18 de dezembro de 2016

Capítulo 16

Eles passaram uma noite confortável na pousada. Uma dúzia de homens de Selethen permaneceu do lado de fora de guarda, mas os visitantes estavam autorizados a deixar a casa e passear nas imediações, se quisessem.
Eles foram servidos com alimentos e bebidas – sucos de frutas e água em último caso. A comida estava deliciosa – aves frias de algum tipo, servidas com salada verde com um molho de limão distintivo afiado e pão fresco. Horace rasgou uma pata da ave e levou vastas quantidades de pão para a boca.
— Isto está bom — disse com entusiasmo. — Nós estamos bem para prisioneiros.
— Nós não somos prisioneiros — Halt o lembrou. — Somos uma delegação diplomática.
Horace assentiu.
— Eu continuo esquecendo — disse ele, atirando migalhas de pão em todas as direções.
Halt rapidamente recuou. Então a atenção do guerreiro estava distraída pela ave meio-desmembrada no prato e ele revirou os pedaços.
— Acabaram as coxas? — ele perguntou a ninguém em particular.
— Se eles inventarem uma galinha de quatro coxas — Will disse — Horace vai pensar que está no céu.
Horace concordou com a cabeça.
— Galinha de quatro coxas — ele disse. — Excelente ideia. Devemos falar com Mestre Chubb sobre isso.
Ele encontrou a outra coxa e não perdeu tempo rasgando pedaços grandes dela com os dentes. Gilan o assistia com alguma curiosidade.
— Não me lembro de ele comendo tanto assim quando estávamos em Céltica — disse ele.
Horace sorriu.
— Não tínhamos muito para comer em Céltica — disse ele. — Além disso, me senti um pouco intimidado e nervoso na companhia de vocês arqueiros misteriosos.
— Eles não o deixam mais nervoso? — Evanlyn perguntou, seus olhos sorridentes enquanto ela cortava um pêssego ao meio. A fruta era realmente deliciosa, ela pensou. Talvez tivesse algo a ver com o clima quente.
— Nem um pouco — disse Horace.
Ele estava sorrindo, mas depois se lembrou que houve uma época em que ele tinha ficado distintamente inseguro de si na presença de arqueiros – primeiro com Gilan e Will em Céltica, e mais tarde na companhia de Halt enquanto atravessavam a Gálica. Estranho pensar que agora eles eram seus amigos mais próximos.
— Eu aprendi desde então. Halt é realmente um gatinho manso — ele acrescentou.
Will e Gilan engasgaram na tentativa de esconder o riso. A sobrancelha de Halt subiu fracionada conforme ele considerava o sorridente jovem.
— Um gatinho manso — ele repetiu.
Svengal estava observando essa troca com interesse. Agora, ele se juntou com uma gargalhada.
— Mais como um gato com bastante idade, eu teria imaginado — disse ele.
O olhar intimidante de Halt balançou para o grande escandinavo, que permaneceu resolutamente não-intimado.
— Todo mundo é comediante de repente — Halt retrucou. — Eu acho que vou para a cama.
Ele saiu da sala com a pouca dignidade que lhe restava. E não era muita.


O café da manhã foi servido no pátio interno na manhã do dia seguinte uma hora depois do sol nascer. O ar estava fresco com a brisa do mar de manhã, mas já se podia sentir o calor do dia.
Os três arqueiros ficaram contentes ao encontrar, entre as travessas de pão, frutas fatiadas, conservas e jarras de suco, uma panela de um quente líquido negro rico.
— Café! — Gilan disse reverentemente, servindo-se uma xícara.
Havia açúcar mascavo para adoçar e ele adicionou-o, enquanto Halt e Will também serviam a si próprios. Evanlyn balançou a cabeça na direção deles.
— Se você alguma vez quiserem capturar esses três — ela disse — só precisam por a isca na armadilha com um pote de café.
Will assentiu.
— E nós iríamos com prazer — ele concordou. Então disse aos outros: — Este café é realmente bom.
— Deveria ser — Halt disse, inclinando-se para trás com sua xícara e colocando os pés em cima da mesa baixa na frente dele. — Os arridis inventaram isso. Todo mundo dormiu bem?
Na verdade, a maioria deles tinha dormido parcialmente, desacostumados com a sensação de uma cama que não mexe e balança ritmicamente abaixo deles. Mas os colchões eram suaves e os quartos eram frescos e bem ventilados. Eles estavam discutindo o fenômeno que Svengal descreveu como “tontura de marinheiro”, que a maioria das pessoas sente quando vai para a terra depois de uma longa viagem, quando um dos funcionários entrou e se inclinou para Halt.
— Capitão Selethen está aqui, senhor.
— Peça-lhe para entrar — Halt disse, tirando os pés da mesa e levantando-se para cumprimentar o oficial arridi conforme ele entrou no pátio.
Como antes, Selethen fez o gesto com a mão aos lábios, sobrancelhas e lábios em saudação.
— Bom dia, minha senhorita, e senhores. Está tudo satisfatório?
Halt devolveu a saudação da mão e apontou o capitão a um assento.
— Tudo é excelente. Vai juntar-nos para um café? — ele ofereceu mas Selethen balançou a cabeça com pesar.
— Infelizmente, tenho deveres para cumprir. — Ele olhou para Svengal. — Seus homens receberam o café da manhã, capitão — disse ele. — Não há necessidade de verificar.
Svengal assentiu. Na noite anterior, ele fez questão de visitar o navio para se certificar de que seus homens estavam sendo bem cuidados. Eles tinham o seu próprio abastecimento a bordo, é claro, mas sentia que deviam ser alimentados pelos arridi, já que eram parte de uma delegação oficial.
— Obrigado — disse ele rispidamente.
Selethen se virou para Halt e Evanlyn.
— Sua Excelência, o wakir, terá o maior prazer em recebê-lo na décima hora — disse ele.
Evanlyn olhou incerta para Halt e ele fez um discreto gesto com a mão, sinalizando para ela para responder.
— Isso é adequado para nós — disse ela.
Selethen sorriu e chamou a si a atenção.
— Eu vou acompanhá-la — disse ele. — Estarei de volta quinze minutos antes da décima hora. Por favor, esteja pronta para sair nesse momento.
Evanlyn não disse nada, olhando para longe com uma expressão desinteressada. Princesas não respondem a ordens, Will pensou.
— Nós estaremos prontos — disse Halt.
Ele e Selethen trocaram o gesto gracioso de saudação e despedida mais uma vez e o arridi recuou alguns passos antes de virar para sair. Horace observava, maravilhado com a facilidade com que Halt manejava situações como esta. Ele disse isso a Will quando os dois voltaram para o quarto que estavam compartilhando, e estava um pouco surpreso com a resposta sombria de seu amigo.
— Eu sei. Ele é incrível, não é? — Will disse. — Sempre sabe exatamente o que fazer e dizer.
Horace olhou para ele, curiosamente, se perguntando a sua maneira pouco entusiasmada. Ele não tinha ideia de que Will estava pensando exatamente a mesma coisa, e comparando-se ao seu mestre – uma comparação que ele encontrou menos favorável. Mais uma vez, Will estava se perguntando como algum dia iria lidar como um arqueiro em seu próprio direito.


Quinze minutos antes do tempo que Selethen deveria retornar, Halt convocou Will e Gilan para seu quarto. Os dois homens mais jovens entraram curiosamente, perguntando o que seu líder tinha reservado para eles. Logo descobriram que era uma mudança agradável e muito bem vinda de seu equipamento.
— Deixem suas capas aqui — disse-lhes Halt.
Eles perceberam que ele não estava usando a sua.
— Elas são projetadas para o clima de Araluen, não de Arrida. E não há uma grande quantidade de florestas e vegetação em torno daqui.
Ele estava certo, Will pensou. As capas verdes e cinzentas camufladas eram projetadas para misturar-se a cor de fundo da sua terra fértil, e não a vista seca, torrada de sol que eles se encontravam no momento. E os casacos de lã pesados eram decididamente desconfortáveis no calor arridi. No entanto, eles eram parte de um uniforme de arqueiro e Will estava relutante em se desfazer dele.
Halt estava abrindo um pacote que ele havia trazido do navio. Ele retirou uma roupa dobrada, a balançou e passou para Gilan.
Era um manto, um manto de arqueiro com capuz. Mas, em vez das cores verdes e cinzentas que eles usavam, esta possuía manchas irregulares em tons de marrom claro. Além disso, ele percebeu, conforme Halt pegava o segundo manto e entregava a ele, era feito de linho, não lã.
— Roupa de verão — Halt disse. — Mais fresca no calor e muito melhor se tivermos que nos esconder na paisagem daqui.
Gilan já havia colocado sua capa ao redor de seus ombros. Ele olhou para ela, impressionado. Era definitivamente mais confortável do que o peso do casaco de inverno que tinha colocado nas costas de uma cadeira. Will vestiu, examinando a coloração mais de perto. Ele gostava da sensação familiar do manto, a confiança que vinha com a capacidade de misturar-se na paisagem e parecer desaparecer. Essa capacidade tornou-se muito parte de sua vida nos últimos anos.
— Onde você conseguiu isso? — ele perguntou.
Halt o considerou zombando.
— Nós já visitamos essas partes antes, você sabe — disse ele. — Crowley pediu ao mestre de roupas do Castelo de Araluen para fazê-las no momento em que soube que viríamos para cá.
Ele esperou enquanto Gilan e Will moviam as capas experimentalmente, observando cada um e estudando as cores incomuns, vendo como eles se misturariam com a paisagem de rochas e deserto que cercava Al Shabah.
— Tudo bem, senhoritas — disse ele — se vocês terminaram o desfile de moda, vamos conhecer o wakir.

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