29 de dezembro de 2016

Capítulo 16

As condições do acampamento haviam melhorado desde a invasão dos genoveses nas fazendas. Enquanto o bando se movia para o sul através de Araluen, Tennyson continuava a enviar alguns grupos para invadir as fazendas isoladas por onde passavam. Eles traziam de volta não apenas alimentos, mas também equipamentos para tornar seu acampamento mais confortável – lonas, madeira e corda para fazer tendas e peles e cobertores para se protegerem do frio das noites geladas do norte.
Na última incursão, eles tinham conseguido por acaso quatro cavalos. Eram animais lamentáveis, mas agora pelo menos Tennyson e os dois genoveses poderiam parar de andar a pé. O quarto cavalo ele precisava para outra finalidade. Agora, sentado no relativo conforto de sua tenda, ele ordenava ao rapaz que tinha escolhido para ser seu mensageiro.
― Dirkin, eu quero que você vá à frente — disse ele. ― Pegue um dos cavalos e siga até esta vila.
Ele indicou um local em um mapa desenhado rudemente na direção nordeste.
― Planície Willey — disse o jovem, ao ler o nome do local que Tennyson tinha indicado.
― Exatamente. É um pouco além deste conjunto de penhascos, um pouco ao sul deles. Procure por um homem chamado Barrett.
― Quem é ele? — perguntou o mensageiro.
Normalmente Tennyson não encorajava os seus seguidores a questionar os motivos de suas ordens, mas, nesta ocasião, seria bom que o rapaz soubesse por que ele precisava fazer contato com Barrett.
― Ele é o líder de uma assembleia local de nosso povo. Está recrutando convertidos nesta área nos últimos meses. Eu quero que você lhe diga para reunir todos os seguidores que puder e nos encontrar em um acampamento perto dos penhascos.
Sempre planejando ganhar terreno em Araluen, Tennyson havia enviado dois grupos de seguidores para estabelecer cultos em áreas remotas, bem longe dos olhos dos soldados. Um local tinha sido estabelecido em Selsey, na vila de pescadores na costa oeste. O segundo aqui, na parte selvagem a nordeste do reino. A última mensagem que havia recebido de Barrett tinha indicado que ele conseguiu converter, ou melhor, recrutar, uma centena de seguidores para sua religião. Não era muito, mas Barrett também não era uma figura inspiradora. E pelo menos, cem seguidores era um começo. Eles forneceriam ouro e joias para Tennyson começar a se levantar de novo.
O jovem olhou com interesse para o mapa.
― Eu achava que éramos o único grupo.
Tennyson levantou suas sobrancelhas com raiva.
― Então você pensou errado — disse. ― Um homem sábio sempre tem alguma reserva caso as coisas não corram de acordo com o plano. Agora vá.
Dirkin encolheu com a repreensão e se levantou para sair.
― Provavelmente vai demorar alguns dias para esse Barrett reunir todos os seguidores.
― É por isso que eu estou te mandando na frente — disse Tennyson arrastando uma nota sarcástica em sua voz. ― Mas se você pretende ficar por aí falando sobre isso, eu terei que encontrar outra pessoa para o trabalho.
Dirkin notou o tom e capitulou. Verdade seja dita, ele ficaria feliz em ir à frente. Enfiou o mapa dentro do casaco e virou-se para a entrada da tenda.
― Eu estou a caminho — disse ele.
Um grunhido irritado foi a única resposta de Tennyson.
Dirkin dirigiu-se para a entrada e foi forçado a recuar com outra figura batendo nele e entrando apressadamente. Uma queixa irritada já estava saindo de sua boca, mas logo em seguida a engoliu quando reconheceu o recém-chegado. Era um dos assassinos genoveses que Tennyson tinha mantido como guarda-costas. Dirkin sabia que eles não eram pessoas para se insultar ou molestar. Rapidamente, ele murmurou um pedido de desculpas e diminuiu em torno da figura de manto roxo, deixando a tenda tão rapidamente quanto podia.
Marisi contraiu os lábios com desprezo quando olhou para o rapaz. Ele estava bem consciente de que muitos dos estrangeiros o evitavam e a também seu compatriota.
Tennyson olhou para ele agora, franzindo a testa ligeiramente. Desde que adquiriram os cavalos, os genoveses começaram a verificar sua trilha todos os dias, para ter certeza de que ninguém estava os seguindo. Era uma medida de rotina que Tennyson havia insistido até agora, porém sem retorno. Mas agora que Marisi estava aqui, Tennyson suspeitava que houvesse más notícias. Bacari, o mais alto dos dois, informava só quando a notícia era boa.
― O que aconteceu? — Tennyson exigiu.
― Estamos sendo seguidos — Marisi respondeu, com um inevitável e irritante encolher de ombros.
Tennyson bateu com o punho na pequena mesa dobrável que havia sido roubado de uma fazenda há alguns dias.
― Droga! Sabia que as coisas estavam muito bem até agora. Quantos são?
― Três — o genovês disse com um ar um pouco mais leve.
Três pessoas os seguindo não era nada para se preocupar. Mas a próxima palavra do assassino mudou sua ideia.
― São os três de Hibernia. Os dois arqueiros encapuzados e o cavaleiro.
Tennyson pulou de sua cadeira com o choque da notícia. Ela caiu de costas sobre a grama, mas ele nem percebeu.
― Eles? — gritou. ― O que estão fazendo? Como diabos fizeram para chegar até aqui?
Novamente, o genovês encolheu os ombros. Como chegaram aqui era irrelevante. Eles estavam aqui e estavam seguindo o pequeno grupo de forasteiros. E eles eram perigosos. Há muito já sabia. Ele esperou o autoproclamado profeta continuar.
A mente de Tennyson trabalhava. O contrabandista! Ele deve ter contado para eles. Claro, eles o teriam subornado e em troca do dinheiro o contrabandista os havia traído. Ele começou a andar para cima e para baixo no espaço restrito do interior da tenda improvisada. Esta era uma má notícia. Ele precisava reunir os fiéis em Planície Willey. Precisava de ouro e joias e começaria por lá. Eles haviam se atrasado em incursões nas distantes fazendas. Não poderia correr o risco de que os três araluenses os alcançassem.
― Há qual distância estão de nós? ― ele perguntou.
“Deveria ter feito essa pergunta logo de início”, pensou.
Marisi enrolou os lábios, pensativo.
― Não muito. Um dia, no máximo.
Tennyson considerou a resposta, então chegou a uma decisão. Um dia não era tempo o suficiente. Especialmente quando ele era forçado a manter um ritmo mais lento. Então olhou para o assassino.
― Você vai ter que se livrar deles ― disse abruptamente.
As sobrancelhas de Marisi subiram de surpresa.
― Livrar-se deles ― repetiu.
Tennyson se inclinou sobre a mesinha, os punhos plantados na madeira áspera.
― Isso mesmo! Isso é o que vocês fazem, não é? Se livrar deles. Você e seu amigo. Matá-los. Use essas bestas que vocês tão orgulhosamente carregam e certifique-se que eles irão parar de nos seguir.
“Malditos”, Tennyson pensou. Esses arqueiros encapuzados e seu amigo musculoso tinham sido nada mais que um problema para ele. Agora, quanto mais
pensava nisso, mais queria vê-los mortos.
Marisi estava considerando a sua ordem. Ele balançou a cabeça, pensativo.
― Há um bom lugar onde podemos emboscá-los. Vamos ter que voltar e plantar uma trilha para seguirem. É claro que... ― ele fez uma pausa significativa.
Por alguns segundos Tennyson não havia entendido, então rosnou:
― É claro o quê?
― Eles são inimigos perigosos e nosso contrato não dizia nada sobre livrar-se de pessoas como eles.
A implicação era óbvia. Tennyson respirava com dificuldade, tentando controlar sua raiva crescente. Ele precisava destes dois homens, não importava o quanto eles o enfureciam.
― Eu vou te pagar um extra ― disse ele com os dentes cerrados.
Marisi sorriu e estendeu a mão.
― Agora? Você vai pagar agora?
Mas Tennyson sacudiu a cabeça violentamente. Ele não ia arrastar esse assunto por mais tempo.
― Quando você fizer o trabalho ― disse ele. ― Eu vou te pagar depois. Não antes.
Marisi encolheu os ombros novamente. Não esperava mesmo que o corpulento pregador concordasse em pagar antecipadamente, mas valia à pena tentar.
― Você vai pagar mais tarde ― disse ele. ― Vamos acertar um preço. Mas... se você paga depois, paga mais.
Tennyson varreu o fato de lado descuidadamente com uma mão.
― Tudo bem. Informe Bacari para vir me ver e nós vamos acertar o pagamento.
Ele fez uma pausa e depois acrescentou com ênfase:
― Mais tarde.
Afinal, ele pensou, com alguma sorte eles poderiam se matar uns aos outros e economizaria no pagamento extra.

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