29 de dezembro de 2016

Capítulo 19

A planície à sua frente se estendia por quilômetros. À distância, eles podiam ver um rio brilhante torcendo seu caminho através dos campos, fluindo para pontos mais baixos. Imediatamente atrás deles, na base do cume onde eles se encontravam, a grama se inclinava gradualmente para baixo. Então, a terra mudava drasticamente. Troncos de árvores finos subiam da terra plana e descampada, reunidas em fileiras irregulares. Suas pontas nuas chegavam ao céu, recortadas e irregulares, desprovidas de qualquer cobertura de folhas, trançadas em formas bizarras, como se estivessem em agonia e súplica. Havia milhares delas. Possivelmente dezenas de milhares, uma massa cinza de árvores sem folhas e todas mortas.
Para os olhos de Will, acostumados com os tons de verde das florestas ao redor do castelo de Redmont e Seacliff, a visão era indescritivelmente triste e desolada. O vento atravessava por entre os troncos e galhos mortos, sussurrando um audível som desesperado. Sem a cobertura de folhas e com os troncos secos desprovidos de seiva, os ramos não balançavam graciosamente ao sabor do vento. Eles permaneciam severos e rígidos, sua linha feia e afiada permanecia inabalável à força suave da brisa.
Will achava que se um vento forte soprasse por entre os troncos mortos, poderia derrubar dúzias de árvores, deitando-as no chão e fazendo-as parecer com lanças cinzentas desarrumadas e deformadas.
― O que é isso, Halt? — ele perguntou.
Saiu quase como um sussurro. De alguma forma, parecia mais correto tão próximo de tantas árvores mortas.
― É uma floresta afogada — disse-lhes Halt.
Horace inclinou-se para frente, cruzando as mãos sobre o cabeçote da sela enquanto avaliava a cena de total desolação que se estendia diante deles.
― Como é que uma floresta pode se afogar? — ele perguntou.
Como Will, ele manteve sua voz baixa, como se não quisesse perturbar a trágica cena. As formas esbeltas e cinzentas abaixo deles pareciam exigir sua cota de respeito. Halt apontou para o distante e brilhante rio além das milhares de árvores.
― Eu diria que o rio deve ter inundado esta área — disse. ― Creio que foi há muitos anos e teria sido uma estação chuvosa muito especial. A enchente se espalhou pela planície e basicamente cobriu as árvores. Elas não são capazes de sobreviver se suas raízes estivessem abaixo d‘água, portanto, gradualmente elas morreram.
― Mas eu já vi inundações antes — disse Horace. ― As águas dos rios sobem. Algum tempo depois elas recuam e tudo volta praticamente ao normal.
Halt estudava o relevo do terreno e acenou com a cabeça em reconhecimento a declaração de Horace.
― Normalmente, esperamos que aconteça dessa forma — ele disse. ― Se a enchente durasse um curto período de tempo, as árvores sobreviveriam. Mas se olharmos melhor, percebemos que o rio é contido por aquela crista e a floresta está em um nível mais baixo. Uma vez que as águas passaram por cima da crista, a planície foi inundada e não haveria nenhuma maneira para que as águas pudessem recuar depois que a chuva passasse e o rio voltasse ao normal. E eu suspeito que a chuva continuou caindo por muito tempo. A água ficou presa entre as árvores. Isto foi o que as matou.
Will balançou a cabeça tristemente.
― Há quanto tempo?
Halt franziu os lábios.
― Cinquenta, sessenta anos talvez. Aqueles troncos estão completamente secos. Estão apodrecendo em silêncio aqui há décadas.
Ele vinha procurando o caminho ladeira abaixo enquanto estavam conversando. Agora que havia achado, encorajou Abelard para começar a descer. Os outros seguiram atrás dele. Quando chegaram ao nível mais baixo onde estava a floresta, perceberam uma formidável barreira formada pelas árvores afogadas. Os troncos cinzentos eram todos torcidos e irregulares, tornando-se impossível distinguir uns dos outros. Parecia um paredão mesclado de cinza. Era quase impossível discernir detalhes ou perspectivas.
― Agora sim, isso é o que eu chamo de um bom lugar para uma emboscada — disse Halt.
Então, alguns segundos depois, ele desceu da sela e andou alguns passos à frente, estudando o terreno. Ele chamou os outros para se juntarem a ele.
― Will — ele disse ― você viu a trilha que Tennyson e o seu bando deixaram no gramado quando saímos da floresta?
Will assentiu com a cabeça e Halt fez um gesto apontando para o chão ao redor dele.
― Dê uma boa olhada por aqui e veja se você consegue encontrar alguma diferença.
Havia um fio de lã pendurado num arbusto na grama. Mais adiante, algo brilhava no chão. Will foi até ele e pegou. Era um botão feito de marfim. Um pouco mais adiante, viu uma distinta marca de calcanhar em um local macio no chão. A grama em si estava bastante pisoteada e amarrotada.
― Então, o que você acha? — Halt perguntou.
Algo definitivamente estava errado, Will pensou, e pelo questionamento de Halt parecia confirmar que o outro arqueiro achava a mesma coisa. Mentalmente, ele imaginou as trilhas que tinham visto no topo da subida atrás deles. Impressões vagas na poeira, machucados ocasionais na relva, quase invisíveis a olhos destreinados. Agora aqui, convenientemente, havia fios, botões e uma pegada profunda – justamente o tipo de coisa que Tennyson estava evitando fazer a poucas centenas de metros atrás. E essas pistas agora estavam bem claras tentando colocá-los em uma única direção – para dentro da floresta morta.
― Isso tudo parece um pouco... óbvio — ele disse devagar.
E nesse momento ele percebeu o que estava incomodando sobre estas marcas. Em um momento eles estavam deixando pistas que só um rastreador altamente treinado poderia ver, mais a frente, as pistas estavam tão claras que até Horace poderia seguir.
― Exatamente — Halt disse, olhando para o fundo cinza da floresta morta. ― É tudo muito conveniente, não é mesmo?
― Eles querem que nós sigamos as pistas — Will disse.
Isso era um fato, não uma questão.
Halt balançava a cabeça lentamente.
― A pergunta é, por quê? Por que eles querem que a gente os encontre?
― Eles querem apenas que os sigamos — disse Horace, ligeiramente surpreendido.
Halt lhe deu um sorriso.
― Bem pensado Horace. Essa capa deve estar fazendo você pensar como um arqueiro.
Ele fez um gesto em direção à floresta à frente deles.
― Querem ter certeza de que nós saibamos que este é o caminho a ser seguido. E só há uma razão para eles terem feito isso.
― Estão nos esperando em algum lugar lá dentro — disse Will.
Como Halt, ele estava olhando firmemente para a paisagem cinzenta a sua frente, franzindo a testa um pouco enquanto tentava discernir algum sinal de movimento ou alguma coisa fora do lugar entre as árvores mortas. Will piscou várias vezes, os troncos unidos formavam um borrão cinzento e cansativo para seus olhos.
― É o que eu faria — Halt disse calmamente. Então, com um toque de desprezo, acrescentou: ― embora, eu seria um pouco mais sutil ao fazer isso. Esses sinais são quase um insulto à minha inteligência.
― Eles não sabem, é claro — Horace emendou. ― Nenhum deles teve que lidar com arqueiros antes. Como poderiam imaginar que um dos arqueiros pode ver as pegadas deixadas por um pardal voando baixo sobre um terreno rochoso?
Halt e Will olharam para ele com desconfiança.
― Isso foi sarcasmo? — Halt perguntou.
― Foi o que pareceu — Will disse.
― Certo Horace, você estava sendo sarcástico? — Halt insistiu.
Horace tentou não sorrir. Não foi muito bem sucedido.
― De maneira nenhuma, Halt. Eu estava sendo apropriadamente respeitoso à vista de suas habilidades surpreendentes. Quase sobrenaturais, eu diria.
― Isso foi sarcasmo — Will disse em tom definitivo.
Horace encolheu timidamente.
― Mais irônico do que sarcástico, eu diria — ele concluiu.
Halt assentiu lentamente.
― No entanto — ele disse ― nosso amigo sarcástico... não, nosso amigo irônico... tem razão em ponto. Os genoveses não têm ideia de quanto sabemos sobre rastrear trilhas. Podem até suspeitar. Mas eles não sabem nada. — Ele indicou a pegada, o fio e o botão de marfim. ― Fácil demais.
― Então, o que faremos agora? — Horace perguntou.
― O que fazemos agora — Halt respondeu ― você pega os cavalos e volta umas poucas centenas de metros e fica esperando. Will e eu vamos acabar com esses malditos genoveses de uma vez.
Horace avançou para reclamar com o arqueiro com as mãos estendidas.
― Oh vamos, espere um pouco! Certo, admito que eu estava sendo sarcástico... só um pouco. Mas isso não é razão para me deixar para trás. Você pode confiar em mim!
Halt já estava balançando a cabeça e colocou uma mão no antebraço de Horace para tranquilizá-lo.
― Horace, isso não é nenhum castigo. E eu confio em você da mesma maneira que confio em Will. Mas esta não é o tipo de luta para qual você foi treinado. E também não está convenientemente armado — acrescentou.
Sem perceber, em um gesto intuitivo, a mão de Horace caiu sobre o punho de sua espada que estava na bainha ao seu lado.
― Estou sim! — ele insistiu. ― Deixe-me chegar perto o suficiente e vou mostrar a esses malditos assassinos o quão bem estou armado! Acho que eu gostaria de ter os assassinos que mataram Ferris bem na ponta de minha espada.
Halt não soltou o braço do rapaz. Sacudiu-o suavemente para ele entender sua razão.
― É por isso que quero que você espere um pouco mais para trás. Esta não será uma luta corpo a corpo. Esses homens matam à distância. Will e eu temos nossos arcos, assim estaremos em condições de lutar contra eles. Mas você não vai conseguir chegar perto deles. Irão atirar tantas flechas em você com aquelas bestas, que antes de chegar a vinte metros deles irá parecer um porco espinho.
― Mas... — Horace começou.
― Pense nisso, Horace. Você não será capaz de ajudar quando a luta começar. Eles vão estar à distância. Será apenas um alvo extra para eles. E se for, eu terei que vigiá-lo e não serei capaz de me concentrar em encontrá-los e matá-los antes que eles nos matem. Agora, por favor, pegue os cavalos e leve-os para longe da área de tiro e nos deixe fazer o trabalho para o qual fomos treinados.
A luta interior era por muito evidente na face do jovem guerreiro. Foi contra a vontade que ele aceitou e deixou os seus amigos enfrentarem a difícil e perigosa tarefa que estava à frente deles.
No entanto, no fundo de seu coração, ele sabia que Halt estava certo. Ele poderia não contribuir em nada nessa missão. Seria na verdade, um impedimento, ou ainda pior, uma distração para seus amigos.
― Tudo bem — disse ele relutantemente. ― Eu acho que o que você disse faz sentido. Mas não gosto nada disso.
Will sorriu para ele.
― Eu também não gosto disso — disse. ― Preferia ficar para trás com você e os cavalos. Mas Halt não me dá escolha.
Horace sorriu para seu velho amigo. Ele podia ver uma luz de determinação nos olhos de Will. Já era hora deles irem ao combater os genoveses e Horace sabia que, apesar dos protestos de Will, ele estava pronto para fazer exatamente isso.
Sentindo-se pior do que inútil, Horace pegou as rédeas de Puxão.
― Vamos, rapaz.
Por um momento, o pequeno cavalo resistiu, virando um olhar inquisidor para o seu mestre e dando vazão a um relincho aborrecido.
― Vá com ele Puxão — Will disse, acompanhando a ordem com um sinal da mão.
O pequeno cavalo trotou relutantemente atrás de Horace e Kicker.
― Abelard, siga — disse Halt.
Seu cavalo balançou a cabeça com rebeldia, mas seguiu para acompanhar os outros dois cavalos de volta da linha cinzenta dos troncos retorcidos.
Horace se virou e falou suavemente para seus amigos.
― Se vocês precisarem de mim, é só chamar que eu irei...
Sua voz parou. Não havia nenhum sinal dos dois arqueiros. Eles tinham simplesmente desaparecido na floresta afogada. Horace sentiu uma emoção de nervosismo subir pela sua espinha. Ele olhou para Puxão.
― Dá-me arrepios quando eles fazem isso — ele disse.
Puxão balançou a cabeça violentamente, sacudindo sua crina em concordância.
― Ainda assim — disse Horace ― fico contente que eles estão do nosso lado.
Com a cabeça inclinada para o lado, Puxão considerou Horace com um olho. Isso é o que eu estava tentando lhe falar, parecia querer dizer.

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Boa leitura :)