29 de dezembro de 2016

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Como posso ter esquecido?
Este caderninho estava no seu bolso no dia que ela estava preparando a fuga. Eu o tinha encontrado um pouco antes de Kent colocar uma arma na minha cabeça, e em algum momento durante aquele caos, devo tê-lo deixado cair. E chego à conclusão que era isso o que estava procurando aquele tempo todo.
Me curvo para pegá-lo, retirando cuidadosamente as lascas e os cacos de vidro das suas páginas.
Minha mão não está firme, meu coração está martelando nos meus ouvidos. Não tenho ideia do que ele pode conter. Fotos. Mensagens. Pensamentos embaralhados e ideias ainda malformadas.
Podia ser qualquer coisa.
Viro o caderninho na minha mão, meus dedos se lembrando da superfície áspera e gasta. A capa tem um tom de marrom apagado, mas não posso afirmar se foi manchado pelo uso ou pelo tempo, ou se sempre foi dessa cor. Imagino há quanto tempo ela o possui. Onde será que ela o adquiriu.
Dou um passo em falso para trás, minhas pernas batem na cama. Meus joelhos cedem, e me seguro na ponta do colchão. Respiro fracamente e fecho meus olhos.
Eu tinha visto uma filmagem do período que ela passou no hospício, mas foi completamente inútil. A iluminação era muito fraca; a pequena janela mal conseguia clarear os cantos escuros do quarto dela. Ela era frequentemente apenas uma forma indistinta; uma sombra escura que poderia passar sem ser notada. Nossas câmeras só serviam para detectar seus movimentos — e talvez num momento de sorte, quando o sol a iluminava pelo ângulo certo —, mas ela raramente se movia. Na maior parte do tempo ela ficava sentada parada, muito quieta, na sua cama ou num canto escuro. Ela quase nunca falava. E quando o fazia, nunca era com palavras. Ela falava somente em números.
Contando.
Havia algo de surreal nela, sentada ali. Não conseguia nem ver seu rosto; não era capaz de discernir o contorno do seu corpo. Mesmo assim ela me fascinava. Que ela pudesse ser tão calma, tão quieta. Ela se sentava num lugar durante horas de uma vez, imóvel, e sempre imaginei o que se passava em sua mente, o que ela poderia estar pensando, como ela podia existir num mundo assim solitário. Mais do que qualquer outra coisa, eu queria que ela falasse.
Estava desesperado para ouvir sua voz.
Sempre desejei que ela falasse uma língua que eu pudesse entender. Pensei que poderíamos começar com algo simples. Talvez algo ininteligível. Mas a primeira vez que a peguei falando frente à câmera, não consegui afastar meu olhar dela. Fiquei sentado ali, parado, com os nervos tensionados, quando ela tocou a parede com a mão e contou.
4.572.
Observei enquanto ela contava. Até 4.572.
Demorou cinco horas.
Só mais tarde percebi que ela estava contando suas próprias respirações.
Não consegui deixar de pensar nela depois disso. Eu estava disperso bem antes de ela chegar à base, constantemente pensando no que ela estava fazendo e se ela iria falar novamente. Se estava contando em voz alta, ou estava contando na sua cabeça. Será que ela já havia pensado em letras? Sentenças completas? Estava com raiva? Triste? Por que ela parecia tão calma para uma garota que havia sido considerada um animal perturbado e temperamental. Era um truque?
Eu tinha visto todos os relatórios documentando os momentos críticos de sua vida. Tinha lido todos os detalhes dos seus históricos médicos e policiais; tinha colocado em ordem as reclamações da escola, as anotações dos médicos, sua sentença oficial emitida pelo Restabelecimento, e até mesmo o questionário do hospício respondido por seus pais. Sabia que ela tinha sido retirada da escola aos 14 anos, que havia passado por uma série de testes e sido forçada a tomar várias — e perigosas — drogas experimentais, além de se submeter a sessões de eletrochoque. Em dois anos ela havia entrado e saído de nove diferentes centros de detenção juvenil e foi examinada por mais de cinquenta médicos diferentes. Todos eles a descreveram como um monstro. Chamaram-na de um perigo para a sociedade e uma ameaça à humanidade. Uma garota que iria destruir nosso mundo e já tinha começado assassinando uma criança pequena. Aos 16 anos, seus pais sugeriram que ela fosse internada. E foi o que aconteceu.
Nada disso fazia sentido para mim.
Uma garota rejeitada pela sociedade, pela sua própria família — ela devia ter muitos sentimentos reprimidos. Raiva. Depressão. Ressentimento. Onde estava tudo isso?
Ela não era nada parecida com os outros pacientes do hospício — aqueles que eram realmente perturbados. Alguns passavam horas se lançando contra a parede, quebrando osso e fraturando crânios. Outros eram tão perturbados que rasgavam a própria pele até tirar sangue, literalmente se rasgando em pedaços. Alguns conversavam consigo mesmos em voz alta, dando risadas, cantando e discutindo. A maioria rasgava as próprias roupas, satisfeitos em dormir e ficar despidos na sua própria sujeira. Ela era a única que tomava banho com regularidade ou lavava as próprias roupas.
Fazia suas refeições calmamente, sempre comendo tudo que lhe ofereciam. E passava a maior parte do tempo olhando pela janela.
Ela ficou trancafiada por 264 dias e não perdeu seu senso de humanidade. Queria saber como ela conseguiu reprimir tanta coisa; como ela adquiriu tanta calma exterior. Pedi uma análise do seu comportamento em relação aos outros pacientes, porque queria fazer uma comparação. Queria saber se seu comportamento era normal.
Não era.
Observei o perfil modesto dessa garota que eu não podia ver nem conhecer, e senti um respeito enorme por ela. Passei a admirá-la e invejar sua calma — sua tranquilidade perante tudo a que foi forçada a enfrentar. Não sei se entendi exatamente o que era que estava sentindo naquela época, mas sabia que a queria toda para mim.
Queria conhecer seus segredos.
E então um dia, ela se levantou na sua cela e caminhou até a janela. Era de manhã bem cedo, o sol havia acabado de nascer; pela primeira vez pude vislumbrar seu rosto. Ela pressionou a palma da mão na janela e sussurrou duas palavras, só uma vez.
Me perdoa.
Aperto o botão para retroceder a fita várias vezes.
Nunca poderia contar a ninguém que estava incrivelmente fascinado por ela. Tinha que inventar falsos motivos, uma indiferença aparente — uma arrogância — em relação a ela. Ela seria nossa arma e nada mais, apenas um instrumento de tortura inovador.
Um detalhe que não me importava nem um pouco.
Minha pesquisa me havia levado de encontro aos seus arquivos por puro acaso. Coincidência. Não fui atrás dela à procura de uma arma; nunca fui. Bem antes de eu ter visto seu filme, e bem, bem antes de ter trocado uma só palavra com ela, estava pesquisando outra coisa. Para outro fim. Meus motivos eram só meus.
Usá-la como arma foi uma história que criei para o meu pai; precisava de uma desculpa para ter acesso a ela, para ter a permissão necessária para estudar seus arquivos. Foi uma charada que tive que inventar para me justificar perante meus soldados e para a centena de câmeras que monitoram minha existência. Não a trouxe para a base para explorar suas habilidades. E certamente não esperava me apaixonar por ela no meio disso tudo.
Mas essas verdades e minha verdadeira motivação vão para o túmulo comigo.
Caio na cama com força. Bato a mão na testa, e a esfrego pelo meu rosto. Nunca teria mandado Kent ficar com ela se eu mesmo tivesse podido fazer isso. Cada jogada minha foi um erro. Vi cada esforço calculado falhar. Eu apenas queria ver como ela interagia com outra pessoa. Imaginava se ela seria diferente; se as expectativas que eu havia criado em relação a ela se acabariam ao vê-la conversando naturalmente com alguém. Porém, vê-la conversar com outra pessoa me deixou maluco. Estava com ciúmes. Ridículo. Queria que ela soubesse quem eu era; queria que ela conversasse comigo. E foi então que percebi: essa sensação estranha e inexplicável de que talvez ela fosse a única pessoa do mundo pela qual eu poderia realmente me importar.
Me forço a me sentar. Arrisco um olhar para o caderno ainda preso em minha mão.
Eu a perdi.
Ela me odeia.
Ela me odeia e eu a rejeito, e talvez nunca mais a verei, e a culpa é toda minha. Esse caderninho talvez seja a única coisa que me restou dela. Minha mão ainda está pairando sobre a capa, tentando abri-lo, para poder encontrá-la novamente, mesmo que seja só por um instante, mesmo que seja apenas no papel. Mas parte de mim está com medo. Talvez isso não acabe bem. Talvez não seja o que eu gostaria de ver. E me acudam se isso for algum tipo de diário contendo seus pensamentos e sentimentos pelo Kent, posso até me jogar pela janela.
Coloco o punho cerrado de encontro à minha testa. Respiro fundo e demoradamente.
Finalmente o abro. Meus olhos descem para a primeira página.
E só então começo a perceber a importância do que encontrei.

Continuo a pensar que devo permanecer calma, que tudo isso é fruto da minha imaginação, que tudo vai ficar bem e alguém vai abrir a porta e me deixar sair. Continuo a pensar que isso vai acontecer porque esse tipo de coisa não acontece pura e simplesmente. Isso não acontece. As pessoas não são esquecidas desse modo. Não são abandonadas assim.
Isso simplesmente não acontece.
Meu rosto está coberto de sangue de quando eles me jogaram no chão, e minhas mãos estão tremendo, mesmo quando escrevo isso. Essa caneta é minha válvula de escape, minha única voz, porque não tenho ninguém com quem conversar, nenhuma mente além da minha para mergulhar e todos os botes salva-vidas estão ocupados e todas as boias estão quebradas e não sei nadar, não consigo nadar não consigo nadar e está cada vez mais difícil. É como se houvesse um milhão de gritos presos dentro do meu peito, mas tenho que mantê-los presos lá dentro porque para que gritar se não tem ninguém para escutar seus gritos e ninguém vai me escutar aqui. Ninguém jamais me ouvirá novamente.
Aprendi a ficar olhando para as coisas.
As paredes. Minhas mãos. As rachaduras na parede. As linhas nos meus dedos. Os tons de cinza no concreto. O formato de minhas unhas. Escolho uma coisa e fico olhando horas para ela. Conto as horas na minha cabeça contando os segundos à medida que eles passam. Conto os dias que passam enumerando-os. Hoje é o dia dois. Hoje é o segundo dia. Hoje é um dia.
Hoje.
Está muito frio. Está tão frio está tão frio.
Por favor por favor por favor

Fecho o caderno com força.
Minha mão está trêmula novamente, e dessa vez não consigo evitar. Dessa vez o tremor está vindo do fundo do meu ser, de uma percepção profunda do tenho nas mãos. Esse diário não é do tempo que ela passou aqui. Não tem nada a ver comigo, ou Kent, ou ninguém. Esse diário é um documento dos seus dias passados no manicômio.
E, de repente, esse pequeno e desgastado caderno é mais importante para mim do que qualquer outra coisa que eu já tenha possuído.

24 comentários:

  1. ai que dó, esse guri não pode ficar fazendo essas coisas, ou eu me compadeço

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  2. Tenho que ficar me lembrando que esse cara é um maluco possessivo, apesar de entender as razões (isto é, um pai que é ainda mais sádico que ele), ele ainda é um maluco possessivo

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  3. ai meu deus , to com o coração partido por ele , ele realmente ama ela

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  4. "Minha mão ainda está pairando sobre a capa, tentando abri-lo, para poder encontrá-la novamente, mesmo que seja só por um instante, mesmo que seja apenas no papel. Mas parte de mim está com medo. Talvez isso não acabe bem. Talvez não seja o que eu gostaria de ver. E me acudam se isso for algum tipo de diário contendo seus pensamentos e sentimentos pelo Kent, posso até me jogar pela janela."
    Porque eu ri tanto dessa parte?

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  5. Céus ele é um fofo quando se permite olhar dentro dele.

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  6. Droga!Agora estou começando a gostar dele

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  7. Tô com tanta vontade d chorar, esses pensamentos...tudo oq ele disse sobre a Juju...mano o Warner se apaixonou por ela antes mesmo d conhecê-la...

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  8. Eu comecei a ler o livro pensando;
    " Por favor, que o Warner não seja uma pessoa legal e fofo pq eu quero continuar odiando ele, que ele não tenha uma família malvada e que não goste dele e um passado triste"
    Pse, minhas preces não foram atendidas...

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  9. Queria continuar odiando do Warner, mas fazer o que...

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  10. Eita lasqueira! Tadinho... :,( Esse daí já entrou definitivamente para a coleção de "crushs literários" Bem-Vindo Warner, só pegar a senha que aki não é bagunça. Kkkkk...

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  11. É. Que bom. Gosto mais de você do que do Adam. Mesmo assim prefiro ela sozinha. Não me faça gostar de você. NÃO OUSE. Essa autora...
    Ass.: D. PEVENSIE.

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  12. Grito do ipirangaaaa. Socorrooo, oq foi esse capitulo? Simplesmente maravilhoso, eu sabia que ele era uma pessoa legal ❤

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  13. Simplesmente amei esse capitulo!! Aiiii meu coreeeeee Gzuiz!!!
    Ele disse que a ideia de usá-la como arma foi apenas pra que seu pai deixasse ele fazer as pesquisas sobre ela, então qual será o verdadeiro motivo? Será se é pq ele acredita que ela é a única pessoa em que ele possa ser ele mesmo?

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  14. Espero q ele não mostre para ninguém

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  15. Aí que linduuuu 😍😍😍
    Ele se apaixonou por ela bem antes de tudo,ele só não soube se aproximar

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  16. "E me acudam se isso for algum tipo de diário contendo seus pensamentos e sentimentos pelo Kent, posso até me jogar pela janela."

    Tadinho ahuahuahuahuahua


    "E, de repente, esse pequeno e desgastado caderno é mais importante para mim do que qualquer outra coisa que eu já tenha possuído."

    😍😍😍

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  17. Meus sentimentos pelo Warner continuam os mesmos desde o começo do 1 livro, sabia que ele era um cara legal :) *-*

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    1. Concordo contigo, ele é um amor de de pessoa comparado ao pai, e o adam nao sei acho que é so sexual os sentimentos dele.

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  18. Ihhh agora que ele fica mais obcecado e louco por ela.
    Não tenho pena dele...

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  19. A história do Warner é quase tão triste quanto a da Juliette.Ambos foram negligenciados,cobrados pelos pais e cresceram isolados.Nenhum ser humano deveria viver em circunstâncias tão horríveis.Contudo,a formação final do caráter de uma pessoa está em suas próprias mãos(Anne Frank).Prova disso:Juliette beirou a loucura mas,continuou bondosa,compassiva,incapaz de se vingar de quem a prejudicou.Enquanto o Warner se tornou um monstro.Acredito que a Juliette,reacende a pouca humanidade que resta nele.Através do amor que ele sente por ela,vamos conhecer um Warner do bem.Ele irá evidenciar o que tem de melhor.

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  20. Achei meio doentio essa coisa dele ficar observando ela po tanto tempo, mas ainda sim, fofo!

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  21. Oxi acho que toda essa "maldade" dele era porque ele só queria ela é nada mais.������

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Boa leitura :)