29 de dezembro de 2016

3

Delalieu é a única pessoa que não me odeia.
Ele ainda passa a maior parte do tempo na minha presença se curvando de medo, mas, de certa forma, não está a fim de me derrubar. Posso sentir isso, apesar de não entender. Provavelmente ele é a única pessoa neste prédio que está feliz por eu não ter morrido.
Levanto a mão para afastar os soldados que se apressam em minha direção quando abro a porta. É preciso muita concentração para que meus dedos não tremam quando limpo o brilho da transpiração que cobre minha testa, mas não vou me permitir um momento de fraqueza. Esses homens não temem pela minha segurança; eles querem apenas olhar mais de perto o triste espetáculo que me tornei. Eles querem ser os primeiros a ver as rachaduras na minha sanidade. Mas eu não tenho a menor vontade de virar um objeto de curiosidade.
Meu trabalho é liderar.
Levei um tiro; não será fatal. Há outras coisas para serem resolvidas; eu irei resolvê-las.
Esse ferimento será esquecido.
O nome dela não mais será mencionado.
Meus dedos cerram e descerram enquanto caminho em direção à Sala L. Nunca havia percebido como esses corredores eram compridos e a quantidade de soldados que se alinhavam nos saguões.
Não há como evitar os olhares curiosos e sua decepção pelo fato de eu não ter morrido. Nem preciso olhar para eles para saber o que estão pensando. Mas saber como eles se sentem me deixa ainda mais determinado a viver uma vida longa.
Não vou dar a satisfação da minha morte a ninguém.

— Não — recuso o chá e o café pela quarta vez. — Não bebo cafeína, Delalieu. Por que você sempre insiste em servir isso às refeições?
— Pensei que o senhor pudesse mudar de ideia, senhor.
Ergo os olhos. Delalieu está dando aquele sorriso estranho, vacilante. E eu não tenho certeza, mas acho que ele acabou de fazer uma piada.
— Por quê? — Estendo a mão para pegar um pedaço de pão. — Sou perfeitamente capaz de ficar de olhos bem abertos. Só um idiota iria depender da energia de um grão ou de uma folha para ficar acordado durante todo o dia.
Delalieu não está mais sorrindo.
— Sim — ele diz. — Com certeza, senhor. — E olha para sua própria comida. Vejo quando ele afasta sua xícara de café com os dedos.
Coloco o pão de volta no meu prato.
— Minhas convicções — digo para ele, num tom manso dessa vez — não deveriam influenciar as suas com tanta facilidade. Você deve defender suas ideias, Delalieu. Formular argumentos claros e lógicos. Mesmo que eu discorde.
— Claro, senhor — ele murmura. Ele não diz nada por alguns segundos, mas então vejo que ele pega a xícara de café novamente.
Delalieu.
Acho que ele é meu único parceiro para conversas.
Ele foi designado para esse setor pelo meu pai e, desde então, recebeu ordens para continuar aqui até que não seja mais capaz de trabalhar. E embora ele seja provavelmente uns quarenta e cinco anos mais velho do que eu, ele insiste em trabalhar diretamente sob meu comando. Conheço Delalieu desde que eu era criança; costumava vê-lo em nossa casa, participando das muitas reuniões que aconteciam lá nos anos anteriores ao Restabelecimento tomar o controle.
Havia incontáveis reuniões na minha casa.
Meu pai estava sempre planejando coisas, fomentando discussões e conversas sussurradas das quais nunca pude participar. Os homens que compareciam àqueles encontros são os que estão no poder do mundo agora, então, quando olho para Delalieu não consigo deixar de pensar por que ele nunca ambicionou coisas mais importantes. Ele fez parte desse regime desde o início, mas, de certa forma, parece satisfeito em morrer como sempre foi. É sua escolha continuar subserviente, mesmo quando lhe dou a oportunidade de expressar sua opinião; ele se recusa a ser promovido, mesmo quando lhe ofereço um aumento de salário. E embora aprecie sua lealdade, sua dedicação me enerva. Ele parece não almejar nada que já não possua.
Eu não deveria confiar nele.
Ainda assim, eu confio.
Mas comecei a enlouquecer por falta de um papo amigo. Não posso manter nada mais além de uma distância fria dos meus soldados, não apenas porque eles querem me ver morto, mas também porque tenho responsabilidades como líder, e tenho de tomar decisões imparciais. Estou condenado a uma vida de solidão, uma na qual não tenho companheiros, e viver apenas na minha mente. Procurei construir em mim mesmo um líder temido, e fui bem-sucedido; ninguém questionará minha autoridade ou expressará uma opinião contrária à minha. Ninguém fala comigo a não ser como o comandante-chefe e regente do Setor 45. Amizade não é uma coisa que eu já vivenciei. Nem como criança, nem agora.
Exceto.
Há um mês, abri uma exceção a essa regra. Houve uma pessoa que me olhava diretamente nos olhos. A mesma pessoa que falava comigo sem censura, alguém que não tinha medo de expressar raiva e sentimentos verdadeiros e puros na minha presença; a única que já ousou me desafiar, que já levantou a voz para mim...
Aperto os olhos com força pelo que parece ser a décima vez num só dia. Solto meu punho em volta do garfo e o deixo cair sobre a mesa. Meu braço começou a latejar novamente e tento alcançar as pílulas que estão guardadas no meu bolso.
— O senhor não deveria tomar mais do que oito comprimidos num período de vinte e quatro horas, senhor.
Abro a tampa e jogo mais três pílulas na boca. Realmente gostaria que minhas mãos parassem de tremer. Meus músculos estão contraídos, tensos demais. Muito esticados.
Não espero as pílulas derreterem. Mastigo uma a uma, triturando seu amargor. Tem algo de nojento nelas, um sabor metálico que me ajuda a concentrar.
— Me fale sobre Kent.
Delalieu derruba sua xícara de café.
Os ajudantes da sala de jantar haviam se retirado a meu pedido; Delalieu não recebe ajuda de ninguém quando se atrapalha para limpar a bagunça. Fico recostado na cadeira, olhando para a parede atrás dele, calculando os minutos que perdi hoje.
— Deixe o café.
— Eu... sim, é claro, desculpe, senhor.
— Pare com isso.
Delalieu deixa cair os guardanapos ensopados. Suas mãos estão paralisadas, pairando sobre seu prato.
— Fale.
Observo sua garganta se mexer quando ele engole em seco e hesita.
— Não sabemos, senhor — ele murmura. — Deveria ser impossível encontrar aquele prédio, muito menos entrar lá. Ele está trancado e suas travas enferrujadas. Porém, quando o encontramos — ele diz —, quando o encontramos, estava... a porta havia sido destruída. E não temos certeza como conseguiram fazer isso.
Me sento.
— O que você quer dizer com destruída?
Ele sacode a cabeça.
— Foi... muito estranho, senhor. A porta havia sido... destroçada. Como se um animal a tivesse dilacerado com suas garras. Sobrou apenas um enorme buraco no meio da armação.
Me levanto rápido demais, segurando na mesa para me apoiar. Mal consigo respirar ao pensar nisso, na possibilidade do que deve ter acontecido. E não posso evitar o prazer doloroso de lembrar seu nome uma vez mais, porque eu sei que deve ter sido ela. Ela deve ter feito algo extraordinário, e eu nem estava lá para testemunhar.
— Chame o transporte — ordeno a ele. — Encontrarei você no Quadrante em exatamente dez minutos.
— Senhor?
Já estou saindo pela porta.

10 comentários:

  1. "— Por quê? — Estendo a mão para pegar um pedaço de pão. — Sou perfeitamente capaz de ficar de olhos bem abertos. Só um idiota iria depender da energia de um grão ou de uma folha para ficar acordado durante todo o dia."

    Winston ficou ofendido

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    1. Se o Halt ouve vc falando isso, vc ta morto.

      Kkkkkk

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  2. "E embora ele seja provavelmente uns quarenta e cinco anos mais velho do que eu, ele insiste em trabalhar diretamente sob meu comando. Conheço Delalieu desde que eu era criança; costumava vê-lo em nossa casa, participando das muitas reuniões que aconteciam lá nos anos anteriores ao Restabelecimento tomar o controle."

    Droga, agora é friendshipp, sejam parabatais, que droga, esse guri tem que começar a fazer amizade com gente da própria idade

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  3. Warner, meu homem! Maravilhoso!
    Juliette, FDP!

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  4. eu sei que ele é mau , mais poxa to gostando mesmo dele

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  5. Deixei pra ler esses livros extras por últimos heuheu já li a trilogia, meus dedos coçam, mas não posso dá spoiler e.e só digo uma coisa, WARNER É MARAVILHOSO, UM HOMEM PERFEITO QUE VAI SURPREENDER MUITO <3
    #TeamJuliner
    #TeamWarnette

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    1. KKKKK Simmmmmmmmm,ele é demais <3

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  6. Esse dalilei ai em nao to gostando dele nao

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  7. To achando que esse Delalieu pode ser o pai do Warner. Por que mais ele ia querer ficar numa mesma posição hierárquica perto do Warner a vida inteira? A idade é compatível para isso.

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Boa leitura :)