29 de dezembro de 2016

6

— Juliette — murmuro. — O que está fazendo aqui?
Estou parcialmente vestido, me preparando para meu dia, e ainda é muito cedo para visitas. Essas horas anteriores ao nascer do sol são meus únicos momentos de paz, e ninguém deveria estar aqui.
Parece impossível que ela tenha conseguido burlar a vigilância e ter acesso aos meus alojamentos particulares.
Alguém deveria tê-la impedido.
Ao invés disso, ela está parada na minha porta, me olhando. Já a havia visto tantas vezes, mas dessa vez é diferente — estou sentindo uma dor quase física só de olhar para ela. Mas de certo modo ainda me sinto atraído, desejando estar perto dela.
— Me desculpe — ela diz, e está torcendo as mãos e evitando me olhar de frente. — Sinto tanto, tanto.
Observo suas roupas.
É um vestido verde-escuro com mangas justas; um corte simples feito de algodão com lycra que molda as curvas macias do seu corpo. Ele combina com os tons de verde dos olhos dela de um jeito que eu não esperava. É um dos muitos vestidos que escolhi para ela. Achei que iria gostar de ganhar algumas coisas bonitas depois de ter ficado tanto tempo engaiolada como um animal. E não sei bem se consigo explicar, mas sinto um orgulho estranho de ela estar vestindo algo que eu mesmo escolhera.
— Desculpe — ela diz, pela terceira vez.
Mais uma vez fico aturdido em pensar como ela conseguiu chegar aqui. No meu quarto. Olhando para mim enquanto ainda estou sem camisa. Seu cabelo é tão longo que cai até o meio das costas; tenho que me segurar para conter minha vontade de passar as mãos sobre eles. Ela é tão linda.
Não entendo por que está se desculpando.
Ela fecha a porta atrás de si. Caminha em minha direção. Meu coração bate descompassado agora, e não é algo natural para mim. Não costumo reagir desse modo. Não costumo perder o controle. Eu a vejo todos os dias e consigo manter uma aparência de dignidade, mas tem alguma coisa errada; isso não está certo.
Ela está tocando meu braço.
Está deslizando seus dedos pela curva do meu ombro, e o toque da sua pele em contato com a minha me dá vontade de gritar. A dor é intolerável, mas não consigo falar; estou paralisado.
Tenho vontade de dizer para ela parar, para ir embora, mas um pedaço de mim está em conflito.
Estou feliz em tê-la perto de mim, mesmo que isso doa, mesmo que isso não faça nenhum sentido.
Mas eu não consigo alcançá-la, não posso abraçá-la como sempre quis fazer.
Ela olha para mim.
Ela me examina cuidadosamente com seus olhos azuis-esverdeados e de repente me sinto culpado, sem entender o porquê. Porém, tem algo em seu olhar que me faz sentir insignificante, como se ela houvesse percebido que sou vazio por dentro. Ela descobriu as rachaduras nessa armadura que venho usando há anos, todos os dias, e isso me deixa petrificado.
Essa garota sabia exatamente como me destruir.
Ela pousa as mãos no meu ombro.
E então agarra meu ombro, enfia seus dedos na minha pele como se estivesse tentando rasgá-la. A agonia é tão cega que, dessa vez, chego realmente a gritar. Caio de joelhos à sua frente e ela torce meu braço, girando-o para trás até eu ficar sem fôlego, tentando permanecer calmo, lutando para não me entregar à dor.
— Juliette — falo ofegante —, por favor...
Ela passa a mão livre pelos meus cabelos, joga minha cabeça para trás para que eu seja forçado a encarar seus olhos. E então se curva e se aproxima dos meus ouvidos, seus lábios quase tocando meu rosto.
— Você me ama? — ela sussurra.
— O quê? — Respiro fundo. — O que você está fazendo?
— Você ainda me ama? — ela pergunta novamente, seus dedos agora deslizando pelos contornos do meu rosto, pela linha do meu maxilar.
— Sim — digo a ela. — Ainda a amo.
Ela sorri.
É um sorriso inocente, tão meigo que fico realmente chocado quando suas mãos se apertam em torno do meu braço. Ela torce meu ombro para trás a tal ponto, que tenho certeza que o deslocou. Meus olhos veem faíscas quando ela diz:
— Está quase acabado agora.
— O quê? — pergunto, desesperado, tentando olhar em volta. — O que está quase acabado...
— Só um pouco mais e eu vou embora.
— Não — não, não vá —, onde está indo...
— Você vai ficar bem — ela declara. — Eu prometo.
— Não — estou respirando com dificuldade —, não...
Subitamente ela me empurra para frente e eu acordo tão rápido que me falta o ar.
Pisco várias vezes até perceber que eu tinha acordado no meio da noite. Uma escuridão completa me envolve por todos os cantos do quarto. Meu peito está arfando; meu braço está preso e latejando, e eu percebo que o efeito dos medicamentos contra a dor já passou. Tem um pequeno controle remoto preso debaixo da minha mão; aperto o botão para liberar mais uma dose.
Demoro alguns minutos para me estabilizar. Meus pensamentos lentamente se recuperam do pânico.
Juliette.
Não posso controlar um pesadelo, mas seu nome vai ser a única coisa que vou me permitir recordar quando estiver acordado.
A humilhação que sinto não me permite mais que isso.

12 comentários:

  1. Coitado to ficando com dó dele :(

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  2. Aish o mozão ta piradão pela Juju heuheu

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  3. Fico com um pouco de pena dele, acho que no fundo eu quero que Juliette tem que ficar com ele, pra fazer dele uma pessoa melhor... Ele já tá todo apaixonadinho! Mas merece sofrer um pouquinho primeiro antes de ficar com Ju...

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    1. Concordo! Ele é meu preferido, mas tem que mudar pra ficar com ela

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  4. Cara, eu to gostando dele... o bichinho, eu sempre soube q ele era diferente do q aparentava ser
    Não sei se shippo ele com a Juliette ou ela com o Adam
    Eu gosto do Adam, mas tenho a impressão q minha opinião sobre eles (Adam e Warner) vai mudar

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  5. Terrível como vcs podem estar achando ele legal...Só acho

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    1. Isso nao e terrivel...Esse capitulo mostra q ele nao e tao ruim quanto parece, ele tem sentimentos!

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  6. Acho q ele deveria ta se sentido arrependido e não humilhado se gostasse mesmo dela

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  7. Certos sonhos se tornam realidade hehehe

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Boa leitura :)