9 de dezembro de 2016

Capítulo 11

Atticus virou-se para encará-la.
— Embaixo de onde?
Amy apontou.
— Bem abaixo de nós.
— Amy — Jake falou com urgência — nosso pai fez sua dissertação sobre Angkor. Att e eu vimos uns cinquenta layouts diferentes desses templos da montanha, incluindo Ta Keo. Não há nada lá embaixo, além de pedra.
— Na realidade, a maior parte é arenito feldispático — Atticus especificou. — Você sabe, arenito esverdeado.
Amy quase sorriu.
— Eu não me importo se é cinza amarelado. Eu sei que tenho tido alucinações. Mas isto não é uma delas. Há um espaço aberto lá embaixo. Agora, quem vai me ajudar a mover esses blocos?
Era um testemunho de tudo pelo o que passaram que Dan não hesitou.
— É melhor que esteja certa — disse ele, ajoelhando-se ao lado da irmã — porque você está apostando sua vida nisso – e a nossa também. 
Os irmãos se juntaram a eles no chão, e os quatro se postaram diligentemente a limpar as fendas entre as lajes que formava o chão da galeria.
Amy cavou até que seus dedos sangrarem. Atticus bateu nos blocos com uma caneta, em busca de um som oco. Tudo o que eles ouviram foram passos e vozes rudes chegando mais perto.
Galt e os capangas já estavam nas escadas.
— Aqui! — Atticus sussurrou. — Este!
Ele enfiou a caneta na abertura e tentou usá-la como uma alavanca. Mas o plástico se partiu em dois. Jake e Dan, trabalhando com os dedos, tiveram mais sucesso, mas não puderam levantar a laje pesada mais do que quatro ou cinco centímetros.
Aquela folga foi tudo Amy precisava. Ela colocou as mãos sob a pedra plana e tirou-a do caminho.
— O que foi isso? — a voz de Galt, perto demais para ser confortável.
Os Cahill olharam para baixo, para o buraco escuro que tinham aberto. Degraus esculpidos na pedra desapareciam na escuridão total. Não era uma opção muito atraente – apenas mais atraente do que esperar por Galt. Eles foram para baixo, Amy na retaguarda. Era estreito e claustrofóbico, e eles tiveram que curvar os ombros a fim de caberem melhor. Enquanto eles desciam, Amy estendeu a mão e fez o seu melhor para puxar a laje e cobrir o buraco novamente. Uma vez que estava no lugar, a escuridão era sufocante, e a temperatura pareceu cair vinte graus.
Quando a fivela de metal do cinto de Atticus raspou contra a parede de arenito, faíscas iluminaram brevemente os rostos tensos deles na passagem tosca. Parecia que estavam presos no ventre da terra.
Jake usou o aplicativo de lanterna em seu celular para iluminar o caminho. Não havia muito para ver. As escadas continuavam descendo através da rocha. Templo da montanha era um bom nome para Ta Keo. Eles realmente tinham a sensação de que estavam andando através do coração de uma montanha.
— Espere até nós contarmos ao meu pai sobre isso! — Atticus sussurrou. — Somos, provavelmente, as primeiras pessoas sobre esses degraus desde os tempos angkorianos!
As escadas terminaram em uma câmara subterrânea num piso com uma grossa camada de sujeira. O aplicativo de lanterna iluminada a pequena sala, lançando seu brilho sobre pilhas de espessas hastes de bambu.
O sentido reforçado do olfato de Amy rapidamente detectou algo novo.
— Pólvora — ela disse em voz alta.
— O quê? Aqui? — perguntou Dan. — Por quê?
A mente ágil de Atticus fez a conexão.
— Fogos de artifício! — exclamou entusiasmado. — Os antigos khmer usavam em rituais e celebrações. Eles aprenderam a técnica de viajantes chineses. Olhem!
Ele pegou uma das hastes de bambu e examinou sua secção transversal. Estava furada, e seu centro lotado de pó, agora endurecido.
Dan ficou surpreso.
— Você quer dizer que essas coisas são, tipo, foguetes antigos?
De repente, fachos de lanterna entrecruzaram a câmara. Antes que qualquer um pudesse reagir, Galt Pierce desceu do último degrau para o chão empoeirado. Seus cinco capangas pararam na escada, cortando qualquer possibilidade de fuga.
Com o coração apertado, Amy imaginou as impressões de sua sapatilha enlameada no chão da galeria acima deles... levando direto para a passagem ali!
Galt fingiu falsa decepção.
— Este é um trabalho para capangas contratados, e não para o filho do próximo presidente. Meu pai os superestimou.
— Seu pai está louco! — Dan estalou.
— Meu pai é do que a América precisa para chegar de volta ao topo, e vocês, fracos, o sabotaram desde o início! — o rubor vermelho de raiva desapareceu de seus traços, para ser substituído por um sorriso cruel. — De qualquer forma, tudo termina aqui. Isso é quase fácil demais.
Amy reuniu os outros atrás dela e adiantou-se.
— Não será tão fácil quanto você pensa.
Desde que ela tomara o soro, sua mente estava brincando com ela, tornando cada vez mais difícil perceber a diferença entre o real e o imaginário. Mas, neste momento, as prioridades dela eram absolutamente claras. Ela podia muito bem morrer nos próximos minutos. Isso até que seria bom, desde que ela mantivesse Dan, Jake e Atticus em segurança dos capangas. O que significava lutar contra os seis inimigos sozinha.
Enquanto sua irmã dava um passo agressivo na direção do filho de J. Rutherford Pierce, Dan arrancou o cinto das calças de brim de Atticus e riscou a fivela ao longo da parede de arenito, fazendo faíscas choverem por todo o quarto.
Galt estava se divertindo.
— Você está brincando, certo? O quê? Acha que pode queimar minhas roupas?
Dan continuou a raspar a fivela de um lado para o outro contra a parede, fazendo chover faíscas no ar na câmara escura.
Algumas delas flutuaram até cair na pilha de fogos antigos. Houve o cheiro de uma combustão lenta, seguido de um pop e um chiado. E, em seguida, um jato de cor brilhante surgiu de um dos tubos de bambu.
Isso fez Galt desviar o olhar de Amy.
— O que é isso?
— Para baixo! — gritou Dan, caindo para o chão e cobrindo a cabeça com os braços.
Amy, Jake e Atticus seguiram o exemplo enquanto uma explosão de luz e cor encheu a câmara. As faíscas do primeiro foguete atingiram os outros fogos um por um, e logo uma supernova subterrânea entrou em ação.
A coluna oca agiu como uma chaminé, fazendo uma explosão para cima e para longe dos Cahill, na direção do oxigênio fresco acima. A onda de choque atravessou a passagem, impelindo uma parede de cor que atingiu Galt e seus capangas.
Era tão brilhante que Amy teve que fechar os olhos. Ela sentiu um turbilhão de calor sobre ela, queimando sua pele e cabelo. O som era ensurdecedor – como uma sequência de fogos de artifício saindo de dentro de sua cabeça. Seu único pensamento foi quanto a Dan e os outros. Eles estavam bem? Conseguiram proteger-se a tempo? E então tudo acabou, e o silêncio foi tão alto quanto a explosão tinha sido.
O cheiro acre de pólvora pairava no ar, mas depois do ataque de luz e cor, era impossível fazer qualquer coisa na escuridão.
O aplicativo de lanterna de Jake atravessou a escuridão. Amy abanou os braços para limpar a fumaça que não fora levada escadas acima. Galt e os cinco capangas estavam caídos ao pé da escada, uns sobre os outros, imóveis.
— Cara! — exclamou Dan, usando seu inalador para a asma para um socorro rápido. — Alguém conseguiu a licença para armas nucleares?
Atticus tossiu uma vez e ficou de pé.
— Aqueles antigos fogos de artifício dos khmer foram construídos para durar! — seus olhos caíram sobre Galt e os capangas deitado sobre os degraus de pedra, e sua voz ficou solene. — Eles estão mortos?
Amy se inclinou sobre as seis vítimas, trazendo a luz próxima ao cabelo de Galt.
Sua audição sensível pegou seis distintos pares de pulmões, todos respirando.
— Eles estão bem, apenas desmaiaram por causa da explosão. Podem ter algumas queimaduras leves, também.
— O que devemos fazer com eles? — Jake meditou. — Eles ainda são uma ameaça se vierem atrás de nós.
— Eu voto em bater na cabeça deles com alguma pedra feldispateta — propôs Dan.
— Feldispática — Atticus o corrigiu.
— Acho que eles vão ficar inconscientes por mais algum tempo — Amy decidiu. — Vamos sair daqui.
Eles contornaram seus inimigos caídos e subiram as escadas estreitas até que todos quatro estavam mais uma vez na parte inferior da galeria, respirando grandes quantidades de ar fresco.
Um grupo de turismo da Escandinávia os observou interrogativamente. Quem eram esses jovens cobertos de fuligem e cinzas?
— Ah, olá — Jake os cumprimentou cordialmente. — Grande templo, hein?
Eles deixaram Ta Keo e seus jardins tão rapidamente quanto humanamente possível sem correr. Enquanto faziam o seu caminho de volta através da selva, Amy lutou duro para esconder os tremores que haviam retornado à sua perna direita. Na verdade, os três rapazes notaram, embora ninguém tenha mencionado. O triunfo de derrotar Galt e seus capangas desvaneceu-se rapidamente à medida que lembravam que não estavam mais perto de encontrar uma serpente d’água de Tonle Sap.
— Precisamos empurrar o King Kong de volta ao rio — Dan falou firmeza. — Ainda temos mais algumas horas para procurar cobras antes de escurecer.
Nesse ponto, a hidrovia surgiu à vista e os planos se alteraram. A polícia cambojana ocupava o Kaoh Kong e o que restava da lancha destruída e da doca quebrada.
— Tudo o que temos a fazer é explicar... — Atticus começou.
— Não abra a boca! — Jake alertou. — Nós passaríamos uma semana na prisão antes de tudo estar em ordem.
Dan levou as mãos à boca.
— Ei, oficial, olha! Tem fumaça saindo do templo! É melhor o senhor conferir.
Os policiais olharam para onde o dedo apontava, para a fumaça saindo da galeria inferior do templo. Dois deles saíram, tagarelando rapidamente em walkie-talkies.
Atticus não pôde conter um sorriso.
— Galt terá um monte de explicações a dar.

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