18 de dezembro de 2016

Capítulo 16

Halt e Horace seguiram rumo à periferia de Craikennis. Havia uma paliçada improvisada aqui também, obviamente, uma construção recente. Fora da barreira, em frente à entrada, havia um abrigo de lona estava criado na beira da estrada, com três homens armados no interior, se protegendo do frio da noite. Havia um grande triângulo de ferro pendurado em um poste, com um martelo pendurado ao lado dele. No caso de um ataque, um dos homens soaria o alarme, ressoado pelo triângulo com o martelo, Horace pensou.
Uma das sentinelas emergiu do abrigo, tirando uma tocha acesa de um suporte e avançou para eles, segurando a luz alta para ver seus rostos. Halt gentilmente jogou para trás o capuz de sua cabeça fazendo com que a luz pudesse bater em seu rosto.
— Quem é você e o que quer?  o homem perguntou grosseiramente.
Horace fez uma careta. Clonmel não era o país mais amigável que ele já tinha visitado, pensou ele. Então, novamente havia aquela pequena maravilha, à luz daquilo que eles tinham visto enquanto viajavam pelo interior.
— Nós somos viajantes  Halt disse a ele. — A caminho para Dun Kilty para comprar ovelhas no mercado de lá.
— Pastores geralmente andam armados?  perguntou o homem, vendo o arco de Halt e a espada pendurada na cintura de Horace.
Halt deu-lhe um sorriso fino.
— Eles andam se planejam chegar em casa com algumas ovelhas  disse ele. — Ou você não está ciente de como as coisas estão hoje em dia?
O homem balançou a cabeça melancolicamente.
— Eu estou  respondeu.
O desconhecido estava certo. Havia pouco de lei e ordem em Clonmel nas últimas semanas. O homem menor pode muito bem ser um pastor, ele pensou. Tinha um caráter indefinido. O mais alto dos dois dava uma sensação diferente para ele. Era sem dúvida um guarda armado, contratado pelo pastor para ajudar a proteger o seu rebanho na viagem de regresso.
— Estamos à procura de uma refeição e um fogo para nos aquecer e depois estaremos em nosso caminho. Nós ficamos sabendo que há uma pousada aqui em Craikennis?
O guarda acenou com a cabeça, convencido de que os dois homens não ofereciam nenhuma ameaça real à segurança da vila. Ele olhou para a escuridão, certificando-se que não tinham companheiros à espreita nas sombras. Mas não havia nenhum sinal de movimento na estrada. Ele deu um passo para trás.
— Muito bem. Mas não causem nenhum problema. Vocês vão ter nós e outra dúzia de homens para tomar conta de vocês.
— Você não verá nenhum problema de nós, amigo  Halt disse a ele. — Onde encontramos esta pousada de vocês?
A sentinela apontou para a única rua principal da vila.
— A Harper Verde, é como é chamada. Apenas cinquenta metros daquele caminho.
Ele saiu da estrada para deixá-los passar e eles cavalgaram dentro da aldeia Craikenns.
A Harper Verde estava no centro da rua principal. A aldeia em si era um lugar importante, com cinquenta ou sessenta casas agrupadas em torno da rua central e uma rede de vielas e ruas menores que saíam dela. Eram todas de um único andar, de tijolos de barro e telhado de palha. Pareciam menores do que as casas que Halt e Horace estavam acostumados, mais baixas. Horace adivinhou que, se fosse para entrar em um, ele teria de se inclinar para evitar bater na porta.
A pousada era o maior edifício da cidade, como seria de esperar. Era também o único edifício de dois andares, com janelas estreitas no andar superior, sugerindo que poderia haver três ou quatro quartos previstos para os hóspedes.
O sinal de identificação da Harper Verde balançava, rangendo ruidosamente ao vento que soprava na rua principal da vila. Era uma placa mostrando os restos desbotados de uma figura anã toda vestida de verde, arrancando as cordas de uma pequena harpa.
Quando Horace estudou o sinal, notou que o rosto estava torcido num olhar vesgo bastante desagradável.
— Não é um tipo simpático, é?  disse ele.
Halt olhou para o sinal.
— Ele é um leprachaun  respondeu ele e, sentindo o olhar indagador Horace, acrescentou — uma pessoa pequena.
— Eu posso ver isso  Horace disse, mas Halt balançou a cabeça.
— Os leprachauns são objetos de uma grande dose de superstição nesse país. São figuras encantadas, pessoas mágicas, se você quiser. Boa gente a evitar. Eles têm um senso de humor desagradável e tendem a ser rancorosos.
Houve uma explosão de ruído da pousada quando uma grande quantidade de vozes levantou-se em música, juntando-se ao coro para um dos números de Will. Ele tinha chegado à Craikennis uma hora antes de Horace e Halt. Aparentemente, a partir do ruído e da explosão de aplausos que eles agora ouviam, ele tinha sido bem acolhido pela população local.
— Soa como se ele estivesse derrubando a casa  observou Horace.
Halt olhou para o prédio, observando o modo que nenhuma das paredes eram verdadeiras e os andares superiores pareciam tender e balançar sobre a estreita rua principal da vila.
— Isso não precisaria de muito para derrubar  ele murmurou. — Vamos lá. Vamos entrar enquanto ele ainda está se apresentando.
Ele abriu o caminho para o tronco de amarrar fora da pousada. Havia outro animal amarrado lá, um pônei desinteressado aproveitado para um carrinho pequeno. Além do cavalo, havia lugares para dois passageiros, em ambos os lados do carrinho e voltado para fora.
— Pitoresco  disse Horace, enquanto amarrava Kicker à grade.
Halt, naturalmente, apenas jogou a rédea de Abelard sobre o tronco. Não havia necessidade de amarrar um cavalo arqueiro.
Horace olhou ao redor.
— Onde você acha que está Puxão?
Halt apontou um polegar em um beco que conduzia à parte traseira da pousada.
— Eu imagino que ele deve estar agradável e quente em uma barraca nos estábulos — disse ele. — Se Will pegou um quarto, ele não deixaria Puxão na rua.
— É verdade  disse Horace. — Vamos atrás dele, Halt, estou faminto.
— Alguma vez você não está faminto?  Halt perguntou, mas Horace já estava indo para a pousada.
Ele abriu o caminho para a porta, mas antes que ele pudesse empurrá-la, Halt o parou com uma mão em seu braço. Horace olhou para ele com curiosidade e o arqueiro explicou.
— Espere até que Will comece de novo e nós vamos passar quando a atenção de todos estiver sobre ele. Lembre-se, mantenha seus ouvidos abertos e boca fechada. Eu vou fazer a conversação.
Horace assentiu em acordo. Ele observou que durante o dia o sotaque de Halt, que geralmente só mostrava o menor vestígio de sotaque hiberniano, foi engrossando e ampliando sempre que ele falava. Halt estava, obviamente, trabalhando para recuperar o sotaque de sua juventude.
— Não é preciso que todos saibam que somos estrangeiros  ele disse quando Horace tinha comentado sobre o fato.
Eles fizeram uma pausa agora, ouvindo a voz de Will levantar em um canto, e o acompanhamento agitado de sua bandola. Em seguida, o barulho redobrou quando a sala inteira uniu-se ao coro. Halt acenou para Horace.
— Vamos  disse ele.
Eles entraram no cômodo, hesitando brevemente quando a onda de calor da lareira e de trinta ou quarenta corpos os atingiu. Will estava em um espaço bem iluminado pela lareira, liderando a companhia da música – não que eles precisassem de muito incentivo, Halt pensou ironicamente. Hibernianos adoravam música e canto e Will tinha um bom repertório de peças e cantigas.
Quando os dois araluenses pararam na porta, dois dos espectadores em frente de Will, um homem e uma mulher, levantaram e começaram a dançar e saltar no ritmo da musica. O resto da sala incentivou rugindo, batendo palmas na hora de exortar os dançarinos. Halt e Horace trocaram um olhar, então Halt acenou com a cabeça no sentido de uma mesa no fundo da sala. Eles se moveram para lá. Will, é claro, ignorou a sua entrada. Apenas uma ou duas pessoas na sala pareciam observá-los.
O resto estava totalmente absorto na música e na dança.
Mas o estalajadeiro notou os dois recém-chegados – era sua função perceber essas coisas afinal. Em pouco tempo, uma menina fez seu caminho para servir os clientes através de sua mesa. Halt pediu café e ensopado para ambos, e ela balançou a cabeça, deslizando para fora com a habilidade de uma longa prática com os clientes acumulada.
Will bateu o acorde final da canção, e os dois dançarinos caíram, exaustos, em seus bancos. Por sugestão de Halt, ele havia descartado a distintiva capa manchada dos arqueiros quando deixou o seu acampamento, vestindo um longo casaco de lã grosso em vez dela. Da mesma forma, ele havia deixado seu arco e aljava para trás, e tirou a bainha da faca de arremesso e sua faca dupla da sua cintura, deixando a faca maior em uma única bainha. A faca de arremesso tinha ficado em uma bainha costurada dentro de sua jaqueta, debaixo do braço esquerdo. Alguns anos antes, Will tinha experimentado com uma bainha costurada na parte traseira na gola da túnica, tendo resultados quase desastrosos.
Halt, é claro, usava seu traje de arqueiro normal e levava o seu arco. Não havia nada de significativo sobre isso em um campo onde todos pareciam preparados para problemas. O aspecto manchado do manto podia ser um pouco incomum, mas, mesmo assim, ele tinha a aparência de um lenhador ou agricultor. Horace usava uma jaqueta de couro lisa sobre calças e botas, com sua espada e punhal em uma cinta na cintura. Ele usava uma capa, é claro, para manter o frio cortante do vento. Mas, ao contrário do de Halt, a dele não tinha capuz. Em vez disso, ele usava um gorro de lã puxado para baixo sobre seus ouvidos. Não usava nenhum tipo de armadura ou insígnias. Para aparências, ele era um homem simples com armas.
Como resultado dessas fantasias variadas, não havia nada para conectar os dois recém-chegados ao menestrel estrangeiro que havia chegado no início da noite. E com o sotaque hiberniano cuidadosamente renovado de Halt, eles nem sequer pareciam ser estrangeiros.
Sua comida e o café chegaram, e eles começaram a comer com vontade. Horace estava especialmente disposto, mas, ao longo dos anos que ele tinha conhecido o jovem guerreiro, Halt tornara-se mais ou menos acostumado com o apetite prodigioso do jovem. Horace avançou no cordeiro ensopado de batata e levou a sua boca, usando a grossa fatia de pão que veio com ele para limpar o caldo. Finalizando o seu próprio pão, Horace observou a meia fatia restante na frente de Halt e estendeu a mão para ela.
— Você vai comer isso?
— Sim. Tire as mãos.
Horace estava prestes a protestar, mas um aviso de agitação de cabeça de Halt o deteve. Ele percebeu que Halt, mantendo a aparência de comer a sua refeição, estava escutando as outras conversas. Com a música parada temporariamente enquanto Will fazia uma pausa, um murmúrio de conversa havia irrompido pela sala.
Havia três homens sentados na mesa ao lado. Aldeões, pelo olhar deles. Provavelmente, comerciantes, Horace pensou. Ele podia vê-los enquanto Halt, de costas para eles, estava muito mais perto e em melhor posição para ouvir o que eles estavam dizendo. Não que fosse muito difícil fazer isso. Com o nível de ruído de fundo na sala quente e com fumaça, eles tiveram que erguer a voz para serem ouvidos.
— Um mau negócio é que eu ouvi dizer  um homem careca estava dizendo.
A partir da farinha que cobria o peito da camisa, Horace adivinhou que era o responsável pelo moinho ou o padeiro. Ele pegou outro aviso de cabeça balançando de Halt e percebeu que ele estava olhando para a mesa ao lado. Rapidamente, ele olhou para seu prato, assim que Halt deslizou a metade do pão na mesa para ele. Sorrindo, ele pegou e começou a fazer um show de limpar os restos de sua refeição do prato com o pão.
— Quatro mortos, o que eu ouvi. Uma coisa terrível. O irmão da minha esposa esteve lá apenas três dias atrás. Acontece que se ele estivesse lá ontem, ele poderia estar entre os mortos.
Halt fingiu tomar um gole de seu café. Ele estava tentado a virar e perguntar a população local para obter mais informações. Mas, até agora, ele e Horace tinham estado praticamente despercebidos na sala. Os locais podiam estar dispostos a discutir isso livremente entre seus companheiros. Com estranhos podia ser um assunto completamente diferente.
— O que você pensa sobre essas pessoas religiosas em Mountshannon? — perguntou outro dos homens.
Horace deu um rápido olhar para ele. Ele era alguns anos mais jovem que o moleiro/padeiro careca. Possivelmente, um comerciante de algum tipo. Não era um guerreiro, Horace pensou.
O homem bufou ridiculamente aos dois companheiros.
— Religiosos charlatães é o que eles são!  disse o terceiro, aquele que não tinha falado até agora.
O careca foi rapidamente concordando.
— Sim! Afirmando serem capazes de manter Mountshannon segura. Engraçado como as pessoas religiosas dizem que seu Deus irá protegê-los – até que alguém os atinja com uma clava.
— Ainda assim  disse o comerciante, parecendo convencido por seu desprezo — a verdade é que Mountshannon tem se mantido sem ser invadida até agora. Enquanto em Ford Duffy há quatro mortos e os restantes espalhados sabem-se Deus onde com medo.
— Há mais de uma centena de pessoas em Mountshannon  o careca explicou a ele. — Duffy’s Ford não tem mais do que três ou quatro casas. Quase uma dúzia de pessoas, para começar. São as maiores aldeias que têm menos a temer. Como Mountshannon.
— E Craikennis  acrescentou quem tinha concordado com ele sobre os charlatões religiosos.
— Sim  disse o careca — eu garanto que estamos seguros o suficiente aqui. Dennis e seus vigias fazem um bom trabalho mantendo um olho nos estranhos na aldeia.
Conforme ele disse as palavras, ele olhou para cima e tomou conhecimento pela primeira vez de Halt e Horace na mesa ao lado. Ele murmurou um aviso reservado a seus companheiros e os dois se viraram para olhar para os desconhecidos por trás deles.
Então eles se inclinaram sobre a sua própria mesa e continuaram a conversa em tons baixos, inaudíveis contra o zumbido de uma dúzia de outras conversas na sala. Halt ergueu as sobrancelhas para Horace, que ensaiou um ligeiro encolher de ombros. Ele não tinha dúvida de que eles não ouviriam nada mais a partir de agora.
Poucos minutos depois, houve um abalo de interesse na sala enquanto Will tocava os primeiros acordes de uma canção nova. As pessoas acabaram com as conversas e se acomodaram em seus lugares para ouvir. Quando a menina veio servir para recolher os seus pratos e ver se eles precisavam de uma recarga em seu café, Halt sacudiu a cabeça e deixou cair um punhado de moedas sobre a mesa para pagar a sua refeição. Ele sacudiu a cabeça para Horace.
— Hora de ir  disse ele.
Eles levantaram-se e se jogaram no caminho até a porta. O careca levantou os olhos para eles brevemente. Em seguida, decidindo que não havia nada ameaçador sobre os dois estranhos, voltou sua atenção para a música.
Lá fora, o vento frio os cortava novamente quando eles recuperaram e montaram em seus cavalos.
Horace estremeceu brevemente, encolhendo-se para baixo do calor de seu manto.
— Devíamos termos pego um quarto para nós mesmos  disse ele. — Tá um frio danado aqui.
Halt sacudiu a cabeça.
— Dessa forma, vamos ser esquecidos dentro de meia hora. Se tivéssemos ficado, mais pessoas teriam nos notado. Mais pessoas estariam fazendo perguntas sobre nós. Você logo vai esquentar de novo em nossa fogueira.
Horace sorriu para seu sério companheiro.
— É tão ruim ser notado, Halt?
O arqueiro concordou enfaticamente.
— É para mim.
Eles cavalgaram passando a estação de sentinela, acenando para os homens que estavam de plantão. Desta vez, nenhum deles sentiu a necessidade de sair para o vento, longe do fogo queimando em que eles tinham em uma grelha de aço no interior do abrigo. Como Halt havia previsto, dentro de uma hora, a sua presença em Craikennis tinha sido esquecida.

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