18 de dezembro de 2016

Capítulo 19

— Quando você estava pensando em compartilhar estas informações conosco? — A voz de Halt estava incrivelmente calma.
Selethen encolheu os ombros.
— Uma vez que a negociação fosse concluída. Eu lhe retirei de Al Shabah três dias atrás, quando o navio de vocês foi avistado. Havia sempre a possibilidade de que nós não pudéssemos chegar a um acordo e, nesse caso, eu queria o prisioneiro onde a sua tripulação não poderia tentar um ataque surpresa para resgatá-lo.
Ele olhou para Svengal.
— Sem ofensa
O escandinavo respirou fundo e soltou muito lentamente. Ele estava obviamente fazendo um esforço enorme para se controlar.
— Você sabe, um dia desses, eu irei realmente me ofender se as pessoas continuarem jogando esses insultos. E então as coisas vão ficar um pouco feias. Quando nós escandinavos nos ofendemos, reagem com um machado de batalha.
Selethen inclinou a cabeça.
— Nesse caso, aceite minhas mais profundas desculpas. De qualquer forma, agora que a negociação teve sucesso, vou enviar a palavra a Mararoc e trazer o oberjarl aqui. Assim que a ordem de pagamento for selada e entregue a mim.
— Oh, não. Eu não penso assim — disse Evanlyn imediatamente. — Eu não entregarei o dinheiro até eu ver que a mercadoria não está danificada.
Por um momento, ela estava prestes a dizer “sem ofensas” para Svengal por se referir ao seu oberjarl como “mercadoria”. Mas depois da sua declaração anterior, ela achou mais prudente não o fazer.
Eles haviam chegado a um impasse. Selethen não estava disposto a trazer Erak de volta até que o dinheiro tivesse sido trocado. Igualmente, Evanlyn não iria pagar até que tivesse provas de que Erak estava ileso. Os dois negociadores entreolharam teimosamente.
Will finalmente quebrou o silêncio.
— Porque não vamos à Mararoc buscá-lo? — ele perguntou a Selethen. — A princesa pode se certificar que Erak está bem e entregar a ordem de pagamento lá.
Isso era significativo, pensou ele, que tanto Evanlyn e Selethen olharam imediatamente a Halt por uma resposta. O arqueiro mais velho estava concordando.
— Eu acho que é uma boa ideia — disse ele.
Era um bom acordo. E, além disso, havia vantagens em viajar para o interior de Arrida. Poucos araluenses se aventuraram mais de um quilômetro da costa e a sede dos arqueiros por conhecimento estratégico era insaciável. Ele olhou para Selethen.
— Eu suponho que você vá garantir a segurança da princesa?
— Nós vamos ter uma escolta de cinquenta dos meus homens — ele concordou.
— E minha tripulação — Svengal acrescentou — afinal de contas, nós juramos proteger a princesa.
Desta vez, porém, Selethen não concordou.
— Não — ele disse categoricamente. — Não permitirei que uma força armada de escandinavos marche através de Arrida.
— Há apenas trinta deles — disse Svengal ingenuamente.
Selethen sorriu sombriamente.
— Trinta escandinavos — disse ele — são o equivalente a um pequeno exército.
Svengal teve que sorrir modestamente para tal avaliação. Selethen mudou seu olhar para Halt.
— Eu não posso permitir isso — disse ele simplesmente.
Halt assentiu.
— Ele está certo, Svengal. Você não iria permitir que uma centena de guerreiros arridi vagueasse pela Escandinávia, iria?
Svengal mastigava o bigode pensativo e, eventualmente, teve de concordar que Halt tinha razão.
O arqueiro o viu vacilante e acrescentou:
— E eu acho que os cinco de nós, juntamente com os cinquenta guerreiros de Selethen, devem ser suficientes para manter a segurança da princesa.
Evanlyn tossiu levemente e todos olharam para ela.
— Acho que a princesa — disse ela maliciosamente — preferiria que vocês não discutissem sobre ela como se ela não estivesse na sala.
Ela sorriu para Svengal e, em seguida, acrescentou:
— Estou feliz por libertar o juramento de seus homens pelo pouco tempo que nos levará para chegar ao Mararoc.
Então ela virou-se para Selethen.
— Então, quando partimos?


O grupo partiu na luz acinzentada antes do amanhecer do dia seguinte. Selethen salientou que os arridis preferiam viajar nas horas antes do meio dia, altura em que o sol atingiria o seu pleno calor. Nenhum dos araluenses viu motivo para discordar dele.
A brisa do mar os seguiu pelo primeiro quilômetro ou dois. A manhã era fresca e eles cobriram bastante caminho rapidamente. Selethen tinha fornecido a Evanlyn um cavalo da raça local usados pelos guerreiros arridi. Era mais alto do que os cavalos que os três arqueiros cavalgavam, com ossos mais finos e aspecto mais delicado. Sua pelagem era lisa e curta em contraste com os pequenos cavalos desgrenhados. Tinha um focinho curto e um rosto bonito e inteligente. “Obviamente criado para alcançar grandes velocidades em distâncias curtas”, pensou Halt enquanto admirava o animal. “E, sem dúvida, capaz de lidar com o calor e a aridez do deserto.”
O líder arridi tinha oferecido a Horace uma montagem semelhante, mas Horace tinha escolhido ficar com Kicker.
— Ele conhece os meus modos — disse ele, sorrindo.
Havia uma longa e fina faixa de laranja rastejando acima das colinas baixas no leste conforme eles cavalgaram para o interior. A brisa do mar desapareceu à medida que se afastam da costa, mas o ar ainda estava frio. As noites em claro do deserto permitiam a fuga de calor para a atmosfera, Selethen tinha avisado a eles. As noites eram surpreendentemente frias, enquanto o dia se tornava quente e abrasador.
— Eu pensei que desertos deviam ser só areia — disse Horace à Will, examinando a superfície dura, rochosa que estavam passando.
Selethen ouviu o comentário e se virou para ele.
— Você vai ver muito disso quando chegarmos à Depressão de Areia — disse ele. — A terra que estamos atravessando agora é a planície costeira. Então há um cinturão de dunas de areia que se estende por trinta quilômetros antes de chegarmos ao interior. Subiremos algumas centenas de metros do local do Mararoc.
— Então, vamos ver bastante do país — disse Horace alegremente.
Os três arqueiros trocaram olhares rápidos. Na noite anterior, Halt tinha chamado Will e Gilan para seu quarto.
— Esta é uma ótima oportunidade para aprender algo sobre as zonas do interior de Arrida — disse ele. — Após os primeiros poucos quilômetros, o que temos em mapas de Araluen são pura adivinhação.
Will e Gilan escutaram ansiosamente. Arqueiros eram obcecados com o recolhimento de informações e conhecimentos sobre a topografia de um país podem ser vitais se alguma vez houver qualquer confronto futuro com os arridi.
— Tome nota de todas as características principais da terra – penhascos, montes, picos rochosos, poços. Particularmente poços. Quando descansarmos, anote tudo. Vamos comparar as notas a cada noite, para se certificar de que as mantemos o mais preciso possível. Depois vamos fazer um gráfico do progresso do dia. Vocês dois ainda tem seus buscadores do Norte? — ele perguntou.
Os dois mais jovens confirmaram com a cabeça. Os buscadores do Norte eram pedaços magnetizados de aço fixadas em um recipiente protetor e livres para rodar conforme o campo magnético da Terra ditava. Seu uso e valor inicialmente tinham sido descobertos pelos escandinavos. Todos os arqueiros carregavam um consigo.
— Então use-os — Halt prosseguiu. — Mas tentem ter certeza que Selethen não perceba muito do que estamos fazendo.
Selethen não era bobo. Ele viu o olhar rápido que passou entre os três arqueiros e resolveu ficar de olho neles. Não havia nenhuma animosidade existente entre os seus países. Mas quem sabia quando isso poderia mudar?
O olhar brilhante do sol tinha deslizado por cima do aro da terra agora – uma grande bola vermelha subindo para o céu. Interessava Will que nesta altura do dia era possível perceber o movimento do sol. Um momento era apenas abordar o horizonte, próximo estava subindo livremente. E seu calor já estava começando a morder, dissipando o frio remanescente da hora escura.
— Não gosto da aparência disso — Svengal murmurou.
Ele estava montando um cavalo pesado. A delgada raça arridi era relativamente frágil para carregar seu corpo volumoso durante uma longa viagem. Selethen olhou com curiosidade e o escandinavo apontou para o sol.
— Quando você vê um nascer do sol vermelho como esse no mar, você começa a procurar um porto — disse ele.
O wakir assentiu.
— Assim como no deserto. Muitas vezes significa uma tempestade. Mas nem sempre — acrescentou, dando um sorriso tranquilizador para Evanlyn.
Durante as horas antes do amanhecer, eles tinham montado como um grupo, os homens de Selethen montando em círculo em torno deles. Agora que a visibilidade melhorou, ele apitou um pequeno apito de prata e as tropas tomaram posições à luz do dia. Um pelotão de cinco cavaleiros tomou a frente até que eles estavam um quilômetro de antecedência – ainda em vista, mas capaz de dar aviso de qualquer ataque iminente. Eles se espalharam para fora em colunas lado a lado, cada homem várias centenas de metros do seu vizinho.
Outros cinco foram para trás e formaram uma fileira semelhante na retaguarda. Os quarenta homens restantes se dividiram em dois grupos de cavalo de cada lado do grupo de comando, uma centena de metros para fora e em caminhos paralelos. Era uma vantagem de viajar em tal país, nu inexpressivo, Halt pensou. Selethen poderia implantar seus homens em um espaço amplo, sem ter que mantê-los amontoados em uma trilha.
A outra característica notável da formação era que impedia os homens de conversar entre si e perderem qualquer possível ameaça. Os cavaleiros nas duas fileiras paralelas estavam todos virados para o exterior, ele percebeu, com os olhos vasculhando o horizonte.
Ele cutucou Abelard e alcançou o garanhão branco puro de Selethen.
— Esperando problemas? — ele perguntou, apontando para a rede escancarada dos homens protegendo-os.
Selethen encolheu os ombros.
— Sempre espere problemas no deserto. Então, você normalmente não irá encontrá-los.
Halt assentiu apreciativo.
— Muito sábio — observou ele. — Quem disse isso primeiro?
Selethen se permitiu um sorriso fino.
— Um homem muito sábio. Eu, na verdade.
Ele olhou em volta. Ele podia ver o mais novo dos três arqueiros fazer uma observação em uma pequena folha de pergaminho. Ele estava olhando fixamente para uma colina na distância com uma forma distinta agarrado ao seu pico. Ele decidiu que havia pouco que pudesse fazer para parar esta atividade.
Ele percebeu que Halt estava fazendo outra pergunta.
— Você mencionou os tualaghi — o arqueiro disse.
Ele acenou com a cabeça de forma significativa para a rede de proteção em torno deles.
— Ouvi que você os mantinha muito bem sob controle.
Selethen balançou a cabeça, exasperado.
— Ninguém pode manter sob controle os demônios por muito tempo. O que você sabe deles?
Halt encolheu os ombros.
— Eles são invasores. Bandidos. Assassinos.
Selethen acenou sombriamente.
— Tudo isso e muito pior. Chamamos-lhes Os Esquecidos de Deus, os Cavaleiros de Véu Azul. Eles desprezam a religião verdadeira. Adoram demônios e estão comprometidos com o assassinato, roubo e pilhagem. O problema é que eles conhecem o deserto com a palma das suas mãos e podem atacar e desaparecer antes que nós tenhamos a chance de revidar. Eles não têm nenhum sentido de honra ou piedade. Se você não for um deles, não é humano. Sua vida não vale nada.
— Mas você conseguiu derrotá-los alguma vez? — Halt solicitou.
— Sim. Nós formamos uma aliança com os bedullin.
Selethen viu a questão nos lábios do outro homem e continuou a explicar.
— Eles são uma tribo nômade do deserto. Guerreiros. Independentes e muito orgulhosos. Mas são pessoas honradas. Eles conhecem o deserto quase tão bem quanto os tualaghi e se juntaram a nós em uma aliança temporária para os perseguirem.
— Pena que você não conseguiu torná-la permanente — disse Halt.
Selethen olhou para ele.
— De fato. Mas como eu digo, os bedullin são orgulhosos e independentes. São como falcões. Você pode usá-los para caçar com você por um tempo. Mas eles sempre deixam a caça para si próprios. Talvez seja hora de eu me aproximar deles novamente para colocar os tualaghi de volta em seu lugar.
Halt percebeu que o wakir olhava mais e mais vezes para o horizonte sul. Ele seguiu o olhar do homem e podia ver uma fina linha escura lá.
— Problema? — disse ele.
Selethen piscou-lhe um sorriso tranquilizador.
— Talvez. Mas pelo menos os tualaghi não vão nos preocupar. Eles se movem em grupos de no máximo dez. Cinquenta guerreiros seria uma força muito grande para eles atacarem.
— Isso mesmo — Halt murmurou. — No entanto, um homem sábio deve sempre esperar o problema, não foi isso o que disse?
Inconscientemente, a sua mão tocou a corda do arco enorme pendurado em seus ombros. Selethen percebeu a ação. Ele olhou para o horizonte sul novamente. A linha escura havia engrossado visivelmente. E parecia mais perto. Sua mão foi até o apito de prata dentro de sua camisa.
— Acho que vou chamar os batedores em um pouco mais perto — disse ele. — Não vai demorar e a visibilidade vai se tornar um problema.
Svengal instigou seu cavalo resistente ao lado deles. Ele fez um gesto para a tempestade que se aproximava.
— Viu isso? — ele perguntou, e Selethen assentiu. — Quando somos atropelados por uma delas no mar, é cheia de vento e água e é tão densa que você não pode respirar. O que há em que um desses?
— Areia — Selethen lhes disse. — Montes e montes de areia.

Um comentário:

  1. kkkk nn aguentei quando o Svengal falou e ia se ofender se alguem mais fala-se "sem ofensas" kkkk

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Boa leitura :)