29 de dezembro de 2016

Capítulo 10

O caminho levou Halt, Will e Horace um pouco a leste do sentido sul que estavam seguindo – e o litoral dobrava sentido oeste. Então, conforme viajaram, eles se afastavam para mais e mais longe do mar. O vento constante e cheio de sal acabara há algum tempo e eles começaram novamente a ver as árvores.
A terra era selvagem e montanhosa, a maior parte coberta por tojo e arbustos. Faltava-lhe a beleza suave do verde da parte sul de Araluen a que Will e Horace estavam acostumados. Mas não deixava de ter sua forma própria de beleza – selvagem, pedregosa e inóspita. Mesmo as árvores, quando começaram a aparecer com maior frequência, pareciam desafiar os elementos da natureza, com suas raízes grandes enterradas no solo arenoso e seus ramos grossos como braços musculosos.
Eles viajaram talvez um quilômetro quando Halt deu um baixo gemido. Ele pulou da sela e saiu da trilha para analisar alguma coisa. Will e Horace, que estavam montados em fila atrás dele, desceram do cavalo e foram espreitar por cima de seu ombro. Ele estava estudando um pequeno tufo de pano, pegou-o com um ramo duro de arbusto que crescia ao lado da trilha.
— O que você acha disso, Will?
— Pano — Will disse, então, conforme Halt o olhou de forma penetrante, ele percebeu que havia falado o óbvio e seu mentor esperava mais dele.
Ele estendeu a mão e tocou o pequeno fragmento, sentindo-o, rolando-o suavemente entre o dedo indicador e o polegar. Era uma tecelagem de linho liso, talvez de uma camisa, ele pensou.
— Não é nada como aquele tecido colorido áspero e desgastado que os scottis usam — disse ele, pensativo.
Agora havia percebido porque eles vestiam aquele tecido grosso e áspero. O tojo e os arbustos de sua pátria rasgariam qualquer coisa mais fina em poucas semanas.
— Bom trabalho — disse Halt em aprovação.
Horace sorriu quando viu os seus dois amigos agachados ao lado da trilha. De certa forma, ele sabia que Halt nunca pararia de ensinar o jovem arqueiro. Will seria sempre seu aprendiz. E conforme ele pensava sobre isso, também percebeu que Will mesmo inconscientemente queria que sempre fosse assim.
― Então, o que mais pode me dizer? — Halt perguntou.
Will olhou ao redor, estudando o caminho de areia por onde estavam viajando, vendo vestígios de que pessoas tinham passado por esse caminho poucos dias atrás. Mas a chuva e o vento tinham tornado quase impossível deduzir se todos haviam viajado juntos ou estavam em grupos separados.
— Eu estou me perguntando por que o dono deste tecido não estava andando na trilha em si. Por que ele estaria andando através dos arbustos quando há um caminho claro?
Halt não disse nada. Mas com a linguagem corporal, se inclinou para Will e assentiu de modo encorajador, dizendo ao jovem arqueiro que estava no caminho certo. Ele olhou para o caminho novamente, para a confusão de pegadas uma sobre a outra.
— A trilha é estreita — disse ele finalmente. — Sem espaço para mais do que duas pessoas lado a lado. A pessoa que vestia isso — ele indicou o pequeno pedaço de tecido ― foi empurrada para fora do caminho por causa do número de pessoas. Talvez eles tenham se espalhado para não ficar batendo lado a lado uns com os outros.
— Então, nós estamos seguindo um grande grupo de viajantes. Eu diria que há mais de uma dúzia deles — disse Halt.
― O dono da hospedaria falou que Tennyson tinha cerca de vinte pessoas com ele — Will disse.
Halt assentiu.
— Exatamente. E eu acho que estamos um dia ou dois para trás.
Eles estavam de pé. Horace balançou a cabeça em admiração.
— Quer dizer que você pode descobrir tudo isso, só a partir de um pedaço de pano?
Halt o considerava ironicamente. Ele ainda estava um pouco ressentido por Horace ter dito “Isso é um termo bonito para suposição”, no dia anterior. Halt não esqueceu as críticas.
― Não — disse ele. — Nós estamos supondo. Só queríamos que soasse mais científico.
Halt parou por alguns segundos, como se convidando Horace a fazer algum tipo de comentário, mas sabiamente, Horace escolheu ficar quieto. Finalmente, o arqueiro apontou para o caminho à frente deles.
— Vamos andando — disse.
O vento levou as nuvens de chuva da noite anterior, e o céu acima deles era de um azul brilhante, mesmo que a temperatura do ar ainda estivesse fria e fresca. Os arbustos que os cercavam variavam da cor de um profundo marrom, para roxo maçante. Sob a luz do sol, a cor parecia brilhar.
Will avistou o próximo fragmento de tecido quase por acaso.
Não era nada mais do que um fio na verdade, preso em outro ramo, desta vez, próximo ao caminho. E esse teria sido fácil de perder no arbusto roxo, porque se misturava com ele.
Também era roxo.
Will sinalizou a Horace, que estava andando atrás para parar. Então ele se inclinou na sela e arrancou o fio do mato.
— Halt — ele chamou.
O arqueiro barbudo parou Abelard e girou na sela. Olhou de soslaio para o fio cor púrpura sobre o indicador de Will e sorriu lentamente.
— E quem é que sabemos que veste roxo?
— Os genoveses — Will respondeu.
Halt respirou fundo.
— Portanto, parece que estamos no caminho certo.
Isso foi confirmado por eles poucos quilômetros depois. Sentiram o cheiro primeiro. O vento estava muito forte para a fumaça pendurar no céu. Era espalhada quase instantaneamente. Mas o cheiro de queimado, madeira e palha carbonizadas – e também algo mais – era levado até eles.
― Fumaça — Will falou, virando o rosto para o vento para tentar capturar o odor de forma mais clara.
Havia um leve rastro de algo mais – algo que ele já tinha cheirado antes quando estava seguindo o rastro de um dos grupos de Tennyson que estava invadindo ao longo do sul de Hibernia. Era o cheiro de carne queimada.
Então Halt e Horace sentiram o cheiro também. Will trocou um olhar com seu professor, e sabia que ele também tinha reconhecido o sinistro cheiro.
— Venha — disse Halt, e colocou Abelard em galope, embora soubesse que já era demasiado tarde.
A fazenda ficava em uma clareira a poucas centenas de metros do caminho. Agora era um amontoado de ruínas enegrecidas, ainda cheio de fumaça, mesmo um dia depois de terem sido consumidas pelo fogo. Uma parte do telhado de palha permanecia parcialmente intacta. Mas a sua estrutura de apoio tinha desmoronado e ela estava em um ângulo estranho, apoiado pelos restos carbonizados de um muro.
― O sapé deveria estar estado úmido — disse Halt. — Ele não se queimou completamente.
Eles pararam a poucos metros da casa. Não havia nenhum sobrevivente. Os corpos de um homem e uma mulher estavam deitados de bruços na longa grama. Havia uma segunda construção ao lado da casa de campo – um celeiro, Will adivinhou. Ele também tinha sido reduzido a cinzas. Não havia sinal de suas paredes, embora, como aconteceu com a casa de campo, algumas partes da palha úmida sobreviveram apenas para cobrir as ruínas.
Puxão evitou nervosamente quando Will insistiu para ele ir em direção do celeiro. O cheiro de carne queimada era muito mais forte aqui e o cavalo se opunha a chegar mais perto. Entre as cinzas, Will podia ver dois grandes corpos carbonizados. Gado, ele pensou.
— Calma rapaz — Will disse a Puxão.
O pequeno cavalo sacudiu a cabeça, desconfortável, como se pedisse desculpas por sua reação nervosa. Então, ele se firmou. Will desceu da sela e ouviu uma advertência baixa vindo do peito Puxão.
— Está tudo certo — disse ao cavalo. — Quem fez isso está muito longe.
E logo ficou claro quem tinha feito isso. Will se ajoelhou ao lado do corpo do fazendeiro e gentilmente moveu a roupa xadrez do homem para o baixo, a partir de onde tinha se enrolado quando o homem caiu. Escondido pelas dobras da lã áspera, ele encontrou os ferimentos que o tinha matado: duas setas de besta, apenas um centímetro de distância uma da outra, enterrada nas costas do homem. Havia pouco sangue. Pelo menos uma das setas deve ter atingido o coração do homem, matando-o quase instantaneamente. Isso era algo a ser grato, pelo menos foi rápido, Will pensou.
Ele olhou para cima. Halt e Horace ainda estavam sentados em seus cavalos, observando-o.
— Balestra — disse ele.
— Não é uma arma scotti — Halt observou.
Will balançou a cabeça.
― Não. Eu vi setas como estas antes. São os genoveses. Tennyson esteve aqui.
Horace olhou ao redor da trágica cena. Sua expressão era uma mistura de tristeza e desgosto. Picta e os scottis poderiam teoricamente ser inimigos de Araluen, mas essas pessoas não eram soldados ou invasores. Eles eram gente simples do campo, cuidando de seus afazeres do dia-a-dia, trabalhando duro e lidando com a vida pobre desta terra dura do norte.
― Por quê? ― disse ele. ― Por que matá-los?
Em sua jovem vida, Horace tinha visto sua quota de batalhas e sabia que não havia glamour na guerra. Mas pelo menos na guerra, os soldados sabiam que o seu destino estava em suas próprias mãos. Eles poderiam matar ou ser mortos. Tinham a chance de se defender. Este foi um abate cruel de civis inocentes e desarmados.
Halt indicou outro cadáver, mais longe e meio escondido pela longa grama. Havia uma pequena nuvem de moscas zumbindo e um corvo pulando em cima dele, arrancando com seu bico afiado alguma carne da carcaça. Era tudo o que restava de outra vaca do fazendeiro. Mas esta tinha sido morta e cortada pela sua carne.
― Eles queriam comida ― disse ele. ― Então vieram. Quando os fazendeiros se opuseram, mataram ele e sua esposa e incendiaram a casa e o celeiro.
― Mas por quê? Poderiam tê-los dominado facilmente. Por que matá-los?
Halt encolheu os ombros.
― Eles ainda tem um longo caminho a percorrer até a fronteira ― disse ele. ― Eu acho que não querem deixar ninguém para trás que poderia alertar outras pessoas contra eles.
Halt olhou em volta, mas não viu sinal de outra habitação.
― Eu aposto que há meia dúzia de outras pequenas fazendas como esta, a poucos quilômetros daqui. As chances são de que há uma aldeia ou uma vila também. Tennyson não gostaria de assumir o risco de que estas pessoas poderiam se juntar e vir atrás deles.
― Ele é um porco assassino ― disse Horace baixinho, enquanto ouvia o raciocínio de Halt.
O arqueiro barbudo deu um suspiro de leve desgosto.
― Você descobriu isso só agora? ― ele perguntou.

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