29 de dezembro de 2016

7

— Bom, isso é embaraçoso. Meu filho, amarrado como um animal.
Estou quase convencido que estou tendo outro pesadelo. Abro meus olhos lentamente; olho para o teto. Não faço nenhum movimento brusco, mas posso sentir a força das correias em volta dos meus punhos e nos dois tornozelos. Meu braço ferido ainda está na tipoia e apoiado no meu peito. E embora a dor no meu ombro ainda esteja lá, já diminuiu bastante. Me sinto mais forte. Até minha mente está mais clara, mais alerta. Mas então sinto o gosto de algo amargo na boca e imagino há quanto tempo estou nessa cama.
— Você realmente achou que eu não ficaria sabendo? — ele pergunta, divertido. Ele se aproxima da minha cama, seus passos reverberando dentro de mim. — Você fez Delalieu choramingar desculpas por me incomodar, suplicando para meus homens culpá-lo pela inconveniência dessa visita inesperada. Sem dúvidas, você apavora aquele velho, que está simplesmente fazendo o trabalho dele, quando a verdade é, eu teria descoberto tudo, mesmo sem ele ter me contado. Isso — ele diz — não é o tipo de trapalhada que se pode esconder. Você é um idiota por pensar o contrário.
Sinto um leve puxão nas minhas pernas e percebo que ele está soltando as amarras. O toque da sua mão na minha pele é abrupto e inesperado, e isso mexe alguma coisa dentro de mim, algo obscuro e profundo que me faz sentir fisicamente mal. Sinto o gosto do vômito no fundo da minha garganta. É preciso todo o meu autocontrole para não vomitar em cima dele.
— Sente-se meu filho. Você deve estar bem melhor agora. Não descansou quando deveria, e agora isso foi corrigido. Você está inconsciente há três dias, e eu cheguei aqui há vinte e sete horas. Agora, levante-se. Isso é ridículo.
Ainda estou olhando para o teto. Respirando com dificuldade.
Ele muda de tática.
— Sabe — ele diz com cuidado —, na verdade eu ouvi uma história bem interessante sobre você. — Ele se senta na beirada da minha cama; o colchão range e estala sob o peso dele. — Gostaria de ouvi-la?
Minha mão esquerda começa a tremer. Cerro os dedos sobre os lençóis.
— Soldado 45B-76423. Fletcher, Seamus. — Ele faz uma pausa. — O nome lhe é familiar?
Aperto meus olhos com força.
— Imagine minha surpresa — ele continua — quando escuto que meu filho finalmente fez a coisa certa. Que ele finalmente tomou a iniciativa e dispensou um soldado traiçoeiro que andava roubando dos nossos depósitos de suprimentos. Fiquei sabendo que você lhe deu um tiro na testa. — Uma risada. — Dei os parabéns para mim mesmo. Disse que você tinha finalmente se juntado aos seus, que finalmente aprendeu a liderar corretamente. Fiquei quase orgulhoso. Por isso, fiquei ainda mais surpreso ao saber que a família de Fletcher ainda está viva. — Ele bateu suas mãos uma na outra com força. — É surpreendente, é claro, porque você, entre todos os demais deveria saber as regras. Traidores vêm de famílias de traidores, e uma traição significa morte para todos.
Ele apoia sua mão no meu peito.
Estou levantando muros no meu cérebro novamente. Paredes brancas. Blocos de concreto. Cômodos vazios e espaços abertos.
Não existe nada dentro de mim. Nada lá dentro.
— É engraçado. — Ele continua pensativo agora. — Porque eu disse a mim mesmo que esperaria para discutir isso com você. Mas, de certo modo, esse momento parece bem adequado, não acha? — Posso ouvir o sorriso dele. — Dizer a você como estou desapontado. Muito embora não possa dizer que esteja surpreso. — Ele dá um suspiro. — Num único mês você perdeu dois soldados, não conseguiu controlar uma garota clinicamente demente, abalou um setor inteiro, e encorajou a revolta entre os cidadãos. E, por incrível que pareça, não estou absolutamente surpreso.
Suas mãos se movem; se demoram nos meus ombros.
Paredes brancas, penso.
Blocos de concreto.
Cômodos vazios. Espaço aberto.
Nada existe dentro de mim. Nada lá dentro.
— Mas o pior de tudo — ele continua — não é o fato de você ter conseguido me humilhar ao subverter a ordem que eu tinha finalmente conseguido estabelecer. Nem que, de algum modo, você conseguiu levar um tiro durante os acontecimentos. Mas que demonstrasse simpatia pela família de um traidor — ele diz, rindo, sua voz num tom feliz e alegre. — Isso é imperdoável.
Meus olhos estão abertos agora, piscando sob a forte luz fluorescente acima da minha cabeça, concentrado nos pontos brancos que borram minha visão. Não vou me mover. Não vou falar.
Suas mãos se fecham em torno da minha garganta.
O movimento é tão abrupto e violento que quase fico aliviado. Uma parte de mim sempre espera que ele vá fazer isso algum dia; que talvez ele realmente me deixe morrer dessa vez. Mas isso nunca acontece. Nunca dura o bastante.
Tortura nunca é tortura quando existe alguma esperança de alívio.
Ele me solta logo e consegue exatamente o que quer. Dou um salto para cima, tossindo e espirrando, finalmente emitindo um som que reconhece sua presença nesse quarto. Meu corpo todo está tremendo agora, meus músculos estão enrijecidos pelo ataque e por ter permanecido imóvel por tanto tempo.
Estou suando frio; minha respiração é difícil e dolorida.
— Você tem muita sorte — ele declara, suas palavras suaves demais. Ele está em pé agora, não mais tão perto do meu rosto. — Sorte que eu estava aqui para acertar as coisas. Sorte que eu tive tempo de corrigir seu erro.
Fico paralisado.
O quarto começa a girar.
— Consegui localizar a esposa dele — ele diz. — A esposa de Fletcher e seus três filhos. Acho que eles lhe mandaram lembranças. — Uma pausa. — Bom, isso foi antes que os mandasse matar, então acho que isso não importa muito agora, mas meus homens disseram que eles lhe mandaram um alô. Parece que ela se lembrava de você — ele diz, rindo baixinho. — A esposa. Ela disse que você lhe fez uma visita antes de todo esse... aborrecimento ocorrer. Disse que você estava sempre visitando os complexos. Se informando sobre os civis.
Murmuro apenas as duas palavras que consigo balbuciar.
— Saia daqui.
— Esse é o meu garoto! — ele diz, acenando a mão na minha direção. — Um tolo dócil e patético. Às vezes fico tão revoltado com você que tenho vontade de eu mesmo lhe dar um tiro. Mas então penso que deve ser isso o que gostaria que eu fizesse, não é? Poder me culpar pela sua própria derrota? E eu penso que não, é melhor deixá-lo morrer pela sua própria estupidez.
Olho para frente sem compreender, meus dedos crispados sobre os lençóis.
— Agora me conte — ele pede —, o que aconteceu com seu braço? Delalieu e os outros homens parecem não ter ideia do que aconteceu.
Não digo nada.
— Envergonhado demais para admitir que foi ferido por um de seus próprios soldados, então?
Fecho meus olhos.
— E quanto à garota? — ele indaga. — Como ela conseguiu escapar? Fugiu com um de seus homens, não foi?
Agarro os lençóis com tanta força que meus punhos começam a tremer.
— Me diga — ele diz, se aproximando dos meus ouvidos. — Como você lidaria com um traidor desse tipo? Vai visitar a família dele também? Ser gentil com a esposa dele?
Não queria dizer isso em voz alta, mas não consigo me segurar dessa vez.
— Vou matá-lo.
Ele dá uma sonora gargalhada que mais parece um uivo. Bate a mão na minha cabeça e bagunça meu cabelo com os mesmos dedos que há pouco apertavam o meu pescoço.
— Muito melhor. Agora levante. Temos trabalho a fazer.
E eu penso que sim, não me importaria de fazer o tipo de trabalho que desapareceria com Adam Kent desse mundo.
Um traidor desse tipo não merece viver.

11 comentários:

  1. to quase com pena dele .(quase):-(

    ResponderExcluir
  2. Que papaizinho maravilhoso... mas do jeito que o Warnner é não estou surpresa que o pai dele seja esse ser humano amável e compreensível ¬¬

    ResponderExcluir
  3. Warner é um amorzinho, ele faz algumas coisas certas pelos meios errados, mas ele não machuca crianças e nem mulheres *-* nossa gente, o sogrão é maravilhoso, melhor pai do mundo, merece um prêmio por ser o pai do ano ¬¬

    ResponderExcluir
  4. gente estou começando a gostar do warnne, bem com esse pai explica muitosobre o comportamento dele comos soldados

    ResponderExcluir
  5. Com uma Capeta desse como pai, ele nem precisa de inimigo! Coitado

    ResponderExcluir
  6. Obviamente ele tbm apanhava cara será q ele vai pro lado dos rebeldes seria bem interessante tipo ele iria aprender de certa forma q a vida não é assim e tem outro ponto de vista oouu ele só iria pra lá e continuaria arrogante do jeitinho dele

    ResponderExcluir
  7. "Paredes brancas, penso.
    Blocos de concreto.
    Cômodos vazios. Espaço aberto."
    Ele tem mania igual a Ju, td mundo desse livro é meio fora do cabo <33

    ResponderExcluir
  8. Que pai terrível.Começo a entender o porquê do Warner ser esse mau caráter.

    ResponderExcluir
  9. sempre soube que ele não era o vilão da história. Vida longa a Warner!!!!!!

    ResponderExcluir
  10. Sempre soube que ele não era o vilão por completo. Vida longa a Warner!!!!!

    ResponderExcluir
  11. Eu amo o warnner, ele é uma explosao de sentimentos, imagino que essa mania de paredes brancas e tals venha desde pequeno, para nao acabar morrendo de apanhar.

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)