29 de dezembro de 2016

8

Estou no chuveiro há tanto tempo que perdi a noção do tempo.
Isso nunca me aconteceu antes.
Tudo está fora de lugar, desequilibrado. Estou inseguro quanto às minhas decisões, duvidando de tudo que achei que acreditava, e pela primeira vez na vida, estou genuinamente exausto, acabado.
Meu pai está aqui.
Estamos dormindo sob o mesmo teto; algo que eu esperava não ter que vivenciar novamente. Mas ele está aqui na base, hospedado em seus próprios alojamentos até estar bem seguro antes de partir. O que significa que ele vai resolver nossos problemas, causando estragos no Setor 45. O que significa que estarei reduzido a ser seu fantoche e menino de recados, porque meu pai nunca aparece para ninguém, a não ser para aqueles que está prestes a matar.
Ele é o comandante supremo do Restabelecimento e prefere impor suas ordens anonimamente. Ele viaja para todos os lugares, sempre com o mesmo grupo selecionado de soldados, se comunica apenas através dos seus homens, e somente em raríssimas circunstâncias se afasta da Capital.
Notícias da sua chegada no Setor 45 já se espalharam pela base, e muito provavelmente apavorou meus soldados. Porque sua presença, real ou imaginária, significa apenas uma coisa: tortura.
Há muito tempo não me sentia um covarde.
Mas isso, isso é uma bênção. Esse momento demorado — essa ilusão — de força. Estar fora da cama e ser capaz de tomar um banho: é uma pequena vitória. Os médicos envolveram meu braço ferido num tipo de plástico impermeável para o chuveiro, e eu finalmente me sinto capaz de ficar em pé sozinho. Os enjoos passaram, a tontura foi embora. Eu deveria ser capaz de pensar com mais clareza agora, no entanto, minhas ideias ainda parecem muito confusas.
Me forço para não ficar pensando nela, mas estou começando a perceber que não sou forte o bastante; ainda não, e principalmente quando ainda estou ativamente procurando por ela. Isso se tornou uma impossibilidade física.
Hoje, preciso voltar ao quarto dela.
Preciso procurar nas suas coisas por alguma pista que me ajude a encontrá-la. Os beliches e os armários de Kent e de Kishimoto já foram vasculhados; nada incriminador foi encontrado. Mas ordenei aos meus homens que deixassem o quarto dela — o quarto de Juliette — exatamente como estava. Ninguém, a não ser eu mesmo, tinha permissão para entrar naquele espaço. Não até que eu olhasse tudo antes.
E isso, de acordo com meu pai, seria minha primeira tarefa.

— Isso é tudo, Delalieu. Se precisar de mais alguma coisa eu lhe informo.
Ele está me seguindo por todos os lugares, mais do que habitualmente. Aparentemente ele veio me procurar quando não compareci à reunião que eu mesmo havia agendado há dois dias, e teve o prazer de me encontrar delirante e enlouquecido. Não sei como, mas ele conseguiu se culpar por tudo isso.
Se fosse outra pessoa, eu o teria rebaixado.
— Sim, senhor. Desculpe, senhor. E por favor, me perdoe – nunca pretendi causar nenhum problema adicional...
— Está tudo bem, tenente.
— Sinto muito, senhor — ele murmura. Seus ombros caem. Sua cabeça se curva.
Suas desculpas estão me deixando incomodado.
— Faça as tropas se reagruparem às 13 horas. Devido a esses novos acontecimentos, preciso me dirigir a eles.
— Sim, senhor — ele diz. Acena com a cabeça sem levantar o olhar.
— Está dispensado.
— Senhor. — Ele faz continência e desaparece.
Estou sozinho em frente à porta do quarto dela.

Engraçado como fiquei acostumado a visitá-la aqui; como sentia uma sensação estranha de aconchego ao saber que ela e eu estávamos vivendo no mesmo prédio. Sua presença aqui na base mudou tudo para mim; as semanas que ela passou aqui foram as primeiras em que eu realmente tive prazer em morar nesses alojamentos. Eu aguardava ansiosamente por suas explosões. Seus ataques de raiva. Seus argumentos ridículos. Gostava quando ela gritava comigo; eu a teria parabenizado se ela tivesse chegado a me dar um tapa na cara. Estava sempre a provocando, brincando com suas emoções. Queria que ela entrasse em contato com a garota que havia dentro dela, aprisionada pelo medo. Queria que ela se libertasse das suas próprias amarras.
Porque apesar de ela aparentar timidez dentro dos limites do seu isolamento, aqui fora — no meio do caos, destruição — eu sabia que ela se tornaria algo completamente diferente. Estava apenas à espera. Cada dia esperando pacientemente que ela entendesse a dimensão do seu novo potencial; sem nunca ter percebido que a havia deixado aos cuidados do único soldado que poderia roubá-la de mim.
Eu deveria me matar por isso.
Ao invés disso, abro a porta.
Quando atravesso o umbral, o painel desliza e se fecha às minhas costas. Me vejo sozinho, parado aqui, no último lugar que ela tocou. A cama está desfeita e bagunçada, as portas do armário escancaradas, a janela quebrada, temporariamente fechada com fita crepe. Sinto uma dor profunda e nervosa no meu estômago que prefiro ignorar.
Concentração.
Entro no banheiro e examino seus artigos de higiene, os armários, até mesmo dentro do chuveiro.
Nada.
Volto para a cama e passo a mão sobre o edredom amarrotado, os travesseiros empelotados. Demoro um pouco para avaliar a evidência de que ela esteve presente nesse quarto, e arranco as roupas da cama. Lençóis, fronhas, edredom e colcha; tudo jogado ao chão. Examino minuciosamente cada centímetro dos travesseiros, do colchão, e da estrutura da cama, e novamente não encontro nada.
A mesinha de cabeceira. Nada.
Debaixo da cama. Nada.
As luminárias, o papel de parede, cada peça de roupa no seu armário. Nada.
Somente quando estou me dirigindo à porta é que toco algo com meus pés. Olho para baixo. Ali, preso debaixo da minha bota está um retângulo grosso, desbotado. Um caderninho simples e despretensioso que cabia na palma da minha mão.
E fico tão surpreso que por um momento não consigo nem me mexer.

5 comentários:

  1. SENHOR CRISTO. ELE VAI DESCOBRIR UM LIVRO INTEIRO NESSE CADERNINHO.

    ASS: ISA

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  2. Que isso. Aí fica difícil. Ele vai saber se tudo.
    Ass. D. Pevensie

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  3. Que tudo ele encontrar o caderninho dela

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  4. Nossa eu tinha esquecido do caderninho...F*deo

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  5. Meu pai está aqui.
    Estamos dormindo sob o mesmo teto;algo que eu esperava não ter que vivenciar novamente.

    Esse cara não merece o título de 'pai'.Ele está mais para um
    contribuinte de esperma na concepção do ser chamado Warner.

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Boa leitura :)