18 de dezembro de 2016

Capítulo 14

A costa arridi era uma fina linha marrom a estibordo enquanto o Wolfwind escorregava suavemente através da água. Estava estranhamente calmo agora que o grupo tinha sido capaz de distribuir os seus remos e arrumar a grande vela. Nos últimos quatro dias, o vento soprava de forma constante a partir do leste, na direção contrária do caminho pela qual queriam seguir. Mas quando o sol tinha se levantado hoje, o décimo quinto dia de sua viagem, o vento tinha mudado para o norte.
Svengal tinha a vela levantada e apoiada em um ângulo de quarenta e cinco graus para pegar o vento. O Wolfwind tentou virar contra o vento imediatamente, como um cata-vento. Mas o controle firme de Svengal das cordas manteve a proa apontada para o leste. O Wolfwind ainda virava para norte, inevitavelmente, mas as forças em conflito criadas pelo vento na vela, a resistência da quilha na água e a força no leme dava um curso leste-norte-leste para o navio.
E mesmo se estivesse a perder algum terreno para o norte, estavam fazendo mais progresso para o leste do que estariam com remos. Svengal sabia que um capitão sábio conservaria a força de seus remadores na medida do possível.
— Nós estamos indo um pouco para o norte — ele disse a Halt — mas vamos ficar com o vento até estarmos mais perto de Al Shabah.
Halt acenou em acordo. Svengal sabia o que estava fazendo e não havia nada que o arqueiro pudesse sugerir para melhorar o seu progresso. Ele confiava na habilidade e julgamento do grande escandinavo quase tanto quanto confiava em Erak.
Halt, Evanlyn e Svengal estavam conversando agora na popa do navio, discutindo planos para as próximas negociações. Horace estava agachado ao lado de Kicker em sua baia, trabalhando para remover uma pedra que tinha ficado presa no casco do cavalo de batalha em sua última corrida.
Will ficou sozinho na proa do navio, o queixo descansando apoiado em seu antebraço conforme ele inclinava-se sobre a amurada. Talvez pela décima vez em tantos dias, ele estava se sentindo desconfortável com o que o futuro poderia trazer.
Não as negociações para a liberação de Erak. Ele estava certo de que eles iriam continuar sem problemas e com êxito. Afinal, Halt estaria ao lado de Evanlyn para guiá-la e aconselhá-la de quaisquer possíveis armadilhas. E esse era o ponto crucial, ele percebeu. Ele passou a maior parte dos últimos cinco anos contando com Halt, confiando em seu julgamento, seguindo sua liderança. Assim como todos eles estariam fazendo quando o navio chegasse finalmente a Al Shabah e saíssem em terra para resgatar Erak.
A presença de Halt, seu conhecimento, sua perícia, sua habilidade inata para resolver qualquer problema que se levantasse, era uma enorme fonte de segurança para o Will. Ele estava firmemente convencido de que não havia nada que Halt não pudesse fazer, não havia problema que não pudesse resolver.
E em breve, Will sabia que estaria deixando o guarda-chuva de proteção e golpeando para fora sozinho. Em três meses, iria enfrentar suas provas finais de avaliação – projetadas para verificar se ele tinha ou não o que precisava para ser um arqueiro bem sucedido.
No ano anterior, a avaliação final teve grande importância em sua mente. Ele a tinha visto como o ponto culminante de sua formação, o último obstáculo que ele devia ultrapassar antes que recebesse a Folha de Carvalho de Prata – o símbolo de um arqueiro graduado.
E ele olhava para o futuro com alguma impaciência. Mas agora, percebeu, a avaliação não seria o fim. Seria apenas o início de uma fase nova e ainda maior de sua vida. A avaliação real viria a seguir. E nunca acabaria enquanto ele permanecesse um arqueiro. Ele seria testado todos os dias. Seria chamado para tomar decisões de vida ou morte – às vezes sem tempo suficiente para considerá-las corretamente. As pessoas olhariam para ele em busca conselho e liderança e, de repente, duvidou que pudesse fornecer.
Ele percebeu agora que não estava preparado para o papel. Não estava pronto para isso. Nunca poderia ser como Halt – tão calmo, confiante, experiente. Tão incontestavelmente certo sobre tudo.
Ele não era Halt. Ele era Will. Jovem, impulsivo, verde como a grama. Sem realmente pensar sobre isso, acreditava que no princípio, uma vez que se graduasse, ele e Halt continuariam a viver na pequena cabine confortável na floresta. Mas o casamento de Halt tinha trazido Will para a compreensão de que esses dias estavam quase acabando.
Halt percebia isso, mesmo que Will não.
Halt já havia se mudado para o apartamento que ele e Lady Pauline compartilhavam no castelo, apesar de continuar a usar a cabana na floresta como base para a sua observação sobre os acontecimentos no feudo.
No começo, Will tinha visto a mudança das circunstâncias com equanimidade. A ideia de ter a cabana só para ele tinha certo apelo. Ele poderia convidar amigos para as refeições. Horace, se ele passasse visitando Redmont, como fazia de tempo em tempo. E Alyss.
Alyss, ele pensou. Sim. Seria agradável sentar perto do fogo na cabana aconchegante com a bela garota loira, falando sobre os velhos tempos e os novos desenvolvimentos em seus trabalhos. Ela já era uma mensageira graduada e já estava sendo enviada em missões pela sua mentora, a lady Pauline. Alyss gostava de estar com ele, ouvi-lo tocar a bandola, balançando a cabeça no tempo da batida.
Ao contrário de Halt, ele pensou com um sorriso irônico, que gemia e se mexia quando Will tirava o pequeno instrumento do seu estojo de couro duro. Mas então ele percebeu que esse não seria o caminho de sua vida. Ele não estaria na cabana, com ou sem Halt. Ele não estaria em qualquer lugar perto do Castelo Redmont. Uma vez que se graduasse, seria atribuído a outro feudo, um dos cinquenta do reino. Ele poderia ser enviado a centenas de quilômetros de todos e de tudo o que sabia. E quando chegasse lá, as pessoas esperariam que ele soubesse o que estava fazendo.
Em suma, iriam pensar que ele era como Halt.
E ele sabia muito bem que não era. Ele suspirou profundamente ao pensamento.
— Está aí um som agradável — disse uma voz alegre atrás dele.
Will virou com surpresa. Mesmo absorto em seus pensamentos, teria esperado perceber alguém se aproximando tão perto dele.
Alguém além de Gilan, ele se corrigiu. Possivelmente Halt, mas definitivamente Gilan.
O jovem arqueiro parecia ser capaz de se mover em silêncio total quando queria. Ele era reconhecido como mestre de movimento invisível no Corpo de Arqueiros. Gilan inclinou-se na amurada ao lado de Will, olhando-o curiosamente.
— Pensando em algo? — perguntou calmamente.
Gilan sabia por experiência própria que havia alguns problemas que um aprendiz não gostaria de expor ao seu mentor. Ele sabia, também, que estava em uma posição única. Como ex-aprendiz de Halt, ele poderia entender a maioria das dúvidas que possam estar passando pela mente de Will no momento. Na verdade, Gilan tinha uma ideia muito próxima da razão pela qual Will estava suspirando.
— Não... bem, eu suponho, uma espécie de... bem, sim — disse Will.
O sorriso de Gilan se alargou.
— E ainda posso escolher entre três respostas. Ninguém pode dizer que você não responde a uma pergunta claramente.
Will ensaiou um sorriso em troca, mas foi um esforço desanimado.
— Gil — disse ele, finalmente — quando você estava prestes a ganhar a Folha de Prata, você achou que era... — ele hesitou, sem saber como colocar, em seguida, tentou outra tática. — Quero dizer, você não se sentia...
Ele estava prestes a dizer “inadequado”, mas ele não poderia imaginar a palavra aplicável a Gilan. Depois de Halt, Gilan era a pessoa que Will mais respeitava. Ele era um arqueiro perito, como todos do Corpo. Mas ao contrário de qualquer um dos outros, também era um mestre espadachim. Era o único dos cinquenta arqueiros servindo que carregava uma espada além das armas regulares. Era também, como Will tinha acabado de ser lembrado, um especialista na arte do movimento silencioso. E era respeitado entre o Corpo pelos outros arqueiros, muito mais velhos que ele.
Em várias ocasiões, Will tinha ouvido Crowley e Halt discutindo o futuro Gilan no Corpo e ele sabia que Gilan estava marcado para altos cargos. O fato de que isso pode ter algo a ver com Gilan ser o antigo aprendiz de Halt não ocorreu a Will. Mas a palavra “inadequado” seria um insulto a alguém tão capaz e qualificado como Gilan.
Gilan estudou o jovem perturbado ao lado dele e sentiu uma onda de afeição por ele.
— Você vai dizer “despreparado”? — ele perguntou e Will pegou a palavra em gratidão.
Era menos ofensiva do que a que ele quase tinha usado.
— Sim! Exatamente! Você se sentiu despreparado para isso tudo?
Gilan assentiu várias vezes antes de responder. Seu sorriso tornou-se um pouco melancólico conforme ele voltava anos atrás, quando sentiu exatamente as mesmas dúvidas que ele tinha certeza de que Will estava sentindo agora.
— Você sabe, um ano antes da minha avaliação final, eu tinha certeza que sabia tudo.
— Bem, sim. Claro — disse Will.
Gilan teria estado mais do que pronto um ano antes da maioria dos aprendizes. Então Will percebeu que um ano atrás, ele se sentia exatamente da mesma maneira. Ele se virou para olhar o arqueiro alto.
— Então — continuou Gilan — nas últimas semanas, percebi o quanto eu não sabia.
— Você? — Will disse incrédulo. — Mas você é...
Gilan ergueu a mão para silenciá-lo.
— Eu comecei a pensar: “O que vou fazer sem Halt para me aconselhar? O que vou fazer quando ele não estiver ao redor para esclarecer os erros que eu cometi?” E a coisa toda me fez tremer nas minhas botas. Eu pensei: “Não posso fazer este trabalho. Eu não posso ser Halt! Como posso ser tão sábio e inteligente, e vamos concordar, tão francamente sorrateiro como ele é?” Isso é basicamente o que você está sentindo agora? — ele concluiu.
Will estava sacudindo a cabeça em assombro.
— É isso, em poucas palavras! Como posso ser como Halt? Como alguém pode?
Novamente, a enormidade de tudo isto pesava sobre ele e seus ombros caídos. Gilan colocou um braço reconfortante em torno deles.
— Will, o próprio fato de que você está se preocupando com isso diz que você vai estar pronto para o trabalho. Lembre-se: ninguém espera que você seja Halt. Ele é uma lenda, afinal. Você não ouviu? Ele tem mais de 2 metros de altura e mata ursos com as mãos...
Will tinha que sorrir para isso. A reputação de Halt em todo o reino era basicamente na forma que Gilan havia dito. As pessoas que encontravam-no pela primeira vez ficavam surpresas ao descobrir que ele era na verdade um pouco menor que a média.
— Portanto, você não pode querer ser igual a ele. Mas lembre-se disso, você tem sido treinado pelo melhor. E teve o privilégio de estar ao lado dele durante os últimos cinco anos e ver como ele resolvia um problema. Acredite em mim, um monte disso você aprendeu. Depois de ter seu próprio feudo, em breve você vai perceber o quanto sabe.
— Mas e se eu cometer um erro? — Will perguntou.
Gilan jogou a cabeça para trás e riu.
— Um erro? Um erro? Você seria um cara de sorte. Vai cometer dezenas de erros! Eu cometi quatro ou cinco no meu primeiro dia! Claro que você vai cometer erros. Só não os faça duas vezes. Se confundir as coisas, não tente escondê-las. Não tente racionalizar. Reconheça e aprenda com ele. Nós nunca paramos de aprender, ninguém. Nem mesmo Halt — acrescentou sério.
Will acenou com gratidão. Ele sentiu um pouco melhor. Ele levantou a cabeça desconfiado.
— Você não está apenas dizendo isso para me fazer sentir melhor, está? — ele perguntou.
Gilan balançou a cabeça.
— Ah, não. Se você não acredita em mim, peça a Halt para informá-lo sobre alguns dos meus deslizes. Ele adora me lembrar deles. Agora vamos ver o que eles estão falando tão sérios.
E ainda com o braço sobre os ombros do jovem, ele o levou para longe da proa de volta ao pequeno grupo no leme. Halt olhou para cima conforme eles se aproximaram, pegou um olhar de Gilan e logo imaginou sobre o que eles estavam falando.
— Onde você dois estavam? — ele perguntou, seu tom leve.
— Admirando a vista — Gilan disse a ele. — Pensei que você talvez precise de algum conselho das duas cabeças mais sábias a bordo.
Halt não disse nada. Mas sua sobrancelha levantou, falando por ele.

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