23 de dezembro de 2016

6

Uma palavra, dois lábios, três quatro cinco dedos formam um punho.
Um canto, dois pais, três quatro cinco razões para esconder-se.
Uma criança, dois olhos, três quatro dezessete anos de medo.
Um cabo de vassoura quebrado, um par de rostos ferozes, sussurros coléricos, fechaduras na minha porta.
Olhe para mim — é o que queria dizer a você. Fale comigo de vez em quando. Encontre-me a cura para estas lágrimas, gostaria muito de soltar o ar dos pulmões pela primeira vez na vida.

Passaram-se duas semanas.
Duas semanas de mesma rotina, duas semanas de nada a não ser rotina. Duas semanas com o companheiro de cela que chegou muito perto de me tocar que não toca em mim. Adam está se adaptando ao sistema. Ele nunca reclama, ele nunca fornece muita informação, ele continua a fazer perguntas demais.
Ele é bom comigo.
Sento-me à janela e observo a chuva e as folhas e a neve colidir. Elas se revezam dançando ao vento, executando coreografias para as massas desavisadas. Os soldados pisoteiam pisoteiam pisoteiam em meio à chuva, esmagando as folhas e a neve sob seus pés. Suas mãos estão cobertas de luvas envoltas em armas que poderiam atirar uma bala por qualquer milhão de possibilidades. Eles não se incomodam de ser incomodados pela beleza que cai do céu. Eles não compreendem a liberdade de sentir o Universo sobre sua pele. Eles não se importam.
Queria poder rechear a boca de gotas de chuva e encher os bolsos de neve. Queria poder traçar as veias de uma folha caída e sentir o vento beliscar o nariz.
Em vez disso, ignoro o desespero unindo os dedos e aguardo pelo pássaro apenas visto em meus sonhos. Os pássaros costumavam voar, é o que as histórias dizem. Antes de a camada de ozônio ter se deteriorado, antes de os poluentes terem transformado as criaturas em algo horrível incomum. Eles dizem que o tempo não foi sempre tão imprevisível. Eles dizem que havia pássaros que costumavam planar no céu como aviões.
Parece estranho que um animal tão pequeno pudesse alcançar qualquer coisa tão complexa quanto a engenharia humana, mas a possibilidade é atraente demais para ser ignorada. Sonhei com o mesmo pássaro voando no mesmo céu por exatos dez anos. Branco com listras de ouro igual a uma coroa sobre sua cabeça.
É o único sonho que tenho que me dá paz.
— O que você está escrevendo?
Levanto os olhos semicerrados à sua forte envergadura, o sorriso fácil em seu rosto. Não sei como ele consegue sorrir apesar de tudo. Pergunto-me se ele pode manter essa forma, esse especial contorno da boca que muda vidas. Pergunto-me como ele se sentirá daqui um mês, e estremeço ao pensar.
Não quero que ele acabe como eu.
Vazia.
— Ei... — Ele apanha o cobertor de minha cama e agacha-se perto de mim, e sem perder tempo envolve o pano fino em meus ombros mais finos ainda. — Você está bem?
Tento sorrir. Decido evitar sua pergunta.
— Obrigada pelo cobertor.
Ele se senta a meu lado e apoia-se na parede. Seus ombros estão tão perto muito perto nunca perto o bastante. O calor de seu corpo faz mais por mim do que o cobertor jamais fará. Algo em minhas articulações dói de desejo ardente, uma necessidade desesperada que nunca fui capaz de satisfazer. Meus olhos estão implorando por algo a que não me posso permitir.
Toque-me.
Ele olha para o caderninho dobrado em minha mão, para a caneta quebrada que aperto em meu punho. Fecho o caderno e enrolo-o bastante. Enfio-o dentro de uma rachadura na parede. Estudo a caneta na palma de minha mão. Sei que ele está me encarando.
— Você está escrevendo um livro?
— Não. — Não, não estou escrevendo um livro.
— Talvez devesse.
Viro-me para encontrar com seus olhos e imediatamente me arrependo. Há alguns centímetros entre nós e não posso me mexer porque meu corpo só faz congelar. Cada músculo cada movimento comprime-se, cada vértebra de minha coluna é um bloco de gelo. Estou segurando a respiração e meus olhos estão arregalados, perdidos, surpreendidos pela intensidade de seu olhar. Não consigo desviar o olhar. Não sei como escapar.
Ah.
Deus.
Seus olhos.
Estive mentindo para mim mesma, determinada a negar o impossível.
“Eu o conheço eu o conheço eu o conheço eu o conheço”
O garoto que não se lembra de mim que eu costumava conhecer.
— Eles vão destruir a língua inglesa — diz ele, sua voz cuidadosa, tranquila.
Luto para recobrar o fôlego.
— Eles querem recriar tudo — continua ele. — Eles querem redesenhar tudo. Eles querem destruir qualquer coisa que possa ter sido a razão de nossos problemas. Eles pensam que precisamos de uma língua nova e universal. — Ele baixa a voz. Baixa os olhos. — Eles querem destruir tudo. Cada língua da história.
— Não. — Minha respiração fica presa. Borrões obscurecem minha visão.
— Eu sei.
— Não. — Isso eu não sabia.
Ele levanta os olhos.
— É bom que você esteja pondo as coisas no papel. Um dia o que você está fazendo será ilegal.
Comecei a tremer. De repente meu corpo está lutando contra um redemoinho de emoções, meu cérebro atormentado pelo mundo que estou perdendo e magoado por este garoto que não se lembra de mim. A caneta cai no chão e eu estou segurando o cobertor tão firme que temo que ele rasgue. O frio racha minha pele, o horror coagula minhas veias. Nunca pensei que ficasse tão ruim. Nunca pensei que O Restabelecimento levasse as coisas tão longe. Eles estão incinerando a cultura, a beleza da diversidade. Nós, novos cidadãos de nosso mundo seremos reduzidos a nada senão números, facilmente substituíveis, facilmente removíveis, facilmente destruídos por desobediência.
Perdemos nossa humanidade.
Enrolo o cobertor em meus ombros até ser embalada nos tremores que não param de aterrorizar meu corpo. Estou horrorizada com minha falta de autocontrole. Não consigo ficar quieta.
De repente sua mão está em minhas costas.
Seu toque está chamuscando minha pele pelas camadas do tecido e eu aspiro tão rápido que meus pulmões sofrem um colapso. Estou em meio a correntes de confusão que se chocam, tão desesperada por estar perto tão desesperada tão desesperada tão desesperada por estar longe. Não sei como me afastar dele. Não quero me afastar dele.
Não quero que ele tenha medo de mim.
— Ei. — Sua voz é suave tão suave tão suave. Seus braços são mais fortes que todos os ossos de meu corpo. Ele puxa minha figura enfaixada para perto de seu peito e eu estilhaço. Dois três quatro mil estilhaços de sentimento perfuram-me o coração, derretem-se em gotas de mel quente que suavizam as cicatrizes de minha alma. O cobertor é a única barreira entre nós, e ele me puxa para mais perto, mais firme, mais forte, até que escuto as batidas a sussurrar-lhe profundas dentro do peito, e o aço de seus braços ao redor de meu corpo desfaz todos os nós de tensão em meus membros. Seu calor derrete os pingentes de gelo que me sustentam de dentro para fora e eu descongelo, descongelo, descongelo, meus olhos tremulando rápido até que caem fechados, até que lágrimas silenciosas estejam jorrando-me rosto abaixo e eu tenha decidido que a única coisa que quero é congelar seu corpo segurando o meu.
— Está tudo bem — sussurra ele. — Você ficará bem.
A verdade é uma amante maldosa e ciumenta que nunca dorme — é o que não digo para ele. Nunca ficarei bem.
Isso faz cada filamento rompido de meu ser afastar-se dele. Faço isso porque tenho de fazer. Porque isso é para o seu próprio bem. Alguém está fincando garfos nas minhas costas enquanto me afasto. O cobertor agarra-se ao meu pé e eu quase caio antes de Adam estender a mão para mim novamente.
— Juliette...
— Você não pode t-tocar em mim. — Minha dificuldade de tomar fôlego, meus dedos tremem tão rapidamente que os cerro em um punho. — Você não pode tocar em mim. Você não pode. — Meus olhos estão voltados para a porta.
Ele está de pé.
— Por que não?
— Simplesmente não pode — sussurro para as paredes.
— Não entendo, por que você não fala comigo? Você se senta no canto todos os dias e escreve em seu caderno e olha para tudo exceto para o meu rosto. Você tem tanto a dizer a um pedaço de papel enquanto estou bem aqui e você nem fala comigo. Juliette, por favor... — Ele estende a mão em direção ao meu braço e eu viro o rosto para o lado. — Por que nem ao menos olha para mim? Não vou machucar você...
Você não se lembra de mim. Você não lembra que frequentamos a mesma escola por sete anos.
Você não se lembra de mim.
— Você não me conhece. — Minha voz é serena, monótona; meus membros adormecem, amputados. — Dividimos o mesmo espaço por duas semanas e você pensa que me conhece, mas não sabe qualquer coisa sobre mim. Talvez eu seja maluca.
— Você não é — diz ele por entre dentes trincados. — Você sabe que não é.
— Então talvez seja você — digo cuidadosamente, devagar. — Porque um de nós é.
— Isso não é verdade...
— Diga por que você está aqui, Adam. O que você está fazendo em um manicômio se você não pertence a este lugar?
— Tenho feito a mesma pergunta para você desde que cheguei aqui.
— Talvez você faça perguntas demais.
Escuto o exalar difícil de sua respiração. Ele ri um riso amargo.
— Somos praticamente as duas únicas pessoas que estão vivas neste lugar e você também quer me excluir?
Fecho os olhos e concentro-me na respiração.
— Você pode conversar comigo. Só não toque em mim.
Sete segundos de silêncio juntam-se à conversa.
— Talvez eu queira tocar em você.
Há 15 mil sentimentos de incredulidade esburacados em meu coração. Sou tentada pela imprudência, desejando desejando desejando, em eterno desespero por aquilo que nunca posso ter. Dou-lhe as costas, mas não consigo evitar que as mentiras se me entornem dos lábios.
— Talvez eu não queira que você toque.
Ele faz um som áspero.
— Sou assim tão repugnante?
Viro-me, de maneira que, pega de surpresa por suas palavras, esqueço-me de mim. Ele está me encarando, seu rosto severo, seu maxilar marcado, seus dedos movendo-se ao lado do corpo. Seus olhos são baldes de água de chuva: profundos, doces, claros.
Feridos.
— Você não sabe do que está falando. — Não consigo respirar.
— Você não pode só responder uma simples pergunta, pode? — Ele balança a cabeça e vira para a parede.
Meu rosto está moldado em uma forma neutra, meus braços e pernas, cheios de gesso. Não sinto nada. Não sou nada. Estou vazia de tudo que não vou modificar. Estou encarando uma pequena rachadura perto do meu sapato. Vou encará-la para sempre.
Os cobertores caem no chão. O mundo perde o foco, meus ouvidos enviam todos os sons para outra dimensão. Meus olhos se fecham, meus pensamentos se deixam levar pela corrente, minhas memórias aplicam-me pontapés no coração.
Eu o conheço.
Tentei a todo custo parar de pensar nele.
Tentei a todo custo esquecer seu rosto.
Tentei a todo custo tirar da cabeça aqueles olhos azuis azuis azuis, mas eu o conheço eu o conheço eu o conheço já faz três anos desde a última vez que o vi.
Nunca poderia esquecer Adam.
Mas ele já se esqueceu de mim.

21 comentários:

  1. Acho que quem já gosta dela é o Adam, agora ela eu acho que está se apaixonando, mas não sei por causa desse medo que ela tem de ser tocada, eu queria saber o que ela tem, mas preciso continuar a ler. Quero saber se ela tem poderes mágicos, uma doença, o quê, para ter medo de ser tocada e para não deixar ninguém tocá-la!!!

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  2. Krl mano, já posso começar a shippar? *-* GAROTA CHEGA NO BOY E FALA: APAGS ESSE FOGO QUE VC ACENDE EM MIM, SEJA MEU BOMBEIRO HEUHEUHEU

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  3. Será que talvez ele não se lembra dela porque ela machucou ele? Ela falou que eles estudaram juntos.. Será que é por isso que ele " Não lembra" dela? Eu quero saber! Bem, o jeito é continuar lendo, é melhor que spoiler.. Sim, eu acho que ele está curioso sobre ela (Apaixonado, talvez?)

    "A verdade é uma amante maldosa e ciumenta que nunca dorme" Já ouvi essas frases tantas vezes, agora sei de que livro é. #AdorAmando

    * Lanna *

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  4. Que amorr💕
    Tentei a todo custo tirar da cabeça aqueles olhos azuis azuis azuis 💙 #Adam

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  5. Esse livro me lembra bruxos e bruxas .

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  6. Acho interessante ela repetir palavras o tempo todo. Qual o motivo disso?

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    1. É um tipo de tique. Ela não fala com ninguém, ficou tempo demais sozinha. Acabou ganhando um trejeitos. Repete, conta, esconde pensamentos. Gostaria de despensá-los, de fosse possível

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  7. Eu o conheço.
    Tentei a todo custo parar de pensar nele.
    Tentei a todo custo esquecer seu rosto.
    Tentei a todo custo tirar da cabeça aqueles olhos azuis azuis azuis, mas eu o conheço eu o conheço eu o conheço já faz três anos desde a última vez que o vi.
    Nunca poderia esquecer Adam.
    Mas ele já se esqueceu de mim.




    é lindo e preocupante a forma como ela fala dele.
    e a forma como ela v~e as coisas é...interessante

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  8. É bom ou ruim você querer ler o livro à cada momento que você está pensando? Porque tem tanto tempo que um livro não faz isso comigo... Esse livro está me fazendo pensar mais que o normal!

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  9. Gente nao e spoiler eu vi na sipnose ela nao pode tocar ninqueme ninquem toca la pois essa pessoa morre ou e ferida

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  10. Os comentários chegam a ser melhores que o próprio livro gente , . ,

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  11. Devoradora de livros3 de julho de 2017 14:00

    coitada dela, imagina ta na pele dela, deve ser mt triste :´(

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  12. Essa menina é uma hipérbole em pessoa "... 15 mil sentimentos de incredulidade...", conquistou o direito de ser chamada a rainha do drama!

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  13. "O calor de seu corpo faz mais por mim do que o cobertor jamais fará. Algo em minhas articulações dói de desejo ardente, uma necessidade desesperada que nunca fui capaz de satisfazer. Meus olhos estão implorando por algo a que não me posso permitir"...


    - Isso é tão profundo kkks, na vida real consertaza eles já teriam se tocado nem que fosse um esbarrão mas é melhor assim porque ficamos na expectativa!!!


    #Sebeijãologo

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Boa leitura :)