9 de dezembro de 2016

Capítulo 10

Na popa do Kaoh Kong, Dan e Atticus tiraram suas camisetas e mergulharam na água do rio. Isso não aliviou o calor abrasador do Camboja.
— É definitivamente pior do que a Guatemala — Dan se queixou. — Quero dizer, a umidade! É como se estivéssemos carregando uma tonelada de roupa molhada nos ombros.
— Na verdade... — Atticus começou.
Dan cortou.
— Sim, eu entendo. É impossível transportar uma tonelada de roupa.
— Eu só ia dizer que até os meus dreadlocks estão suando — explicou Atticus. — Eles são ótimos nos invernos de Boston. Aqui... nem tanto.
— Pare de reclamar e verifique as redes mais uma vez — ordenou Jake detrás do volante.
— Checamos três minutos atrás — seu irmão lamentou.
— Nesses três minutos, podemos ter pego uma cobra.
— Dificilmente isso aconteceria — Dan lamentou. — Antigamente, você pularia no rio, e haveria uma serpente d’água de Tonle Sap presa em cada dedo do seu pé. Agora todas elas se foram. Que sorte a nossa!
— Não foi muita sorte para as cobras, também — Atticus observou.
Amy estava esticada sobre a fileira de salva-vidas na proa. Enfrentava dificuldades em distinguir entre o brilho quente no ar e seu show de luzes da alucinação pessoal. Ela via macacos em todas as árvores, o que era confuso, porque ela sabia que de fato havia alguns macacos em algumas das árvores. Mas ela também sabia que não havia macaco algum no ombro de Jake. No entanto, ele estava lá, olhando de soslaio para ela.
Havia vozes, também – vozes do passado que ela entendia que não podiam ser reais – seus pais, Grace, tio Alistair. Havia até mesmo um homem velho que ela de alguma forma sabia ser Gideon Cahill: “Por que bebeu essa poção, filha?”
Ela olhou para popa, só para ver Pony sentado entre Dan e Atticus, sendo encharcado pela guerrinha de água dos garotos. E além deles, uma lancha brilhante se aproximava rapidamente pelo tráfego fluvial.
Amy apertou os olhos sob o sol implacável. Galt Pierce estava de pé na proa. Por que ele não podia ser uma alucinação?
Mas Galt era muito real, assim como os cinco capangas musculosos que estavam com ele.
Ela apontou.
— Dan...
Dan os vira, também.
— Gorilas! — ele exclamou. — E eles estão chegando perto de nós!
Jake empurrou o acelerador para frente.
— Nós teremos que enfrentá-los mais cedo ou mais tarde! — Amy rosnou. — Agora é uma hora tão boa quanto qualquer outra!
— Esse é o soro falando — Jake respondeu enquanto o Kaoh Kong acelerou e começou a ultrapassar os barcos mais lentos.
— Talvez o soro esteja certo desta vez — Amy argumentou. — Deixe-me rebentar algumas cabeças antes que ele me mate!
— Esses caras podem não ser tão fortes quanto você, mas há seis deles! — Dan apontou. — E o resto de nós não tem esse reforço!
A fé de Amy em suas habilidades físicas superava toda a lógica.
— Vire o barco! Vamos bater neles!
— Ninguém vai bater em ninguém! — Jake gritou.
— Na realidade — disse Atticus em um tom mais alto — acho que somos nós os únicos perto de bater!
A lancha corria muito agora, desviando das lentas barcas de correio e embarcações de turismo.
— Não se eu tiver algo a dizer quanto a isso!
Jake colocou todo o seu peso no acelerador, e o Kaoh Kong saltou à frente. O barco alugado estava se movendo mais rápido do que Amy poderia ter imaginado, mas também tremia muito, suas tábuas de madeiras ameaçando se partir. Jake conduziu em torno de um antigo barco a remos, numa tentativa de utilizá-lo para bloquear o progresso dos seus inimigos. Para o choque dos Cahill, a lancha passou direto através do barco, quebrando-o ao meio e fazendo dois pescadores khmer pularem na água para salvar suas vidas.
Isso colocou o grupo do Pierce logo atrás deles, aproximando-se rápido. Galt estava na proa com um ornamento coberto, brandindo um lançador de arpões.
— Ele vai atirar em nós! — Atticus lamentou.
Galt puxou o gatilho, e o projétil foi arremessado na direção do Kaoh Kong. Todo mundo se abaixou, mesmo Jake, que deixou o controle livre por um segundo. Mas ao invés de um arpão que furou o casco, um gancho voou por cima da popa, penetrou na madeira da amurada e ficou preso lá. O condutor de Galt diminuiu a velocidade, e a corda ficou tensa. Os dois barcos ficaram presos juntos.
Dan mergulhou para o gancho e tentou desalojá-lo. Ele não se moveu.
— Não adianta! — exclamou Jake, de volta ao leme. — Nós nunca conseguiremos despistá-los agora!
Quando o plano ocorreu a Amy, ela viu perfeitamente, quase como se modelo de um engenheiro tivesse aparecido em seu cérebro. Ela empurrou Jake para o lado, assumiu o volante e empurrou o barco à frente, acelerando a fundo.
— Isso é o que eles querem que façamos! — Jake engasgou. — Rebocarmos o outro barco até ficarmos sem gasolina, ou até fritarmos o nosso motor!
Com o seu cérebro aperfeiçoado pelo soro processando as informações mais rapidamente, Amy construiu uma cortina de fumaça, levando a lancha atrás deles. Então, com súbita violência, ela arrancou o leme com toda sua força. O leme estalou a partir de sua coluna e saiu em suas mãos poderosas. O Kaoh Kong virou de repente em direção à margem do rio, fazendo a lancha girar a uma velocidade incrível.
Ela passou girando pelos Cahill e se chocou contra a doca de madeira. O impacto fez a doca e o barco quebrarem, fazendo capangas voarem em todas as direções.
O Kaoh Kong atingiu a terra, a meio caminho da margem lamacenta. Amy colocou o motor em marcha à ré, mas o casco ficou atolado no chão molhado.
A cabeça de Galt apareceu na superfície da água. Ele estava atordoado, mas alerta o suficiente para começar resgatar seus companheiros.
Dan saltou por cima da amurada, afundando até os tornozelos.
— Vamos sair daqui!
— E o King Kong? — Atticus indagou.
— Isso é problema do Hamilton! Está no cartão de crédito dele!
Os quatro arrastaram-se até o banco e para a entrada da selva. Amy abriu caminho através da vegetação rasteira com pura força bruta. Suas alucinações estavam piores do que nunca – criaturas grotescas erguiam-se para ela das sombras. No entanto, a necessidade de fuga permitiu que ela as afastasse como as videiras que ela arrancava.
Jake, Dan e Atticus a seguiram sem questionar. Não importava aonde eles estavam indo desde que fosse para longe de seus perseguidores. Sons de coisa quebrando e xingamento atrás deles indicaram que Galt e companhia estavam logo atrás.
De uma vez, parte da vegetação fechada da selva revelou um grande templo de pedra. Não era nem de perto do tamanho de Angkor Wat. Mas foi tão inesperado que parecia que tinha surgido a partir do chão por causa de algum evento sísmico catastrófico. O grupo olhou para cima, vendo espetaculares sete andares de altura.
— O que é isso? — Dan ofegou.
Como de costume, Atticus estava pronto com a resposta.
— Ta Keo — ele respirou.
— Parece uma mini Angkor Wat — Dan observou.
— Ele foi construído no mesmo estilo — confirmou Atticus. — Mas é duzentos anos mais velho. Não é uma cópia de Angkor Wat; Angkor Wat copiou Ta Keo.
A voz de Galt soou, perigosamente perto:
— Vamos! Mais Rápido!
Dan agarrou o braço do amigo.
— Você conhece a área em torno desse monte de pedras?
— Não especificamente — Atticus admitiu. — Mas Ta Keo é um clássico “templo da montanha”, cercado por dois muros exteriores...
— Não agora, Att! — Jake insistiu, empurrando seu irmão por trás. — Caso não tenha notado, você não está ensinando estudantes de graduação do papai aqui!
Enquanto eles mergulharam na selva, chegaram ao portão oeste do muro exterior do templo.
O soro agiu por Amy, aumentando seus sentidos. Agora era o talento Lucian para a estratégia que veio à tona.
— Se nós entrarmos aqui, poderemos ficar encurralados em Ta Keo. Teremos uma melhor chance na selva.
— Mas nós temos um ás na manga — Dan opinou. — Atticus conhece esse templo; Galt não.
— Você não entende — ela insistiu. — Eu sou a única aprimorada... — antes que ela pudesse terminar, uma nova onda de alucinações tirou seu fôlego, fazendo-o parar onde estava. Dezenas de macacos irados vieram gritando na direção dela, alguns balançando em galhos e cipós, outros voando diretamente através do ar.
Quando finalmente acabou, Dan olhava para ela, alarmado.
— Tudo bem — ela falou para o irmão. — Vamos tentar do seu jeito.
Eles correram até as escadas e entraram nos jardins através do portal, atravessando um portão ainda maior lá dentro. O majestoso templo da montanha estava diante deles, negligenciado, coberto, escuro e aninhado.
— Note-se a ausência de qualquer escultura decorativa — Atticus comentou. — Ta Keo é o único templo em Angkor que nunca foi terminado.
A escadaria era tão íngreme que era mais como subir uma escada vertical.
— Olhe! — Dan falou asperamente.
A cabeça loira de Galt e uma nuvem de cachos escuros apareceram no portal do muro interior.
— Por aqui! Rápido! — Amy ordenou. Um por um, ela puxou-os escada acima e empurrou-os ao longo do terraço estreito mais baixo de Ta Keo.
— Será que ele nos viu? — Atticus sussurrou aterrorizado.
Amy só podia balançar a cabeça.
— Vamos continuar.
Eles fizeram o seu caminho ao longo da galeria, permanecendo abaixados para tirar vantagem da cobertura do parapeito caindo aos pedaços. Amy arriscou um olhar através de uma abertura na pedra. Galt e seus capangas estavam atravessando o pátio na direção da estrutura central. Eram bons perseguidores. Ela tinha que admitir isso. Qualquer que fosse a vantagem que soro proporcionava a Amy, também proporcionava a Galt e seus capangas, embora não na mesma medida.
Outra diferença fundamental: eu sou a única que está morrendo.
Os aliados de Pierce tinham sido melhorados com “shakes de proteína”, mas apenas ela tinha tomado a mistura real.
Amy se arrastava atrás dos outros, ouvindo o barulho dos sapatos molhados no chão de pedra e esperando que não fosse tão alto como ela pensava. Suas próprias sapatilhas estavam revestidas com lama viscosa da margem do rio. A cada passo, lodo marrom escuro sujava o chão antigo, deixando um rastro para seus perseguidores seguirem.
Ela olhou para baixo e viu como uma gota de lodo rolar de seus pés e desaparecer através de uma rachadura no piso de pedra. Ela congelou. Dois segundos depois, ouviu distintamente o minúsculo respingo de uma gota caindo sobre pedra em algum lugar abaixo dela.
Abaixo dela?
Eles estavam sobre rocha sólida, um templo Angkoriano da montanha! Quando uma gota de umidade escorria em uma rachadura, ela parava lá. Mas Amy sabia que tinha ouvido o que tinha ouvido. Sua percepção aumentara loucamente desde que ela tomara o soro. E um atraso de dois segundos antes de a gota acertar o fundo significa...
— Há uma sala lá embaixo — ela falou para os outros.
Uma sala que poderia ser a salvação deles.

Um comentário:

  1. Gostei!!! Adoros este site e todos os livros, passo o dia inteiro lendo! rsrsrs

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Boa leitura :)