29 de dezembro de 2016

Capítulo 17

― Temos de assumir que ele nos viu ― Halt disse enquanto eles andavam.
Eles estavam cavalgando em fila única, mas agora Horace e Will levaram os cavalos deles para o lado de Halt para que pudessem conferir mais facilmente.
― Mas ele nos reconheceu? ― Will disse. ― Afinal, estamos muito longe e nós poderíamos ser apenas três cavaleiros.
Halt virou levemente na sela para o seu antigo pupilo. O que Will disse estava correto. Contudo, Halt viveu muito mais do que Will para se dar ao luxo de assumir que os seus inimigos pudessem errar assim.
― Se ele nos viu, também temos de assumir que ele reconheceu-nos.
― Afinal de contas ― Horace intrometeu-se ― quando vocês dois não estão se escondendo nos arbustos, vocês são bastante reconhecíveis. Não tem muitas pessoas cavalgando no campo carregando grandes arcos de madeira e vestindo capas camufladas com capuz.
― Obrigado por lembrar-me disso ― Halt disse secamente. ― Mas na verdade, você está certo. E os genoveses não são tolos. Agora Tennyson vai saber que estamos atrás dele.
Ele parou, coçando a barba, pensativo, enquanto considerava a situação.
― A questão é ― ele disse, mais para si mesmo do que para os outros ― o que fazer depois?
― Deveríamos ir um pouco para trás? ― Will sugeriu. ― Se sairmos de vista, Tennyson pode assumir que o genovês estava errado e que eram apenas três cavaleiros sem interesse nele?
― Não. Eu acho que não. É esperar demais. E se sairmos do caminho, damos mais tempo para ele nos passar a perna. Acho que deveríamos fazer o oposto. Ir para cima dele.
― Ele saberá que estamos aqui ― Horace disse.
Halt assentiu para ele.
― Ele sabe que estamos aqui, de qualquer modo. Então vamos empurrá-lo. Dessa maneira, ele terá que continuar andando, e um alvo se mexendo é mais fácil de ver do que um oculto. ― Ele chegou a uma decisão e adicionou, num tom positivo: ― Vamos colocar pressão nele. Pessoas sob pressão cometem erros e isso poderia funcionar para nós.
― É claro... ― Horace começou, mas hesitou.
Halt gesticulou para ele continuar.
― Bem, eu estava pensando, nós ficaremos sob pressão também, não é? E se nós cometermos o erro?
Halt fitou-o por vários segundos sem falar. Então virou para Will.
― Ele é um raio de sol, não é?
Eles continuaram em silêncio por alguns minutos. Estavam cavalgando ladeira acima ao ponto onde eles viram o genovês na linha do horizonte. Eles ainda tinham aproximadamente cem metros para percorrer antes de alcançar o cume quando Halt levantou a mão para sinalizar que os outros parassem.
― Por outro lado ― ele disse, numa voz baixa ― Horace deu um bom ponto. Os genoveses são assassinos e uma das suas técnicas favoritas é a emboscada. Ocorreu-me que não é uma boa ideia subir até o cume assumindo que não há nada a se preocupar.
― Você acha que eles estarão esperando por nós? ― Will disse.
Os olhos observando o cume.
― Acho que eles poderiam estar. Então, a partir de agora, não vamos subir nenhum cume sem explorar o caminho à nossa frente.
Ele fez um movimento para descer da sela, mas Will interrompeu-o, caindo levemente na trilha.
― Eu vou fazer isso ― ele disse.
Halt fez como se fosse argumentar, então fechou a boca. Sua preferência natural era sempre tirar Will do perigo, mas percebeu que ele tinha que deixar o jovem ter sua quota de risco.
― Tome cuidado ― ele disse.
Puxão ecoou o pensamento com um estrondo baixo saído do peito. Will sorriu para os dois.
― Não sejam um par de vovós ― ele disse.
Então escorregou rapidamente pelo arbusto que ladeava o caminho. Curvando-se, ele subitamente desapareceu de vista. Horace soltou um leve som de surpresa.
Halt olhou para ele.
― O que foi?
Horace gesticulou para a moita rolante e grossa que cobria a encosta. Não havia sinal de Will, não havia sinal de nada se movendo nos arbustos, nada além do vento.
― Não importa quantas vezes eu o vejo fazer isso, ainda me assusta todas às vezes. É sinistro.
― Sim ― disse Halt, observando a encosta acima deles. ― Suponho que seria. Ele é muito bom nisso. Naturalmente ― ele adicionou modestamente ― eu ensinei tudo o que ele sabe. Sou conhecido como o especialista em movimento invisível no Corpo de Arqueiros.
Horace franziu as sobrancelhas.
― Pensei que Gilan era o verdadeiro especialista ― ele disse. ― Will me contou que uma vez que ele aprendeu os pontos mais sensíveis com Gilan.
― Ah, é mesmo? ― Halt disse, com uma sugestão de frieza na voz. ― E quem você acha que ensinou Gilan?
Aquilo não ocorreu a Horace. Não pela primeira vez, ele encontrou-se desejando que a sua língua não fosse mais rápida do que seu cérebro.
― Ah... sim. Você ensinou, suponho ― ele disse e Halt curvou-se levemente na sela.
― Exatamente ― Halt disse, com grande dignidade.
― Então você pode ver onde ele está no momento? ― Horace perguntou com curiosidade.
Ele questionou-se como isso funcionava. “Se você ensinou alguém a andar sem ser visto, e se sabe todos os seus truques, você poderia vê-lo? Ou seriam invisíveis até para a pessoa que os ensinou?”
― Naturalmente ― Halt respondeu. ― Ele está ali.
Horace seguiu a direção do dedo indicador e viu Will ereto no cume da encosta. Segundos depois, eles ouviram seu assobio e acenou para eles andarem.
― Bem, agora você pode vê-lo ― disse Horace. ― Eu posso vê-lo agora! Mas você podia vê-lo antes de levantar?
― Claro que sim, Horace. Como você pode duvidar de mim? ― Halt perguntou.
Então mandou Abelard à frente, gesticulando para Puxão o seguir. Seu rosto estava escondido de Horace, dessa forma o jovem guerreiro nunca veria o sorriso que crescia ali.
― Ele parece ter continuado andando ― Will disse quando os alcançou. ― Embora possa estar em qualquer lugar por aí.
Abaixo deles, a terra gradualmente inclinou-se, coberta pelo mesmo arbusto grosso e samambaias. Will estava certo. Um besteiro poderia estar escondido em qualquer lugar naquela confusão.
Halt olhou a área, pensativo.
― Droga ― ele disse. ― Só vai nos fazer diminuir o passo.
― Essa é a ideia ― Will disse.
― Precisamente ― Halt soltou um suspiro de exasperação.
― Suponho que isso dê um fim à ideia de pôr pressão sobre ele ― Horace disse.
Halt fitou-o friamente por alguns segundos. O bom humor dos arqueiros pareceu deixá-lo quando os planos deles foram frustrados, Horace pensou. Ele também pensou que poderia ser uma boa ideia não dizer nada a mais por enquanto.
Halt, satisfeito que sua mensagem não dita foi registrada, virou para Will quando chegou a uma decisão.
― Muito bem. Você faz o reconhecimento à frente. Vou lhe dar cinquenta metros e aí vamos atrás de você. Você sabe as regras: Olhar. Gritar. Atirar.
Will assentiu. Ele sinalizou para Puxão ficar onde estava e seguiu pela trilha, os olhos no chão, atento as pegadas deixadas ali. Halt fez Abelard avançar lentamente, se posicionou em um ângulo da trilha onde tivesse espaço para atirar e colocou uma flecha no arco. Seus olhos escanearam o chão de um lado a outro da trilha conforme Will prosseguia.
― Tudo bem se eu perguntar-lhe uma coisa, Halt? ― Horace disse timidamente.
Ele não tinha certeza se deveria interromper a concentração do arqueiro com uma pergunta. Mas Halt simplesmente assentiu, sem tirar a atenção dos arbustos.
― Olhar. Gritar. Atirar. O que é isso? ― Horace perguntou.
Halt começou a responder. Se Horace fosse trabalhar com eles no futuro, seria muito bom explicar para ele os métodos assim que perguntasse.
― É o jeito que nós...
Aí, avistando um sinal pequeno de movimento nos arbustos à direita de Will, ele parou de falar e levantou-se levemente dos estribos, seu arco na posição de mira, a flecha começando a escorregar para um tiro direto.
Um pequeno pássaro agitou-se para fora do arbusto que ele estava observando, voou poucos metros, então pousou cuidadosamente em outro galho, enterrando o bico nas pétalas de uma flor.
Halt relaxou, abaixando a flecha novamente. Horace notou que Will percebera o movimento também. Ele havia abaixado. Agora, cautelosamente, ele levantou-se novamente e olhou para onde Halt e Horace estavam observando.
Halt acenou para ele. Ele assentiu e começou a andar de novo, analisando o chão enquanto isso.
― Desculpe, Horace ― Halt disse. ― Você queria saber sobre o “Olhar. Gritar. Atirar”. É como nós abordamos uma situação como essa. Will está procurando pelas pegadas deles e por qualquer sinal de que alguém poderia ter deixado a trilha e se escondido para armar uma cilada. Enquanto ele faz isso, sua atenção é distraída. Então eu continuo observando cada lado da trilha, apenas no caso de ter mais alguém ali, ou seja, se eu ver um besteiro erguer-se dos arbustos, eu grito e Will vai ao chão imediatamente. Na mesma hora, eu atiro no besteiro. Olhar. Gritar. Atirar.
― Ele olha. Você grita e atira ― Horace disse.
― Exatamente. E fazemos isso a cinquenta metros de distância porque se houver uma emboscada, minha flecha irá atingir quem fez a emboscada mais rapidamente. O problema vai ser quando chegarmos àquelas árvores à frente de nós.
Horace olhou. A área coberta de tojo continuava por outros dois ou três quilômetros. Mas em seguida ele podia ver a linha escura de uma grossa floresta.
― Suponho que você não possa ver a cinquenta metros ali ― ele disse.
Halt assentiu.
― Certo. Vamos ter que nos precipitar vinte metros quando chegarmos lá. Vamos ― ele acrescentou. ― Will está nos chamando adiante.
Eles cavalgaram para a inclinação onde Will estava esperando por eles. Ele sorriu para Halt quando os dois cavaleiros paravam. Puxão se aninhou e relinchou. Ele nunca ficava feliz enquanto Will estivesse longe dele.
― Você se preocupa à toa ― Will falou para ele, dando um tapinha no nariz macio de Puxão. Mas Halt aprovou a reação do cavalo.
― Leve-o com você desta vez ― ele disse. ― Devia ter pensado nisso antes. Ele vai sentir alguém nos arbustos mais rápido do que nós.
Will pareceu um pouco preocupado sobre a ideia.
― Eu não quero arriscar que Puxão seja atacado por um daqueles besteiros.
Halt sorriu para ele.
― Agora quem está preocupado?
Will deu de ombros.
― Dá no mesmo ― ele disse ― eu ficaria mais confortável se ele estivesse com vocês se alguém começasse a atirar.
― E eu estarei mais confortável se ele estiver com você ― Halt disse para ele.
Então ele pegou o arco de onde jazia, sobre os joelhos.
― Não se preocupe. O único que vai começar qualquer tiroteio sou eu.

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