29 de dezembro de 2016

5

Delalieu me segue até minha porta.
— Junte as tropas no Quadrante amanhã às dez horas — digo a ele como forma de despedida. — Terei que fazer um pronunciamento sobre esses acontecimentos recentes o melhor que puder.
— Sim, senhor — Delalieu responde. Ele não ergue os olhos. Ele não me olha nos olhos desde que saímos do depósito.
Tenho outras coisas com que me preocupar.
Sem contar a estupidez de Delalieu, existe uma infinidade de outras coisas que preciso cuidar no momento. Não posso me permitir mais problemas, e não posso me distrair. Não por ela. Não por Delalieu. Nem por ninguém. Tenho que me concentrar.
Esse é um momento horrível para ter um ferimento à bala.
Notícias da nossa situação já se espalharam em nível nacional. Civis e setores vizinhos agora estão cientes da nossa pequena rebelião, e temos que abafar os rumores o mais rápido possível. De algum modo, tenho que neutralizar os alertas que Delalieu já enviou e, simultaneamente, suprimir qualquer tipo de revolta entre os cidadãos. Eles já estão ansiosos para resistir, e qualquer fagulha de controvérsia irá reacender seu fervor. Muitos deles já morreram e eles ainda parecem não entender que ficar contra o Restabelecimento é atrair ainda mais destruição. Os civis devem ser pacificados.
Não quero guerra no meu setor.
Agora, mais do que nunca, preciso estar no controle de mim mesmo e de minhas responsabilidades.
No entanto, meu cérebro está disperso, meu corpo cansado e ferido. O dia todo estive prestes a desabar, e não sei o que fazer. Não tenho ideia de como consertar essa bagunça. Essa fraqueza é algo desconhecido para o meu ser.
Em apenas dois dias uma garota conseguiu me incapacitar.
Já tomei mais algumas daquelas pílulas nojentas, mas me sinto ainda mais fraco do que me sentia essa manhã. Pensei que poderia ignorar a dor e a inconveniência de um ombro ferido, mas as complicações se recusam a ceder. Agora estou totalmente dependente do que vai me acompanhar nessas próximas semanas de frustração. Remédios, médicos, horas na cama.
Tudo isso por um beijo.
É quase insuportável.
— Estarei no escritório o resto do dia — digo a Delalieu. — Mande minhas refeições para meu quarto, e não me perturbe, a menos que haja algum novo acontecimento.
— Sim, senhor.
— Isso é tudo, tenente.
— Sim, senhor.

Nem tinha percebido como estava me sentindo doente até a porta do quarto se fechar atrás de mim.
Vou cambaleante até a cama e me agarro na beirada para não cair. Estou transpirando novamente e decido tirar o casaco extra que estava usando lá fora para nosso passeio. Arranco o blazer que tinha jogado descuidadamente por cima do meu ombro ferido e caio de costas na cama. De repente estou gelado. Minha mão treme enquanto procuro apertar o botão para chamar o médico.
Preciso que alguém troque os curativos do meu ferimento. Preciso comer algo mais substancial. E, mais do que nunca, preciso de um banho de verdade, o que parece impossível.
Alguém está parado ao meu lado.
Pisco os olhos várias vezes, mas só consigo visualizar o perfil da pessoa. Um rosto fica entrando e saindo de foco várias vezes até que finalmente desisto. Meus olhos se fecham. Minha cabeça parece que vai explodir. A dor está dilacerando meus ossos e subindo pelo meu pescoço; tons vermelhos, amarelos e azuis se mesclam sob minhas pálpebras. Percebo apenas trechos de uma conversa perto de mim.
— parece que está surgindo uma febre...
— talvez sedá-lo...
— quantas ele tomou?...
Eles vão me matar, eu percebo. É a oportunidade perfeita. Estou fraco e incapaz de me defender, e alguém finalmente chegou para me eliminar. É isso. Meu momento. Chegou. E de certo modo não consigo aceitar o fato.
Dou uma pancada forte em direção às vozes; um som inumano escapa da minha garganta. Algo duro bate no meu punho e cai no chão. Mãos estranhas agarram meu braço direito e me seguram no lugar.
Alguma coisa está me prendendo em volta dos tornozelos, do meu punho. Estou me debatendo contra essas novas amarras e chutando o ar como um louco. A escuridão parece estar descendo sobre meus olhos, meus ouvidos, minha garganta. Não consigo respirar, escutar ou enxergar com clareza, e o sufoco desse momento é tamanho e tão apavorante que tenho certeza que enlouqueci.
Alguma coisa fria e pontuda belisca meu braço.
Só tenho um momento para refletir naquela dor antes que ela tome conta de mim.

2 comentários:

  1. Affs q raiva da Juju, olha o tanto q o mozão sofreu POR CULPA DAQUELA VAKA CRETINA QUE EU AMO Ò.Ó

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Boa leitura :)