18 de dezembro de 2016

Capítulo 12

A viagem transcorreu sem incidentes. Várias vezes, eles viram os trabalhadores agrícolas e viajantes parando às margens do rio pasmos com a visão de um equipado navio escandinavo deslizar silenciosamente. Uma ou duas vezes, cavaleiros tinham fixado esporas aos seus cavalos após o primeiro avistamento e ido embora a galope, provavelmente para fazer soar o alarme.
Will sorriu com o pensamento de moradores escondidos atrás de uma paliçada ou em uma das torres defensivas que tinham sido construídos em locais estratégicos, à espera de um ataque que nunca chegaria. Mesmo que não tivesse havido rusgas com os escandinavos nos últimos três anos, as memórias daqueles que viveram perto da costa eram longas, e séculos de invasões não seriam esquecidas rapidamente. Pode haver um tratado em vigor, mas tratados eram conceitos abstratos escritos no papel. Um navio nas proximidades era uma dura realidade, e uma probabilidade de gerar desconfiança.
Finalmente, Wolfwind escorregou para fora das águas abrigadas do estuário e se virou para o sul no Mar Estreito. A costa galesa era uma fina linha escura no horizonte, mais sentida do que vista. Poderia muito bem ter sido um banco de nuvens.
O Wolfwind subia e descia pelas ondas suaves que passavam embaixo da quilha. Evanlyn, Will e Horace estavam na proa do navio, sentindo os regulares movimentos de sobe e desce abaixo de seus pés.
— Isto é um pouco melhor do que da última vez — disse Will.
Evanlyn sorriu para ele.
— Pelo que me lembro, você disse a mesma coisa a última vez: “Se não ficar pior do que isso, está tudo bem”.
Will sorriu tristemente, em resposta.
— O que eu poderia saber?
Horace olhou curiosamente, os dois.
— Qual é a piada? — ele perguntou.
Evanlyn encostou o cotovelo no reduto onde começava a curva para formar o arco, fechou os olhos e deixou seu fluxo de cabelo na brisa salgada.
— Aaaah, isso é bom — disse ela. Então, em resposta à pergunta de Horace, ela prosseguiu. — Bem, logo após Will proferir essas maravilhosas palavras, fomos atingidos por uma das piores tempestades que Erak e Svengal nunca tinham visto.
— As ondas eram enormes — disse Will. — Absurdamente enormes.
Ele apontou para o mastro altaneiro, onde a tripulação estava ocupada agora a verga para a vela grande praça.
— Eram duas ou três vezes a altura do mastro ali.
Horace olhou para o mastro, mentalmente projetando duas ou três vezes a altura real e olhou para seu velho amigo, a descrença educada nos seus olhos. Horace tinha aprendido que quando as pessoas falavam de uma terrível tempestade ou uma batalha terrível, eles tendem a exagerar nos detalhes.
Evanlyn viu o olhar e apressou-se a apoiar Will.
— Não, realmente, Horace. Elas eram enormes. Pensei que íamos morrer.
— Eu tinha certeza que íamos morrer — Will acrescentou.
Horace franziu a testa, olhando para o mastro novamente. Ele pode estar pronto para suspeitar o exagero de Will. Evanlyn era uma questão diferente.
— Mas... — disse ele com relutância — isso faria as ondas maiores do que o próprio Wolfwind...
Ele não podia imaginar uma coisa dessas, mas percebeu que seus velhos amigos estavam acenando animadamente.
— Exatamente! — Will disse a ele. — Nós estávamos realmente remando para o alto de algumas delas.
— Bem, nós não estávamos — Evanlyn corrigiu. — Estávamos amarrados ao mastro para que não fossemos varridos pela borda fora. Ainda bem — acrescentou ela, lembrando como eles eram impotentes contra a força maciça da água verde varrendo para baixo do convés.
Horace olhava ansiosamente em torno dele. Até agora, estava apreciando a luz, o movimento fácil do navio.
— Bem, espero que nós não enfrentemos nada disso hoje — disse ele.
Will deu de ombros casualmente.
— Oh, não se preocupe. Wolfwind pode lidar com qualquer coisa que o mar pode atirar nele. Este é um navio muito bom.
Ele falou com a certeza confiante de quem tinha estado por mau tempo no mar. Era também a confiança de alguém que havia interrogado Svengal minuciosamente na noite anterior e sabia que havia pouca chance de uma tempestade semelhante nesta época do ano. Mas Will não sentia que era necessário dizer a Horace. Não ainda, de qualquer maneira. Ele estava aproveitando o nervosismo de seu grande amigo e manteve a forma como varria o olhar em torno do horizonte, buscando o primeiro sinal de uma possível tempestade.
— Elas estão em você antes que você possa piscar, as tempestades — Will disse suavemente.
Evanlyn deu-lhe um olhar acusador. Ele deu de ombros, toda a inocência. Ela balançou a cabeça em sua tentativa de preocupar Horace.
— Ouvindo você dizer isso, até parece que esteve a bordo do navio toda a sua vida — disse ela.
Will sorriu para ela. Ela virou-se para Horace.
— O que ele não é mencionou é que é demasiado cedo na estação para uma dos grandes tempestades.
Horace parecia um pouco aliviado com a notícia.
— Ainda assim, nunca se sabe — Will disse em uma voz sombria e ela inclinou a cabeça para ele.
— Exatamente — disse ela. — Você, particularmente, nunca sabe. É por isso que estava tão ansioso na noite passada, perguntando a Svengal se haveria qualquer tempestade desagradável.
— O que ele disse? — Horace perguntou, sentindo que Will estava pregando uma peça.
— Ele disse “nunca se sabe” — Will respondeu um olhar sério sobre o seu rosto.
Evanlyn suspirou exasperada.
— Ele disse — ela encarou Horace conforme respondeu à pergunta, despedindo Will com um aceno de sua mão casual — que seria calmo como uma lagoa todo o caminho até o Mar Constante.
Horace olhou rapidamente à Will, que havia assumido um ar de inocência ferida. Não pela primeira vez, Horace lembrou-se que os arqueiros adoravam enganar.
— Vai ficar tudo bem então — disse ele.
Ele sorriu para Evanlyn, que sorriu de volta.
Will balançou a cabeça tristemente para a princesa.
— Você não é mais divertida — ele acusou.
Mas não conseguiu evitar o sorriso se abrindo enquanto falava. Na verdade, estava gostando de se familiarizar com Evanlyn mais uma vez.
Seus caminhos se afastaram após o retorno da Escandinávia, e ele sabia que ela ficou desapontada, mesmo ferida, por sua decisão de continuar a ser um arqueiro, rejeitando a indicação para ser batedor real. Ele não sabia a profundidade dessa ferida. A posição tinha-lhe sido oferecida somente após Evanlyn apelar a seu pai para encontrar uma forma de manter Will no Castelo de Araluen. Ela tinha visto a sua recusa como uma rejeição a ela e, por algumas vezes desde quando eles se encontraram socialmente, fez questão de assumir ares reais mantendo uma distância fria dele. Agora, na atmosfera rude e direta do navio, com tantos lembretes para muitas de suas aventuras passadas, essas barreiras pareciam estar derretendo.


— Você está bem? — Gilan perguntou a Halt.
Era a terceira vez que ele tinha feito a pergunta. E como  nas duas ocasiões anteriores, Halt respondeu com uma voz apertada.
— Eu estou bem.
Mas algo estava errado, Gilan sentiu. Seu ex-mentor parecia estranhamente distraído. Havia um pequeno franzir a testa e suas mãos apertavam o ferro com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos.
— Você tem certeza? Você não parece bem.
De fato, Halt estava bastante pálido, por trás da barba e abaixo da sombra de seu capuz.
— Tem algo incomodando você?
O rosto pálido de Halt com raiva se voltou para ele.
— Sim — disse ele. — Alguma coisa está me incomodando. Estou sendo constantemente perguntado “Você está bem?” por um idiota. Eu realmente gostaria...
Seja lá o que ia dizer foi interrompido abruptamente e Gilan viu o seu rosto definido em linhas determinadas conforme ele cerrava os dentes com força. O fato de que a interrupção coincidiu com uma guinada maior do que o habitual no Wolfwind foi perdido pelo arqueiro mais jovem. Ele lançou um olhar preocupado para seu antigo professor. Halt teve grande importância em sua vida por anos. Ele era invencível. Era onisciente. Era o homem mais capaz que Gilan tinha conhecido.
E também estava enjoado.
Era algo que sempre afligia as primeiras horas de uma viagem marítima. Era a incerteza, Halt sabia. Era tudo mental. Quando o navio balançava, subia ou virava, ele era apanhado de surpresa – descrente que algo tão grande e substancial poderia ser jogado pra lá e pra cá.
No fundo, sabia que as atuais condições não estavam muito ruins. Mas, nas primeiras horas de uma viagem por mar, a mente de Halt questionava o fato de que a qualquer momento poderia vir uma grande onda, mais uma guinada repentina, um giro fatal que seria longe demais. Ele sabia que, uma vez que se acostumasse com a ideia do navio em movimento, chegaria a um acordo com seu estômago e os nervos. Mas isso iria demorar várias horas. Enquanto isso, pensou sombriamente, estaria melhor se ficasse perto da amurada. Desejou que Gilan o deixasse sozinho. Mas não conseguiu encontrar uma maneira de sugerir uma coisa dessas sem ferir os sentimentos do jovem. E isso era algo que Halt, rude e mal-humorado e sisudo como poderia parecer, nunca faria.
Svengal, grande, barulhento e entusiasta, apareceu no parapeito ao lado dele, respirando o ar de sal profundamente e expirando com suspiros de satisfação. Svengal estava sempre feliz por estar de volta no mar – uma atitude que Halt pensava beirar a loucura.
— Mmmmm! Aaaaah! Não há nada como o ar marítimo para te levantar, não é? — ele cresceu.
Halt olhou desconfiado para ele. Svengal não encontrou o seu olhar. Em vez disso, ele olhou para fora da água.
— Nada como isso! — Ele disse-lhes.
Tomou mais algumas respirações profundas, ignorando a condição Halt, então finalmente disse a Gilan:
— Você sabe o que eu não entendo?
Confiante de que Svengal estava prestes a responder à sua própria pergunta, Gilan não viu necessidade de responder além de levantar as sobrancelhas.
— Eu não entendo como as pessoas podem andar todos os dias em um daqueles demônios do inferno balançando, saltando e dando pinotes, sem o menor problema... — ele apontou um dedo para os quatro cavalos em suas baias a meia-nau. — Mas os coloque em um movimento suave e contínuo do navio e de repente seus estômagos querem virar-se avesso à menor onda.
Ele sorriu para Halt, lembrando a falta de simpatia do arqueiro quando o cavalo tinha jogado Svengal durante a viagem de volta para Araluen.
— Halt? — disse Gilan, finalmente entendendo. — Você está enjoado, não está?
— Não — disse Halt em breve, não confiando em si mesmo para além de uma sílaba.
— Não, claro que não — Svengal concordou. — Provavelmente, apenas com pouca cor porque perdeu o café da manhã. Você perdeu o café da manhã?
— Não — respondeu Halt. Desta vez, ele conseguiu mais palavras. — Tive o café da manhã.
— Provavelmente só um pedacinho de pão e um pouco de água — Svengal disse com desdém — um homem precisa de café da manhã decente na barriga — continuou ele, dirigindo-se a Gilan, que estava olhando com interesse e alguma descrença a Halt. — Salsichas são boas. Ou um pedaço de carne de porco. E eu gosto de batatas. Embora haja quem diga repolho é o melhor. Sólido para o intestino, o repolho é. Vai bem com um bom pedaço de toucinho gorduroso.
Halt gemia baixinho. Ele apontou para Svengal, resmungando algumas palavras imperceptíveis. Svengal franziu a testa e se inclinou para perto dele.
— Desculpe, eu perdi isso — disse ele alegremente.
Halt, as mãos segurando a amurada do navio como garras, moveu-se mais perto do grande escandinavo e disse, com um esforço enorme:
— Me empreste...
— Emprestar? Emprestar-lhe o quê? — Svengal perguntou.
Halt apontou, mas Svengal não entendia.
Halt parou, levantou a mão, reunindo o juízo e disse claramente:
— Capacete. Me empreste o seu capacete.
— Bem, é claro. Por que você não disse? — Svengal respondeu.
Ele começou a soltar o capacete com grandes chifres do lugar. Então parou, capturando a vista em um sorriso terrível de vingança ao rosto pálido torturado de Halt. A memória voltou de outro tempo, outro navio e um capacete emprestado. Rapidamente, ele empurrou o capacete longe da mão estendida de Halt.
— Encontre o seu próprio balde! — disse ele severamente.

3 comentários:

  1. aqui se faz aqui se paga em Halt?

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  2. Nada melhor do que rir da desgraça alheia, mas sempre tem volta. Kkkkkkkkk

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Boa leitura :)