29 de dezembro de 2016

Capítulo 15

Halt tinha esperança de pegar os rastros de Tennyson de novo antes do anoitecer, mas o fato do dia ser mais curto no norte o derrotou. Quando o sol finalmente afundou por trás das árvores e as sombras inundaram o campo, ele freou e apontou para um trecho aberto no terreno ao lado dos vestígios que eles estavam seguindo para o leste.
― Nós vamos acampar aqui. — Ele disse. ― Não temos motivo para andar cegamente por aí no escuro. Nós iremos começar cedo e procurar na redondeza por suas pistas.
― Podemos arriscar acender um fogueira, Halt? — Horace perguntou.
O arqueiro maneou a cabeça.
― Não vejo porque não. Eles estão muito a nossa frente agora. E mesmo se eles virem um fogueira, não há nenhum motivo para suspeitarem que alguém está os seguindo.
Assim que eles cuidaram de seus cavalos, Horace construiu um local para a fogueira e fez uma ronda por volta do acampamento procurando por madeira. Nesse meio tempo, Will se ocupou em tirar a pele e limpar dois coelhos que ele matara na última tarde. Os coelhos eram carnudos e estavam em boas condições, e sua boca se encheu de água na expectativa de um saboroso guisado. Ele cortou os coelhos, mantendo as patas e coxas carnudas e descartando algumas das costelas. Dava muito trabalho para tirá-las, ele decidiu. Abriu o saco que ficava na sela onde eles mantinham seus suprimentos de comida fresca. Normalmente, quando estavam na estrada, arqueiros se alimentavam de carne seca, frutas e pão duro. Quando tinham a chance de comer mais confortavelmente, se garantiam para que estivessem pronto para isso. Por um momento, ele considerou a ideia de jogar os coelhos no fogo e assá-los, mas descartou a ideia. Ele sentiu como se fosse mais gratificante.
Cortou as cebolas bem fininhas, fatiou várias batatas em pequenos pedaços. Pegou uma panela de metal da pequena variedade de utensílios de cozinha, posicionou na beira da fogueira que Horace havia acendido, colocando-a na brasa. Quando ele julgou que o aço da panela estava aquecido, derramou um pouco de óleo e jogou as cebolas alguns segundos depois.
Elas começaram a chiar e a ficar marrons, enchendo o ar com um aroma delicioso. Ele adicionou um dente de alho, esmagando-o com o final da vara que ele estava usando para mexer a panela até virar uma pasta. Mais aromas deliciosos surgiram. Ele borrifou um bocado de temperos que eram sua mistura especial e o cozido cheirava mais e mais. Então jogou os picados do coelho e mexeu para ficarem dourados e revestidos pela cebola e sua mistura especial.
Nessa hora, Halt e Horace sentaram um de cada lado da fogueira, assistindo-o famintos enquanto ele trabalhava. O rico cheiro do cozido de carne, cebola, alho, e temperos encheram o ar e fizeram seus estômagos roncarem. Havia sido um longo e difícil dia, afinal.
― É por isso que gosto de viajar com arqueiros — Horace disse depois de alguns minutos. ― Quando se tem a chance, você acaba comendo muito bem.
― Muitos poucos arqueiros comem tão bem assim — Halt lhe disse. ― Will tem uma aptidão para guisados de coelhos.
Will adicionou água na panela, e quando ela começava a ferver, jogou os pedaços de batata também. Quando o líquido de cara boa começou a borbulhar de novo, ele o mexeu e deu uma olhada para Halt. O velho arqueiro meneou a cabeça e foi até sua própria sacola de onde ele tirou um frasco de vinho tinto. Will adicionou uma dose generosa no guisado.
Ele exalou o aroma do vapor que subia da panela, e balançou a cabeça, satisfeito com o resultado.
― Talvez precise de um pouco disso depois, para cobrir o guisado — ele disse, colocando o frasco de vinho de um lado.
― Use o quanto quiser — Halt disse. ― É para isso que serve.
Halt, assim como a maioria dos arqueiros, bebia vinho apenas moderadamente. Duas horas depois, o guisado estava pronto e eles comeram com gosto. Halt misturou farinha, água e sal formando uma massa e a colocou nas pedras quentes ao lado da fogueira. Quando Will serviu o guisado, Halt revelou um pão enrugado com uma crosta dourada. Ele quebrou o pão em pedaços e passou para seus companheiros. Era perfeito para encharcar com o saboroso caldo do guisado.
― Esse pão é bom — Horace murmurou, com a boca cheia dele. ― Nunca tinha comido dele antes.
― Pastores de Hibernia fazem pães assim — Halt lhe contou. ― Fica gostoso quando é aquecido em fogueiras como essa. Quando ele esfria, fica bem liso. É chamado de abafador.
― Por quê? — Horace perguntou.
Halt encolheu os ombros.
― Provavelmente porque ele é mais úmido que o pão normal.
Isso pareceu satisfazer Horace. Afinal, ele não se importava muito como o pão era chamado, contanto que ele tivesse vários deles para tomar o delicioso caldo do guisado.
Depois de terem comido, eles se juntaram perante o mapa de Halt.
― Tennyson e seus companheiros estavam indo por esse caminho — Halt disse, traçando um caminho do sul para o sudeste. ― No momento, estamos indo para o leste, no ponto onde nós os deixamos para ir atrás dos scottis. Acho que devemos tentar recuperar a distância perdida e supor que eles continuarão o seu caminho para onde estavam indo. Se nós pegarmos um atalho e formos por este caminho — ele indicou uma direção a sudeste que iria cruzar com a trilha dos forasteiros depois de alguns quilômetros ― nós devemos cruzar seu caminho amanhã por volta do meio dia.
― A menos que eles mudem a direção — Will replicou.
― É um risco, é claro, mas eu não vejo porque eles o fariam. Eles não fazem ideia de que os estamos seguindo. Não há nenhuma razão para que eles não sigam diretamente para o destino final. Mas se eles mudarem, nós apenas teremos que voltar ao ponto onde eles deixaram as primeiras pegadas e os seguirmos de lá.
― Se estivermos errados, perderemos boa parte de dois dias — Will o alertou.
Halt meneou a cabeça.
― E se estivermos certos, nós economizaremos a melhor parte do dia.
Horace assistiu distraidamente a discussão. Ele estava feliz em cooperar com qualquer um dos planos que os colegas decidissem. E ele sabia que, ultimamente, Halt estava disposto a ouvir o ponto de vista de Will. Os dias demoravam a passar quando Halt tomava todas as decisões sem consultar ninguém. Will havia conquistado o respeito de Halt e Horace sabia que ele apreciava a opinião do jovem arqueiro.
Horace olhou preguiçosamente para o mapa e o nome de um lugar o chamou atenção. Ele se inclinou e colocou seu dedo indicador no pergaminho.
― Macindaw — ele disse. ― Achei que o campo parecia familiar. A cidade está a nosso leste. Se fizermos como você diz, estaremos passando bem perto dela.
― Seria divertido passar lá e ver como eles estão — Will disse.
Halt grunhiu.
― Nós não temos tempo para visitas sociais.
Will deu um largo sorriso.
― Não achei que tivéssemos. Eu apenas disse que seria divertido... se tivéssemos tempo.
Halt grunhiu de novo e começou a enrolar o mapa. Will já conhecia o humor do seu antigo mestre. Ele sabia que essa aspereza repentina era um sinal de que o velho arqueiro sabia que estava se arriscando indo para o sudeste. Ele nunca iria demonstrar que estava preocupado, com medo de estar cometendo um erro. Mas depois de anos que passaram juntos, Will podia usualmente ler seus pensamentos corretamente.
Ele sorriu silenciosamente para si mesmo. Quando era mais jovem, ele nunca sonhou que Halt poderia ter dúvidas. Halt sempre pareceu tão infalível. Agora ele sabia que o velho arqueiro possuía uma força mental ainda maior – a habilidade de decidir o rumo de uma ação e manter-se firme a ele, sem deixar que a dúvida e a incerteza desviassem-no.
― Nós vamos pegá-los, Halt. Não se preocupe — ele disse.
Halt deu um sorriso severo.
― Tenho certeza que dormirei melhor depois dessa sua nova afirmação — ele retrucou.


Eles desarmaram o acampamento cedo. O desjejum foi café e o que sobrou do abafador torrado nas brasas da fogueira recheados com mel. Então, chutando terra em cima da fogueira, eles montaram e saíram cavalgando.
As horas passaram. O sol estava a pino, e então começou a descer para o oeste. Uma hora depois do meio dia, eles cruzaram uma trilha que rumava diretamente para o sul.
Até onde Horace estava ciente, ela não parecia diferente das outras três ou quatro que haviam encontrado naquele dia, mas Will desceu de sua sela repentinamente. Ele se ajoelhou e estudou o chão a sua frente.
― Halt! — ele chamou e o velho arqueiro se juntou a ele.
Havia sinais definitivos de que um grupo de viajantes passou por aquele caminho. Will tocou em uma pegada, mais clara do que as outras. Ela estava fora da trilha em uma parte úmida do solo. A pegada havia sido deixada por uma bota pesada, com uma parte triangular no solado da parte externa.
― Já viu isso antes? — Will perguntou.
Halt se inclinou para trás, suspirando em alivio.
― Na verdade já. Lá pra cima, na Passagem do Corvo. Essa é certamente a trilha do grupo de Tennyson.
Agora que suas ações se provaram corretas, ele estava livre da dúvida e da preocupação que o assolou toda manhã. Foi um risco pegar o atalho. Se eles tivessem que voltar para o ponto em que viram os rastros de Tennyson pela primeira vez, qualquer coisa poderia ter acontecido – uma tempestade ou uma chuva pesada poderia ter lavado as pegadas, deixando eles desnorteados, sem nem ideia da direção que Tennyson teria pegado.
― Pela aparência dessas pegadas, eles estão a menos de dois dias a nossa frente — ele falou com grande satisfação.
Will andou alguns metros analisando as pegadas.
― Eles pegaram alguns cavalos — disse repentinamente.
Halt o olhou rapidamente e se moveu para se juntar a ele. Havia traços claros de vários pares de cascos imprimidos na terra fofa e na grama, um pouco fora da trilha.
― Pegaram mesmo — ele concordou. ― Só Deus sabe que pobre família eles assaltaram para consegui-los. Têm apenas três ou quatro rastros de cavalos, então a maioria deles deve estar a pé. Podemos alcançá-los amanhã.
― Halt — disse Horace ― estive pensando...
Halt e Will trocaram um olhar de divertimento.
― Sempre um passatempo perigoso.
Eles falaram em coro. Por muitos anos, essa havia sido a resposta infalível de Halt quando Will lhe fazia a mesma afirmação. Horace esperou pacientemente o momento de alegria deles, então continuou.
― Sim, sim. Eu sei. Mas sério, como dissemos noite passada, Macindaw não é tão longe daqui...
― E? — Halt perguntou, vendo como Horace deixou sua afirmação pendendo.
― Bem, tem uma guarnição de tropas lá e não deve ser uma má ideia um de nós ir buscar alguns reforços. Não ia doer nada ter uma dúzia de cavaleiros e homens armados para nos dar cobertura quando nós formos atrás de Tennyson.
Mas Halt já estava balançando sua cabeça.
― Dois problemas, Horace. Levaria muito tempo para um de nós ir até lá, explicar tudo e mobilizar um exército. E mesmo que pudéssemos fazer isso rapidamente, não acho que iríamos querer um monte de cavaleiros se atrapalhando por volta do campo, derrubando samambaias, fazendo barulho e sendo vistos.
Ele percebeu que sua afirmação havia sido um pouco sem discernimento.
― Sem ofensas Horace, exceto a companhia atual, claro.
― Ah, claro — Horace retrucou rigidamente.
Ele não podia realmente se opor à afirmação de Halt. Cavaleiros realmente tendem a fazer trapalhadas pelo campo, fazendo barulho e sendo notados. Mas isso não significava que ele deveria gostar disso.
Halt continuou.
― A melhor coisa que temos ao nosso lado é o elemento surpresa. Tennyson não sabe que o estamos seguindo. E isso vale mais que pelo menos uma dúzia de cavaleiros e homens armados. Não. No momento nós vamos continuar do jeito que estamos.
Horace balançou a cabeça grunhindo em concordância. Quando eles encontrassem com os forasteiros, teriam uma batalha dura em suas mãos. Will e Halt teriam suas mãos ocupadas, cuidando dos dois assassinos genoveses. Ele iria gostar de ter pelo menos três ou quatro cavaleiros armados atrás dele para cuidar do resto dos seguidores do falso profeta.
Mas com o tempo que passou com Halt e com Will, ele tinha aprendido várias vezes o quão importante uma surpresa pode ser importante na batalha. Relutante, ele decidiu que o que Halt dizia fazia sentido.
Os dois arqueiros montaram e partiram novamente, seguindo os rastros com um novo propósito. O conhecimento de que eles haviam encurtado a distância entre eles e Tennyson para menos de um dia os estimulou. Eles checaram o horizonte perante eles com cautela extra, procurando pelo primeiro sinal de que eles haviam pegado suas presas.
Will o avistou primeiro.
― Halt! — ele falou.
Ele tinha o bom senso de não apontar na direção que estava olhando. Ele sabia que Halt iria seguir seu olhar, e se tivesse apontado estaria avisando a sua presa o fato dela ter sido vista.
― Na linha do horizonte — ele disse em voz baixa. ― À direita daquela árvore bifurcada. Não faça isso, Horace!
Ele tinha visto a mão de seu amigo começar a se mover e ele instintivamente soube que Horace estava planejando fazer sombra nos olhos enquanto olhava a figura. Horace mudou seu gesto no ultimo minuto fingindo estar coçando as costas do seu pescoço. Ao mesmo tempo, Halt desmontou e inspecionou a pata dianteira de Abelard. Assim, quem quer que fosse não iria pensar que eles pararam porque o haviam avistado.
― Não consigo ver nada — Halt lhe disse. ― Quem é?
― Um cavaleiro. Olhando-nos — Will falou.
Halt olhou de lado para a colina sem mover a cabeça. Ele podia ver vagamente algo que poderia ter o formato de um homem e um cavalo. Estava agradecido pelos olhos jovens e aguçados de Will.
Will desceu e soltou seu cantil de água do arção da sela. Mas ele tratou de fazer isso sem perder a figura de vista. Ele levou a garrafa de água para seus lábios, ainda assistindo. Então houve um movimento rápido e o cavaleiro moveu seu cavalo e sumiu no horizonte.
― Tudo bem — ele disse. ― Podem relaxar agora. Ele já foi.
Halt soltou a pata de Abelard e remontou. Seus rígidos músculos e juntas pareciam se lamentar enquanto ele o fazia.
― Você o reconheceu? — ele perguntou.
Will balançou a cabeça negativamente.
― Muito longe para ver detalhes. Exceto...
― Exceto o que? — Halt questionou.
― Quando ele se virou, pensei ter visto um flash roxo.
Roxo, Horace pensou. A cor usada pelos assassinos genoveses. Talvez, ele disse para si mesmo, haviam acabado de perder o elemento surpresa.

5 comentários:

  1. Respostas
    1. Eles tinham que descrever detalhadamente um cozido

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  2. então? da uma falta de paciência esses detalhes.

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  3. Deveria tá muito gostoso! Ô pessoal maldoso, não deram nem um pouco do guisado para mim!
    Ass: Bina.

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  4. cozido de coelho é crime? hahahaha

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Boa leitura :)