dos clientes das mesas havia notado o que estava acontecendo.
— Uuu... fa’er ca'hee — ele engasgou.
A tensão em seu colarinho diminuiu e o estranho disse baixinho:
— O que disse?
— Eu vou... fazer... café — ele repetiu ofegante.
O estranho sorriu. Era um sorriso agradável, mas o taberneiro percebeu que ele não se estendia aos seus olhos negros.
— Isso é maravilhoso. Vou esperar aqui.
Will afrouxou o aperto na camisa do taberneiro, o que lhe permitiu deslizar para trás e por cima do bar, recuperando o equilíbrio. O arqueiro bateu no punho da faca de caça.
— Não vai mudar de ideia, vai?
Havia um grande caldeirão próximo da grelha no fogo, apoiado em um braço giratório de ferro que o movia para dentro das chamas. O taberneiro puxou-o do fogo e ocupou-se com pote de café, medindo a quantidade de grãos, então derramou água fervente sobre ele. O rico cheiro de café encheu o ar e por um momento, sobrepondo-se aos odores menos agradáveis que Will havia notado quando entrou.
O taberneiro colocou o pote em frente de Will, em seguida pegou uma caneca de trás do bar. Ele a limpou com o seu pano. Will franziu a testa, pegou a caneca e a limpou cuidadosamente com um canto de sua capa e derramou o café.
— Eu vou querer açúcar, se você tiver — disse ele. — Se não, pode ser mel.
— Eu tenho açúcar.
O taberneiro virou-se para pegar a taça e uma colher de metal. Quando se voltou para o estranho, parou. Havia uma moeda de ouro, brilhando forte sobre o bar entre eles. Era mais dinheiro que ele faria em uma noite de trabalho, então hesitou em pegá-la. Afinal, a faca de caça ainda estava sobre o bar, perto da mão do estranho.
— Dois cobres pelo café está bom — disse ele com cuidado.
Will assentiu com a cabeça e enfiou a mão no bolso, selecionou duas moedas de cobre e soltou-as no bar.
— Isso é mais do que justo. Você faz um bom café — ele acrescentou.
O taberneiro assentiu com a cabeça e engoliu ainda incerto. Cautelosamente, pegou as duas moedas de cobre do bar, observando atentamente qualquer sinal de movimento do enigmático estranho. Por um momento, ele sentiu-se vagamente envergonhado de ter sido dominado por alguém tão jovem. Mas olhando novamente para aqueles olhos e as armas do jovem, descartou o pensamento. Ele era um taberneiro. Sua noção de violência era nada mais que dar porretadas na cabeça de alguns bêbados e normalmente fazia isso pelas costas.
Ele embolsou as moedas e olhou timidamente para a brilhante moeda de ouro, ainda reluzindo para ele sob a luz das lamparinas. Então tossiu. O estranho levantou uma sobrancelha.
— Aconteceu alguma coisa?
Levando as mãos para as costas, para que não houvesse nenhum mal-entendido e o estranho não pensasse que ele estava querendo pegar o ouro, o taberneiro inclinou a cabeça para ele algumas vezes.
— O... ouro. Eu queria saber... isso é... para mais alguma coisa?
O estranho sorriu. Mas como da outra vez, o sorriso não chegou a seus olhos.
— Bem, na verdade é sim. É para obter informações.
Agora, o sentimento de aperto no estômago que o taberneiro sentia pareceu deixá-lo com facilidade. Isso era algo que ele entendia, em especial nesse local. As pessoas muitas vezes pagavam para obter informações em Porto Cael. E geralmente, não prejudicavam as pessoas que davam informação a eles.
— Informação, certo? — Ele perguntou permitindo-se um sorriso. — Bem, este é o lugar para perguntar e eu sou o homem para responder. O que você quer saber, sua honra?
— Eu quero saber se Black O’Malley esteve aqui nesta noite — disse o jovem.
E de repente, o sentimento de aperto no estomago do taberneiro estava de volta.

4 comentários:

  1. Afs esse povo e sua mania de subestimar o Will e o Horace por causa da juventude, ta ficando chato. Pode até ser uma vantagem, mas cansa.

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  2. nem começo e o povo já ta cansado¬¬
    Calma ele já já ele cresce.

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Boa leitura :)