23 de dezembro de 2016

41

— Você tem sorte por este não ser de câmbio manual. — Ele tenta rir.
— Câmbio manual? O que é isso?
— Algo um pouco mais complicado.
Mordo o lábio.
— Você lembra onde deixamos James e Kenji? — Nem quero considerar a possibilidade de que eles tenham se deslocado. Sido descobertos. Qualquer coisa. Não posso sequer pensar nessa ideia.
— Sim. — Eu sei que ele está pensando exatamente o que eu estou pensando.
— Como eu chego lá?
Adam diz para mim que o pedal direito é para acelerar. O da esquerda para frear. Tenho de mudar para o D para dirigir. Uso o volante para manobrar. Há espelhos que me ajudam a ver atrás de mim. Não consigo ligar os faróis dianteiros e terei de confiar na Lua para iluminar meu caminho.
Ligo a ignição, pressiono o freio, mudo a marcha para dirigir. A voz de Adam é o único GPS de que preciso. Libero o freio. Aperto o acelerador. bato em um muro.
É assim que, finalmente, voltamos ao edifício abandonado.
Acelero. Freio. Acelero. Freio. Acelero muito. Freio muito. Adam não reclama e isso é quase pior. Só consigo imaginar o que minha condução está fazendo a seus ferimentos. Estou grata por, ao menos, não estarmos mortos, ainda não.
Não sei por que ainda ninguém nos localizou. Pergunto-me se talvez Warner esteja morto. Pergunto-me se tudo está um caos. Pergunto-me se é que não há soldados nesta cidade. Todos eles desapareceram.
Penso eu.
Quase me esqueço de colocar o carro no estacionamento quando chegamos ao edifício arruinado e vagamente familiar. Adam tem de alcançar o volante e estacionar o carro para mim. Ajudo-o a passar para o banco traseiro, e ele me pergunta o porquê.
— Porque vou fazer Kenji de motorista, e não quero que seu irmão tenha de vê-lo desse jeito. Está escuro o suficiente para que ele não veja seu corpo. Não acho que ele deva vê-lo machucado.
Ele faz que sim com a cabeça depois de um momento infinito.
— Obrigado.
E corro rumo ao prédio destruído. Empurro as portas para abrirem. Mal distingo duas figuras no escuro. Pisco e elas entram em foco. James está adormecido com a cabeça no colo de Kenji. As mochilas de acampamento estão abertas, latas de comida descartadas no chão. Eles estão bem.
Obrigada a Deus por estarem bem.
Poderia morrer de alívio.
Kenji puxa James para cima e o encaixa em seus braços, pelejando um pouco com o peso. Seu rosto é calmo, sério, inabalável. Ele não sorri. Ele não diz qualquer coisa estúpida. Ele estuda meus olhos como se já os conhecesse, como se já entendesse por que demoramos tanto para voltar, como se houvesse apenas uma razão para explicar meu atual estado deplorável, o sangue que tenho por toda a blusa. Provavelmente no rosto. Por todas as minhas mãos.
— Como ele está?
E eu quase não o entendo ali.
— Preciso que você dirija.
Ele respira firme. Faz que sim com a cabeça várias vezes.
— Minha perna direita ainda está boa — diz para mim, mas não sei se me importaria com isso mesmo se ela não estivesse. Precisamos chegar a seu lugar seguro, e minha condução não nos levará a nenhum lugar.
Kenji coloca um James adormecido no lado do passageiro, e fico muito feliz por ele não estar acordado agora.
Apanho as mochilas de acampamento e levo-as até o banco traseiro. Kenji senta-se na frente. Olha pelo espelho retrovisor.
— É bom vê-lo vivo, Kent.
Adam quase sorri. Sacode a cabeça.
— Obrigado por cuidar de James.
— Confia em mim agora?
Um breve suspiro.
— Talvez.
— Ainda levo um talvez. — Ele sorri. Liga o carro. — Vamos dar o fora daqui.

Adam está tremendo.
Seu corpo nu está finalmente se rendendo ao frio, às horas de tortura, à tensão por ter-se mantido firme durante tanto tempo. Estou remexendo as mochilas, procurando um casaco, mas tudo o que encontro são camisas e suéteres. Não sei como vesti-los sem causar-lhe dor.
Decido cortá-los em pedaços. Pego o canivete butterfly e corto algumas de suas camisas, dispondo-as sobre seu corpo como um cobertor. Levanto os olhos.
— Kenji... este carro tem aquecedor?
— Está ligado, mas é bem vagabundo. Não está funcionando muito bem.
— Quanto tempo até chegarmos lá?
— Não muito.
— Viu alguém que possa estar nos seguindo?
— Não. — Ele pausa. — É estranho. Não entendo por que ninguém notou um carro voando por estas ruas depois do toque de recolher. Algo está errado.
— Eu sei.
— E eu não sei o que é, mas é óbvio que meu soro rastreador não está funcionando. Ou eles realmente não dão a mínima para mim, ou ele de fato não está funcionando, e eu não sei por quê.
Um detalhe minúsculo assenta-se nas margens de minha consciência.
Examino-o.
— Você não disse que dormiu em um galpão? Naquela noite que você fugiu?
— Sim, por quê?
— Onde era...?
Ele encolhe os ombros.
— Não sei. Um campo enorme. Foi estranho. Coisas malucas crescem naquele lugar. Quase comi algo que pensei que era fruta, antes de perceber que cheirava a traseiro.
Prendo a respiração.
— Era um campo vazio? Árido? Totalmente abandonado?
— Sim.
— O campo nuclear — diz Adam, a compreensão raiando em sua vez.
— Que campo nuclear? — pergunta Kenji.
Levo um momento para explicar.
— Caralho! — Kenji aperta o volante. — Então eu podia ter morrido? E não morri?
Eu o ignoro.
— Mas, então, como eles nos encontraram? Como descobriram você morava...? — me dirigi a Adam.
— Eu não sei — Adam suspira. Fecha os olhos. — Talvez Kenji mentindo para nós.
— Sem essa, cara, que diabos...
— Ou... — interrompe Adam —, talvez eles tenham comprado Benny.
— Não. — Sobressalto-me.
— É possível.
Todos nós ficamos em silêncio durante um longo tempo. Tento olhar pela janela, mas é quase inútil. O céu noturno é um barril de alcatrão sufocando o mundo ao nosso redor.
Viro para Adam e o encontro com a cabeça inclinada para trás, suas mãos apertadas, seus lábios quase brancos na escuridão. Enrolo os suéteres mais firmemente em seu corpo. Ele reprime um tremor.
— Adam... — Tiro alguns fios de cabelo de sua testa. Seus cabelos ficaram um pouco compridos e eu percebo que nunca realmente prestei atenção nisso antes. Eles têm sido aparados desde o dia em que Adam pisou na minha cela. Nunca teria imaginado que seus cabelos escuros seriam tão macios. Como chocolate derretido. Me pergunto quando ele parou de cortá-los.
Ele mexe a mandíbula. Mantém os lábios abertos. Mente para mim mais uma vez.
— Estou bem.
— Kenji...
— Cinco minutos, prometo... estou tentando acelerar esta coisa...
Toco seus pulsos, traço sua pele delicada com a ponta dos dedos. As cicatrizes ensanguentadas. Beijo a palma de sua mão. Ele respira de forma compassada.
— Você vai ficar bem — digo a ele.
Seus olhos ainda estão fechados. Ele tenta balançar a cabeça.
— Por que você não me disse que estavam juntos? — pergunta Kenji, falou inesperadamente. Sua voz é serena, indiferente.
— O quê? — Agora não é hora para ruborizar.
Kenji suspira. Olha de relance pelo retrovisor. O inchaço quase se foi de todo. Seu rosto está sarando.
— Teria de estar cego para deixar escapar algo assim. Digo, diabos, só o jeito que ele te olha. É tipo o cara que nunca viu uma mulher na vida. Tipo botar comida na frente de um homem morrendo de fome e dizer a ele que não pode comer.
Os olhos de Adam se abrem de súbito. Tento interpretá-lo, mas ele não olha para mim.
— Por que você simplesmente não contou para mim? — diz Kenji novamente.
— Eu nunca tive a chance de pedir — responde Adam. Sua voz é menor que um sussurro. Seus níveis de energia estão decaindo bem depressa. Não quero que ele tenha de falar. Ele precisa conservar sua força.
— Espere... você está falando para mim ou para ela? — Kenji olha para nós.
— Discutimos isso mais tarde... — tento dizer, mas Adam sacode a cabeça.
— Eu contei a James sem perguntar a você. Eu fiz... uma suposição. — Ele faz uma pausa. — Não deveria ter feito. Você deveria ter uma escolha. Deveria sempre ter uma escolha. E é sua escolha se quiser ficar comigo.
— Ei, então, só estou fingindo que não posso mais escutar vocês, OK? — Kenji faz um movimento aleatório com a mão. — Vão em frente e tenham o momento de vocês.
Mas estou ocupada demais estudando os olhos de Adam, seus lábios macios macios. Sua testa franzida.
Inclino-me ao seu ouvido, diminuo o tom de voz. Sussurro as palavras que somente ele pode escutar.
— Você vai ficar melhor — prometo a ele. — E, quando estiver melhor, vou lhe mostrar perfeitamente a escolha que fiz. Vou memorizar cada centímetro de seu corpo com meus lábios.
Ele expira subitamente, trêmulo, irregular. Engole em seco.
Seus olhos estão queimando em mim. Ele parece quase febril, e me indago se estou piorando as coisas.
Eu recuo, e ele me detém. Pousa a mão em minha coxa.
— Não vá — diz ele. — Seu toque é a única coisa que me impede de enlouquecer.

18 comentários:

  1. irônico q a o toque da doida impede ele de enlouquecer, kkkkk

    mas sério, eu queria q ela descrevesse o Kenji (imagino ele como asiático, mas nunca se sabe)

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    1. Imagino ele como um miojo, Kenji parece nome de miojo

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    2. Também imagino ele como um asiático, pensando bem ela também demoro um bocado pra se descrever no livro!

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    3. Também imagino ele Asiático,talvez pelo nome...

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    4. Imagino ele so como um traidor mesmo

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    5. tbm imagino ele sendo asiático não sei porque mais

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  2. Sabe, para uma garota que nunca tinha tocado ninguém (consequentemente nunca teve uma namorado) ela é bem ousada nas palavras... gostei kkkkkkkk

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    1. Como o próprio Adam disse, ela leu tipo um milhão de livros. E isso pode estimular bastante a imaginação... kkkkkkkkkkk =P

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    2. Pode mesmo amiga ou...amigo!!
      Esses livros nos ensinam cada coisa... Né ANASTACIA GREY??? com aquele seu gato nosso cristian grey - dava cada aula sobre....😊 #cinquenta tons "amo"

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  3. Vai memorizar o corpo dele todo com os lábios né danadinha quem dera eu pudesse tmb

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  4. Agora sim fiquei com ainda mais dó do Adam com esse acelera e freia *^* mano eu tô amando o Kenji, esse nome me lembra queijo, ain amo ele, esse cara é demais *^*

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  5. Yesubai, a filha do vilão10 de abril de 2017 00:12

    Obrigada a Deus por estarem bem.
    Poderia morrer de alívio.
    eu tbm poderia...#TeamJames

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  6. Agora que vcs tocaram no assunto sobre imaginar Kenji como um asiático...me lembrei do Minho de Maze Runner ele também tinha senso de humor

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Boa leitura :)