23 de dezembro de 2016

5

Não sei quando isso começou.
Não sei por que isso começou.
Não sei nada de nada a não ser dos gritos.
Minha mãe gritando quando ela percebeu que não poderia mais me tocar. Meu pai gritando quando ele percebeu o que eu fizera com minha mãe. Meus pais gritando quando me trancaram em meu quarto e me disseram que eu deveria ser grata. Por sua comida. Pelo tratamento humano dedicado a esta coisa que não era possível que fosse filha deles. Pelo parâmetro que eles usaram para determinar a distância que eu devia ficar.
Arruinei a vida deles — é o que me diziam.
Roubei sua felicidade. Destruí para sempre a esperança de minha mãe de ter filhos novamente.
Eu não conseguia enxergar o que tinha feito? — é o que eles me perguntavam. Eu não conseguia enxergar que tinha estragado tudo?
Tentei tanto consertar o que eu tinha estragado. Tentei todo santo dia ser o que eles queriam. Tentei o tempo todo ser melhor, mas de fato nunca soube como.
Somente agora sei que os cientistas estão errados.
O mundo é achatado.
Sei por que fui atirada da margem do planeta e há dezessete anos ando tentando me segurar. Há dezessete anos tenho tentado escalar de volta, mas é quase impossível superar a gravidade quando ninguém está disposto a lhe dar a mão.
Quando ninguém quer correr o risco de tocar em você.
Hoje está nevando.
O concreto está gelado e mais rígido que o normal, mas eu prefiro estas temperaturas congelantes à umidade sufocante dos dias de verão. O verão é como um fogão lento capaz de fazer ferver todas as coisas do mundo um grau de cada vez. Ele é a promessa de um milhão de adjetivos felizes apenas para fazer emanar fedor e esgoto para seu nariz durante o jantar. Odeio o calor e o suor pegajoso nas costas. Odeio o fastio indiferente de um Sol preocupado demais consigo mesmo para se dar conta das infinitas horas que passamos em sua presença. O Sol é uma coisa arrogante, sempre vendo o mundo pelas costas quando se cansa de nós.
A Lua é uma companheira correta.
Ela nunca se vai. Está sempre lá, observando, constante, reconhecendo-nos em nossos momentos de luz e escuridão, em constante transformação, assim como nós. Todos os dias uma versão diferente dela mesma. Às vezes fraca e lívida, noutras forte e cheia de luz. A Lua compreende o significado de ser humano.
Inconstante. Solitária. Esburacada de imperfeições. Estendo a mão para pegar um floco de neve e minha mão se fecha no ar gelado. Vazia.
Quero que esta mão ligada a meu punho atravesse direto a janela.
Apenas para sentir algo.
Apenas para sentir-me humana.

— Que horas são?
Meus olhos tremulam por um momento. Sua voz me puxa de volta para um mundo que continuo tentando esquecer.
— Eu não sei — digo-lhe. Não faço ideia de que horas são. Não faço ideia de qual é o dia da semana, em que mês estamos, ou mesmo se existe uma estação específica em que devíamos estar.
Não temos mais estações propriamente ditas.
Os animais estão morrendo, os pássaros não voam, as colheitas são difíceis de obter, as flores quase não existem. O tempo não é confiável. Às vezes os dias de inverno atingem 33 graus. Às vezes neva por razão nenhuma. Não conseguimos mais produzir alimento suficiente, não conseguimos mais manter vegetação suficiente para os animais, e não conseguimos alimentar as pessoas com aquilo de que elas precisam. Nossa população estava morrendo a uma taxa alarmante antes de O Restabelecimento tomar o comando com a promessa de que tinham uma solução. Os animais estavam tão desesperados por comida que estavam dispostos a comer qualquer coisa, e as pessoas estavam tão desesperadas por comida que estavam dispostas a comer animais envenenados. Estávamos nos matando na tentativa de permanecermos vivos. O tempo, as plantas e a sobrevivência humana são indissociáveis. Os elementos naturais estavam em guerra uns com os outros porque abusávamos de tudo. Abusávamos de nossa atmosfera. Abusávamos de nossos animais. Abusávamos de nosso semelhante.
O Restabelecimento prometeu que consertaria as coisas. No entanto, mesmo que a saúde humana tenha encontrado um pouquinho de alívio sob o novo regime, no fim das contas morreram mais pessoas de uma arma carregada que de um estômago vazio. E está ficando pior.
— Juliette?
Levanto bruscamente a cabeça.
Seus olhos estão desconfiados, preocupados, analisando-me. Desvio o olhar.
Ele limpa a garganta.
— Então, hum, apenas nos dão de comer uma vez ao dia?
Sua pergunta faz que nossos olhos se voltem para a pequena fenda na porta.
Trago os joelhos até o peito e equilibro meus ossos sobre o colchão. Se me mantiver muito, muito parada, quase consigo ignorar o metal cavando-me a pele.
— Não há sistema quanto à comida — digo-lhe. Meu dedo traça uma nova forma debaixo do material áspero de que é feito o cobertor. — Costuma-se ter algo pela manhã, mas quanto ao resto não há garantias. Às vezes... damos sorte.
Meus olhos se erguem à vidraça perfurada na parede. Tons rosa e vermelho insinuam-se dentro do quarto e eu sei que é o início de um novo começo. O início de um mesmo fim. Outro dia.
Talvez eu morra hoje.
Talvez um pássaro voe hoje.
— Então isso, é? Eles abrem a porta uma vez ao dia para as pessoas fazerem suas necessidades e talvez, se tivermos sorte, eles nos alimentam? É isso?
O pássaro será branco com listras de ouro igual a uma coroa sobre sua cabeça. Ele voará.
— É isso.
— Não tem... terapia de grupo? — Ele quase ri.
— Até você chegar, fazia 264 dias que eu não falava uma única palavra.
Seu silêncio diz muito. Quase que eu podia estender a mão e tocar a culpa crescente sobre seus ombros.
— Há quanto tempo você está aqui? — pergunta ele finalmente.
— Sempre. Não sei. — Um som mecânico range/geme/chia a distância. Minha vida é como quatro paredes de oportunidades perdidas entornadas em moldes de concreto.
— E quanto à sua família? — Há uma grave aflição em sua voz, quase como se já soubesse a resposta a essa pergunta.
Eis aqui o que sei sobre meus pais: não faço ideia de onde estão.
— Por que você está aqui? — Falo com meus dedos para evitar seu olhar. Examinei minhas mãos tão perfeitamente que sei exatamente onde cada corte e cada escoriação devastaram minha pele. Mãos pequenas. Dedos delgados. Cerro-os em punho e liberto-os para fazer perder a tensão. Ele ainda não respondeu.
Levanto os olhos.
— Eu não sou louco — é tudo o que ele diz.
— É o que todos nós dizemos. — Ergo a cabeça apenas para movimentá-la alguns milímetros. Mordo o lábio. Meus olhos não podem evitar lançar-se furtivamente para fora da janela.
— Por que você tanto olha para fora?
Não me importo com suas perguntas, não mesmo. Só é estranho ter alguém com quem conversar. É estranho ter de exercer energia para mover meus lábios à formação de palavras necessárias para explicar minhas ações. Ninguém se preocupou por muito tempo. Ninguém me observou o bastante para se perguntar por que encaro o lado de fora da janela. Ninguém jamais me tratou como igual. Mas ele não sabe que sou um monstro meu segredo. Me pergunto por quanto tempo isso vai durar antes de ele fugir para salvar a própria vida.
Esqueci de responder e ele ainda está me estudando.
Escondo uma mecha de cabelo atrás da orelha apenas para mudar as ideias.
— Por que você olha tanto?
Seus olhos são dois microscópios analisando as células de minha existência. Aplicados, curiosos.
— Imaginava que a única razão para que me trancassem com uma garota era porque você estava doida. Pensei que estavam tentando me torturar me botando no mesmo espaço de uma psicopata. Pensei que você fosse minha punição.
— É por isso que roubou minha cama. — Para exercer poder. Para demarcar território. Para adiantar-se à batalha.
Ele deixa os olhos caírem. Aperta e desaperta as mãos antes de esfregar a nuca.
— Por que você me ajudou? Como sabia que eu não ia machucá-la?
Conto meus dedos para ter certeza de que eles ainda estão lá.
— Nada disso.
— Você não me ajudou ou você não sabia se eu a machucaria?
— Adam. — Meus lábios curvam-se para dar forma a seu nome. Estou surpresa por descobrir o quanto amo a maneira fácil e familiar com que o som se desenrola de minha língua.
Ele está sentado quase tão imóvel quanto eu. Seus olhos concentram um novo tipo de emoção que não consigo adivinhar.
— Sim?
— Como é? — pergunto, cada palavra menos audível que a anterior. — Lá fora? No mundo real. É pior?
Uma dor desfigura as feições bem definidas de seu rosto. Ele leva algumas batidas de coração para responder. Ele olha para fora da janela.
— Honestamente? Não tenho certeza se é melhor estar aqui dentro ou lá fora.
Acompanho seus olhos até a vidraça que nos separa da realidade e espero seus lábios cindirem; espero para escutá-lo falar. E então tento prestar atenção enquanto suas palavras se movem no nevoeiro de minha cabeça, nublando meus sentidos, obscurecendo meus olhos, turvando minha concentração.
— Você sabia que era um movimento internacional? — Adam me pergunta.
— Não, não sabia — digo-lhe. Não lhe conto que fui arrastada de minha casa há três anos. Não lhe conto que fui arrastada exatamente sete anos depois que O Restabelecimento começou a pregar e quatro meses depois que tomaram o controle de tudo. Não lhe conto o quão pouco sei de nosso mundo novo.
Adam diz que O Restabelecimento tinha sua participação em cada país, pronto para o momento de alçar seus líderes a uma posição de controle. Ele diz que a terra habitável que sobrou no mundo foi dividida em 3.333 setores, cujo controle é executado por uma pessoa de poder diferente em cada área.
— Sabia que eles nos enganaram? — Adam me pergunta. — Sabia que O Restabelecimento disse que alguém tinha de assumir o controle, que alguém tinha de salvar a sociedade, que alguém tinha de restaurar a paz? Sabia que disseram que matar todas as vozes de oposição era o único modo de encontrar a paz? Sabia disso? — É o que Adam me pergunta.
E aqui é onde eu aceno. Aqui é onde eu digo sim.
Aqui é a parte de que me lembro. A raiva. A desordem. A fúria.
Meus olhos se fecham em um esforço subconsciente a fim de bloquear as memórias ruins, mas o esforço sai pela culatra. Protestos. Comícios. Gritos por sobrevivência. Vejo mulheres e crianças morrendo de fome, casas destruídas e enterradas em cascalhos, o campo, uma paisagem incendiada, seu único fruto, a carne apodrecida das vítimas. Vejo morte morte morte e vermelho e vinho de Borgonha e marrom e o tom mais profundo do batom favorito de mãe todo borrado na terra.
Tanto de tudo que estivesse morto.
O Restabelecimento esforça-se para manter seu domínio sobre o povo, Adam diz. Ele diz que O Restabelecimento se esforça na guerra contra os rebeldes que não se sujeitam a este novo regime. O Restabelecimento esforça-se para firmar-se como uma nova forma de governo em todas as sociedades internacionais.
E então me pergunto o que teria acontecido com as pessoas que costumava ver no meu dia a dia. O que foram de suas casas, seus pais, seus filhos. Pergunto quantos deles foram sepultados no solo.
Quantos deles foram assassinados.
— Estão destruindo tudo — diz Adam, e sua voz subitamente soa solene no silêncio. — Todos os livros, todos os artefatos, todos os vestígios de história humana. Estão dizendo que é o único jeito de consertar as coisas. Dizem que precisamos começar do zero. Dizem que não podemos cometer os mesmos erros das gerações passadas.
Duas pancadas na porta e nós dois estamos de pé, trazidos bruscamente de volta a este mundo desolador.
Adam eleva uma sobrancelha para mim.
— Café da manhã?
— Espere três minutos — recordo-o. Estamos indo tão bem em mascarar a fome, até que as pancadas na porta vêm e tolhem-nos a dignidade.
Eles nos deixam famintos de propósito.
— Sim. — Seus lábios esboçam um suave sorriso. — Não quero me queimar. — O ar se desloca conforme ele se aproxima.
Sou uma estátua.
— Ainda não compreendo — diz ele, bastante sereno. — Por que você está aqui?
— Por que você faz tantas perguntas?
Ele deixa pouco espaço entre nós e eu estou a alguns centímetros da combustão instantânea.
— Seus olhos são tão profundos. — Ele inclina a cabeça. — Tão calmos. Gostaria de saber em que você está pensando.
— Você não deve. — Minha voz vacila. — Você nem me conhece.
Ele ri e o gesto concede vida à luz em seus olhos.
— Não conheço você.
— Não.
Ele balança a cabeça. Senta-se na cama.
— Certo. Claro que não.
— O quê?
— Você está certa. — Ele toma fôlego. — Talvez eu seja louco.
Dou dois passos para trás.
— Talvez você seja.
Ele está sorrindo novamente e eu gostaria de tirar uma foto. Gostaria de fitar-lhe a curva dos lábios pelo resto de minha vida.
— Eu não sou, você sabe.
— Mas você não me conta por que está aqui — desafio.
— E nem você.
Caio de joelhos e puxo a bandeja através da fenda. Algo não identificável está soltando vapor em dois copos de lata. Adam ajoelha-se no chão, diante de mim.
— Café da manhã — digo, enquanto lhe empurro sua porção.

13 comentários:

  1. Respostas
    1. mesmo q o tempo que nós lemos possa ser menos de um minuto, os diálogos podem durar mais, o tempo q eles ficam em silêncio e encarando o nada ou um ao outro pode ser maior (e lembrando q ela já ta meio pirada)

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  2. Esses dois se conhecem sim, aposto

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  3. Oi sou defici ênte visual estou adorando o livro.

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  4. Os elementos naturais estavam em guerra uns com os outros porque abusávamos de tudo. Abusávamos de nossa atmosfera. Abusávamos de nossos animais. Abusávamos de nosso semelhante.

    Este livro é tão profundo ( e tão misterioso )
    Pra falar a verdade, eu acho que eles se conhecem..

    * Lanna *

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  5. O pessoal da biologia ia pirar com este capítulo, até vejo as longas discussões filosóficas acerca do antropocentrismo e suas conseqüências 😵

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  6. Eu sou a louca que nunca mais leu um livro que n fosse de terror e nunca mais shippou ninguém.

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  7. — Você não deve. — Minha voz vacila. — Você nem me conhece.
    Ele ri e o gesto concede vida à luz em seus olhos.
    — Não conheço você.
    — Não.
    Ele balança a cabeça. Senta-se na cama.
    — Certo. Claro que não.

    Nem tinha entedido :3 Mas aqui foi tão bonitinho :3

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  8. Vai demorar pra se beijarem?
    Vamo adiantar isso ae

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  9. to achando que são irmaos

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Boa leitura :)