23 de dezembro de 2016

48

Castle usa a chave em sua mão para abrir a porta.
— Por que a ala médica tem que ser trancada? — pergunto a ele.
Ele se vira para mim. Ele não é muito alto, percebo pela primeira vez.
— Se você soubesse onde encontrá-lo, você teria esperado paciente- mente atrás desta porta?
Baixo meus olhos. Não respondo. Espero não estar corando.
Ele tenta ser encorajador.
— A cura é um processo delicado. Ela não pode ser interrompida ou influenciada por emoções instáveis. Temos muita sorte de termos duas curadoras entre nós... gêmeas, na verdade. Mas o mais fascinante é que cada uma delas se concentra em um elemento diferente... uma nas incapacitações físicas, e a outra nas mentais. Ambas as facetas devem ser abordadas, caso contrário a cura será incompleta, frágil, insuficiente. — Ele se volta para a maçaneta da porta. — Mas eu acho que é seguro para Adam vê-la agora.
Entro, e meus sentidos são quase imediatamente assaltados pela essência de jasmim. Examino o espaço à procura das flores, mas não encontro nenhuma. Pergunto-me se é de um perfume. É inebriante.
— Estarei do lado de fora — Castle diz para mim.
O quarto está repleto de uma longa fila de leitos, fabricados de forma simples. Todos os vinte, aproximadamente, estão vazios, exceto o de Adam. Há uma porta ao final do quarto que provavelmente leva a outro espaço. Mas agora estou nervosa demais para ficar curiosa.
Puxo uma cadeira e tento ser o mais silenciosa possível. Não quero acordá-lo, quero saber se ele está bem. Entrelaço e desentrelaço as mãos. Estou bem consciente do meu coração acelerado. E eu sei que talvez não devesse tocá-lo, mas não consigo me segurar. Cubro sua mão com a minha. Seus dedos estão quentes.
Seus olhos se agitam por apenas um instante. Eles não se abrem. Ele respira subitamente e eu congelo.
Quase desmorono em lágrimas.
— O que você está fazendo?
Meu pescoço se vira bruscamente ao som da voz, em pânico, de Castle.
Solto a mão de Adam. Afasto-me da cama, olhos arregalados, preocupada.
— Como assim?
— Por que você... você só... você pode tocar nele...? — Nunca pensei que veria Castle tão confuso, tão perplexo. Ele perdeu sua compostura, uma mão meio estendida em uma tentativa de me impedir.
— Claro que posso toc... — Paro. Tento me acalmar. — Kenji não lhe disse?
— Este jovem tem imunidade ao seu toque? — As palavras de Castle são sussurradas, atônitas.
— Sim. — Meus olhos passam dele para Adam, ainda dormindo. Isso também acontece com Warner.
— Isso é... espantoso.
— É?
— Muito. — Os olhos de Castle estão luminosos, tão intensos. — Seguramente não é uma coincidência. Não existe coincidência nesse tipo de situação. — Ele faz uma pausa. Anda a passos lentos. — Fascinante. Tantas possibilidades, tantas teorias... — Ele nem está mais falando comigo. Sua mente está trabalhando muito rapidamente para que eu acompanhe. Ele respira fundo. Parece se lembrar de que eu ainda estou na sala. — Minhas desculpas. Por favor, continue. As garotas sairão em breve... elas estão assistindo James no momento. Devo relatar esta nova informação o mais rápido possível.
— Espere...
Ele levanta os olhos.
— Sim?
— Você tem teorias? — pergunto a ele. — Você... você sabe por que essas coisas estão acontecendo... comigo?
— Você quer dizer conosco? — Castle me oferece um sorriso gentil.
Tento não corar. Consigo e faço um sim com a cabeça.
— Há anos temos feito extensas pesquisas — diz ele. — Pensamos ter uma boa ideia sobre isso.
— E? — Mal consigo respirar.
— Se você decidir ficar no Ponto Ômega, teremos essa conversa muito em breve, prometo. Além disso, estou certo de que agora não é o melhor momento. — Ele acena para Adam.
— Ah. — Sinto meu rosto pegar fogo. — É claro.
Castle se vira para ir embora.
— Mas você não acha que Adam. — As palavras saem muito rapidamente da minha boca. Tento me tranquilizar. — Você acha que ele também... é como nós?
Castle se vira de volta. Estuda meus olhos.
— Penso... — diz ele cuidadosamente — que é totalmente possível.
Sobressalto-me.
— Desculpe — diz ele —, mas eu realmente devo ir. E não queria interromper o momento de vocês.
Quero dizer sim, claro, evidentemente. Quero sorrir e acenar e dizer-lhe que não tem problema. Mas eu tenho tantas perguntas, sinto que posso explodir; quero que ele me diga tudo o que sabe.
— Sei que é muita informação para receber de uma vez só. — Ele faz uma pausa junto à porta. — Mas vamos ter muitas oportunidades para conversar. Você deve estar exausta e estou certo de que você gostaria de dormir um pouco. As garotas vão cuidar de você... elas a estão esperando. Na realidade, elas serão suas novas companheiras de quarto aqui no Ponto Ômega. Tenho certeza de que elas ficarão felizes em responder a quaisquer perguntas que você tenha. — Ele aperta meus ombros antes de ir. — É uma honra tê-la conosco, senhorita Ferrars. Espero que você considere seriamente juntar-se à nossa base permanente.
Faço que sim com a cabeça, entorpecida.
E ele se foi.
“Há anos temos feito extensas pesquisas”, disse ele. “Pensamos ter uma boa ideia sobre isso”, disse ele. “Teremos essa conversa muito em breve, prometo.”
Pela primeira vez na minha vida, pude finalmente compreender o que eu sou, e isso não parece possível. E Adam. Adam. Estremeço e sento-me ao lado dele. Aperto os dedos. Castle poderia estar errado. Talvez isso tudo seja coincidência.
Tenho de me concentrar.
Pergunto-me se alguém ouviu falar de Warner nos últimos tempos.
—  Juliette?
Seus olhos estão semicerrados. Ele está olhando para mim como se não tivesse certeza de que sou real.
— Adam! — Tenho de me forçar para ficar tranquila.
Ele sorri e o esforço parece exauri-lo.
— Deus, como é bom vê-la.
— Você está bem. — Seguro sua mão, resisto à vontade de puxá-lo para os meus braços. — Você está bem mesmo.
Seu sorriso fica maior.
— Estou tão cansado. Sinto como se pudesse dormir por anos.
— Não se preocupe, o sedativo vai passar em breve.
Viro-me. Duas garotas com exatamente os mesmos olhos verdes estão nos fitando. Elas sorriem ao mesmo tempo. Seus longos cabelos castanhos são grossos e elas têm altos rabos de cavalo na cabeça. Elas estão vestindo collants prateados parecidos. Sapatilhas de bailarina douradas.
— Sou Sonya — diz a garota da esquerda.
— Sou Sara — acrescenta sua irmã.
Não faço ideia de como diferenciá-las.
— É muito bom conhecê-la — dizem exatamente ao mesmo tempo.
— Sou Juliette — consigo dizer. — Também é um prazer conhecê-las.
— Adam está quase pronto para a alta — diz uma delas para mim.
— Sonya é uma excelente curadora — a outra entra na conversa.
— Sara é melhor que eu — diz a primeira.
— Ele deve estar bem para ter alta assim que o efeito do sedativo passar — dizem juntas, sorrindo.
— Ah... isso é ótimo... muito obrigada... — Não sei para quem olhar. Para quem responder. Olho novamente para Adam. Ele parece estar se divertindo muito.
— Onde está James? — pergunta ele.
— Ele está brincando com as outras crianças. — Acho que é Sara quem diz isso.
— Acabamos de levá-lo ao banheiro — diz a outra.
— Você gostaria de vê-lo? — Volta para Sara.
— Há outras crianças? — Meus olhos são mais amplos que meu rosto.
As garotas fazem que sim ao mesmo tempo.
— Vamos pegá-lo — as duas dizem em coro. E desaparecem.
— Elas parecem legais — diz Adam depois de um momento.
— Sim. Elas parecem. — Todo este lugar parece legal.
Sonya e Sara voltam com James, que parece mais feliz do que já o vi estar, quase mais feliz que ao ver Adam naquela primeira vez, na porta de sua casa. Ele está empolgadíssimo por estar aqui. Empolgadíssimo por estar com outras crianças, empolgadíssimo por estar com “as lindas garotas que cuidam de mim porque elas são muito legais e tem muita comida e eles me deram chocolate, Adam... você já experimentou chocolate?” e ele tem uma cama grande e amanhã ele vai às aulas com as outras crianças e ele já está animado.
— Estou tão feliz de ver que você está acordado — diz para Adam, praticamente pulando sobre a cama. — Eles disseram que você ficou doente e que você estava descansando e agora você está acordado então isso quer dizer que você está melhor, certo? E nós estamos a salvo? Não me lembro mesmo do que aconteceu no nosso caminho até aqui — admite ele, um pouco constrangido. — Acho que caí no sono.
Acho que Adam está pronto para quebrar o pescoço de Kenji neste exato momento.
— Sim, estamos a salvo — diz Adam para ele, passando a mão por seu cabelo loiro bagunçado.
James volta correndo para o quarto de jogos na companhia das outras crianças. Sonya e Sara inventam uma desculpa para sair, de modo que temos alguma privacidade. Estou gostando dele mais e mais.
— Alguém já lhe contou sobre este lugar? — pergunta Adam para mim. Ele consegue se sentar. Seus lençóis escorregam. Seu peito é exposto. Sua pele está perfeitamente curada... mal consigo conciliar a imagem que tenho na memória com a que está na minha frente. Esqueço-me de responder à sua pergunta.
— Você não tem cicatrizes. — Toco sua pele como se eu mesma precisasse senti-la.
Ele tenta sorrir.
— Eles não são muito tradicionais em suas práticas médicas por aqui.
Levanto os olhos, surpresa.
— Você... sabe?
— Você já conheceu Castle?
Faço que sim com a cabeça, perplexa.
Ele muda de posição. Suspira.
— Há muito tempo escuto rumores sobre este lugar. Fiquei especialista em ouvir sussurros principalmente porque precisava me proteger. Mas no exército escutamos coisas. Todo e qualquer tipo de ameaça inimiga. Possíveis emboscadas. Havia um falatório sobre um raro movimento subterrâneo na época de meu alistamento. A maioria disse que isso era uma besteira. Que era algum tipo de lixo inventado para assustar as pessoas... que não havia como ser real. Mas sempre tive esperanças de que isso tivesse uma base verdadeira, só não sabia para quem perguntar. Não tinha contatos... meios de saber como encontrá-los. — Ele sacudiu a cabeça. — Se não fosse por Kenji...
— Ele disse que estava procurando por mim.
Adam assente com a cabeça. Ri.
— Assim como eu procurava por você. Assim como Warner procurava por você.
— Não entendo — resmungo. — Especialmente agora que sei que existem outros como eu... mais fortes, até... por que Warner queria a mim?
— Ele descobriu você antes de Castle — diz Adam. — É como se ele a reivindicasse há muito tempo. — Adam se recosta. — Warner é um monte de coisas, mas não é estúpido. Estou certo de que ele sabia haver alguma verdade naqueles rumores... e ele estava fascinado, porque, tanto quanto Castle queria usar suas habilidades para o bem, Warner queria manipular essas habilidades em causa própria. Ele queria se tornar algum tipo de superpotência. — Uma pausa. — Ele investiu muito tempo e energia apenas estudando você. Não acho que ele queira ver todo esse esforço indo pelo ralo.
— Adam — sussurro.
Ele pega minha mão.
— Sim?
— Não acho que ele esteja morto.

12 comentários:

  1. Espero que ele não esteja <3 kkkkkk

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    1. Tbm espero que não <3

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    2. ja eu espero que sim...Pena que não está !!! (segundo minhas intuições) :(

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  2. Certeza que ele ta vivo, vaso ruim não quebra

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  3. kkkkkkkkkk ele é meio pirado mas eu sinto pena dele

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  4. Qria ver a reação do Kent quando ele souber do que a Juliete fez com o doidão lá

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    1. Kkkkkk tbm quero ver a reação dele... se ela contar.

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  5. isso esta ficando parecido com o livro Predestinados

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  6. Espero que ele esteja vivo porque a história fica bem melhor com ele e seus comentários e suas caras e bocas.

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  7. Chocolate de novo... olha aí! Essa autora é chocólatra.
    Warner vivo SIM!!!

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  8. Eu espero q ele esteja bem vivo -_-''' eu sabia q o Adam pode ter algum dom e tenho certeza q o Warner também tem *0* eu amei o Ponto Ômega *-*

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  9. — Isso é... espantoso.
    — É?
    — Muito. — Os olhos de Castle estão luminosos, tão intensos. — Seguramente não é uma coincidência. Não existe coincidência nesse tipo de situação. — Ele faz uma pausa. Anda a passos lentos. — Fascinante. Tantas possibilidades, tantas teorias... — Ele nem está mais falando comigo. Sua mente está trabalhando muito rapidamente para que eu acompanhe. Ele respira fundo. Parece se lembrar de que eu ainda estou na sala. — Minhas desculpas. Por favor, continue. As garotas sairão em breve... elas estão assistindo James no momento. Devo relatar esta nova informação o mais rápido possível.



    Lembrei do vampiro Eleazar quando descobre sobre o dom de Bella em "Amanhecer" kkk

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Boa leitura :)