9 de dezembro de 2016

Capítulo 13

O grupo Cahill acordou cedo na manhã seguinte, com o desagradável o conhecimento de que o tempo estava se esgotando.
O plano deles hoje – como tinha sido no dia anterior – era pescar. Havia definitivamente serpentes d’água na região de Angkor, e a lógica ditava que algumas delas tinham que ser Enhydris longicauda. Mas, como qualquer viagem de pesca, o sucesso dependeria do puro acaso.
Era uma estratégia insanamente frágil – especialmente com Pierce se aproximando de seus objetivos.
Foi difícil para Amy dormir, e quando ela finalmente conseguiu, pesadelos horríveis a acordaram rapidamente. Contudo, em vez de tornar-se mais fraca enquanto os efeitos colaterais do soro aumentavam, ela estava na verdade se tornando mais forte. Seu corpo esguio começou a inchar com tecido muscular. Seu rosto brilhava com vitalidade e força. Ela parecia a imagem da saúde, quando, na realidade, era o contrário.
Eles compraram novas redes de pesca e contrataram um tuk-tuk para levá-los para fora da cidade. Mas ao invés de seguir para o norte na direção dos templos de Angkor, desta vez eles decidiram tentar a sorte para o sul, nas águas do lago Tonle Sap, o Grande Lago do Camboja.
— Onde mais você procuraria por uma serpente d’água de Tonle Sap? — Dan explicou seu raciocínio. — Tonle Sap é o sobrenome dela. Bem, Sap, de qualquer maneira.
Todos riram, exceto Hamilton, que tinha outra coisa em sua mente.
— Os policiais deixaram uma mensagem no meu celular. Após o acidente, eles rastrearam o barco até o meu cartão de crédito. E agora eu sou uma pessoa de interesse.
— Você é um cara interessante, bróder — disse Jonah amargamente. — A fazenda de crocodilos parecia bastante interessada em bani-lo por uma vida!
— Pode haver outro caminho que possamos seguir — Ian começou com cuidado. — Ontem fiz contato com April May.
Isso causou um rebuliço no tuk-tuk. A ideia de que a mítica April May era uma pessoa real tornava necessário um grande ajuste de pensamento.
— Como? — Dan exclamou. — Ela te mandou um e-mail?
— Não. Ela me seguiu para Angkor Wat e atacou o computador de Pony. Segurem seus chapéus, companheiros: April May é na verdade Cara Pierce.
Seus companheiros de viagem o encararam em choque.
Hamilton encontrou sua voz primeiro.
— A Cara Pierce? — perguntou ele com espanto. — Tipo, a filha do homem de quem estamos tentando salvar o mundo?
Enquanto o tuk-tuk balançava ao longo das estradas esburacadas, Ian contou do encontro ocorrido nos jardins de Angkor Wat. Os outros o encheram de perguntas, mas Amy permaneceu em silêncio, seu cérebro aprimorado peneirando as novas informações em alta velocidade: April May era a última pessoa que eles esperavam: a filha de seu inimigo.
Seu envolvimento significava que ainda mais um parte estava em jogo neste vasto jogo de xadrez, uma parte que ninguém houvera previsto...
Amy falou finalmente.
— Por que criar uma identidade secreta e trabalhar para seu pai anonimamente?
— Ela diz que não confia mais em seu pai, e quer trabalhar conosco para detê-lo.
— E você acredita nela! — Amy zombou. — Você acredita no coelho mágico que esconde os ovos coloridos na Páscoa?
— Eu não sei, Amy — disse Dan lentamente. — Eu acho que Cara pode estar falando a verdade. Eu te contei como ela me ajudou a escapar do avião de Pierce.
— Esse é o seu palpite — Jake observou. — Você não pode ter certeza absoluta.
— Ela desfez os nós em meus pulsos e explicou exatamente como abrir a porta — Dan insistiu. — Isso não é o que se faz com reféns.
— Eu sei que ela fez algumas coisas para fazer parecer que ela está se afastando de seu pai — Amy argumentou — mas isso poderia ser parte de uma estratégia para nos enganar. Será que ela realmente espera que nós aceitemos que ela se tornou a melhor hacker do mundo e seu pai não tinha ideia?
— Não é impossível — Ian respondeu. — Todos os dias ouvimos dezenas de histórias de pessoas com vidas ricas on-line, enquanto seus amigos e família nada sabem sobre isso.
— Ela é uma Pierce — Amy falou teimosamente.
— E, tecnicamente, uma Cahill, também — Ian apontou. — A mãe dela é Starling. Eu nunca fui particularmente apaixonado pelos Ekats. Toda essa coisa de reparar e inventar – é tudo tão confuso e trabalhoso. Mas ela está tão intimamente relacionada com Gideon quanto qualquer um de nós. Então, tecnicamente, não seria sequer mudar de lado.
— Ela estaria enfrentando seu próprio pai duplamente — Jake argumentou. — Isso não é algo que eu faria.
— Eu tenho alguma experiência com isso — disse Ian rigidamente. — E de maneira alguma é fácil, mas você luta contra um pai se esse pai é mau. Eu diria que Pierce se qualifica assim tanto quanto minha mãe.
Os outros o consideraram solenemente. Eles entendiam o quão doloroso foi para Ian se voltar contra Isabel Kabra. Saber que ele fizera a escolha certa lhe dava pouco conforto, mesmo depois de todo esse tempo.
— Nós não podemos confiar nela — Amy concluiu. — E isso apenas com base no que ela fez como Cara Pierce. E quanto ao que ela fez como April May? Ela é uma das hackers mais implacáveis e ladra de informações da história!
Dan fincou os calcanhares em sua visão dos fatos.
— Você me colocou no comando porque não confia em seu próprio julgamento sob o soro. Bem, como você sabe o soro não está nublando seu julgamento sobre Cara?
— Eu não sei — Amy admitiu. — Só estou dizendo que é arriscado demais.
— Mas isso é um julgamento, também! — Dan argumentou, um pouco irritado. — Se eu sou o chefe da família, não significa que eu escolho que riscos valem a pena?
— Estamos apostando a minha vida, então eu decido sobre que riscos valem a pena.
Dan tensionou sua mandíbula.
— E se você estiver errada?
— Então ninguém paga um preço mais alto do que eu.
Houve um silêncio total no tuk-tuk, exceto pelo barulho alto do motor do veículo de três rodas.
Jake passou o braço em torno do ombro de Amy, e ela não o afastou.

* * *

No banco oposto, Dan ardia de raiva. Como Jake Rosenbloom tinha um monopólio sobre estar preocupado com Amy! Desde o instante em que Amy tomara o soro, Dan percebera algo que ele sempre soube, mas nunca colocou em palavras: que seu maior medo era perder a irmã. Dan tinha apenas quatro anos quando seus pais morreram. Ele não tinha nenhuma lembrança deles, apenas vagas impressões. Amy era tudo, sempre foi tudo. E isso foi antes mesmo de eles cruzarem o mundo juntos e salvado a vida do outro dezenas de vezes. A única coisa em seu mundo louco que era tão constante quanto o sol se erguendo toda manhã e se pondo à noite era a presença de Amy. Se ele a perdesse, ele certamente morreria quando se perdesse. O medo frio que apertara seu coração no dia em que ela tomou o soro espremia cada vez mais a cada hora que passava. Jake era um cara muito bom, e seus sentimentos por Amy eram genuínos. Mas quando começou a se preocupar com ela, ele era estritamente uma ligação menor.
Logo a extensão transparente do Tonle Sap apareceu a oeste. Como sempre, Atticus forneceu os detalhes.
— É um lago único, porque ele cresce quase seis vezes do seu tamanho normal durante a estação das monções. Agora é época de seca, por isso não está muito profundo – talvez um metro, no máximo. Outra característica estranha é que o fluxo muda de direção...
— Você pode nos dizer alguma coisa que realmente precisemos saber? — Dan interrompeu. — Tipo, há uma ONG Salve As Cobras por aqui?
Entre o khmer de Atticus e o inglês do motorista, eles foram capazes de chegar a um acordo sobre um local para descerem, uma área de praia deserta e cheia de juncos onde o homem jurou ter visto “muitas cobras”. Isso foi encorajador até Atticus admitir que não tinha certeza da diferença entre as palavras para “muitas cobras” e “muitos vermes”.
— Tudo bem — Amy suspirou. — Se nós não pudermos completar o antídoto, pelo menos poderemos abrir uma loja de isca.
Deixando o motorista de tuk-tuk com instruções para esperar por eles, eles levaram as suas redes pelo caminho pantanoso até a beira da água.
Quanto mais perto chegavam, mais a lama sugava seus sapatos. Finalmente, Amy tirou os tênis e continuou com os pés descalços.
— Sério? — perguntou Ian enquanto seus sapatos Gucci afundavam no lodo. Ele tentou em vão dobrar as pernas ​​de sua calça de grife. — Ah, isso vai ser desagradável.
— Vamos lá, mano — Jonah chamou. — Se eu estou fazendo isso, você também consegue.
Eles cruzaram o lago Tonle Sap em sua viagem inicial para Siem Reap, mas nada poderia tê-los preparado para a experiência de vadear o famoso Grande Lago do Camboja. Era como um pântano em ponto de fervura. A água era tão quente quanto a de uma Jacuzzi, e cheia de vida – insetos, peixinhos e algas.
Os juncos eram grossos, e tão afiados quanto facas. Toda vez que eles mergulhavam suas redes, elas voltavam recheadas com pelo menos um peixe-gato, horrível e lutando por sua vida.
Um pouco a jusante, dois búfalos os olharam placidamente.
— Yo, bros — Jonah entoou — não se atrevam a fazer a cocô no meu lago!
— Como é lindo — Ian choramingou.
— Vamos lá, vocês — Amy entrou na água até a cintura.
Houve alguma resistência, mas logo todos eles se espalharam através da água turva, arrastando as redes.
— Isso me faz lembrar da pesca com a minha família — contou Hamilton nostalgicamente. — Foi muito divertido até que meu pai deu um soco num peixe-boi e foi banido da rede de parques nacionais.
Atticus mergulhou completamente a fim de evitar um enxame de mosquitos. Na água turva, viu peixinhos, ervas daninhas flutuantes, vários girinos, e um corpo ondulante longo e escuro. Ele apertou os olhos para ver melhor, comparando a criatura às imagens de Enhydris longicauda que tinham visto online. Os olhos escuros girando e pupilas assustadoramente pálidas...
Ele quebrou a superfície espirrando água, ofegante em busca de ar.
— Co-o-o-bra!
A resposta foi um pandemônio. Todos convergiram para Atticus, redes mergulhando como gaivotas à caça de uma presa.
— Para onde ela foi? — gritou Dan.
Ian apontou em direção à margem.
— Por ali!
Por vários minutos, o lago se agitou enquanto eles mergulharam, correram, jogaram redes, agarraram e se esforçaram, batendo uns nos outros na tentativa para se apossar da cobra fantasma. Ian acertou o traseiro de Hamilton com o cabo de sua rede, e Jonah levou uma cotovelada de Jake. Em um ponto, Dan mergulhou debaixo d’água para uma melhor visualização e não enxergou nada, apenas bolhas enquanto o frenesi selvagem continuava.
— Tudo bem, tudo bem! — gritou Dan, e a atividade diminuiu lentamente. — Nós a perdemos.
— Mas isso prova alguma coisa — Jake falou animadamente. — Aquela cobra ainda está aqui em algum lugar. E se há uma, deve haver outras — ele olhou ao redor, ganhando acenos encharcados de acordo ofegante de seu irmão, Jonah, Ian, Hamilton, Dan e... — Onde está Amy?
Eles fizeram uma contagem de cabeças e perceberam que faltava uma. O pânico foi total. Eles olharam para a praia, e, em seguida, mais distante para fora do lago.
Nada.
Hamilton avistou um ponto de cor sobressaindo-se no marrons e cinzas monótonos do Tonle Sap. Laranja, da mesma cor que a camiseta de Amy...

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Boa leitura :)