23 de dezembro de 2016

45

Sinto-me uma palhaça nestas roupas extragrandes. Estou usando a camiseta de alguém. Calças do pijama de alguém. Chinelos de alguém. Kenji diz que eles tiveram de destruir também as roupas que estava dentro da mochila de acampamento, de tal modo que não faço ideia de quem sejam as roupas que, no momento, estão penduradas no meu corpo. Estou praticamente flutuando no tecido.
Tento dar nós no pano, mas Kenji me impede.
— Você vai detonar minha camiseta — reclama.
Baixo as mãos.
— Você me deu roupas suas?
— Ora, o que você esperava? A gente não costuma ter vestidos a mais espalhados por aí. — Ele me lança um olhar, como se eu devesse estar grata ele dividir suas roupas comigo.
Bem. Acho que é melhor que ficar nua.
— Então, mais uma vez, quem é Castle?
— Ele é responsável por tudo — Kenji diz para mim. O mentor de todo este movimento.
Meus ouvidos se levantam.
— Movimento?
Winston suspira. Ele parece tão tenso. Gostaria de saber o porquê.
— Se Kenji ainda não lhe disse nada, você deveria esperar para ouvir diretamente de Castle. Aguenta aí. Prometo que vamos responder a suas perguntas.
— Mas e quanto a Adam? Onde está James...
— Opa. — Winston passa uma mão pelo cabelo desleixado. — Você não vai simplesmente desistir, não é?
— Ele está bem, Juliette — intervém Kenji. — Ele só precisa de um pouco mais de tempo para se recuperar. Você tem que começar a confiar em nós. Ninguém aqui vai machucá-la, ou machucar Adam, ou James. Os dois estão bem. Tudo está bem.
Mas eu não sei se eles estão bem é bom o bastante.
Estamos caminhando por uma cidade subterrânea completa, corredores e travessias, pisos de pedra lisa, paredes ásperas mantidas intactas. Há discos circulares perfurados no chão, brilhando com luz artificial a cada poucos metros. Reparo em computadores, todos os tipos de engenhoca que não sou capaz de identificar, portas abertas revelam salas repletas de nada senão maquinário tecnológico.
— Como se encontra eletricidade necessária para fazer este lugar funcionar? — Olho mais de perto as máquinas não identificáveis, as telas tremulantes, o inconfundível zunido de centenas de computadores embutidos no âmbito deste mundo subterrâneo.
Kenji puxa uma mecha desgarrada de meu cabelo. Eu me viro.
— Confiscamos isso. — Ele sorri. Acena para um caminho estreito. — Por aqui.
Pessoas jovens e velhas, e de todas as diferentes feições e etnias, misturam-se entrando e saindo de salas, ao longo dos corredores. Muitas delas nos encaram, muitas delas estão distraídas demais para reparar em nós. Algumas delas estão vestidas como os homens e as mulheres que se precipitaram em direção ao nosso carro na noite passada. É um tipo estranho de uniforme. Parece desnecessário.
— Então... todo mundo se veste assim? — Sussurro, gesticulando o mais discretamente possível por causa dos estranhos que passam.
Kenji coça a cabeça. Leva tempo para responder.
— Não todo mundo. Não o tempo todo.
— E quanto a você? — pergunto a ele.
— Hoje não.
Decido não ceder a suas tendências enigmáticas e, em vez disso, faço mais uma pergunta direta.
— Então você nunca vai me dizer como você se curou tão depressa?
— Sim — diz Kenji, inabalável. — Na verdade, vamos lhe contar muita coisa. — Viramos bruscamente em um corredor inesperado. — Mas, primeiro — Kenji para diante de uma enorme porta de madeira — Castle quer conhecê-la. Foi ele quem solicitou você.
— Solicitou?
— Sim. — Kenji parece desconfortável por um hesitante segundo.
— Espere... o que quer dizer...
— Quero dizer que não foi por acaso que acabei no exército, Juliette. — Ele suspira. — Não foi por acaso que apareci na porta de Adam. E eu não deveria ter levado um tiro nem ter sido espancado quase até a morte, mas aconteceu. Só não aconteceu de eu ter sido deixado ao chão daquela porta por um cara qualquer. — Ele quase sorri. — Sempre soube onde Adam morava. Era meu trabalho saber. — Uma pausa. — Estávamos todos procurando você.
Minha boca está repousada sobre a rótula de meus joelhos. Minhas sobrancelhas estão penduradas no teto.
— Vá em frente. — Kenji me empurra para dentro. — Ele vai sair quando estiver pronto.
— Boa sorte — é tudo o que Winston diz para mim.

Mil trezentos e vinte segundos até ele aparecer.
Ele se move de maneira metódica, seu rosto, uma máscara de neutralidade enquanto ele toca as mechas caprichosas de um rabo de cavalo e se senta na frente da sala. Ele é magro, em boa forma, impecavelmente vestido em um terno simples. Azul-escuro. Camisa branca. Sem gravata. Não há linhas em seu rosto, mas há uma só mecha prateada em seus cabelos e seus olhos confessam que ele viveu pelo menos cem anos. Ele deve ter seus quarenta. Olho ao redor.
É um espaço vazio, impressionante na sua escassez. Os pisos e tetos são construídos por tijolos cuidadosamente reunidos. Tudo parece velho e antigo, mas de algum modo a tecnologia moderna está mantendo vivo este lugar. Iluminação artificial clareia as dimensões cavernosas, pequenos monitores estão embutidos nas paredes de pedra. Não sei o que estou fazendo aqui. Não sei o que esperar. Não faço ideia de que tipo de pessoa Castle é, mas, depois de passar tanto tempo com Warner, estou tentando não cultivar grandes esperanças. Nem mesmo percebo que parei de respirar até que ele pronuncie a primeira palavra.
— Espero que você esteja desfrutando de sua estada até aqui.
Meu pescoço se ergue bruscamente para encontrar seus olhos escuros, sua voz suave, sedosa e forte. Seus olhos estão cintilando de genuína curiosidade, um pouco surpresos. Esqueci que sei como se fala.
— Kenji disse que você queria me conhecer — é a única resposta que me ocorre.
— Kenji pode estar correto. — Ele leva um tempo para respirar. Leva um tempo para mudar de posição em seu lugar. Leva um tempo estudando meus olhos, escolhendo as palavras, tocando dois dedos em seus lábios. Ele parece ter dominado o conceito de tempo. Impaciência provavelmente não é uma palavra em seu vocabulário. — Ouvi... histórias. Sobre você. — Sorri. — Simplesmente quis saber se elas eram verdadeiras.
— O que você ouviu?
Ele sorri com dentes tão brancos que parece neve caindo sobre os vales de chocolate de seu rosto. Ele abre as mãos. Examina-as por um momento.
Levanta os olhos.
— Você pode matar um homem usando somente as mãos nuas. Você pode esmagar um metro e meio de concreto com a palma de sua mão.
Estou escalando uma montanha de ar e meus pés ficam escorregando. Preciso me agarrar em algo.
— É verdade? — pergunta ele.
— Rumores são mais propensos a matá-lo do que eu sou.
Ele me estuda por bastante tempo.
— Gostaria de lhe mostrar algo — diz ele depois de um momento.
— Quero respostas a minhas perguntas. — Isso já foi longe demais. Não quero ser induzida a uma falsa sensação de segurança. Não quero considerar que Adam e James estão bem. Não quero confiar em ninguém até que tenha provas. Não posso fingir que tudo isso está certo. Ainda não. — Quero saber se estou a salvo — digo a ele. — E quero saber se meus amigos estão a salvo. Havia um garoto de dez anos conosco quando chegamos, e eu quero vê-lo. Preciso me certificar de que ele está saudável e ileso. Caso contrário, não vou cooperar.
Seus olhos me inspecionam por alguns momentos.
— Sua lealdade é revigorante — diz ele, e ele quer dizer isso. — Você fará bem aqui.
— Meus amigos...
— Sim, é claro. — Ele fica de pé. — Siga-me.

Este lugar é muito mais complexo, muito mais organizado do que jamais imaginei que fosse. Há centenas de direções diferentes nas quais se perder, quase como muitas das salas, algumas maiores que outras, cada uma dedicada a diferentes atividades.
— A sala de jantar. — Castle diz para mim.
— Os dormitórios. — Na ala oposta.
— As instalações de treinamento. — Descendo um corredor.
— As salas comuns. — Por aqui.
— Os banheiros. Em cada extremidade do andar.
— As salas de reunião. — Só passar aquela porta.
Cada espaço é um “zum-zum” de corpos, cada corpo adaptado a uma rotina particular. As pessoas levantam os olhos quando nos veem. Algumas acenam, sorriem, alegram-se. Percebo que todas olham para Castle. Ele acena com a cabeça. Seus olhos são bondosos, humildes. Seu sorriso é forte, tranquilizador.
Ele é o líder de todo esse movimento, foi o que Kenji disse. Estas pessoas dependem dele por algo mais que mera sobrevivência. Isto é mais que um abrigo nuclear. Isto é muito mais que um esconderijo. Existe um objetivo maior em mente. Um propósito maior.
— Bem-vinda — diz Castle para mim, gesticulando com uma mão — ao Ponto Ômega.

10 comentários:

  1. C ela n percebeu q é uma base rebelde é mt lenta

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    1. Só eu acho que é o pai do Adam?

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  2. doido pro próximo livro ...

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  3. sabia q ela ia se juntar aos rebeldes!

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  4. Bem vinda ao distrito 13

    rsrs

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  5. É o distrito 13 deles. E eu acho que essa autora gosta muito de chocolate nos ultimos 4 capitulos ela fez 3 comparações envolvendo o mesmo. Huummm...

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  6. Armaria Juju, será q vc não percebeu q vc está com os rebeldes? -_-''' eu sabia (ou pelo menos desconfiava heuheu) q o Kenji não estava no exército por acaso, Kenji casa comigo? *0*

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  7. Acho que ela não vai aceitar participar disso tudo, aliás, ela não quer ser uma arma

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  8. Yesubai, a filha do vilão10 de abril de 2017 00:35

    — Solicitou?
    — Sim. — Kenji parece desconfortável por um hesitante segundo.
    — Espere... o que quer dizer...
    — Quero dizer que não foi por acaso que acabei no exército, Juliette. — Ele suspira. — Não foi por acaso que apareci na porta de Adam.



    AHÁ EU SABIA FDP!!!!!

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Boa leitura :)