23 de dezembro de 2016

40

Warner está prostrado.
Eu estou agitada e fugindo com sua arma.
Preciso encontrar Adam. Preciso roubar um carro. Preciso encontrar James e Kenji. Preciso aprender a dirigir. Preciso levar todos para um lugar seguro. Preciso fazer tudo exatamente nessa ordem.
Adam não pode estar morto.
Adam não está morto.
Adam não estará morto.
Meus pés pisoteiam a calçada em um ritmo constante, minha blusa e meu rosto respingados de sangue, minhas mãos tremendo de leve ao sol poente.
Uma brisa forte me surpreende, sacudindo-me para fora da realidade enlouquecida em que pareço estar flutuando. Respiro de modo pesado, aperto os olhos para o céu, e percebo que não tenho muito tempo antes de perder a luz. As ruas, pelo menos, há muito foram evacuadas. Mas não faço a mínima ideia de onde os homens de Warner possam estar.
Indago-me se Warner também tem o soro rastreador. Indago-me se eles saberiam se ele estivesse morto.
Entro em esquinas escuras, tento interpretar as ruas em busca de pistas, tento lembrar onde Adam caiu, mas minha memória é tão fraca, tão distraída, meu cérebro tão incapaz de processar esses tipos de detalhe. Esse instante terrível é uma confusão de insanidade em minha mente. Não consigo tirar nenhum sentido disso e Adam poderia estar em qualquer lugar a esta altura. Eles poderiam ter feito qualquer coisa com ele.
Nem mesmo sei o que estou procurando.
Posso estar desperdiçando o meu tempo.
Ouço um movimento súbito e me lanço numa rua lateral, meus dedos apertando, com astúcia, a arma em minha mão. Agora que eu de fato disparei uma arma, sinto-me mais confiante com ela em minhas mãos, mais consciente do que esperar, como ela funciona. Mas eu não sei se deveria estar feliz aterrorizada com o fato de me sentir tão rapidamente à vontade com alguma coisa letal.
Passos.
Encosto na parede, meus braços e minhas pernas achatados contra a superfície áspera. Espero que eu esteja oculta nas sombras. Pergunto-me se alguém já encontrou Warner.
Observo o soldado passar por mim. Ele tem um rifle pendurado no peito, o menor tipo de arma automática nas mãos. Olho para arma na minha própria mão e percebo que não faço ideia de quantos tipos diferentes existem. Tudo o que sei é que algumas são maiores que outras. Algumas têm de ser recarregadas constantemente. Outras, como a que estou segurando, não. Talvez Adam possa ensinar as diferenças.
Adam.
Inspiro profundamente e me desloco o mais furtivamente que consigo pelas ruas. Localizo uma sombra particularmente escura em um trecho da calçada à minha frente e faço um esforço para evitá-la. Mas, à medida que me aproximo, vou percebendo que não é uma sombra. É uma mancha. Sangue de Adam.
Aperto minha mandíbula até que a dor espante os gritos. Respiro acelerado, faltando-me o ar. Preciso me concentrar. Preciso usar essa informação. Preciso prestar atenção...
Preciso seguir o rastro de sangue.
Quem quer que tenha arrastado Adam ainda não voltou para limpar a sujeira. Há respingos constantes saindo das vias principais e entrando nas ruas laterais mal iluminadas. A luz é tão fraca que tenho de me recurvar para procurar pelas manchas no chão. Estou perdendo de vista para onde elas levam. Há menos aqui. Acho que elas desapareceram por completo. Não sei se as manchas escuras que encontro são sangue ou chiclete velho esmagado na calçada ou gotas de vida de outra pessoa. O trajeto de Adam desapareceu.
Recuo vários passos e refaço o percurso.
Preciso refazê-lo três vezes antes de perceber que eles devem tê-lo levado para dentro. Há uma antiga estrutura de aço com uma porta enferrujada ainda mais velha que parece nunca ter sido aberta. Parece não ser usada há anos. Não vejo quaisquer opções.
Mexo na maçaneta. Está travada.
Desloco meu peso todo para tentar abri-la à força, na violência, mas apenas consigo machucar meu corpo. Poderia colocá-la abaixo aos tiros, mas não estou certa de minha pontaria nem de minha habilidade com esta arma, não tenho certeza de que possa me permitir ao barulho. Não posso fazer minha presença ser notada.
Tem de haver outro modo de entrar neste edifício.
Não há outro modo de entrar neste edifício.
Minha frustração só aumenta. Meu desespero é incapacitante. Minha histeria ameaça me invalidar e quero gritar até meus pulmões entrarem em colapso. Adam está neste edifício. Ele tem de estar neste edifício.
Estou parada do lado de fora deste edifício e não consigo entrar.
Isso não pode estar acontecendo.
Fecho as mãos, tento repelir o fracasso desesperador que me envolve em seu abraço, mas me sinto enlouquecida. Selvagem. Insana. A adrenalina me escapa, meu foco me escapa, o Sol está se pondo no horizonte e eu recordo James e Kenji e Adam Adam Adam e as mãos de Warner sobre meu corpo e seus lábios em minha boca e sua língua provando meu pescoço e todo o sangue
por toda parte
por toda parte
por toda parte
e faço algo estúpido.
Eu esmurro a porta.
Em um instante minha mente alcança meus músculos e me preparo para o impacto do aço na pele, pronta para sentir a agonia de quebrar todos os ossos de meu braço direito. Mas meu punho penetra 30 centímetros de aço como se fosse feito de manteiga. Estou atordoada. Aproveito a mesma energia volátil e dou um pontapé na porta. Uso as mãos para rasgar o aço em tiras, atravessando o metal aos arranhões, como um animal feroz.
É incrível. Estimulante. Completamente selvagem.
Deve ser como quebrei o concreto da câmara de tortura de Warner. O que significa que ainda não faço ideia de como quebrei o concreto da câmara de tortura de Warner.
Escalo pelo buraco que criei e deslizo para as sombras. Não é difícil. Todo o lugar está envolto em trevas. Não há luzes, não há ruídos de máquinas ou eletricidade Apenas outro depósito abandonado às intempéries. Verifico o chão, mas não há sinal de sangue. Meu coração dispara e desacelera ao mesmo tempo. Preciso que ele esteja bem. Preciso que ele esteja vivo. Adam não está morto. Ele não pode estar.
Adam prometeu a James que voltaria para buscá-lo.
Ele nunca quebraria essa promessa.
Ando devagar no início, cautelosa, preocupada com o fato de que possa haver soldados ao redor, mas não demora muito para eu perceber que não há som de vida neste edifício. Decido correr.
Enfio a arma no bolso e espero que consiga pegá-la caso precise. Estou correndo através das portas, fazendo curvas, não deixando escapar nenhum detalhe. Este edifício não era apenas um depósito. Era uma fábrica.
Máquinas antigas entulhadas nas paredes, esteiras transportadoras paralisadas, milhares de caixas de estoque sobrepostas de forma precária em pilhas altas. Ouço uma respiração baixinha, uma tosse contida.
Estou disparando por uma série de portas duplas vai e vem, à procura do som fraco, lutando para me concentrar nos mínimos detalhes. Estico os ouvidos e escuto o som novamente.
Respiração difícil e pesada.
Quanto mais perto chego, mais claramente posso escutá-lo. Tem de ser ele. Minha arma está erguida e pronta para o disparo, meus olhos, agora cautelosos, antecipando-se aos agressores. Minhas pernas se movem ligeiramente, suavemente, silenciosamente. Quase atiro em uma sombra que caixas projetaram no chão. Respiro firme. Viro para outro canto.
E quase entro em colapso.
Adam está pendurado pelos pulsos, sem camisa, ensanguentado e ferido por toda parte. A cabeça está inclinada, seu pescoço, frouxo, sua perna esquerda, ensopada de sangue, apesar do torniquete envolto em sua coxa. Não sei há quanto tempo o peso de seu corpo todo está suspenso pelos pulsos. Estou surpresa por não ter deslocado os ombros. Ele ainda deve estar lutando para manter-se firme.
A corda enrolada em seus pulsos está presa a algum tipo de haste metálica que atravessa o teto. Olho mais de perto e percebo que a haste é parte de uma esteira rolante. Que Adam está sobre uma esteira transportadora.
Que isto não é somente uma fábrica.
É um matadouro.
Sinto-me péssima demais para me dar ao luxo da histeria neste momento.
Preciso encontrar um modo de descê-lo, mas temo me aproximar. Meus olhos sondam o espaço, certa de que há guardas em algum lugar, soldados preparados para esse tipo de emboscada. Quando então me ocorre que talvez eu nunca tenha sido considerada uma ameaça de fato. Não se eles acreditam que Warner conseguiu me arrastar para longe.
Ninguém esperaria me encontrar aqui.
Subo em cima da esteira e Adam tenta erguer a cabeça. Tenho que ter cuidado para não olhar muito de perto suas feridas, para não deixar minha imaginação me incapacitar. Não aqui. Não agora.
— Adam...?
Sua cabeça se levanta bruscamente com uma súbita explosão de energia. Seus olhos me encontram. Seu rosto está quase incólume; há apenas pequenos cortes e escoriações dos quais prestar contas. Focar-me no que lhe resta de familiar me dá um pouco de calma.
— Juliette...?
— Preciso cortar a corda...
— Jesus, Juliette... como me encontrou? — Ele tosse. Ofega. Respira firme.
— Mais tarde. — Levanto a mão para tocar-lhe o rosto. — Vou lhe contar tudo mais tarde. Primeiro, preciso achar uma faca.
— Minhas calças...
— O quê?
— Dentro — ele engole — das minhas calças...
Alcanço seu bolso e ele balança a cabeça. Levanto os olhos.
— Onde...
— Há um bolso interno nas minhas calças...
Praticamente rasgo suas roupas. Há um pequeno bolso costurado no forro de suas calças cargo. Enfio a mão e encontro um canivete compacto. Um canivete butterfly. Já vi um desses antes.
Eles são ilegais.
Começo empilhando caixas na esteira transportadora. Escalo por elas e rogo a Deus que eu saiba o que estou fazendo. A faca é extremamente afiada, e corto rapidamente as amarras. Percebo um pouco tardiamente que a corda que o prende é a mesma que usamos para escapar.
Adam está livre. Estou descendo, dobrando a faca e enfiando-a em meu bolso. Não sei como vou tirar Adam daqui. Seus pulsos estão em carne viva, perdendo sangue, seu corpo moído de dor, sua perna sangrando com uma bala alojada.
Ele quase cai.
Tento retê-lo da forma mais delicada possível, tento segurá-lo, da melhor forma possível, sem machucá-lo. Ele não diz uma palavra sobre a dor, tenta com muito esforço esconder o fato de que está com dificuldades para respirar. Ele faz uma expressão de dor ante a tortura toda, mas não murmura uma só palavra de reclamação.
— Não consigo acreditar que você me encontrou — é tudo o que ele diz. E sei que não deveria. Sei que agora não é hora. Sei que isso é impraticável. Mas, seja como for, eu o beijo.
— Você não vai morrer — digo a ele. — Vamos sair daqui. Vamos roubar um carro. Vamos encontrar James e Kenji. E então vamos ficar em segurança.
Ele olha para mim.
— Dá outro beijo — diz ele.
E eu o beijo.
Leva uma vida inteira para conseguir voltar para a porta. Adam fora ocultado nos recessos deste edifício, e encontrar o caminho para a entrada é ainda mais difícil do que previ. Adam está tentando a todo custo, andando tão rápido quanto pode, mas ele ainda não está rápido de modo algum.
— Eles disseram que Warner queria me matar com as próprias mãos — explica. — Que ele atirou em minha perna de propósito, apenas para me incapacitar. Isso dava chance para arrastar você para longe e voltar mais tarde para acabar comigo. Aparentemente, seu plano era me torturar até a morte. — Ele faz cara de dor. — Ele disse que queria saborear isso. Não queria uma morte rápida. — Uma risada expansiva. Uma tosse breve.
Suas mãos sobre o meu corpo suas mãos sobre meu corpo suas mãos sobre meu corpo.
— Então eles simplesmente o amarraram pendurado e o largaram aqui?
— Eles disseram que ninguém me encontraria mesmo. Eles disseram que o prédio é todo feito de concreto e aço reforçado e que ninguém poderia arrombá-lo. Supostamente era para Warner voltar quando ele estivesse pronto. — Ele para. Olha para mim. — Deus, estou tão feliz que você esteja bem.
Ofereço-lhe um sorriso. Tento evitar que meus órgãos saiam do lugar.
Espero que os buracos em minha cabeça não estejam aparecendo.
Ele para quando chegamos à porta. O metal está destroçado. Parece que um animal selvagem o atacou e desapareceu.
— Como é que...
— Eu não sei — admito. Tento dar de ombros, ser indiferente. — Eu só dei um murro.
— Você só deu um murro?
— E chutei um pouco.
Ele está sorrindo e eu quero chorar em seus braços. Tento me focar em seu rosto. Não posso deixar meus olhos digerirem a imitação grotesca de seu corpo.
— Venha — digo a ele. — Vamos fazer algo ilegal.
Deixo Adam nas sombras e lanço-me até o limite da rua principal, à procura de veículos abandonados. Temos de percorrer três ruas laterais diferentes até finalmente encontrarmos um.
— Como está resistindo? — pergunto a ele, temendo ouvir a resposta.
Ele aperta os lábios. Faz um movimento que parece um sim com a cabeça.
— Tudo bem.
Isso não é bom.
— Espere aqui.
Está um breu intenso, nem uma só lâmpada à vista. Isso é bom. Ruim também. Isso me dá uma vantagem extra, e me torna mais vulnerável a ataques. Preciso ser cuidadosa. Ando na pontinha dos pés até o carro.
Estou totalmente preparada para quebrar o vidro, mas antes verifico a maçaneta. Só para garantir.
A porta está aberta.
As chaves estão na ignição.
Há uma sacola de compras no banco de trás.
Alguém deve ter entrado em pânico ao som do alarme e ao inesperado toque de recolher. Eles devem ter abandonado tudo e corrido para se proteger. Isso seria absolutamente perfeito se eu fizesse alguma ideia de como dirigir.
Volto correndo e ajudo Adam a ir mancando até o lado do passageiro. Assim que ele se senta, consigo perceber a intensidade da sua dor. Curvando o corpo de qualquer maneira. Colocando pressão sobre as costelas. Esticando seus músculos.
— Está tudo bem — diz para mim, mente para mim. — Não posso ficar de pé por muito tempo.
Chego à parte de trás e remexo as sacolas de supermercados. Tem comida de verdade dentro delas. Não só estranhos caldos de carne projetados para ir dentro de Automáticos, e sim frutas e vegetais. Mesmo Warner nunca deu bananas para nós.
Entrego a fruta amarela para Adam.
— Coma isso.
— Acho que não posso comer... — Ele olha para a forma em suas mãos. — Isso é o que eu penso que é?
— Acho que sim.
Não temos tempo para processar a impossibilidade. Descasco-a para ele. Encorajo-o a dar uma pequena mordida. Espero que seja boa. Ouvi dizer que bananas têm potássio. Espero que ele não vomite.
Tento me concentrar na máquina sob meus pés.
— Quanto tempo você acha que temos até Warner nos encontrar? — pergunta Adam.
— Eu não sei.
Uma pausa.
— Como você escapou dele...?
Estou olhando para além do para-brisa quando respondo.
— Atirei nele.
— Não. — Surpresa. Pavor. Assombro.
Mostro a arma de Warner. Há uma gravura especial no punho.
Adam está atordoado.
— Então ele está... morto?
— Eu não sei — finalmente admito, envergonhada. Baixo os olhos, estudo as ranhuras no volante. — Não tenho certeza. — Levei muito tempo para puxar o gatilho. Ele era mais duro que eu previa que fosse. Mais difícil segurar a arma entre minhas mãos do que eu tinha imaginado. Warner já estava me soltando quando a bala perfurou seu corpo. Eu estava mirando em seu coração.
Deus permita que eu não tenha errado.
Nós dois ficamos calados.
— Adam?
— Sim?
— Não sei dirigir.

17 comentários:

  1. Respostas
    1. KKKKKKKK Comentário mais que apropriado!!!! =)

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  2. Gostei dela agora...ta reagindo, isso é bom

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  3. Sou tão idiota que ri com a última palavra

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  4. Seria tão mais fácil se ele tivesse simplesmente morrido mas duvido o vilão nunca morre de primeira :-\

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  5. Estou gostando dessa garota agora ela parou de se sentir uma coitadinha e está cada vez + decidida e forte. Tá me lembrando a Tris que começou fragilzinha e foi evoluindo

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  6. É BOM QUE O WARNER MOZÃO Ñ TENHA MORRIDO SUA CRETINA, EU APOSTO TODO O MEU DINHEIRO ~que é 2 reais~ QUE MAIS PRA FRENTE VC VAI SE APAIXONAR POR ELE Ò.Ó gente tadinho do Adam *^* ain eu amo a Juju *^* será q só eu achei estranho ter um carro pronto pra eles pegarem e ainda com comida d verdade??? Muito estranho '-'

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  7. Nós dois ficamos calados.
    — Adam?
    — Sim?
    — Não sei dirigir.

    Kkkkkk Scrr


    Um minuto de silêncio. Sqn. Ele tem que ter sobrevivido.

    * Lanna *

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  8. Yesubai, a filha do vilão10 de abril de 2017 00:05

    — Adam?
    — Sim?
    — Não sei dirigir.


    Ótimo kkkkkkkkkkkk

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  9. Kkkkkkkkkkkn to rindo de nervoso

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  10. Eu li esse livro em março e to lendo de novo 😂😂😂 Antes até tinha um pouquinho de dúvida, mas escolhia o Warner... Agora tenho mais do que certeza *-* Warner é beeeeem melhor 😍😍😍 Lendo de novo só por causa dele xD

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  11. — Como você escapou dele...? Estou olhando para além do para-brisa quando respondo. — Atirei nele. — Não. — Surpresa. Pavor. Assombro. Mostro a arma de Warner. Há uma gravura especial no punho. Adam está atordoado. — Então ele está... morto? — Eu não sei —
    Ps: so eu que ache essa preucupacao do adam meio estranha ? Como se ele estivesse preocupado com o warner... sla mas agr to achando q isso foi so um texte para ver do q a juju eh capaz e q o adam ta junto do warner

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Boa leitura :)