18 de dezembro de 2016

Capítulo 13

Depois de dois dias no mar, Halt estava misericordiosamente no controle de seu estômago mais uma vez. Isso não impediu um Svengal com sorriso maldoso perguntar sobre sua saúde em todas as oportunidades possíveis, ou oferecendo-lhe petiscos a escolha da despensa limitada do Wolfwind.
— Perna de frango? — disse ele, dividindo um sorriso inocente seu rosto. — Um pouco gorduroso, mas bom mesmo assim. Uma boa coisa para furar a costela de um homem.
— Svengal — disse Halt, pela décima vez — eu já passei por isso. Estamos entendidos? Não estou mais nauseado com o mar. E estou cansado de suas tentativas de fazer minhas entranhas alçarem sobre a amurada.
Svengal não parecia convencido. Ele conhecia a força de espírito de Halt, e tinha certeza de que ele estava blefando – que, no fundo, no estômago, o arqueiro ainda estava enjoado. Tudo que precisava era de um estímulo mais sugestivo.
— Se não for o seu gosto, tenho um pouco de molho de castanha você pode refogar em cima? — ele sugeriu com esperança.
— Muito bem — concordou Halt — me dê à perna de frango. E busque o molho de castanha e alguns pepinos em conserva enquanto você estiver pegando ele. Ah, e é melhor você me trazer uma caneca grande de cerveja preta, se tiver alguma.
Svengal sorriu convencido de que Halt estava blefando. Em poucos minutos ele teve a comida necessária disposta sobre uma pequena mesa dobrável no posto de comando. Ele assistiu com expectativa enquanto Halt mordeu a galinha, mastigou e engoliu lentamente. Jurgen, um dos membros da tripulação, encheu uma caneca com cerveja preta e estava segurando o barril, pronto para mais instruções.
— Tudo bem, então? — Svengal perguntou esperançosamente.
Halt assentiu.
— Ótimo. Pouco exagerado e pegajoso, mas no geral é bom.
Ele tomou um grande gole da cerveja preta, que sabia que era a favorita de Svengal e que estava em estoque limitado. Ele empurrou a caneca para Jurgen.
— Mais — disse ele brevemente.
O escandinavo tirou a rolha do barril e deixou um córrego da cerveja preta espumante correr para a caneca. Halt bebeu novamente, drenando a maior parte da cerveja. Ele limpou as os lábios com a mão.
— Não é mau. Não é mau de todo — disse ele e segurou a caneca de novo.
O sorriso no rosto de Svengal começou a desvanecer quando viu mais de sua bebida favorita jorrando na caneca de Halt. A brincadeira era uma piada, pensou, mas isso estava começando a ficar caro.
— Quantos barris que nos restam? — ele perguntou ao marinheiro.
— Este é o último, skirl — veio a resposta.
Ele agitou o barril experimentalmente para verificar o quanto tinha restando e a orelha praticada de Svengal poderia dizer do som oco que estava cheio pela metade. Ou, como ele pensou em seu estado de espírito ansioso, de repente, metade vazio. Halt tomou outro longo gole e segurou a caneca quase vazia para encher.
— Melhor encher — disse ele.
— Não! — O grito ansioso Svengal parou o tripulante enquanto ele levantava o barril mais uma vez. — Deixe-o, Jurgen.
Jurgen assentiu, escondendo um sorriso de si mesmo. Ele gostava de Svengal, mas como todo escandinavo, também apreciava uma boa brincadeira prática. Ele admirava a forma como o pequeno araluense tinha virado a mesa sobre o seu capitão.
— Você tem certeza? — ele perguntou. — Ele parece estar gostando.
Halt arrotou levemente na confirmação e deu outra mordida de molho-untado de coxa de frango.
— Ele está gostando muito — respondeu Svengal breve.
Ele lançou um olhar ofendido a Halt.
— Algumas pessoas não sabem quando uma brincadeira foi longe demais.
Halt sorriu maldosamente para ele.
— Tal como eu tenho notado — ele respondeu. — Então, me diga. Acabamos com as perguntas sobre minha saúde e o estado do meu estômago?
— Sim — Svengal murmurou sombriamente. — Eu só estava preocupado com você, isso é tudo.
— Meu coração está tocado por seu interesse — disse Halt sério.
Então, olhando por cima da amurada do navio, ele apontou para uma longa linha branca de praia que era visível na costa da Ibéria.
— Aquele seria um bom lugar para levar os cavalos em terra? — ele perguntou.
Sabia que se Puxão, Abelard, Blaze e Kicker passassem muito tempo sem se exercitar, os músculos iriam estar enrijecidos e fracos e sua condição ficaria ruim. Ele e Svengal tinham discutido a necessidade de colocá-los em terra a cada poucos dias e dar-lhes uma corrida. Svengal, sem piadas dessa vez, olhou até o litoral.
— Bom como qualquer outro lugar — disse ele. — Essa parte da costa é um longo caminho a partir de qualquer grande assentamento. Não quero que os ibéricos pensem que estamos os invadindo.
Ele pegou a meia caneca de cerveja preta que Halt lhe ofereceu e bebeu dela.
— Obrigado.
— Está tudo bem — Halt disse a ele, com o menor traço de um sorriso. — Eu não gosto dessa coisa de qualquer maneira.
Svengal olhou longo e duramente para ele.
— Não fique surpreso se eu deixar você e seus preciosos cavalos largados na praia — retrucou. — Não sei por que você precisa deles de qualquer maneira. Estaremos desembarcando em Al Shabah para entregar o dinheiro, então embarcando para casa novamente.
— Nós esperamos isso — Halt disse a ele. — Eu aprendi que sempre vale a pena estar preparado para o inesperado. E um arqueiro sem seu cavalo é como um escandinavo sem o seu navio.
— Justo — Svengal concordou.
Ele olhou para o axiômetro – um fio no topo do mastro para medir a direção do vento. Vendo que não haveria necessidade de redefinir a vela, ele soltou no leme e virou a proa do Wolfwind rumo à longa distante praia.


Uma hora depois, a proa do Wolfwind correu suavemente sobre a areia, o navio chegando a uma parada com um ruído de ralar. As lonas de elevação novamente foram manipuladas, e mais uma vez os cavalos foram içados para o lado em águas rasas.
Puxão olhou malignamente na Halt. Ele estava se divertindo nos últimos dois dias, em silêncio balançando de um lado para o outro em sua confortável e acolchoada baia, comendo em intervalos regulares, cochilando ao sol e, em geral, aceitando fácil, enquanto o Wolfwind navegava bem. Não era a primeira vez que ele e Halt tinham discordado sobre o assunto de quanto descanso um cavalo deve ter, quantas maçãs que deveria ser permitido comer ou quanto exercício é realmente necessário.
Ainda assim, foi bom ter um solo firme sob os pés mais uma vez, e eles não estavam a bordo do navio o tempo suficiente para desenvolver o que os escandinavos chamavam de “tontura de marinheiro”, onde o terreno pedra e duro abaixo de você parecia como a plataforma móvel da um navio.
Puxão se sacudiu todo, vibrando em seus ouvidos e crina curta a sua cauda felpuda na forma como os cavalos fazem. Então ele estava pacientemente enquanto Will escorregava uma rédea no nariz. Eles não iriam se incomodar de selar os cavalos. Não usar sela seria bom para o propósito atual.
Evanlyn assistia um pouco de inveja seus quatro amigos mexendo em seus cavalos. Não havia nenhum motivo para trazer um cavalo especialmente para ela. Se precisasse de carona, eles poderiam comprar um cavalo em Al Shabah. Mas Kicker e os três cavalos arqueiros eram especialmente treinados. Nenhum cavalo comprado localmente teria as habilidades ou vigor que eles possuíam. Se os três arqueiros ou Horace precisassem de cavalos, eles precisavam dos que estavam habituados.
— Devagar nas primeiras centenas de metros — Halt disse aos outros. — Eles vão querer correr, mas nós não queremos nenhuma distensão.
E, de fato, apesar do descontentamento inicial de Puxão por ter interrompido a sua viagem por mar, ele descobriu que queria correr. Queria mostrar a Abelard e Blaze – e a esse grande e cheio de músculos cavalo de batalha – apenas quem era quem quando se tratava de velocidade.
Ele fez um grande esforço contra as rédeas conforme se afastaram rumo ao sul. Mas Will o segurava, permitindo-lhe apenas andar no começo, depois a trotar e, finalmente, libertá-lo em um lento galope.
Os quatro cavalos varreram a longa curva da praia em linha corrente, galopando lado a lado, cada um deles sacudindo a cabeça e puxando teimosamente as rédeas. Cada um convencido de que era o mais rápido, o que pisava mais certo e, a mais espalhafatosa criatura no mundo dos cavalos. Eles reviraram os olhos para o outro, bufando e desafiando uns aos outros e aceitando os desafios que os outros estavam jogando fora.
Mas as mãos firmes nas rédeas os impedia.
Puxão sentia o sangue correndo por ele e a rigidez que fluía para fora de suas pernas. Ele se sentiu bem. Sentia-se vivo. Sentiu que estava fazendo o que ele nasceu para fazer. A areia sob os pés era firme, sem ser demasiada rígida. Ela voava em torrões de terra molhada por trás dele. A maresia enchia seus pulmões e ele respirou profundamente. Sentiu as mãos de Will relaxarem um pouco e ele se jogou para frente, por alguns momentos se deslocando à frente dos outros cavalos até seus cavaleiros lhes permitissem acelerar um pouco e Will verificasse o seu próprio ritmo crescente. Ainda ombro a ombro, os quatro cavalos foram a um completo galope na faixa ao longo da praia.
No alto da popa do Wolfwind, Evanlyn estava na amurada, protegendo os olhos para vê-los conforme eles diminuíam a distância. Ela odiava ser deixada para trás assim. Horace tinha se oferecido para deixá-la cavalgar junto dele, mas ela recusou, não era a mesma coisa. Ela não queria ser uma passageira. Queria montar com seus amigos.
Svengal soltou-se para cima do parapeito com ela, olhando para os cavaleiros.
— Eu realmente não sei como vocês fazem isso — ele lhe disse calmamente.
Ele havia assistido os araluenses subindo na sela, em seguida, se afastando, sentando-se facilmente como se cada cavaleiro de repente fizesse parte do próprio animal. Era uma habilidade que ele nunca saberia, nunca viraria mestre. Parecia tão divertido, ele pensou. Mas não tinha nada a ver com o aperto, o balanço, a imperícia e o medo que sentiu quando subiu em um cavalo.
Cassandra viu a leve melancolia em seus olhos e acariciou a mão dele.
— Não é difícil. Só precisa de prática — disse ela. — Eu poderia lhe ensinar.
Mas ele balançou a cabeça.
— A prática que é a parte difícil — ele respondeu distraidamente esfregando o traseiro, onde seus músculos ainda tinham uma leve memória do passeio de ida e volta de Redmont.
— Capitão! — Axel chamou, a partir do posto de vigia no poste do mastro.
Svengal olhou para cima e viu o seu braço estendido para o norte.
— Nós temos companhia — Axel continuou.
Svengal atenuou seus olhos. Longe ao norte, nas baixas montanhas no interior da praia, ele viu um brilho de luz solar em metal – um capacete ou um escudo. Uma pequena nuvem de poeira podia ser vista também.
Cavaleiros, ele pensou. E uma porção deles. Ele deu de ombros. Não era muito surpreendente. Mesmo que esta fosse uma parte pouco habitada do litoral, os ibéricos teriam patrulhas, e a visão de um navio escandinavo ancorado seria uma questão para investigação. Os cavaleiros ainda estavam a pelo menos uma hora de distância, estimou. Havia tempo de sobra para chamar de volta os quatro Araluenses, carregar os cavalos para bordo e voltar ao mar. Mas era melhor ter cuidado.
— Melhor chamá-los de volta — ele falou a um tripulante, que tinha um chifre de carneiro para tal efeito.
O homem acenou com a cabeça, respirou fundo e soprou duas explosões de longo prazo – o conhecido sinal de retorno.
Três quilômetros abaixo da praia, Halt ouviu as longas explosões. Ele freou em sinalização, os outros fizerem o mesmo, e rodaram na sela, olhando para trás ao longo da praia para o navio. De sua posição, ele não podia ver os cavaleiros que se aproximavam. Mas ele sabia Svengal teria uma boa razão para soar o retorno.
— Hora de voltar — disse ele. — Vamos dar-lhes uma...
Antes que ele pudesse terminar a declaração, Will e Puxão foram embora, as patas do pequeno cavalo se agitando enquanto ele se atirava para um galope no espaço de alguns passos. Blaze estava logo atrás dele e Horace e Kicker pesadamente para trás dos outros dois, construindo lentamente a velocidade de trovão do cavalo de batalha.
— ...Corrida — Halt disse a ninguém, mas a si mesmo.
Então ele tocou Abelard com o joelho e o cavalo finamente treinado se jogou para a distância, como uma flecha de um arco. Ele alcançaria Kicker, Halt sabia. Mas não havia jeito de ele chegar perto de Blaze e Puxão.
Particularmente Puxão...

3 comentários:

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Boa leitura :)