9 de dezembro de 2016

Capítulo 17

Sammy enfiou a cabeça pela porta de vaivém e espiou Nellie esfregando a cozinha impecável.
— O que você está fazendo?
Ela nem olhou para cima.
— Eu gosto de deixar meu espaço de trabalho em perfeitas condições.
Franzindo a testa, ele lançou um olhar por cima do ombro para o guarda que esperava no corredor.
Ele se aproximou dela e sussurrou uma única pergunta em seu ouvido:
— Por quê?
— Eu me orgulho da minha cozinha — ela disse com os dentes cerrados.
— Ninguém vai ver — ele insistiu em uma voz baixa — Temos nitro suficiente para explodir um porta-aviões de porte médio. Ninguém vai saber quão limpo estava antes de ela ser vaporizada.
— Eu saberei — ela respondeu, e continuou a polir.
Sammy ficou sério.
— Nós precisamos ir para o laboratório. Esta é a maior noite de nossas vidas. E a menos que tudo aconteça perfeitamente, será a última também.
Ela não olhou em seus olhos.
— Você não vê que, se eu não me mantiver ocupada, vou me acovardar antes que nós possamos colocar o plano em ação?
— Você não vai se acovardar — Sammy disse firmemente. — Você é a pessoa mais forte que conheço. Agora, vamos para o laboratório. Temos menos de meia hora antes de o local ser trancado.
Era sua rotina noturna, bem conhecida por seus captores. Nellie iria terminar na cozinha, e depois ajudaria Sammy a arrumar o laboratório no final do dia. Pouco tempo depois, os guardas os levariam às suas celas separadas, vários andares abaixo, e os trancariam lá dentro.
Só que nada teria a ver com rotina esta noite.
Enquanto eles navegavam pelos corredores, receberam saudações amigáveis de vários membros da equipe. Era incrível como algumas sobremesas incríveis poderiam tornar captores e cativos em colegas e companheiros.
Até o guarda os acompanhava atrás deles a uma distância respeitosa, com sua arma no coldre. E quando eles entraram no laboratório, ele ficou para trás no corredor.
— Espero que todo mundo saia a tempo — Nellie sussurrou para Sammy. — Só porque eles trabalham para alguém mau, não os torna maus também.
— Esqueça eles — Sammy rebateu. — Eu espero que nós saiamos. Porque uma vez que começarmos a reação em cadeia, esta operação não tem um botão de pausa.
Ele olhou nos olhos dela, e ela lembrou do quão quente o tinha achado na primeira vez que eles se encontraram – quando quente tinha outro significado além de 450 quilos de nitro esperando para explodir.
— Nellie, eu tenho que dizer isto agora, porque posso não ter outra chance. Tem sido horrível ser um prisioneiro aqui. Mas eu não trocaria um minuto disso, porque foi onde eu comecei a conhecê-la.
Nellie plantou um pequeno beijo na ponta do nariz perfeito dele.
— Terá continuação — ela prometeu, desejando que este pudesse ser um momento mais romântico. Mas havia coisas demais à frente deles, coisas demais que poderiam dar errado. E não importava o quanto ela fatiasse e picasse as possibilidades em sua mente, uma proporção alarmante delas deixavam Sammy e Nellie mortos no fundo de uma pilha de escombros. — Agora, vamos nessa.
Uma bomba de nitro escondida no extintor de incêndio no laboratório serviria como gatilho. Assim que explodisse, a explosão viajaria através do edifício pelas linhas de gás, desencadeando as dezenas de galões de nitro estrategicamente posicionados onde causariam o maior dano. Em um tempo muito curto, não haveria nenhum soro restante, e nenhum edifício, também. Mais importante, todas as notas, esboços, e fórmulas sobre a criações de Gideon Cahill seriam incineradas.
Uma pequena carga foi ligada magneticamente no extintor. Sammy definiu o atraso de três minutos, e pausou.
— Juntos? — ele perguntou a Nellie.
Seus polegares encostaram no botão e eles pressionaram. A leitura saltou de 3:00 para 2:59 e começou a contagem regressiva. Não havia como voltar atrás agora.
Os dois colocaram as máscaras de ar.
Sammy subiu em uma mesa de experimentos e segurou um pequeno frasco diretamente sob o detector de veneno no teto. Ele tirou a rolha, e um fio de gás sarin foi espalhado na unidade. Imediatamente alarmes uivaram por todo o edifício. Uma voz automatizada ressoou do sistema de comunicação.
— Alerta de contaminação! Evacuem imediatamente!
Sammy tinha pulado da mesa e eles invadiram o corredor, que já estava cheio de funcionários agitados. Em um grande laboratório preenchido com produtos químicos, um alerta de contaminação não era coisa a ser ignorado. Onde estava o guarda? Ele abandonara o seu posto?
Sammy apontou. Lá estava ele, buscando na multidão turbulenta por um supervisor e instruções. Ele parecia incerto, porém – mau sinal – sua arma tinha sido puxada. Pelo menos ele mudou de curso e veio correndo para o laboratório.
Os prisioneiros se abaixaram no banheiro masculino.
— Ele está sem máscara respiratória — Nellie sussurrou em alarme.
— O gás já se dissipou — Sammy a assegurou.
Eles observaram através de uma fresta na porta quando o homem desapareceu no laboratório.
Não encontrando ninguém, ele ressurgiu, e saiu correndo em outra direção. Os dois tiraram suas próprias máscaras e contaram mais dez segundos enquanto as sirenes soavam.
— Alerta de contaminação! Evacuar imediatamente!
Quando eles se aventuraram no corredor, a multidão de funcionários havia diminuído consideravelmente enquanto todos iam para as saídas.
Sammy e Nellie saíram correndo contra o fluxo dos evacuados, em direção aos principais escritórios do complexo. Alguns cientistas tentaram avisá-los que eles estavam indo para o lado errado, mas foi por preocupação com a segurança deles, em vez de uma tentativa de mantê-los prisioneiros.
Eles estavam livres – pelo menos tão livres quanto poderiam estar enquanto estavam presos no porão de um edifício que estava prestes a explodir até o céu.
O alarme ressoou na escada.
— Alerta de contaminação!
Sammy olhou para o relógio para verificar o horário.
— Dois minutos! — ele gritou para Nellie.
Ela assentiu e continuou em movimento. Eles estavam bem na hora, mas seria um pouco em cima.
No nível principal do porão, os corredores estavam desertos e o lamento da sirene rodopiava em torno deles, ecoando nas paredes.
Nellie começou a acelerar, mas diminuiu quando Sammy começou a ficar para trás. Eles haviam sonhado com esse plano juntos, o tornaram realidade juntos, e o colocaram em ação juntos.
— Um minuto! — Sammy ofegou atrás dela.
Nellie virou uma esquina, e o destino final deles apareceu no final do longo corredor – o luxuoso conjunto de escritórios. 
Ela correu para lá, com Sammy talvez uns nove metros atrás. Eles iriam conseguir!
Um braço forte foi estendido e uma mão a agarrou pelo pescoço, impedindo o seu progresso tão repentinamente que ela quase foi estrangulada.
— Indo a algum lugar, mocinha? — veio uma voz suave e macia sobre o barulho do alarme.
Ela reconheceu seu agressor imediatamente. Dr. Jeffrey Callender, o médico do laboratório e fundador do Instituto Callender, onde Fiske Cahill estava sendo “tratado”.
— Solta ela! — trovejou Sammy.
— Ah, eu acho que não — Callender respondeu em um tom falsamente agradável. — Não precisaria de muito para eu quebrar o seu lindo pescocinho. Eu sou um médico, afinal. — Ele olhou para Nellie. — Que vergonhoso seria. Eu me tornei um pouco afeiçoado de seus doces.
— Todos nós temos que sair daqui! — ela guinchou. — Você não consegue ouvir o alarme?
— Sim, mas já que vocês dois estão correndo na direção oposta, suponho que vocês saibam de algo que mais ninguém sabe.
Sammy empalideceu.
— Como eu suspeitava — Callender estava triunfante. — O alarme é a cobertura de sua patética tentativazinha de fuga. Ou talvez algo mais? Não há nenhuma saída aqui...
— Pelo amor de Deus, deixe-nos ir! — Sammy rugiu. — Todo o edifício está pronto para explodir em trinta segundos!
— Você deve pensar que eu sou realmente estúpido... — o médico começou.
— Você é realmente estúpido! — Nellie berrou.
Canalizando toda a sua força, ela libertou sua mão direita e o socou na cara. Enfurecido, Callender estendeu a mão para ela novamente, e Nellie entendeu que, se ela permitisse que ele a recapturasse, isso significaria o fim de sua vida. Ela poderia no final ganhar a luta – mas não antes que o complexo inteiro explodisse em uma bola de fogo.
Com grunhido de raiva e propósito, ela bateu seu ombro no peito de seu oponente. Enquanto ele cambaleava para trás, Nellie levantou seu pé em um chute de karatê e conseguiu um golpe direto no nariz comprido. Houve um barulho doentio da cartilagem sendo esmagada, acompanhada por um uivo de agonia de Callender.
  Sammy estava sobre ele em um instante. Não confiando em suas habilidades de boxe, o jovem cientista dirigiu o topo de sua cabeça contra o queixo de Callender. O médico caiu onde estava, atordoado.
Um pouco atordoado por si mesmo, Sammy checou o horário.
— Dez segundos!
Eles correram pelo corredor para o escritório do Dr. Benoit. Enquanto irrompiam pela porta, Sammy tirou um pequeno controle remoto do seu bolso. Ele estava programado para explodir outra bomba de nitro – a menor que eles haviam criado. A carga estava escondida sob as folhas de uma planta que estava numa prateleira alta contra a parede – uma parede de alicerce.
Ele apertou o botão e eles se prepararam para a explosão que abalaria uma parte do alicerce, desmoronaria os tijolos acima dela, e abriria uma rota de fuga do complexo.
Nada aconteceu.
Sammy apertou de novo e de novo sem resultado. O controle remoto tinha falhado, e não havia tempo de sobra para mexer nele. Os três minutos tinham acabado. Brilhante como era, o plano deles tinha sido frustado pelo seu menor componente.
Nós vamos morrer.
Estranhamente, encarando o fim, o primeiro pensamento de Nellie não foi para Sammy ou em si mesma. Foi para seus pequenos amados, Amy e Dan, e o terrível fato de que ela nunca os socorreria de problemas novamente...
A primeira explosão sacudiu o edifício, seguida por um som atroador enquanto as linhas de gás inflamavam e o desastre planejado se propagava.
Eles podiam sentir a parede de calor do prédio atrás deles e conseguiam imaginar a coluna de fogo que surgia através do edifício, destruindo tudo em seu caminho.
Em um último esforço para salvar suas vidas, Nellie pegou um peso de papel da mesa de Benoit e o arremessou na planta. O vidro pesado atingiu a garrafa de nitro, quebrando-a em mil pedaços. O composto químico instável disparou, abrindo um buraco na parede do tamanho de um SUV. Uma avalanche de escombros caiu – fragmentos de tijolo e concreto, uma tempestade de pó de gesso, terra e grama.
Sammy e Nellie escalaram o monte de terra e detritos, os olhos ardendo com a fumaça e fuligem. Através do nevoeiro denso brilhava uma única estrela.
O mundo lá fora!
Pernas bombeando como pistões, Sammy e Nellie emergiram do escritório vaporoso, atingiram o solo, e começaram a correr. Direção não era importante, só a distância importava.
Quando o fogo no prédio atingiu as dezenas de galões de nitro espalhados ao longo da Avenida Cabum, uma série de explosões gigantescas assaltou seus tímpanos e iluminou a noite em torno deles. Era como uma sequência de fogos de artifício, só que cada estrondo individual era uma detonação espetacular. Um ou dois segundos depois, os destroços começaram a cair em torno deles – tijolos, madeira, móveis, equipamentos e uma nevasca de brasas.
Ainda corriam, gratos por estarem vivos, e esperando ficarem desse jeito.
— Cuidado! — Sammy pegou ombros de Nellie e empurrou-a violentamente para a esquerda.
Uma centrífuga pesada atingiu o espaço que ela tinha ocupado uma fração de segundo antes. Um destroço fumegante atingiu Sammy nas costas, quase o derrubando de cara. Sem perder o passo, Nellie apagou o pequeno fogo em seu jaleco.
Quando ela finalmente arriscou um olhar por cima do ombro, uma visão terrível encontrou os olhos dela. O complexo da Trilon Laboratories havia desaparecido como se nunca tivesse existido. Em seu lugar, havia uma cratera carbonizada cheia de sucata e fragmentos, ainda em chamas. Se um asteroide tivesse caído em Delaware bem ali, não poderia ter feito dano maior.
— Acho que esses tubos de ensaio estão — sua respiração saiu em arquejos — bem esterilizados pra caramba agora!
— Você acha que todo mundo conseguiu sair? — Sammy ofegou.
— Todo mundo menos o Callender! Vamos! Quando os policiais chegarem aqui, precisamos estar muito longe!
Enquanto eles corriam para a cobertura das árvores, passaram por um grande pedaço de aço que havia sido atirado a mais de dois quilômetros do edifício. Nellie o reconheceu imediatamente. Era um pedaço de seu balcão de cozinha – amassado e chamuscado, mas impecavelmente limpo.

5 comentários:

  1. Ufa, sairam vivos! Pensei que samy fosse morrer

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  2. Pensei q o Sammy ia morrer tbm, espero q não.

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  3. eles sobreviveram!!!!!!!!

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  4. LUAMARA Cahill Madrigal infiltrada Ekhaterina28 de fevereiro de 2017 12:25

    QUEM ACHOU QUE ELES IAM MORRER E TÁ FELIZ PQ NÃO ACONTECEU ....
    Sé ono waíse ilia !!!

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  5. "Um braço forte estendeu a não e a agarrou pelo pescoço"
    Não seria "estendeu a mão"?

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Boa leitura :)