29 de dezembro de 2016

Capítulo 11

Halt olhou cautelosamente o horizonte.
― Nós temos que sair daqui ― ele disse, mas Horace já havia descido da cela.
― Nós não podemos abandoná-los assim, Halt ― ele disse calmamente ― isso não é correto.
Ele começou a desatar sua pequena enxada que fazia parte de seu equipamento de acampar. Halt inclinou-se na cela.
― Horace, você quer estar aqui se algum amigo desses scottis aparecer? ― ele perguntou. ― Porque eu não acho que eles estarão interessados em ouvir explicações.
Mas Horace já estava examinando o chão, procurando por um ponto macio para cavar.
― Nós devemos enterrá-los, Halt. Não podemos deixá-los aqui apodrecendo. Se eles tiverem algum amigo por perto, apreciarão o fato de que nós resolvemos o problema.
― Acho que você está esperando muito da capacidade racional dos scottis ― Halt disse.
Mas percebeu que não faria Horace mudar de ideia. Will tinha desmontado e tinha sua própria pá também. Ele olhou para Halt.
― Halt, se nós não os enterrarmos, eles irão atrair mais corvos. E isso irá atrair a atenção dos amigos deles ― ele explicou.
― E quanto a isso? ― Halt perguntou indicando as carcaças massacradas.
Will deu de ombros.
― Podemos arrastá-los para as cinzas no celeiro. ― Ele disse. ― E cobri-los com partes do telhado.
Halt suspirou, desistindo da discussão. De certa forma, ele pensou, Horace estava certo. Era a coisa certa a fazer – e era o que os diferenciava de pessoas como Tennyson. E, além disso, o argumento de Will fazia sentido. Talvez, Halt pensou, ele tenha se tornado um pouco sangue frio e pragmático em sua velhice. Ele desceu da cela, tirou sua própria pá e começou a cavar.
― Estou muito velho para começar a fazer a coisa certa ― ele explicou ― você é uma má influência, Horace.
Eles cobriram os dois corpos com as mantas grossas que estavam usando e os colocaram lado a lado na cova rasa. Enquanto Will e Horace cobriam a cova, Halt engatou uma corda em Abelard e levou a outra carcaça para os restos do celeiro. Em seguida, soltou várias partes do telhado de palha meio queimadas sobre o corpo. Os outros dois animais estavam tão gravemente queimadas que não havia mais nada para atrair corvos.
Horace amaciou a terra com a pá e pôs-se ereto, massageando as costas.
― Essas pás são muito curtas. ― Ele disse.
Olhou para seus companheiros.
― Devemos falar algo sobre as sepulturas? ― Ele perguntou hesitante.
― Eles não nos ouviriam se o fizermos ― Halt respondeu e apontou o polegar para os cavalos. ― Vamos andando. Já demos muito tempo para Tennyson ficar longe de nós.
Horace assentiu, percebendo que Halt tinha razão. “Além disso”, ele pensou, “seria estranho dizer palavras de despedida para duas pessoas cujos nomes ele nem mesmo sabia”.
Halt esperou até que seus dois companheiros estivessem montados novamente.
― Vamos pegar o ritmo. ― Disse ele, direcionado a cabeça de Abelard para o sul novamente. ― Nós temos muito caminho para cobrir.
Eles mantiveram os cavalos num galope constante ao longo do resto da tarde. Puxão e Abelard é claro, poderia manter esse ritmo por dias se necessário. Kicker não tinha a mesma resistência, mas a sua passada maior significava que ele estava fazendo o mesmo progresso com um esforço muito menor. O céu claro da manhã tinha ido assim como o vento havia mudado e trouxe com ele os bancos de nuvens a partir do oeste. Halt cheirou o ar.
― Talvez chova hoje à noite. ― Ele disse. ― Seria bom já estar na passagem enquanto isso.
― Que passagem? ― Will quis saber.
― Cavernas ― Halt explicou sucintamente. ― As paredes da passagem são alinhadas, lá passaremos a noite numa caverna quente e seca. Melhor do que dormir na chuva novamente.
Eles chegaram a Passagem do Corvo com a última luz do dia. Primeiramente, Will e Horace não viram nenhum sinal dela. Em seguida, perceberam que poucos metros após a entrada, a passagem fazia uma brusca virada de noventa graus para a esquerda, de modo que a parede de pedra impedia a visão da abertura. Eles cavalgaram com cautela, as batidas dos cascos dos cavalos ecoando pelas paredes de pedra que subiam ao redor deles.
Pelos primeiros cinquenta metros o caminho era estreito, uma trilha sinuosa entre as altas montanhas. Depois, gradualmente, ela se abriu, até o piso da passagem ficar com trinta ou quarenta metros de largura. O chão ainda estava subindo e a superfície era áspera. Dentro da passagem com sombras profundas e o curso era traiçoeiro. Kicker tropeçou várias vezes, e Halt levantou a mão.
― Deveremos acampar pela noite ― ele disse. ― Os cavalos podem quebrar a perna nessas condições e ai sim estaremos em grande problema.
Will olhou para as paredes cobertas por sombras.
― Não vejo nada da caverna quente e seca que você mencionou ― ele disse.
Halt estalou a língua em aborrecimento.
― As anotações no mapa dizem que deveria estar aqui. ― Em seguida, ele apontou. ― Essa saliência terá de satisfazer-nos.
Uma grande saliência de pedra se projetava para fora da parede da passagem, proporcionando um espaço de abrigo embaixo. Havia muito espaço. “Na ausência de uma caverna, isso é melhor que nada”, Will pensou.
― Pelo menos vai nos proteger da chuva ― ele disse.
Eles montaram acampamento. Will e Horace tinham trazido um carregamento de lenha do acampamento anterior, e Halt decidiu que eles deveriam acender uma fogueira.
Eles estavam com frio e deprimidos e, ele percebeu, era possível que começassem a brigar uns contra os outros no estado em que se encontravam. Um fogo, um pouco de comida quente e café iria restaurar seus espíritos novamente. Havia apenas um risco que devia ser considerado, ele pensou, mas as várias voltas da passagem iriam escondê-los muito efetivamente. Além disso, não haviam visto nenhum sinal que alguém os estava seguindo. E mover-se na escuridão pelo piso irregular e pedregoso da caverna seria perigoso para qualquer perseguidor. E fazê-lo silenciosamente seria praticamente impossível. Em resumo, ele pensou que os ganhos em potencial não compensariam os perigos.
Estabeleceram-se em seus cobertores e casacos cedo, cobrindo o fogo com a areia antes disso. Uma coisa era aquecer os alimentos e água por alguns minutos, outra completamente diferente seria deixar o fogo aceso para sinalizar as suas presenças enquanto dormiam. Horace se ofereceu para vigiar pelo primeiro turno e Will e Halt aceitaram com gratidão.


Will acordou com a mão de Horace em seu ombro. Por um segundo, ele se perguntou onde estava e porque havia uma pedra pressionando seu quadril. Depois ele lembrou.
― Já é meu turno? ― ele murmurou.
Mas Horace agachou-se sobre ele, com os dedos nos lábios pedindo silêncio.
― Escute ― ele sussurrou.
Ele virou-se para encarar a passagem. Will bocejou, e sentou-se em seus cobertores, apoiado no cotovelo.
Um grito longo e áspero ecoou pela passagem, ecoando de uma parede à outra, então, os ecos continuaram muito tempo depois que o ruído original tinha cessado. Will empalideceu com o som. Era um som de tristeza, um grito de dor.
― Que diabos foi isso? ― ele sussurrou.
Horace sacudiu a cabeça. Então, ele inclinou-se novamente para escutar, sua cabeça inclinada levemente para o lado.
― É a terceira vez que escuto isso ― ele disse. ― As primeiras duas vezes foram tão baixos que nem tive certeza de ouvi-los. Mas agora está mais perto.
O grito veio de novo, só que agora, de outra direção. O primeiro havia vindo da passagem, Will pensou. Este veio definitivamente de trás deles. De repente, ele reconheceu o som.
― É um corvo ― ele disse. ― O corvo da Passagem do Corvo.
― Mas aquele veio daqui ― Horace começou, apontando pela passagem, em seguida, virando para a direção do primeiro grito. ― Deve haver dois deles.
― Ou um voando ― Will respondeu.
― Você acha? ― Horace perguntou.
Ele iria enfrentar qualquer inimigo com firmeza. Mas ficar sentado aqui, nesta fenda sombria nas montanhas e ouvir aquele som triste deixou seus nervos à flor da pele.
Uma longa voz de sofrimento veio da pilha de cobertores de Halt.
― Eu ouvi corvos voando por aí ― ele disse. ― Agora vocês poderiam gentilmente calar a boca e me deixar dormir?
― Desculpe Halt ― disse Horace, envergonhado. Bateu com vontade sobre o ombro de Will. ― Você pode voltar a dormir também. Eu ainda tenho uma hora de vigia.
Will deitou-se novamente. O grito veio novamente de outra direção.
― Sim ― Horace afirmou para si mesmo ― isto é definitivamente um corvo voando pela caverna. É isto mesmo, definitivamente tudo certo.
― Não vou avisar mais uma vez... ― Halt murmurou.
Horace abriu sua boca para desculpar-se, mas depois achou melhor permanecer em silêncio.
O corvo continuou com seu contínuo lamento durante a noite. Will pegou seu turno de Horace, depois o entregou a Halt algumas horas antes do amanhecer. Assim que a luz começou a tocar as bordas da caverna onde eles estavam o corvo silenciou gradualmente.
― Agora que ele se foi ― Horace disse, enquanto extinguia o fogo do café da manhã ― eu quase sinto falta dele.
― Não foi assim que você se sentiu na noite passada ― Will retrucou, sorrindo. Ele arregalou os olhos e sacudiu as mãos num falso susto. ― Ooooh, Will! Socorro! Um corvo grande e malvado veio me levar.
Horace sacudiu a cabeça, um tanto envergonhado.
― Bem, acho que fiquei um pouco assustado ― disse ele. ― Mas ele me pegou de surpresa, isso é tudo.
― Eu estou contente de estar aqui para te proteger ― disse Will, com um tom ligeiramente superior.
Halt, assistindo eles enquanto arrumava suas coisas, pensou que seu antigo aprendiz estava levando isso longe demais.
― Você sabe ― ele disse tranquilo ―logo após você ouvir o corvo pela primeira vez, Will, eu realmente ouvi um estranho barulho também.
Will considerou-o curiosamente.
― Jura? Eu não percebi... O que você acha que era?
― Não tenho certeza ― o arqueiro falou pensativo ― mas suspeito que era o som do seu cabelo em pé de medo.
Horace teve um rápido ataque de riso e Halt permitiu-se um de seus rápidos sorrisos. Will virou-se e foi desarmar seu saco de dormir, sentindo suas bochechas corarem.
― Ah, claro. Muito engraçado, Halt. Muito engraçado ― ele disse.
Mas como o arqueiro barbudo soube que seu cabelo fez exatamente isso?
Eles continuaram pela passagem, movendo-se levemente para cima.
Depois de um momento, o caminho nivelou-se, e então, começou gradualmente a inclinar-se para baixo novamente. Uma hora depois de eles terem levantado acampamento, Halt apontou um pequeno e de topo liso amontoado de pedras na parede leste da passagem.
― Esse deve ser o motivo do nosso amigo corvo estar chorando ― ele disse.
Eles circundaram a pilha de perto para examiná-la, que lembrava um pequeno e rústico altar. As pedras eram muito antigas e suas bordas estavam gastas. Na parede de pedra ao lado delas haviam esculturas gastas, marcadas pelos anos de vento e chuva.
― É um memorial para os homens que morreram aqui ― Halt contou-lhes.
Will inclinou-se para frente para estudar as palavras.
― O que elas dizem?
Halt encolheu os ombros.
― Elas estão muito difíceis de decifrar, desgastadas como estão. E eu não consigo ler essas runas scottis de qualquer maneira. Suspeito que elas contenham a história da batalha.
Ele indicou as paredes íngremes. Neste ponto, a passagem tinha diminuído novamente e estava a aproximadamente vinte metros de largura.
― Há beiras ali onde o inimigo posicionou seus arqueiros ― ele disse. ― Eles abriram fogo nas linhas scottis enquanto eram embalados juntos bem aqui. Eles atiraram flechas, rolaram pedras, jogaram lanças. Os soltados scottis usavam sua própria maneira para recuar. Quando estavam irremediavelmente inclinados à confusão, a cavalaria inimiga chegou virando a próxima curva para combatê-los.
Seus dois jovens companheiros seguiam seu relato sobre a antiga batalha, olhando de um lugar a outro enquanto ele descrevia-o. Jovens como eram, os dois tinham experiência em batalha e podiam imaginar o terrível massacre que deve ter tomado lugar neste aglomerado rochas, nas fendas da caverna.
― Quem foram eles, Halt? ― Horace perguntou.
Ele manteve sua voz baixa em um gesto de respeito pelos guerreiros que morreram aqui. Halt olhou para ele, sem entender a pergunta, então Horace elaborou.
― Quem foram os inimigos?
― Fomos nós ― Halt contou a ele. ― Os araluenses. Este antagonismo entre as duas nações não é algo recente, você sabe. Ela remonta há séculos. É por isso que eu estou interessado em sair de Picta e voltar para o solo de Araluen.
Foi uma dica óbvia, e os dois jovens homens levaram seus cavalos depois dele enquanto ele rumava para sul, em direção à saída da passagem. Horace espiou o pequeno memorial uma ou duas vezes, mas logo uma curva na passagem o escondeu de vista.
Uma hora depois, eles descobriram um segundo rastro.

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