29 de dezembro de 2016

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A porta está estraçalhada ao meio. Exatamente como se feito por um animal. É verdade.
Para um observador despreparado, essa seria a única explicação, mas nem assim isso faria sentido.
Nenhum animal vivo poderia destroçar todas essas camadas de aço reforçado sem amputar seus próprios membros.
E ela não é um animal.
Ela é uma criatura meiga e mortal. Gentil, tímida e assustadora. Ela está completamente fora de controle e não tem nem ideia do que é capaz de fazer. E muito embora me odeie, não consigo deixar de estar fascinado por ela. Estou encantado pela sua pretensa inocência; até mesmo invejoso do poder que ela detém tão despretensiosamente. Queria tanto fazer parte do seu mundo. Quero saber o que se passa na sua mente, sentir o que ela sente. Deve ser um peso terrível de se carregar.
E agora, ela está solta lá fora, em algum lugar, liberta na sociedade.
Que belo desastre.
Deslizo meus dedos pelas bordas farpadas do buraco, com cuidado para não me cortar. Não houve nenhum planejamento naquilo, nenhuma premeditação. Somente um fervor angustiante, aparentemente pronto a destruir essa porta. Fico imaginando se ela sabia o que estava fazendo quando tudo aconteceu, ou se foi simplesmente tão inesperado para ela como naquele dia que rompeu aquela parede de concreto para chegar a mim.
Tenho que segurar um sorriso. Imagino o que ela se lembra daquele dia. Todo soldado com o qual trabalhei passou por uma simulação sabendo exatamente o que esperar, mas, propositadamente, ocultei os detalhes dela. Acreditava que a experiência deveria ser a mais realista possível; esperava que os elementos realistas disponíveis fossem conferir autenticidade ao evento. Mais do que qualquer outra coisa, queria que ela tivesse uma oportunidade para explorar sua verdadeira natureza — exercitar sua força num espaço seguro — e, devido ao seu passado, eu sabia que uma criança seria a motivação perfeita. Mas nunca poderia ter previsto resultados tão revolucionários. Seu desempenho foi além de todas as minhas expectativas. E embora eu quisesse discutir os efeitos com ela mais tarde, quando a encontrei ela já estava planejando sua fuga.
Meu sorriso fraqueja.
— Gostaria de entrar, senhor? — A voz de Delalieu me traz de volta ao presente. — Não há muito para se ver lá dentro, mas é interessante perceber que o buraco é do tamanho exato para alguém poder passar. Parece claro para mim, senhor, qual era o objetivo.
Aceno com a cabeça, distraído. Meus olhos catalogam cuidadosamente as dimensões do buraco; tento imaginar como deve ter sido para ela estar aqui, tentando abrir passagem. Desejo desesperadamente conversar com ela sobre tudo isso.
Meu coração dá um salto repentino.
Lembro mais uma vez que ela não está mais comigo. Ela não vive mais na base.
A culpa por ela ter partido é minha. Acreditei que ela estava finalmente indo bem, e isso atrapalhou minha avaliação. Eu deveria estar prestando mais atenção aos detalhes. Aos meus soldados. Perdi a noção de quais eram meus objetivos e minha maior razão; o verdadeiro motivo de trazê-la para a base. Fui um idiota. Descuidado.
Mas a verdade é que eu estava distraído.
Por ela.
Quando ela chegou, era tão teimosa e infantil, mas à medida que as semanas passaram ela pareceu se adaptar; parecia menos ansiosa, e de certo modo estava menos assustada. Tento me lembrar de que seus progressos não tiveram nada a ver comigo.
Tinham a ver com Kent.
Uma traição que de algum modo parecia impossível. Que ela fosse me trocar por um ser robótico, um idiota sem sentimentos como o Kent. Seus pensamentos são tão vazios, tão sem sentido; é como conversar com uma lâmpada de mesa. Não entendo o que ele pode ter oferecido a ela, o que ela deve ter visto nele, a não ser como um instrumento de fuga.
Ela ainda não entendeu que não há futuro para ela no mundo das pessoas comuns. Ela não tem lugar na companhia de pessoas que nunca a entenderão. E eu tenho que pegá-la de volta.
Só percebo que disse essas últimas palavras em voz alta quando Delalieu diz:
— Temos tropas por todo o setor procurando por ela — ele explica. — E já alertamos os setores vizinhos, no caso do grupo deles atravessar...
— O que? — Dou meia volta, minha voz baixa e ameaçadora. — O que você acabou de dizer?
O rosto de Delalieu se transformou numa máscara branca.
— Fiquei inconsciente por uma noite! E vocês já alertaram os outros setores dessa catástrofe...
— Imaginei que o senhor quisesse encontrá-los, senhor, e pensei, se eles forem buscar refúgio em algum outro lugar...
Faço uma pausa para respirar, para me concentrar.
— Sinto muito, senhor, achei que seria mais seguro...
— Ela está com dois dos meus próprios soldados, tenente. Nenhum deles é tão burro a ponto de levá-la para outro setor. Eles não têm nem as ferramentas, nem a permissão para poder atravessar a fronteira do setor.
— Mas...
— Eles partiram há um dia. Estão terrivelmente feridos e precisam de ajuda. Estão viajando a pé e com um veículo roubado fácil de ser rastreado. Qual a distância — pergunto a ele, a frustração aparecendo na minha voz — que eles devem ter percorrido?
Delalieu não diz nada.
— Você enviou um alerta nacional. Notificou múltiplos setores, o que significa que o país todo sabe agora o que aconteceu. Isso significa que as Capitais receberam a notícia. O que significa isso? — Cerro os punhos. — O que acha que isso significa, tenente?
Por um instante ele não consegue dizer nada.
Então:
— Senhor — ele fala sobressaltado. — Por favor, me perdoe.

7 comentários:

  1. Tadinho do Delalieu. Tava bem intencionado.

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  2. Ele tem boas intenções, mas é como o ditado diz: "De boas intenções o inferno ta cheio"
    Não sei se odeio ele ou se amo.

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  3. Acho que o Delalieu é pai do Warner ou do Adam 😑

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    1. Não tem como ser o pai de Warner, e acho que no primeiro livro, Adam disse que o pai dele havia morrido... Acho que Delalieu seja apenas um "amigo" dele e do pai dele, já que se conheceram antes mesmo do mundo entrar em "desordem". Pode ser que eu esteja falando besteira, mas sei lá...

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    2. Por que não tem como o Delalieu ser pai do Warner? Também acho que deve ser o pai biológico dele. Essa devoção toda parece ser desde que o Warner era criança.

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  4. Afinal aquilo que aconteceu com a criança foi tudo uma simulação. Warner pode ser um pouco louco mas não é nenhum monstro.

    -Lippa

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  5. Dalileu e judiado dms...Tadinho so estava tentando ajudar neh T -T

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Boa leitura :)