18 de dezembro de 2016

Capítulo 10

No dia seguinte, os três arqueiros, acompanhados por Horace e Svengal, estavam na estrada, indo para o Castelo Araluen. Os outros tinham visto com largos sorrisos quando Halt conscientemente beijou sua nova esposa em adeus.
Lady Pauline levou sua separação filosoficamente. Quando aceitou a proposta de Halt, sabia que sua vida de casada seria interrompida por missões urgentes e partidas súbitas. Ainda assim, pensou com ironia, poderia ter sido bom se esta saída em particular tivesse sido um pouco menos de repente, um pouco menos urgente. Alyss tinha ficado ao lado dela, acenando com ela enquanto as cinco figuras montadas cavalgavam pela estrada sinuosa que os afastavam do Castelo Redmont.
Pauline olhou de soslaio para sua protegida e não pôde resistir a um sorriso quando viu o rosto sério de Alyss.
— Por que esse desânimo? — ela perguntou inocentemente.
Alyss a olhou, fazendo careta.
— Ele está partindo com ela novamente — disse a jovem.
Não havia necessidade de Pauline perguntar o que aquilo significava. Alyss e Will estavam se vendo bastante desde o ano passado, ela sabia. Eles se tornaram muito próximos. Agora estava obviamente incomodando Alyss que Will estivesse saindo mais uma vez em uma missão com Cassandra. Alyss sabia que o aprendiz de arqueiro e a princesa compartilhavam uma relação especial. Ela só não sabia quão especial poderia ser.
— Eu estava tentando descobrir um motivo para ir junto com eles — acrescentou ela, um pouco desconsolada.
— Para manter um olho em seus investimentos?
Alyss assentiu.
— Exatamente. Eu pensei que poderia ir como voluntária para uma companheira para ela... e como conselheira diplomática. Sou boa em negociações, você sabe.
— Isso é verdade — Pauline considerou a ideia. — Na verdade, poderia ter valido a pena sugerir. Eu teria apoiado a sugestão. Por que você não falou nada?
Alyss parecia longe dela agora, seus olhos observando o pequeno grupo diminuindo gradualmente de vista. Na verdade, Pauline corrigiu, os olhos observavam uma pequena figura do grupo.
— Por duas razões. Eu decidi que Will, Halt e os outros não precisavam da responsabilidade de cuidar de mais uma mulher. Se eu estivesse lá, isso significaria muito menos proteção para Cassandra. E ela é a princesa, depois de tudo.
— E a outra razão? — Pauline perguntou.
Alyss sorriu um pouco triste.
— Eu pensei que poderia ceder à tentação de bater na cabeça dela com um remo — disse ela. — Isso não teria sido uma boa coisa para minha carreira.
Pauline sorriu por sua vez.
— E ela é a princesa depois de tudo — repetiu.
Os cavaleiros tinham desaparecido na floresta. Pauline deslizou o braço em Alyss e levou-a para longe das muralhas de onde elas estavam em pé.
— Não se preocupe muito com ele — disse ela. — É certo que existe um forte vínculo entre Will e a princesa. Isso é inevitável, por tudo que eles já passaram... — Seu tom de voz indicou que não havia mais a ser dito.
Foi a vez de Alyss perguntar.
— Mas? — disse ela.
— Mas Will fez uma escolha vários anos atrás, quando optou por continuar a ser um arqueiro. Ele sabe que uma vida de arqueiro não se mistura com a vida na corte. Uma princesa e um arqueiro não formam um bom par. E seria duas vezes mais difícil quando Cassandra se tornasse rainha.
— Considerando que — disse Alyss — há muito a ser dito sobre arqueiros e mensageiras casando?
Lady Pauline se permitiu um sorriso lento.
— Oh, certamente. Naturalmente, a mensageira tem de aceitar que o arqueiro será muitas vezes chamado para longe em uma missão urgente.
— E seria melhor ele aceitar que vou ter minhas próprias missões — disse Alyss, abandonando a pretensão de falar na terceira pessoa.
Pauline afagou-lhe o braço suavemente.
— Essa é minha garota — disse ela.


— Por que eu não posso ir com os outros? — Cassandra perguntou talvez pela vigésima vez.
Ela estava nos quartos que tinham sido reservados para seu uso em Redmont, apressadamente guardando sua roupa nas malas de couro de viagem. Duncan levantou uma sobrancelha para o seu tratamento descuidado das sedas finas e cetins que ela tinha em mãos.
— Talvez você deva deixar seu pessoal fazer isso — ele sugeriu, vendo que ela nunca iria conseguir fechar as malas com a confusão de vestidos, casacos, sobretudos e saias e lenços que empinou nas malas.
Cassandra fez um gesto impaciente.
— Esse é meu ponto. Eles poderiam estar embalando tudo isso. Eu podia estar montando com Will e Horace.
— E me privar de alguns dias a mais em sua companhia — Duncan disse suavemente e ela imediatamente lamentou sua impaciência.
Ela sabia que o pai estava preocupado com o envio dela para Arrida. Não tinha qualquer pretensão de que ele não estivesse. E ela sabia que ele iria se preocupar a partir do momento em que saísse até o momento em que voltasse sã e salva.
Enquanto tinha o pensamento, Cassandra percebeu que iria perder a sua presença calma e confiante enquanto estivesse ausente. E seu calor. Eles podiam brigar de vez em quando, mas isso não muda o fato de que se amavam profundamente.
Ela foi até seu pai e colocou os braços suavemente em seu pescoço, puxando-o para ela.
— Desculpe, papai — ela disse suavemente. — Eu gostaria de ter mais alguns dias com você, também.
— Os outros tem que aprontar o barco — ele lembrou a ela. — Cavalgar de volta comigo não vai segurá-la no longo prazo.
Ele acariciou seu ombro. Podia sentir a pressão em seus olhos quando as lágrimas começaram a se formar. Ele iria sentir falta dela. Iria se preocupar com ela. Mas acima de tudo, ficaria orgulhoso dela. Orgulhoso de sua coragem, seu senso de dever, seu espírito.
— Você será uma grande rainha — disse ele.


Svengal gemia sobre a sela. Suas coxas eram pura agonia. Suas nádegas doíam. Seus músculos da panturrilha estavam pegando fogo. Agora, depois de ter caído fora do pequeno pônei que esteve montando e caindo fortemente para o chão com a ponta de seu ombro, o ombro iria doer muito. Ele concentrou-se em tentar encontrar uma parte de seu corpo que não era uma fonte gigante de dor e falhou miseravelmente.
Abriu os olhos. A primeira coisa que viu foi o rosto do idoso pônei que estava cavalgando com ele olhar para ele.
“Puxa, o que fez você fazer uma coisa estranha assim?” A criatura parecia estar se perguntando.
Gradualmente, à medida que o foco de Svengal ampliava, ele tornou-se ciente de que outros olhos o observavam. Três cavalos de arqueiros, para começar, e acima deles, três arqueiros, todos com a mesma expressão perplexa. Apenas Horace e seu cavalo maior pareciam vagamente simpáticos.
— Você sabe, ele me confunde — Halt disse — como essas pessoas podem equilibrar no convés de um navio que vai para cima e para baixo e lado a lado três ou quatro metros de cada vez e, no entanto, os coloque em um velho pônei plácido que é tão gentil quanto um cavalo de madeira e ficam instantaneamente tentando sair.
— Eu não estava tentando sair — Svengal respondeu.
Ele rolou lentamente e levantou-se de joelhos. Seus músculos gritaram em protesto.
— Ah pela grande baleia azul, por que está tudo doendo? — disse ele. Depois continuou o seu pensamento original. — Esse bruto cavalo me jogou fora.
— Jogou-o fora? — Gilan disse, escondendo um sorriso. — Alguém aqui viu Tartaruga fazer qualquer pinote?
Will e Halt balançaram a cabeça. Para seu descrédito, Halt apreciava isso apenas um pouco demais. Durante a invasão temujai, tinha ficado a bordo de um navio enviado para verificar a traição de Slagor. Svengal tinha sido um dos tripulantes que mais se divertiram com a reação do estômago de Halt para os movimentos do mar. Halt tinha uma memória longa, Will tinha aprendido, quando vinha para as pessoas que riram de alguns momentos constrangedores como esse.
— Ele deu pinote, eu te digo — Svengal insistiu, em pé, mais ou menos vertical e gemendo novamente. Ele não conseguia endireitar na cintura. — Eu senti um movimento distinto.
— Ele se virou para a esquerda — Gilan disse a ele.
— De repente — Svengal insistiu.
Os arqueiros trocaram olhares incrédulos.
— Tartaruga nunca fez nada de repente em sua vida — Halt disse. — Pelo menos não nos últimos quinze anos dele.
— É por isso que nós o chamamos de Tartaruga — Will acrescentou prestativo.
Svengal olhou para ele.
— Isso não é o que eu o chamaria — disse ele venenoso.
Novamente, os três arqueiros trocaram olhares divertidos.
— Bem, sim, admito que ouvimos alguma linguagem um tanto picante esta manhã — disse Gilan. Ele virou-se para parar. — Quem é esse tal de Gorlog, a propósito? E ele realmente tem chifres e dentes e longo cabelo desgrenhado?
— Ele é uma pessoa muito útil — Halt disse a ele. — Você pode chamar-lhe por todas aquelas características diferentes. Ele é a alma da variedade. Nunca se fica entediado com Gorlog ao redor.
Svengal, durante esta breve conversa, olhava o machado de batalha preso na sela de Tartaruga. Ele não tinha certeza se preferiria usá-lo no cavalo ou nos três arqueiros que estavam desfrutando de sua situação tão completamente.
Horace decidiu que todos tinham ido longe o suficiente. Ele desceu da sela de Kicker e pegou Tartaruga, levando-o para o escandinavo em dor.
— Vocês três não têm muita simpatia, não é? — ele perguntou.
Os três arqueiros trocaram olhares de novo, um para o outro.
— Não realmente — Gilan concordou alegremente.
Horace despediu-os com um aceno de sua mão e virou-se para Svengal.
— Vamos. Vou te dar um impulso.
Ele estendeu as mãos, formando um estribo para ajudar Svengal para a sela. O escandinavo recuou, segurando sua dor nas costas com uma mão.
— Eu vou a pé — ele disse.
— Você não pode andar todo o caminho para Araluen — Horace disse razoavelmente. — Agora vamos lá. A melhor coisa que você pode fazer quando tem uma queda é subir de volta na sela de novo. — Ele olhou para os três arqueiros. — Estou certo?
As três cabeças encapuzadas assentiram. Pareciam abutres verde e cinza, Horace pensou.
— Ir de novo? — Svengal perguntou. — Nisso?
Horace assentiu, encorajando-o.
— Você está me dizendo que a melhor coisa que eu posso fazer, após esse demônio do inferno ter travado, girado, saltado e quebrado todos os ossos no meu corpo, é voltar e dar-lhe outra chance para mim?
— Isso mesmo. Vamos. Vou levantar você.
Dolorosamente, Svengal mancou para frente, levantando o pé direito e colocando-o nas mãos em concha de Horace. A próxima parte, o súbito salto para cima convulsivo, envolvendo completamente tudo abusando de seus principais grupos musculares, ia doer como o diabo, ele sabia. Ele olhou nos olhos de Horace. Honesto. Encorajador. Livre de culpa.
— E eu pensei que você fosse meu amigo — disse ele amargamente.

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