23 de dezembro de 2016

43

Sou uma velha escadaria rangendo quando acordo.
Alguém me lavou. Minha pele está como cetim. Meus cílios estão suaves, meu cabelo está liso, escovado; ele brilha à luz artificial, um rio de chocolate marulhando-se junto à pálida orla de minha pele, ondas suaves em cascata ao redor de minha clavícula. Minhas articulações doem; meus olhos queimam de exaustão insaciável. Meu corpo está nu sob o pesado lençol. Nunca me senti tão imaculada.
Estou cansada demais para ficar incomodada com isso.
Meus olhos sonolentos varrem o espaço em que estou, mas não há muito a considerar. Estou deitada na cama. Há quatro paredes. Uma porta. Uma mesinha ao lado. Um copo de água sobre ela. Luzes fluorescentes zunindo sobre mim. Tudo é branco.
Tudo o que já conheci está mudando.
Tento pegar o copo de água e a porta se abre. Puxo o lençol o mais alto que ele chega.
— Como está se sentindo?
Um homem alto está usando óculos de plástico. Armações pretas. Um simples suéter. Calças apertadas. Seus cabelos louros tom de areia caem-lhe aos olhos. Ele está segurando uma prancheta.
— Quem é você?
Ele pega uma cadeira que não reparei que estava no canto. Empurra-a para a frente. Senta-se ao lado da cama.
— Sente-se zonza? Desorientada?
Pisco.
Como me sinto. Eu não sei.
Tive sonhos. Acho que não.
— Onde está Adam?
Ele está segurando uma caneta sobre uma folha de papel. Escreve alguma coisa.
— Seu nome se soletra com dois erres? Ou só um?
— O que vocês fizeram com James? Onde está Kenji?
Ele para. Levanta os olhos. Ele não pode ter mais que 30. Ele tem um nariz curvo. Barba por fazer.
— Posso ao menos me certificar de que está tudo bem com você? Então responderei a suas perguntas. Prometo. Deixa só eu terminar aqui o protocolo básico.
Sei onde estou. Não.
Acho que estou a salvo. Não sei.
Lembro o que aconteceu. Sim.
Que idade tenho. Dezessete.
De que cor são meus olhos. Não sei.
— Você não sabe? — Ele rebaixa a caneta. Tira os óculos. — Você se lembra exatamente do que aconteceu ontem, mas não sabe a cor dos próprios olhos?
— Acho que são verdes. Ou azuis. Não tenho certeza. Por que isso importa?
— Quero ter certeza de que você pode reconhecer a si mesma. De que não perdeu de vista sua pessoa.
— Mas nunca soube mesmo a cor de meus olhos. Só me olhei no espelho uma vez nos últimos três anos.
O estranho olha fixo para mim, seus olhos vincados de preocupação.
Por fim tenho de desviar o olhar.
— Como você me tocou? — pergunto.
— Perdão?
— Meu corpo. Minha pele. Estou tão... limpa.
— Ah. — Ele morde o dedo polegar. Marca alguma coisa no papel. — Certo. Bem, você estava coberta de sangue e sujeira quando chegou, e estava com alguns cortes pequenos e escoriações. Não queríamos que desse uma infecção. Lamento pela intrusão... mas não podemos permitir que alguém traga algum tipo de bactéria aqui dentro. Tivemos de proceder a uma desintoxicação superficial.
— Tudo bem... compreendo — digo apressada. — Mas como?
— Perdão?
— Como você me tocou? — Certamente ele sabe. Como poderia não saber? Deus, espero que ele saiba.
— Ah... — Ele abana a cabeça, distraído pelas palavras que ele está rabiscando em sua prancheta. Aperta os olhos à página. — Látex.
— O quê?
— Látex. — Ele levanta os olhos por um segundo. Percebe minha confusão. — Luvas?
— Certo. — É claro. Luvas. Até Warner usava luvas até descobrir que não precisava delas.
Até descobrir que não precisava delas. Até descobrir que não precisava delas. Até descobrir que não precisava delas.
Rebobino o momento várias e várias vezes na minha cabeça. A fração de segundo que demorei para pular da janela. O momento de hesitação que mudou tudo. O instante em que perdi todo o controle. Todo o poder. Qualquer propósito de domínio. Ele nunca vai parar até me encontrar, e isso é tudo culpa minha.
Preciso saber se ele está morto.
Tenho de me forçar para ficar imóvel. Tenho de me forçar para não tremer, ou vomitar. Preciso mudar de assunto.
— Onde estão minhas roupas? — Brinco com o lençol de um branco perfeito que esconde meus ossos.
— Foram destruídas pelas mesmas necessidades de desinfecção. — Ele levanta os óculos. Recoloca-os rapidamente. — Temos um traje especial para você. Acho que ele vai tornar sua vida muito mais fácil.
— Um traje especial? — Levanto os olhos. Aparto os lábios em surpresa.
— Sim. Vamos chegar a essa parte um pouco mais tarde. — Ele faz uma pausa. Sorri. Há uma covinha em seu queixo. — Você não vai me atacar como atacou Kenji, vai?
— Eu ataquei Kenji? — recuo de susto.
— Só um pouco. — Ele encolhe os ombros. — Pelo menos agora sabemos que ele não é imune ao seu toque.
— Eu toquei nele? — Sento-me ereta e quase me esqueço de puxar o lençol comigo. Estou em chamas da cabeça aos pés, ruborizando por causa da lembrança, agarrando-me ao lençol como a uma tábua de salvação. — Lamento muito...
— Estou certo de que ele vai gostar do pedido de desculpas. — O loirão está estudando suas notas religiosamente, de repente fascinado por sua própria caligrafia. — Mas está tudo certo. Estávamos esperando algumas tendências destrutivas. Você teve uma semana infernal.
— Você é psicólogo?
— Mais ou menos. — Ele tira o cabelo da testa.
— Mais ou menos?
Ele ri. Interrompe. Gira a caneta entre os dedos.
— Sim. Para todos os efeitos, sou psicólogo. Às vezes.
— O que é que isso quer dizer...?
Ele separa os lábios. Aperta-os. Ele parece considerar responder, mas em vez disso me examina. Ele me encara por tanto tempo que sinto meu rosto pegar fogo. Ele começa a rabiscar furiosamente.
— O que estou fazendo aqui? — pergunto a ele.
— Recuperando-se.
— Há quanto tempo estou aqui?
— Você dormiu por quase 14 horas. Demos para você um sedativo bem poderoso. — Olha para seu relógio. — Você parece estar indo bem. — Hesita. — Na verdade, você parece muito bem. Impressionante, realmente.
Tenho um punhado de palavras embaralhadas na minha boca. Meu rosto está corando.
— Onde está Adam?
Ele respira fundo. Sublinha alguma coisa em seus papéis. Seus lábios se contorcem em um sorriso.
— Onde ele está?
— Recuperando-se. — Ele finalmente levanta os olhos.
— Ele está bem?
Faz que sim com a cabeça.
— Ele está bem.
Eu o encaro.
— O que quer dizer?
Duas batidas à porta.
O estranho de óculos não se move. Ele relê suas notas.
— Entre — convida ele.
Kenji entra, de início um pouco hesitante. Ele me espia, seus olhos cautelosos. Nunca pensei que ficaria tão feliz em vê-lo. No entanto, apesar do alívio em ver um rosto conhecido, meu estômago imediatamente se retorce em um nó de culpa, revirando-me por dentro. Pergunto-me se devo tê-lo machucado muito. Ele dá um passo à frente.
Minha culpa desaparece.
Olho mais de perto e percebo que ele está perfeitamente ileso. Sua perna está funcionando bem. Seu rosto voltou ao normal. Seus olhos não estão mais inchados, sua testa está curada, lisa, intacta. Ele estava certo.
Ele tem um rosto espetacular.
Uma marcante linha de mandíbula. Sobrancelhas perfeitas. Olhos tão negros quanto seus cabelos. Astuto. Forte. Um tanto perigoso.
— Ei, lindeza.
— Desculpa se quase matei você — digo impulsivamente.
— Ah. — Ele se surpreende. Enfia as mãos nos bolsos. — Ora, fico feliz que acabamos com isso.
Reparo que ele está usando uma camiseta destruída. Jeans pretos. Há muito não vejo alguém usando jeans. Uniformes do exército, roupas básicas de algodão e vestidos extravagantes são tudo o que tenho visto ultimamente.
Não consigo mesmo olhar para ele.
— Entrei em pânico — tento explicar. Entrelaço e desentrelaço os dedos.
— Imaginei. — Ele ergue uma sobrancelha.
— Lamento.
— Eu sei.
Aceno com a cabeça.
— Você parece melhor.
Ele abre um sorriso. Espreguiça-se. Recosta-se na parede, braços cruzados ao peito, pernas cruzadas nos tornozelos.
— Isso deve ser difícil para você.
— Perdão?
— Olhar para o meu rosto. Perceber que eu estava certo. Perceber que você tomou a decisão errada. — Ele encolhe os ombros. — Eu entendo. Não sou um homem orgulhoso, você sabe. Estaria disposto a perdoá-la.
Olho boquiaberta para ele, sem saber se dou uma risada ou lhe jogo alguma coisa.
— Não me faça tocar em você.
Ele sacode a cabeça.
— É incrível como algumas pessoas aparentam estar em pleno juízo e fazem escolhas tão erradas. Kent é um sortudo.
— Lamento... — O psicólogo se levanta. — Vocês dois terminaram aqui? — Ele olha para Kenji. — Pensei que você tivesse um propósito.
Kenji se desgruda da parede. Endireita as costas.
— Certo. Sim. Castle quer conhecê-la.

10 comentários:

  1. Ela parece ter o poder da vampira de crepusculo misquici o nome da bixinha

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  2. Axu q e vampira do x-man rs tbm pensei nela

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  3. Não confio nesse cara.
    Eles vão tentar usar ela como arma.

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  4. Só falta agora esse tal de Castle querer usar ela como arma também.

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  5. "— Isso deve ser difícil para
    você.
    — Perdão?
    — Olhar para o meu rosto.
    Perceber que eu estava certo.
    Perceber que você tomou a
    decisão errada. — Ele encolhe os
    ombros. — Eu entendo. Não sou
    um homem orgulhoso, você sabe.
    Estaria disposto a perdoá-la.
    Olho boquiaberta para ele,
    sem saber se dou uma risada ou
    lhe jogo alguma coisa.
    — Não me faça tocar em
    você.
    " chorei d tanto rir com isso, outro cara gost*** heuheu mano prevejo uma forte amizade entre esses dois *0*

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  6. Ja gosto do Loirão, gentes ashuashuash
    kenji deusooooooooooo/2

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  7. KENJI BOY MAGIA!!!GOSTOSO DO KCT!!!TE AMO<3

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  8. Nao confio nesse lugar...Nao confio no Kenji...Nao gostei nada desse pisicologo.

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Boa leitura :)