9 de dezembro de 2016

Capítulo 16

Cara Pierce não estava dormindo muito bem, o que não era completamente surpreendente. Quando seus pulsos estavam amarrados em suas costas, seus ombros tortos, e um cano de ferro pressionado contra o centro de suas costas, se tornava muito difícil relaxar.
Ela não tinha certeza de que merecia algo melhor.
Traidora. Ela deu as costas para sua própria carne e sangue, e deu sua vantagem para os piores inimigos de seu pai. A definição do dicionário de deslealdade.
Mas é a coisa certa a fazer, ela se lembrou.
Ela tinha monitorado as atividades de seu pai, tanto como filha e quanto seu cyber alter ego, April May. J. Rutherford Pierce tinha ido para o lado negro, para usar o jargão de Star Wars. Em algum lugar por aí, a construção havia se tornado destruição, e ambição se tornara venenosa.
Uma memória continuava a assombrá-la.
A mansão palaciana nem Pierce Landing era totalmente nova, então Cara deveria ter onze ou doze anos. Papai estava em sua mesa, debruçado sobre esquemas, o papel crepitando quando ele virava as grandes páginas. Projetos de novas máquinas de impressão, ele disse a ela, para seus muitos jornais e revistas.
Havia algo em seus olhos quando ele disse aquilo – como se ele estivesse mentindo, mas não importava. Tudo era um grande jogo, seu jogo.
Ela nunca o questionou, não porque não tinha perguntas, mas porque não se atrevia. Ela via a forma de como os outros adultos tratavam seu pai – com respeito. Com medo.
Não era que o J. Rutherford Pierce não pudesse mentir. Era mais como se quando ele fazia isso, não contava como mentira, porque ele possuía a verdade.
Mais tarde no ano passado, Cara viu aquelas “máquinas de impressão” novamente – dessa vez em seu livro de física avançada. Ela sofrera tanta lavagem cerebral que realmente levantou a mão e disse as palavras em voz alta na sala de aula: “Máquinas de impressão.”
O coro de risos de seus colegas ainda ressoava em seus ouvidos. O professor franziu a testa.
— Leia a legenda, Srta. Pierce.
Com as orelhas queimando, Cara examinou a página.
Aqueles esquemas nunca tiveram nada a ver com jornais ou impressão. Eram digramas de engenharia para o gatilho de uma bomba nuclear.
Qual é a verdadeira traição? Virar as costas para seu pai, ou para o mundo inteiro?
Os outros estavam dormindo, ainda que irregularmente.
Não a admirava, após o dia que tiveram. As esteiras incômodas faziam bastante barulho quando eles se viravam e mexiam. Ian roncava, provavelmente devido ao inchaço do nariz provocado pela mordida da cobra. Ele estava adorável com esse nariz. Ela esperava que não muito do veneno da cobra tivesse sido desperdiçado. Havia planos para ele. Grandes planos.
A pessoa mais inquieta dormindo era a Amy. Desde o momento em que fechou os olhos, esteve se revirando e choramingando através do que deveria ser uma série de pesadelos horríveis. Cara tinha uma boa ideia de como era. Ela vinha experimentando isso também, apesar de não tão intensivamente quanto Amy parecia estar sofrendo. Ela estava se debatendo, hiperventilando, tremendo. Em um momento, ela se sentou, banhada em suor, e falou palavras que não faziam sentindo.
Apesar de tudo, Cara não pôde deixar de ter pena dela. Claramente, sua dose do soro tinha sido muito mais poderosa do que qualquer coisa que Cara tinha tomado, até mesmo quando ela esteve trocando os shakes de proteína com Galt.
Ela tentou se inclinar tão perto de Amy quanto pôde, e tentou parecer tranquilizadora. 
— Você está bem. É só um sonho.
Amy se acalmou e voltou a dormir.
Foi um pouco desconcertante, mas Cara se tranquilizou por Amy não ter realmente acordado. Com uma facilidade que teria abismado os Cahill, ela apertou os pulsos em uma forma impossível e os deslizou para fora da coleira. Ela se levantou, se despreguiçou uma vez, e examinou os dorminhocos. O caminho estava livre.
Ela andou na ponta dos pés através das esteiras e pegou a jarra que continha a serpente d’água de Tonle Sap. Como um fantasma, saiu do quarto e se foi sem um som.

* * *

Jake sempre acordou cedo. Crescendo como o filho de um famoso arqueólogo, ele tinha passado grande parte de sua infância acordando ao primeiro raio de sol para se apressar com seu pai para alguma nova descoberta ou escavação. Por isso não foi tão surpreendente que ele tivesse sido o primeiro a acordar no dia seguinte.
Todas as manhãs eram iguais ultimamente. Jake desfrutaria três ou quatro segundos de feliz ignorância, e então se lembraria: Amy estava morrendo. Era como receber a mesma notícia devastadora de novo e de novo.
Em seguida vinha o cálculo. Quanto tempo fazia desde que ela tomara o soro? Quanto tempo restava? Fazia cinco dias desde que ela ingerira o conteúdo daquela garrafa fatídica. Ela poderia ter menos de 48 horas restantes.
Mas agora havia uma novidade. Eles tinham o ingrediente final. O antídoto não era mais uma questão de “se”, mas “quando”. Era uma corrida contra o relógio, mas ela iria conseguir. Ela tinha que conseguir. E então – talvez – eles pudessem continuar de onde tinham parado.
Com um bocejo, ele olhou na direção dela.
Seu coração quase saltou através de sua caixa torácica para fora do peito. O problema não era Amy. Ela ainda dormia em sua esteira. Mas ao seu lado, a coleira estava pendurada no cano de ferro preto. Cara Pierce tinha sumido.
Seu pescoço estalou ao olhar ao redor, seus olhos procurando a serpente que habitava a jarra. Não estava lá.
— Todo mundo de pé! — ele tentou berrar, mas saiu mais como um arquejo. — Acordem! Vamos!
Em um instante, todos estavam de pé, os olhos turvos, mas alertas. Era uma testemunha do horror que eles estavam vivendo.
— Cara escapou, e ela roubou a serpente!
O efeito foi como gritar Fogo! em uma sala lotada. Houve uma corrida louca e, em segundos, todo mundo estava vestido e pronto para ir. Mas qual deveria ser o curso da ação ainda não estava claro.
— Nós vamos achá-la! — Dan enraiveceu-se. — Nós vamos desmontar a cidade à parte, tábua por tábua!
Os traços de Ian irradiavam um calor intenso que nada tinha a ver com o clima de Camboja.
— Eu respondi por ela! Eu os convenci a confiar nela! Um Lucian deveria saber melhor — ele disse amargamente.
— É minha culpa — Amy lamentou. — Eu deveria ter ficado com meus primeiros instintos.
Eles continuaram dessa forma, se lamentando e fazendo ameaças sombrias de vingança.
Estavam tão envolvidos em sua aflição que mal notaram quando a porta se abriu e Cara Pierce entrou.
— Bom dia, pessoal. Que animação toda é essa?
O grupo observou com espanto mudo enquanto ela repousava um aquário de vidro retangular com uma alça de transporte. Dentro dela nadava a serpente d’água de Tonle Sap, ágil e saudável.
Ela então voltou para seu lugar, contorceu suas mãos habilmente de volta na coleira, e sentou-se no chão, encostada no cano de ferro. Olhou para cima com um sorriso inocente.
— Vocês não acharam que podiam me manter presa, acharam?
— Onde você estava? — Amy exigiu.
— Na loja de animais. Nós precisamos de um aquário digno para a serpente se nós temos a intenção de levá-la para o outro lado do mundo. Depois eu passei no meu irmão para me certificar de que ele não mandasse que me procurassem.
— Você contou a ele aonde estamos? — Dan aprofundou.
Cara mostrou um lampejo de exasperação.
— Você ouviu qualquer a coisa que eu falei? Eu não quero que meu pai ganhe! Quero que vocês ganhem! Que nós ganhemos!
Jake ainda estava abalado e irritado. 
— E você acha que vai ganhar a nossa confiança ao se mandar?
— Não. Por voltar.
Amy chegou por trás dela e desamarrou a coleira. 
— Você já provou seu ponto de vista. Então você diz que pode nos ajudar. Como?
Cara se aproximou deles.
— Vocês estão em posição para começar a fazer o antídoto. Mas o truque será encontrar uma maneira de entregá-lo a meu pai e toda a equipe reforçada dele ao mesmo tempo.
Amy assentiu.
— Continue falando.
Cara sorriu.
— Deixe-me lhes contar uma história sobre um churrasco-de-amêijoas...

4 comentários:

  1. LUAMARA Cahill Madrigal infiltrada Ekhaterina28 de fevereiro de 2017 12:00

    KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK
    MAS EU ADORO MESMO ESSA EKAT!!!

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  2. "Em seguia vinha o cálculo."
    Não seria "Em seguida"?

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    1. Amigo para pf! Ninguém se importa com a gramática, e se vc foi esperto o bastante pra corrigir então quer dizer que vc entendeu o texto e é isso que importa. Se vc quer um texto perfeito, então sai e compra o livro ao invés de ficar corrigindo o blog

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Boa leitura :)