29 de dezembro de 2016

Capítulo 18

Como Halt havia previsto, o progresso deles foi ficando cada vez mais devagar conforme eles se aprofundavam na densa floresta que tinham avistado no horizonte.
Ali várias árvores cresciam numa confusão imprevista em cada lado do caminho estreito. Conforme Horace andava através delas, os diferentes ângulos de cada fileira de troncos pareciam criar uma sensação de movimento nas sombras, e por causa disso ele estava constantemente parando para olhar de novo, tendo certeza que não havia visto ninguém se mexendo.
Eles eram ajudados pelos dois cavalos arqueiros, é claro. Puxão e Abelard eram treinados para avisar aos senhores se sentissem a presença de estranhos. Mas até suas habilidades dependiam da direção do vento. Se alguém estivesse a favor do vento, seu cheiro não seria carregado até eles.
Eles prosseguiram numa série de curtos tumultos. Primeiro Will iria adiantar-se dez a vinte metros enquanto Halt esperava com o arco preparado, até Will ganhar a aparência de um tronco. Então Will iria examinar a floresta enquanto Halt avançava, aí passava por ele para outro ponto vinte metros mais longe. E assim eles iriam repetir o processo, um assistindo enquanto o outro avançava. Frequentemente, eles paravam para deixar os cavalos sentir o ar e ouvir qualquer barulho de fora da floresta ou odores das árvores ao redor.
Horace ficava na retaguarda. Ele tinha seu escudo pendurado nas costas para proteção. Se precisasse dele numa emergência, ele poderia facilmente puxá-lo pelo braço esquerdo. Sua espada estava desembainhada. Quando primeiro ele puxou a arma, sentiu-se um pouco autoconsciente – preocupado se iria fazê-lo parecer nervoso. Mas Halt havia assentido em aprovação quando ele apanhou o brilho da lâmina afiada na luz escura sob as árvores.
― Nada mais inútil do que uma espada deixada na bainha — ele havia dito.
Halt também havia instruído para ele virar subitamente de vez em quando e observar o caminho atrás dele, tendo certeza que não havia ninguém para atacá-los por trás.
― Não faça isso em intervalos regulares — Halt tinha contado-o quando eles estavam prestes a entrar no pequeno mundo verde da floresta. ― Qualquer um nos seguindo vai reconhecer um padrão regular, combinar e andar mais livremente. Misture as coisas. Continue mudando.
Assim agora, de tempos em tempos, Horace iria virar para olhar o caminho, voltar, depois olhar de novo imediatamente. Halt contou-o que esse era o melhor jeito de pegar um perseguidor inconsciente.
Mas cada vez que ele fazia isso, não havia ninguém ali.
Aquilo não fez nada para diminuir a tensão. Ele estava tão prevenido que, a qualquer momento, ele podia virar e poderia haver alguém andando na trilha atrás deles. Ele percebeu que sua mão no cabo da espada estava úmida em tensão e ele secou-a cuidadosamente na jaqueta. Numa batalha, Horace iria encarar qualquer inimigo e em qualquer número sem hesitar. Era a incerteza dessa situação que o perturbava – saber que, não importando quantas vezes não houvesse ninguém atrás deles, essa poderia ser a vez que tudo desse errado.
Ele também se sentia completamente vulnerável na companhia de Will e Halt. Ele observava-os enquanto agiam como fantasmas entre as árvores, as capas ajudando-os a se misturarem nas sombras cinza e verdes da floresta que às vezes ele tinha problemas vendo-os claramente.
Ele estava usando a capa que Halt havia dado para ele, naturalmente. Mas sabia que a habilidade de se esconder dependia mais do que apenas as formas de camuflagem na capa. Era resultado de anos de prática, de aprender como usar a menor quantidade de cobertura possível. Como mover-se rapidamente sem quebrar galhos ou farfalhar folhas mortas no chão. Sabendo quando andar e quando ficar absolutamente em silêncio, embora seus nervos gritem para você mergulhar num esconderijo. Comparado as duas quase silenciosas sombras que o acompanhavam, ele sentia-se como um grande e desajeitado cavalo de carga, balançando e batendo nas árvores e na vegetação rasteira.
Um pensamento repugnante ocorreu a ele: qualquer pessoa com metade de um cérebro iria procurar pelo mais fácil e visível alvo para o primeiro tiro. E seria ele.
Inconscientemente, ele secou a mão molhada na jaqueta novamente.
À frente, conforme Halt avançava diante dele, Will olhava rapidamente para trás para o seu melhor amigo, tomando a retaguarda. Era só uma precaução extra, aproximando-se de Horace. O homem no centro do grupo, independentemente de ser Halt ou Will, tinha a responsabilidade de checar a vanguarda, a retaguarda e os lados conforme progrediam. Ele estava impressionado com a calma de Horace, pela forma que ele parecia ter essa situação sobre controle. O jovem guerreiro não fora treinado para esse tipo de tática escura e nervosa. Contudo ele pareceu estar tranquilo e inabalado.
Will, por outro lado, estava surpreso que nenhum dos amigos podia ouvir o seu coração martelando dentro de sua caixa torácica. A tensão sob as árvores estava quase concreta. A expectativa de que um besteiro pudesse pular da floresta escura, a inquietação que a mais leve distração de sua parte poderia custar à vida dos seus amigos, estava perto do intolerável. Ele balançou a cabeça furiosamente. Esse tipo de pensamento o levaria para exatamente a distração que ele estava preocupado.
Limpe sua cabeça. Limpe sua mente de qualquer distração, Halt tinha falado para ele centenas de vezes durante os anos que eles tinham treinado juntos. Torne-se parte da situação. Não pense. Sinta e perceba o que está ao seu redor.
Ele tomou um grande fôlego e ajeitou-se, esvaziando a mente de dúvidas e preocupações, focando a atenção e o subconsciente na floresta em torno dele. Depois de alguns segundos, começou a ouvir os pequenos sons da floresta mais claramente. Um pássaro passando de uma árvore a outra. Um esquilo tremendo. Um ramo caindo.
Puxão e Abelard pisavam silenciosamente ao lado dele, as orelhas se mexendo enquanto eles procuravam por algum risco potencial. Adiante, ele podia ouvir os passos suaves de Halt. Atrás, os sons mais altos provocados por Horace e Kicker, sem importar quanto o alto garoto tentasse mover-se silenciosamente.
Esse era o estado de atenção que ele precisava. Ele tinha de ouvir todos os sons na floresta para que algo anormal, qualquer irregularidade fosse registrada imediatamente.
Se um pássaro tomasse voo, por exemplo, e não pousasse em outra árvore dentro de alguns segundos, isso indicava que algo havia o assustado. Ele estava escapando ou fugindo, e não simplesmente indo para um lugar mais promissor de alimento. Se houvesse uma aguda nota de alerta no tremor do esquilo, indicaria a presença de algo ou alguém indesejável no território.
A maioria dos outros animais menores iria responder àquele tipo de declaração territorial recuando, ele sabia. Um predador não. Um predador humano definitivamente não iria.
Halt tinha parado, pisando na sombra de um olmeiro velho e coberto de fungos. Will examinou o chão à frente dele, escolhendo um caminho para que pudesse andar numa linha reta e previsível, então deslizou de trás da árvore que o escondia e andou silenciosamente outra vez.
Puxão e Abelard andavam em passos suaves atrás dele.
Enfim, a luz escura começou a clarear-se e as árvores tornaram-se mais longamente espaçadas. Com cada passo rápido, Will e Halt poderiam cobrir mais território até ter quase alcançado a borda da floresta. Will começou a avançar em direção ao urzal aberto e coberto de capim, mas Halt levantou uma mão e o fez parar.
― Olhe primeiro — ele disse suavemente. ― Esse poderia ser justamente o lugar onde eles prepararam uma emboscada, sabendo que relaxaríamos por estarmos fora da floresta.
A boca de Will secou quando notou que Halt tinha razão. A sensação de alívio que ele sentiu, a súbita diminuição de tensão havia quase o deixado no que poderia ter sido um erro fatal. Ele agachou-se ao lado de Halt e juntos estudaram o terreno perante eles.
Horace esperou pacientemente, poucos metros atrás deles, com os cavalos.
― Consegue ver algo? — Halt perguntou calmamente.
Will sacudiu a cabeça, os olhos ainda mexendo.
― Nem eu — Halt concordou. ― Mas não significa que eles não estejam aqui.
Ele olhou para a árvore que eles haviam se escondido atrás. Era uma das mais altas, mais estabelecida do que as vizinhas.
― Suba na árvore e dê uma olhada. Fique desse lado do tronco enquanto faz isso.
Will sorriu maliciosamente para ele.
― Eu não nasci ontem.
Halt levantou uma sobrancelha.
― Talvez não. Mas você poderia ter morrido hoje se eu deixasse você expressando-se na clareira alguns minutos atrás.
Não havia resposta àquilo. Will olhou a árvore, selecionou os apoios para os pés e para as mãos que usaria, e pegou os galhos. Ele sempre foi um excelente escalador e só levou poucos segundos para ele estar dez metros acima da superfície da floresta. Desse ponto de vantagem, ele tinha uma clara visão da terra que os cercava.
― Nenhum sinal — ele falou discretamente.
Halt grunhiu.
― Você pode arranjar uma boa posição de tiro aí?
Will olhou os arredores. Poucos metros acima dele havia um grande ramo que o daria uma boa posição, com uma visão limpa da região à frente. Ele viu o sentido da pergunta de Halt. De um ponto elevado, ele veria qualquer movimento inimigo antes que estivessem numa posição de tiro.
― Dê-me um momento.
Ele subiu mais na árvore. Halt observava-o, sorrindo com a facilidade com que Will podia escalar. “É porque ele não está nervoso”, ele percebeu. “Ele sente-se em casa lá em cima e não está com medo de cair”.
― Pronto — Will disse.
Ele tinha uma flecha pronta na corda e os olhos olhavam de um lado até o outro.
Halt levantou-se de sua posição e foi até o terreno aberto perante ele. Ele decifrou as pegadas dos forasteiros mais uma vez – um calcanhar aqui, uma mancha de grama cortada e pisada ali – tão fraca que só um investigador especializado veria.
Ele andou dez metros. Depois vinte. Cinquenta. Inconscientemente, ele havia andado curvado, cada um dos seus músculos prontos para mergulhar numa sombra ou disparar um tiro de volta no momento em que notasse. Gradualmente, conforme andava mais, percebeu que o perigo havia passado. Ele ficou mais ereto, e então, parando, gesticulou para Will e Horace juntarem-se a ele.
A grama aqui estava apenas na altura do joelho. Não provia de nada como a cobertura que o tojo da altura dos ombros dava. Qualquer um esperando numa emboscada aqui estaria em mais perigo do que suas possíveis vítimas, Halt pensou. Teriam que ficar agachados para esconderem-se, e assim eles iriam gastar preciosos segundos levantando para ver a caça e preparando-se para atirar. Os genoveses eram muito hábeis para colocarem-se numa desvantagem.
Eles montaram e cavalgaram mais relaxados agora, mas ainda observando o chão cuidadosamente e ainda virando de tempos em tempos para checar a retaguarda. O gramado continuou por vários quilômetros. Então eles alcançaram um cume e olharam para um largo vale abaixo dele.
― Agora é onde vamos ter que ser cuidadosos — Halt disse.

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